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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

BÚLGAROS CÉLEBRES II

ELIAS CANETTI (1905-1994) - Prêmio Nobel de Literatura de 1981, nascido numa comunidade de judeus sefaradis da Bulgária, Canetti escrevia principalmente em alemão. Morou em Viena e depois em Londres. Embora tenha escrito obras seminais como Auto de Fé, A Consciência das Palavras, A Língua Absolvida, Uma Luz em meu Ouvido, sua maior contribuição, a meu ver, é sociológica ou antropológica:  Massa e Poder  (Masse und macht, 1960), livro em que ele estuda o comportamento das massas e o associa à neurose. Esse estudo monumental foi determinado por um acontecimento na Áustria: em 1927, Canetti, ele mesmo um homem de esquerda, viu-se preso numa multidão de manifestantes que queimaram o Palácio da Justiça em Viena.

Para Canetti, o indivíduo isolado que teme o contato humano muda radicalmente seu comportamento quando se integra à massa. Os indivíduos que a compõem crêem-se dotados de uma força que ultrapassa seus limites. A massa os supera e se torna um fenômeno com vida própria. Ela é dotada de características específicas, como o impulso de destruição, o sentimento de perseguição e o pânico. A massa também é vulnerável e passível de domesticação. Na destruição, a multidão encontra algo que a encanta. Um prazer primitivo acompanha a massa, o prazer do crescimento e da expansão. A massa aspira a destruir locais fechados e os limites por eles estabelecidos. A massa é centrípeta: ninguém deve ficar de fora, todos devem ser atraídos. E ela também povoa o espírito dos crentes: mortos e santos formam uma multidão, substrato das religiões. No século das massas, Canetti a compreendeu melhor do que Freud, Reich, Mao, os frankfurtianos e os existencialistas. 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

UM DIA DE BRUMA, FOGO E BRISA


Napoleão Bonaparte no 18 Brumário
 9 de novembro de 1799: O Golpe do 18 Brumário – O general Napoleão Bonaparte lidera um golpe de Estado em 18 brumário (equivalente a 9 de novembro no calendário da Revolução Francesa) e se torna um dos cônsules da França. Ele teve o apoio do Exército e da burguesia, que queria “salvar a República” dos jacobinos, dos monarquistas e da ameaça austríaca. A instabilidade do Diretório – governo instaurado depois da queda dos jacobinos em 1794 – tinha levado Napoleão, herói nacional depois das vitórias militares francesas no Egito, a organizar o golpe. As tropas cercam o Palácio das Tulherias, onde se reuniam o Conselho Quinhentos (câmara baixa) e o Conselho dos Anciãos (câmara alta), e os pressionam a substituir o governo do Diretório pelo consulado triplo (Napoleão, Sieyès e Ducos). Napoleão logo acumula poderes e torna-se primeiro cônsul. Em 1804, proclama-se Imperador da França. Napoleão consolida as conquistas da revolução ao mesmo tempo em que esvazia seu conteúdo radical e jacobino.



9 de novembro de 1938: Kristallnacht (A noite dos cristais) – Atos de violência de bandos nazistas, instigados pelo governo de Adolf Hitler, foram praticados contra judeus em diversos locais da Alemanha e da Áustria naquela noite. Eram progroms, assassinatos e destruição de propriedades judaicas e sinagogas. O pretexto para a violência foi o assassinato do diplomata alemão Ernst von Rath em Paris, por um agitador judeu polonês. A violência foi organizada por Henrich Goering (chefe da Gestapo) e Reinhard Heydrich, um dos líderes das SS, e provocou a morte de 91 judeus e a destruuição de 1.600 sinagogas e 3.000 estabelecimentos judaicos. Cerca de 30 mil outros judeus (um quarto da população judaica masculina alemã) foram enviados a campos de concentração. A perseguição do regime aos judeus começara em 1933, com a convocação para que os cidadãos alemães boicotassem os estabelecimentos judeus. Em 1935, vieram as leis de Nuremberg, que proibiam o casamento de judeus e não-judeus. A "Solução Final" (o extermínio) veio em 1942, com a conferência de Wansee. Até 1945, seis milhões de judeus seriam mortos pelo III Reich em campos de extermínio.
http://www.youtube.com/watch?v=JDUhp-ZIwJQ&feature=player_embedded

9 de novembro de 1989: A Queda do Muro de Berlim - Construído em 1961 para evitar a fuga de cidadãos de Berlim oriental (comunista) para o Ocidente, o Muro de Berlim foi o principal símbolo da Guerra Fria. Tinha 66 quilômetros e 300 torres de observação. Durante 28 anos, 80 pessoas foram mortas e 112 ficaram feridas ao tentarem ultrapassá-lo. Por muitos tempo, a Alemanha oriental parecia ser o Estado inexpugnável do bloco soviético. Mas em 1989, uma onda de revoluções varreu os regimes stalinistas da Europa do Leste, favorecida pela decisão do dirigente soviético Mikhail Gorbatchóv de não intervir, como fizeram seus antecessores em Budapeste (1956) e Praga (1968). Em 9 de novembro de 1989, depois de manifestações em várias cidades da Alemanha oriental e da abertura da fronteira húngara, as autoridades alemãs orientais anunciaram que os cidadãos de Berlim oriental poderiam visitar Berlim ocidental. Multidões atravessaram o muro, juntando-se aos seus compatriotas ocidentais. A queda do muro levaria à derrubada do regime e à reunificação da Alemanha. 
  

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

QUE ARDA NAS PROFUNDEZAS DO INFERNO!

O almirante argentino Emílio Eduardo Massera morreu hoje aos 85 anos. Há alguns anos ele estava em estado vegetativo devido a um AVC. Foi um maiores facínoras da história latino-americana: um dos líderes do golpe militar de março de 1976, que derrubou a presidente María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, Massera organizou a repressão na sinistra Escuela de Mecânica de la Armada (Esma). Por lá passaram 5 mil presos políticos; apenas uma centena sobreviveu. Condenado em 1985 à prisão perpétua, Massera foi indultado em 1990 por Carlos Menem, mas voltou aos tribunais depois que o governo Néstor Kirchner anulou o indulto.
Também conhecido como "almirante zero", Massera integrou a P-2, loja maçônica liderada por Lício Gelli, que integrava uma rede anticomunista internacional com relações com os EUA e o Vaticano, da qual faziam parte Silvio Berlusconi e o tenebroso José López Rega, secretário particular de Juan Domingo Perón e articulador do grupo terrorista AAA (Alianza Anticomunista Argentina).
Que a terra lhe seja insuportável.

BÚLGAROS CÉLEBRES I

Em homenagem à nossa presidente, cujos ancestrais paternos eram búlgaros, começo a fazer aqui um pequeno levantamento de alguns de seus conterrâneos famosos.

Georgi Dimitrov
Georgi Dimitrov (1882-1949), líder comunista, dirigente da III Internacional (Komintern, a internacional comunista) e por fim premiê da Bulgária. Resistiu ao golpe de Estado na Bulgária em 1923 e foi obrigado a fugir para a Iugoslávia, sendo condenado à morte in abstensia. Acabou indo para a União Soviética, onde viveu até 1929. Foi deslocado para Berlim para chefiar a seção Europa Central do Komintern. Ganhou notoriedade em 1933, quando foi preso com outros dois búlgaros sob a falsa acusação de ter organizado o incêndio do Reichstag (Parlamento). Dimitrov desmoralizou o julgamento e irritou líderes nazistas como Goering e Goebbels no Tribunal de Leipzig ao desmontar provas fabricadas, defender a posição dos comunistas e acusar os próprios nazistas de terem provocado o incêndio. O julgamento teve repercussão internacional e os nazistas, ainda engatinhando, foram obrigados a absolver e libertar Dimitrov.
(Stálin certamente tomou precauções para não repetir os erros dos nazistas nos Processos de Moscou, de 1936-1938).


Léon Blum e a Frente Popular na França (1936)
Dimitrov tornou-se secretário-geral da III Internacional em 1934 e conduziu a mudança da linha politica ultraesquerdista então vigente no organismo, a linha do "social-fascismo", que não reconhecia diferenças entre social-democratas e nazistas e foi em grande parte responsável pela vitória de Hitler. No VII Congresso do Komintern, em 1935, Dimitrov apresentou a proposta de formação de Frentes Populares, coalizões de forças antifascistas (comunistas, socialistas e democratas). Governos com esse caráter ganharam eleições na Espanha e na França (1936) e no Chile (1938) e essa política orientou os PCs durante a Segunda Guerra e por um longo período. A ideia de Frente Popular posteriormente daria origem a movimentos reformistas como o "Compromisso Histórico" do PCI com a Democracia Cristã na Itália e o Eurocomunismo, na Europa ocidental, uma tentativa de transformar alguns PCs em "terceira via" entre a social-democracia e o bolchevismo. Era a utopia da revolução por via democrática, que levou Salvador Allende ao poder no Chile em 1970 e foi tragicamente afogada em sangue em 11 de setembro de 1973.

Berlinguer, um dos pais do Eurocomunismo
Em 1946 Dimitrov se tornou primeiro-ministro da Bulgária, embora tivesse cidadania soviética. Tentou formar, com o dirigente iugoslavo Josip Broz Tito, uma Federação Balcânica que unisse a Iugoslávia, a Macedônia e a Bulgária, mas as negociações fracassaram. Tito acabaria sendo excomungado pelo movimento comunista internacional e a ideia da federação foi um pretexto para condená-lo - ao qual o próprio Dimitrov depois aderiu. O dirigente búlgaro sempre foi um fiel stalinista e instaurou um regime repressivo na Bulgária, mas seria um erro julgá-lo à luz das condições históricas atuais. Até a morte de Stálin, em 1953, muitos dos que depois seriam considerados reformistas - como Kruschóv e Imre Nagy - também eram stalinistas. Dentro das circunstâncias históricas - e o homem é ele e sua circunstância, segundo Ortega y Gasset - Dimitrov desempenhou um papel central na luta contra o fascismo. E a a ideia de Frente Popular inspirou tentativas de transformação social como o primeiro governo de François Mitterrand na França e os da Concertación no Chile.    

 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

MULHERES PINTADAS


Madonna (Edvard Munch)

Higia (Gustav Klimt)


 


 

 

Eva (Gustav Klimt)



Mulher Sentada (Egon Schiele)








  

 

La Maya Desnuda (Goya)


Erik Satie, Gymnopedie nº 3

Erik Satie, Gnossienne nº 5
http://www.youtube.com/watch?v=DIBgRO3GXCo&feature=related


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

SOMOS TODOS NORDESTINOS!


Em maio de 1968, em meio às manifestações estudantis que sacudiam a França, a extrema-direita acusou o líder da rebelião, Daniel Cohn-Bendit, de ser um "judeu-alemão", e não um francês legítimo. A "denúncia" foi repercutida até pelo carcomido PCF, que chamava o líder de "anarquista alemão". Em resposta, os estudantes nas ruas adotaram o slogan: "somos todos judeus-alemães!", demonstrando que a solidariedade contra o poder perpassava classes, etnias, nações e gêneros daquela geração rebelde que sonhava em mudar o mundo. Mais de 40 anos depois, o Brasil - país supostamente avesso a ódios e à xenofobia - vive um clima de intolerância religiosa e de preconceito, alimentado pela campanha eleitoral do candidato derrotado, José Serra, que, paradoxalmente, tem origens na esquerda revolucionária.

Essa campanha conseguiu trazer à tona o esgoto da sociedade brasileira: os preconceitos racistas contra nordestinos de uma parte de jovens bem nutridos da alta classe média do sudeste do país. Estes mauricinhos não têm nenhum limite, nenhuma noção de civilidade, de democracia e da alteridade. Por incrível que pareça, a onda atual foi desencadeada por uma tal de Mayara Petruso, estudante de Direito (???), que twitou uma mensagem em que pedia a morte dos nordestinos, "acusados" de serem os responsáveis pela eleição de Dilma Rousseff. Ela foi denunciada e execrada pela maioria dos usuários das redes sociais, mas essa infeliz criatura é apenas a parte visível do iceberg. O vídeo abaixo revela uma grande quantidade de jovens postando mensagens semelhantes, dignas do ideário nazi-fascista.   
http://www.youtube.com/watch?v=tCORsD-hx0w
Henrich Himmler, chefe das SS nazistas

Enquanto os jovens dos anos 1960, 1970 e 1980, com espírito rebelde, inconformista e transgressor lutavam por uma sociedade mais igualitária e justa, essa corja de burguesinhos mimados, egocentrados e boçais destila seu ódio de classe porque o país decidiu que não quer mais garantir o apartheid social que durou quase 500 anos. Houve uma geração que amava os Beatles e os Rolling Stones; parte da geração atual amaria Himmler, se tivesse cultura para saber de quem se trata. Mas assinariam embaixo a máxima do chefe das SS: 
"A crueldade gera respeito; podem odiar-nos, se quiserem; não queremos que nos amem, queremos que nos temam".
Felizmente, a maioria do povo brasileiro não pensa como eles. Mas não se pode subestimá-los, como não se pode subestimar o esgoto fascista. Contra essa canalha, SOMOS TODOS NORDESTINOS!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

LUTA, SUBSTANTIVO FEMININO

Com a eleição de Dilma Rousseff como presidente, além da primeira mulher, chega ao poder a representante de uma geração que trocou o sonho dos anos dourados pela rebeldia contra a opressão e a injustiça. Muitos desses jovens que foram presos e torturados eram mulheres, como Dilma. Algumas delas não sobreviveram para ver este dia:  


Maria Ângela Ribeiro (morta em 1968)

Alceri Maria Gomes da Silva (morta em 1970)

Marilena Villas Boas Pinto (morta em 1971)
Nilda Carvalho Cunha (morta em 1971)
Iara Yavelberg (morta em 1971)
Heleny Telles Pereira Guariba (desaparecida em 1971)

Ana Maria Nacinovic (morta em 1972)
Aurora Maria Nasimento Furtado (morta em 1972)
Gastone Lúcia Pereira da Silva (morta em 1972)
Lígia Maria Salgado Nóbrega (morta em 1972)
Lourdes Maria Wanderley Pontes (morta em 1972)
Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo (morta em 1972)
Ísis Dias Oliveira (desaparecida em 1972)
Helenira Rezende de Souza Nazareth (desaparecida em 1972)
Maria Lúcia Petit da Silva (desaparecida em 1972)


Lúcia Maria de Souza (desaparecida em 1973)
Maria Augusta Thomaz (desaparecida em 1973)
Paulina Reichstul (morta em 1973)
Ranúsia Alves Rodrigues (morta em 1973)
Anatália de Souza Melo Alves (morta em  1973)
Soledad Barret Viedma (morta em 1973)
Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones (morta em 1973)


Suely Yumiko Kamayana (desaparecida em 1974)
Telma Regina Cordeiro Corrêa (desaparecida em 1974)
Walkíria Afonso Costa (desaparecida em 1974)
Áurea Eliza Pereira Valadão (desaparecida em 1974)
Dinaelza Soares Santana Coqueiro (desaparecida em 1974)
Dinalva Oliveira Teixeira (Dina - desaparecida em 1974)
Ana Rosa Kucinski Silva (desaparecida em 1974)
Jana Morone Barroso (desaparecida em 1974)
Luiza Augusta Garlippe (desaparecida em 1974)
Ieda Santos Delgado (desaparecida em 1974)
Maria Célia Corrêa (desaparecida em 1974)
Jane Vanini (desaparecida em 1974)

Maria Auxiliadora Lara Barcelos (morta em 1976)
Neide Alves dos Santos (morta em 1976)
Maria Regina Marcondes Pinto (desaparecida em 1976)
Zuleika Angel Jones (Zuzu Angel, morta em 1976)

Cálice, Chico Buarque e Milton Nascimento
http://www.youtube.com/watch?v=wV4vAtPn5-Q