quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A POLARIZAÇÃO ARGENTINA

Uma análise lúcida sobre as contradições do governo da peronista Cristina Kirchner e a campanha que lhe move a oposição ancorada em parte das classes médias e do jornal El Clarín, representante das oligarquias agrárias, que está prestes a perder fatias de seu poder oligopolista. Como pano de fundo,a discussão sobre a necessidade de se acabar com a “propriedade cruzada” dos meios de comunicação – coisa que, lá como cá, a direita raivosa transforma em “atentado à liberdade de imprensa”.
Argentina: as crises do vizinho (II)  
Eric Nepomuceno, no Carta Maior
Pretender negar é pretender não ver. A polarização vivida na Argentina, e concentrada acima de tudo em Buenos Aires, é séria. Tão séria, que todos no governo de Cristina Kirchner, e também entre seus apoiadores, têm plena consciência do fato, a começar pela própria presidente. Aliás, os detratores e oposicionistas também.

Essa polarização se dá entre uma instituição concreta, visível, palpável – o governo – e uma oposição tão furibunda como difusa, embora perfeitamente reconhecível. Uma oposição que não é institucional, ou seja, não atua através de partidos políticos no Congresso, não apresenta propostas alternativas ao projeto levado adiante pelo governo, não tem reivindicações específicas e justificáveis. É uma espécie de grande nebulosa. E, exatamente por isso, uma oposição sem interlocutores qualificados, com a qual é muito difícil dialogar. 

O sindicalismo organizado (vale recordar que a Argentina é o segundo país latino-americano, depois de Cuba, a contar com tantos trabalhadores filiados a sindicatos atuantes) está dividido. A oposição é exercida pelo dirigente dos caminhoneiros, um veterano bucaneiro que o falecido presidente Néstor Kirchner foi buscar sabe-se lá onde. Resgatado e transformado em aliado, Hugo Moyano, o flibusteiro em questão, rompeu com Cristina Kirchner assim que ela foi reeleita, em outubro do ano passado, e resolveu partir para o confronto direto. 

Suas reivindicações se escudam na questão salarial. Balela: o que ele quer é mais poder de barganha. Pretendeu eleger para o Congresso um número significativo de sindicalistas controlados por ele. Cristina fechou a porta e cortou suas asas. A vingança veio em seguida. É capaz de infernizar a vida do governo e de centenas de milhares de argentinos, tudo isso a troco de nada.

Setores significativos das classes médias urbanas, e uma vez mais é em Buenos Aires que se dá sua maior concentração, mostram uma resistência feroz a várias das políticas sociais levadas adiante desde 2003 no país, a começar pelas versões locais do Bolsa Família e pelos subsídios oferecidos às classes menos favorecidas em uma série de serviços públicos, que vão da energia elétrica e do gás ao transporte público. Oferecem mostras gritantes de uma intransigência a tudo que o governo de Cristina Kirchner leva adiante. Mostram uma capacidade de mobilização supostamente espontânea, mas que responde, na verdade, a um plano claramente estruturado por setores que deveriam – ao menos pela lógica elementar – ser antagônicos. 

A chamada greve geral realizada há pouco – na verdade, muito mais um boicote escudado em piquetes que paralisaram parcialmente a capital do país – juntou, em sua organização, a ala dissidente da Confederação Geral dos Trabalhadores, chefiada por Hugo Moyano, com setores dos grandes e médios proprietários rurais lideradas por Eduardo Buzzi na Federação Agrária Argentina. Nenhum partido de oposição se dispõe a ocupar espaço de destaque nessa aliança insólita. Preferem atuar nos bastidores. 

Os setores de classe média radicalmente antagônicos ao governo utilizam, é verdade, as chamadas redes sociais em suas convocatórias. Bem ao contrário, porém, da versão oferecida pelos meios hegemônicos de comunicação da Argentina – e alegremente comprada pelos seus congêneres mundo afora –, não se trata de uma iniciativa pacífica e civilizada que parte de senhores e senhoras preocupados, e às vezes indignados, com os rumos do país. Nada disso: nessas convocatórias que circulam pela internet há instruções precisas que vão do tipo de roupa recomendado aos manifestantes até um leque de sugestões para palavras de ordem. Há orientações claras sobre como se deve xingar livremente a presidente e os integrantes de seu governo. Defende-se, por exemplo, a ação de ‘putear a todos’. Mais claro, impossível. 

Essa polarização vem de longe – desde pelo menos a campanha eleitoral que reelegeu Cristina Kirchner em outubro de 2011. Quase ninguém menciona, porque não convém mencionar, que durante a campanha eleitoral o país padeceu outra, de rumores difamantes. E padeceu também uma sangria aguda de dólares, numa fuga espetacular. Especulava-se dia sim e o outro também que haveria uma mega-desvalorização do peso assim que ela fosse eleita. A desvalorização formidável não aconteceu, e então estimulou-se a continuação dos movimentos especulativos: passou-se a assegurar que aconteceria a qualquer momento. Quando o governo, sem acesso ao financiamento internacional, decidiu – para fazer frente à crise global e seus impactos na economia local – controlar a fuga e a especulação com os dólares, foi um deus-nos-acuda. 

Tudo isso, quando somado, cria o caldo de cultivo dessa febre iracunda que se concentra em Buenos Aires mas tem ramificações nítidas país afora – sempre dentro de determinadas classes sociais. 

É verdade que há, da parte do governo, falhas gritantes. A questão dos índices de inflação é uma delas – a mais visível. Os índices oficiais indicam uma taxa de aproximadamente 10% ao ano. A realidade mostra que é pelo menos o dobro. Há, no dizer dos argentinos, duas inflações – a oficial e a do supermercado. E até o começo de 2012, era a segunda – a real – que prevalecia na hora dos ajustes salariais. Enquanto setores do governo bradavam que ajustes de quase o dobro da inflação significavam aumento na renda real dos trabalhadores, os trabalhadores sabiam que na verdade estavam apenas repondo aquilo que a espiral inflacionária havia corroído.

Até hoje não encontrei ninguém, de dentro ou de perto do governo, capaz de explicar a disparidade entre inflação oficial e inflação e real, e menos ainda que defendesse aquilo que salta aos olhos como uma nítida aparência de manipulação. A sensível desaceleração da economia levou o governo a pisar com força no freio dos ajustes salariais. E é aí que figuras como a de Moyano ganham impulso. Esse é um nó real que ninguém no governo conseguiu desatar até agora.

Sobre esse confuso, complexo e delicado cenário, o da polarização, o da crise, paira uma nuvem negra: a árdua disputa entre governo e o grupo Clarín. E que não começou agora: começou em 2008, quando a presidente Cristina Kirchner mexeu no lucro contundente dos exportadores de grãos. Ela resolveu taxar os ganhos astronômicos, e mexeu em vespeiro. 

No meio do vespeiro estava – e está – grupo Clarín. Ninguém lembra, porque não convém lembrar, que entre os acionistas do grupo estão grandes barões do campo. 

Faltam poucos dias para a batalha crucial entre Clarín e governo. A campanha de distorções e manipulações do jornal atingiu níveis olímpicos. 
Mas esse é tema para outra coluna. Até lá, vale um velho aviso: quem viver, verá. A batalha será duríssima. 


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