segunda-feira, 26 de novembro de 2012

LULA NÃO É GORBATCHÓV


Mikhail Gorbatchov
Lembro-me, quando estive na Rússia em 1996 para fazer a cobertura da reeleição de Bóris Yeltsin, de como nós, jornalistas ocidentais, corríamos para cobrir a votação do ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchóv. Ao notar a escassez de interesse dos coleguinhas russos pelo ex-dirigente, perguntei o motivo a uma das únicas nativas presentes ao local onde ele votaria. “Gorbatchóv só interessa para vocês, ocidentais. Para nós, ele é uma farsa!”, disse ela em tom de aberto desprezo. Na época, fazia pouco tempo que Gorbatchóv deixara o poder (1991), abrindo caminho para o fim da União Soviética e a implosão do comunismo. Para os russos, fora um golpe mortal no orgulho nacional. Essa percepção era compartilhada pela maioria da população, tanto que Gorbatchóv teve míseros 1% dos votos e encerrou ali sua carreira política.   

A história, entretanto, certamente reservará a Gorbatchóv um papel de destaque. O último dirigente do Partido Comunista da União Soviética foi o grande responsável pelo fim da Guerra Fria ao promover reformas – a perestroika (reestruturação econômica) e a glasnost (abertura política) – para revitalizar o sistema instaurado na Rússia por Lênin e os bolcheviques em 1917. “Gorba” acabou destampando uma panela de pressão que levou ao fim do comunismo. Mesmo sabendo dos riscos, o líder soviético nunca recuou de sua determinação de abrir o regime e afrouxar o controle sobre os satélites soviéticos. Sem essa decisão, as revoluções de 1989, que varreram o stalinismo do Leste europeu, teriam tido o mesmo destino trágico das revoltas da Hungria, em 1956, e de Praga em 1968. Não por acaso, Gorbatchóv sofreu uma tentativa de golpe por parte da linha dura do PCUS em agosto de 1991, pouco antes da implosão da URSS.

Lula recebe o título Doutor Honoris Causa da Sci Po 
Algo semelhante ocorre no Brasil em relação ao ex-presidente Lula. Em recente artigo, o sociólogo Marcos Coimbra lembrou que apenas duas lideranças brasileiras são conhecidas internacionalmente: Lula e FHC. Mas a percepção da grande mídia e de nossos formadores de opinião sobre o reconhecimento internacional que ambos recebem é antagônica. Quando se trata do ex-presidente tucano, jornais, revistas e tevês registram as deferências com destaque e consideram “naturais” as celebrações de suas virtudes. Acham, inclusive, uma injustiça a baixa popularidade ostentada pelo “príncipe dos sociólogos”.

O flautista de Hamelin
Mas, quando se trata do ex-torneiro mecânico que chegou ao Palácio do Planalto, a coisa pega. Lula tem índices de popularidade inéditos na história republicana e é cada vez mais admirado no exterior – seja pela esquerda ou pela direita –, mas a mídia conservadora torce o nariz e ridiculariza cada vez que ele recebe alguma homenagem, não importa de quem. É como se todo mundo estivesse se deixando levar pelo flautista de Hamelin. Para os senhores da razão tupiniquim, Lula é tosco, manipulador, corrupto e empulhador. Sugerem que o povo não quer ver tais evidências porque é “comprado” pelo Bolsa Família, e que os estrangeiros são fascinados pela figura exótica do ex-líder sindical.

“Será que todo mundo – literalmente – está errado e a direita brasileira certa?”, pergunta Coimbra. “Só sua imprensa, seu porta-vozes e representantes sabem ‘quem é o verdadeiro Lula?’ O resto do planeta foi ludibriado pelas artimanhas do petista”?

Para a desgraça da direita, contudo, a semelhança termina aqui. Lula não é Gorbatchóv e sua popularidade continua intacta, apesar dos ataques virulentos e das tentativas recentes de ligá-lo a todos os malfeitos do país. O resultado das eleições deste ano, principalmente em São Paulo, explicam, além do preconceito, as razões para tanto ódio que a direita antediluviana local lhe dedica. 

Mas o lugar de Lula na História está reservado, se não ao lado de Gorbatchóv, com certeza num patamar muito superior ao de FHC. 
     

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