segunda-feira, 1 de outubro de 2012

ERIC HOBSBAWM (1917-2012)



Um dos grandes paradoxos da “pérfida Álbion” é o fato de ela ter sido um dos berços do movimento operário mundial sem, ao mesmo tempo, ter produzido um Partido Comunista poderoso e influente, como ocorreu em países continentais da Europa – Alemanha, Itália, França, Espanha, Portugal e Grécia. No Reino Unido, o sistema eleitoral majoritário criou um bipartidarismo e a esquerda teve que se contentar em ficar na órbita do Partido Trabalhista. Em compensação, para deixar os franceses morrendo de inveja, os britânicos são responsáveis pela maior e melhor plêiade de intelectuais marxistas do século XX: Maurice Dobb, E. P. Thompson, Christopher Hill, Raymond Williams e Perry Anderson, entre outros. O mais conhecido deles, o historiador Eric Hobsbawm, morreu hoje aos 95 anos.

Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores do século XX. Escreveu, entre outros livros, uma trilogia em que analisava o que ele classificava de “o longo século XIX”: A Era das Revoluções, sobre as revoluções européias de 1789 a 1848; A Era do Capital, enfocando o período da estabilização pós-revolucionária até a depressão de 1875; e A Era dos Impérios, cobrindo o período do desenvolvimento do imperialismo, entre 1875 e 1914. O “breve século XX” foi analisado por Hobsbawm em seu livro mais famoso, A Era dos Extremos, período entre 1914 (Primeira Guerra Mundial) e 1991 (Colapso da URSS).

O historiador também era um grande entusiasta e crítico do jazz; escreveu um livro belíssimo chamado História social do jazz e publicava críticas e resenhas sobre esse gênero musical. Outro livro seu que vale a pena registrar é Nações e Nacionalismo desde 1780.

Algumas de suas definições:

“A impotência alcança tanto os que acreditam em um capitalismo puro, sem intervenção do Estado, de mercado, uma espécie de anarquismo burguês internacional, quanto os que acreditam num socialismo planejado e sem contaminação pela busca de benefícios privados. Ambos estão na bancarrota. O futuro, como o presente e o passado, pertencem às economias mistas, onde público e privado convivem de uma maneira ou de outra. Mas como? Este é o problema de todo mundo hoje, mas especialmente das pessoas de esquerda.”

“A queda das torres do World Trade Center foi certamente a mais abrangente experiência de catástrofe que se tem na história, inclusive por ter sido acompanhada em cada aparelho de televisão, nos dois hemisférios do planeta. Nunca houve algo assim. Agora, elas representam uma guinada histórica? Não tenho dúvida de que os EUA tratam o 11/9 dessa forma, como um turning point, mas não vejo as coisas desse modo. A não ser pelo fato de que o ataque deu ao governo americano a ocasião perfeita para o país demonstrar sua supremacia militar ao mundo. E com sucesso bastante discutível, diga-se.”

“Nós de fato caminhamos em direção à Era do Declínio Americano. As guerras dos últimos dez anos demonstram como vem falhando a tentativa americana de consolidar sua solitária hegemonia mundial. Isso porque o mundo hoje é politicamente pluralista, e não monopolista. Ainda assim, não devemos subestimar os EUA. Qualquer que venha a ser a configuração do mundo no futuro, eles ainda se manterão como um grande país e não apenas porque são a terceira população do planeta. Ainda vão desfrutar, por um bom tempo, da notável acumulação científica que conseguiram fazer, além de todo o soft power global representado por sua indústria cultural, seus filmes, sua música etc.”

"O ventre que gerou o monstro ainda é fecundo"
“Minha convicção de ser de esquerda continua. Me posiciono fortemente contra o imperialismo e contra as forças que acham que fazem um bem a outros países ao invadi-los, e contra a tendência de pessoas que, por serem brancas, são superiores. Essas certezas eu não abandono. Mas algumas das minhas convicções mudaram. Não creio mais que o comunismo, como foi aplicado, poderia dar certo. E não sou mais revolucionário. Porém, não acho que tenha sido mau para mim e para minha geração termos sido revolucionários. Cresci na Alemanha de Hitler, sempre odiarei totalitarismos.”

Abaixo, trechos de uma entrevista que Hobsbawm concedeu à Folha em 2009:

O que mais deveria ser discutido no aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim? 
A celebração é oportuna porque o capitalismo agora chegou a seu limite. A crise econômica mundial é o fim de um ciclo, que começou a ruir quando caiu o Muro em Berlim. No Leste Europeu, vejo dificuldade em rompimento com o legado comunista. Mas é o Ocidente quem deve refletir mais sobre o que ocorreu na Guerra Fria e o que pode ser feito para evitar um novo colapso. 

As “Eras” são consideradas um exemplo de boa análise histórica dedicada a um amplo período. O sr. acha que falta ambição a historiadores hoje? 

Para fazer história com uma perspectiva maior, é preciso ser um intelectual maduro. Hoje, os jovens historiadores gastam muito mais tempo em suas especializações. Quando estão aptos a dar um passo maior, hesitam. A história equivocadamente se afastou da “história total” que fazia Fernand Braudel [1902-1985].

O sr. começa A Era dos Impérios contando uma história autobiográfica (a do encontro de seus pais no Egito) e então propõe uma reflexão sobre história e memória. Quão diferente foi escrever este volume, que se refere a passagens mais próximas do seu olhar no tempo, do que os anteriores?
Neste livro tive de trabalhar com o que chamo de “zona de penumbra”, onde se misturam nossas lembranças e tradições familiares com o que aprendemos depois sobre determinado período. Não é fácil, pois trata-se de um território de incertezas e em que há um elemento afetivo. Por outro lado, trata-se de uma oportunidade de estimular aquele que lê a pensar sobre como seu próprio passado está relacionado com a história.

Vladimir Illicht Lênin, líder da Revolução Bolchevique de 1917  
Em seu  livro (Reappraisals), o historiador britânico Tony Judt escreveu um ensaio sobre o senhor (Eric Hobsbawm and the Romance of Communism). Neste, mostra admiração por seu conhecimento, mas faz uma severa crítica: “para fazer o bem no novo século, nós devemos começar dizendo a verdade sobre o antigo. Hobsbawm se recusa a mirar o demônio na cara e chamá-lo pelo nome”. Como o sr. responderia a seu colega?

A crítica de Judt não se justifica. O que ele quer é que eu diga que estava errado. Em A Era dos Extremos, eu encaro o problema, o critico e condeno. Não tenho problemas em dizer que a Revolução Russa causou dor e sofrimento à população russa. Porém, o esforço revolucionário foi algo heroico. Uma tentativa de melhorar a sociedade como não se viu mais na história. Me recuso a dizer que perdi a esperança.

O sr. havia dito, numa entrevista ao Independent, que havia alguns clubes dos quais não iria ser sócio nunca, referindo-se aos intelectuais ex-comunistas. Ainda pensa assim?
Não vejo problema quando um intelectual, especialmente de países do Leste Europeu, percebe que a democracia é melhor do que o sistema autoritário em que vivia. É normal a mudança de posição quando surgem fatos novos. O ex-comunista que condeno é aquele que antes militava em grupos de esquerda e que hoje tem uma bandeira única, a de ser anticomunista apenas, esquecendo-se do resto das ideias pelas quais lutava. Também me entristece ver intelectuais jovens, que não passaram pela história dessas lutas, repetindo e tentando tirar benefício desse mesmo tipo de propaganda.

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