segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O FIM DE UMA ERA

George McGovern; o último liberal? 

Tempos atrás, escrevi aqui que Ted Kennedy foi o último dos liberais dos EUA – sempre lembrando que liberalismo, no sentido americano, tem o significado semelhante ao de “social-democrata” na Europa. Estava enganado. Tinha me esquecido de George McGovern, que eu, aliás, não sabia que ainda estava vivo. Ele morreu domingo aos 90 anos. McGovern foi um grande defensor do ideário progressista americano que nasceu com Franklin Delano Roosevelt, mas acabaria maculado pelas necessidades geopolíticas da Guerra Fria. Sua derrota catastrófica para Richard Nixon em 1972 foi um prenúncio da onda reacionária que se abateria depois (Ronald Reagan e George W. Bush) sobre os EUA. Ao contrário do pragmático Bill Clinton, o presidente Barack Obama é o herdeiro político de McGovern; mas até agora não se mostrou à altura de seu mestre.   

A morte de George McGovern

Por Nuno Gouveia, do Blog Era uma vez na América

George McGovern morreu aos 90 anos num hospital do Dakota do Sul, depois de ter sido internado na semana passada. Candidato presidencial pelo Partido Democrata em 1972, teve uma importância histórica na política norte-americana nem sempre reconhecida e valorizada. Apesar de ter sido verdadeiramente humilhado por Richard Nixon, que venceu em 49 dos Estados da União, o seu legado é muito mais do que essa histórica derrota. McGovern ocupou um papel decisivo na viragem à esquerda do Partido Democrata nos últimos 40 anos e já é uma figura fundamental na história da política americana.

Piloto de bombardeiros durante a segunda guerra mundial, começou a destacar-se na política em 1948 quando decidiu apoiar o candidato progressista Henry Wallace contra o presidente Truman. Na eleição seguinte voltou ao Partido Democrata para apoiar Adlai Stevenson e em 1956 foi eleito para a Câmara dos Representantes. Chega ao senado em 1962 e torna-se numa das vozes proeminentes contra a guerra do Vietnã. Depois do assassinato de Robert Kennedy candidata-se à nomeação pela facção anti-guerra do Partido Democrata, mas não teve chance contra Hubert Humphrey, que dominava a máquina partidária. Essa derrota levou-o a liderar os esforços para alterar as regras de nomeação presidencial, levando a que as primárias e eleições diretas conquistassem primazia no processo, retirando poder aos “party bosses”. O Partido Republicano viria mais tarde a fazer o mesmo, iniciando-se a era das primárias competitivas, como as conhecemos hoje.

McGovern foi o primeiro beneficiado das novas regras, tendo conquistado a nomeação do Partido Democrata em 1972, o que na altura muito agradou Richard Nixon. Aliás, consta-se que o republicano tudo fez para ajudar McGovern a ganhar a nomeação, pois Nixon pensava que o seu radicalismo ideológico iria ajudá-lo a vencer. Como aconteceu. Essa campanha foi um verdadeiro desastre, pois McGovern não conseguiu unir o partido, cometeu muitos erros estratégicos, a começar pela escolha do vice-presidente. Depois de ter recebido recusas de vários democratas, como Ted Kennedy, Walter Mondale, Edmund Muskie ou Hubert Humphrey, optou pelo senador do Missouri Thomas Eagleton. Mas, no meio da campanha, foi descoberto que Eagleton tinha problemas psiquiátricos e McGovern, pouco depois de ter dito que tinha 100% de certeza que ele ficaria na disputa, substituiu-o pelo cunhado de John Kennedy, Sargent Shriver, que não tinha experiência política nenhuma. Sua campanha ficou conhecida por “Anistia, aborto e ácido”, pois Mcgovern defendia a anistia para os desertores da guerra do Vietnã, a legalização do aborto e das drogas. Essa frase foi proferida por um senador “anônimo” ao colunista conservador Robert Novak durante as primárias, que lhe disse que McGovern estaria condenado quando a América descobrisse que a sua campanha era a favor de "Amnesty, Abortion and Acid". Em 2007 Novak declarou que o senador que lhe tinha dito isso foi Thomas Eagleton, precisamente a opção de McGovern para VP. McGovern apenas venceu no estado do Massachussetts e em DC, e teve apenas 37% dos votos, um dos piores resultados de sempre de um candidato dos dois partidos.

Obama: ainda não disse a que veio 
McGovern foi o primeiro democrata verdadeiramente “liberal” a ser nomeado candidato presidencial pelo Partido Democrata, abrindo caminho para outros como Walter Mondale, Michael Dukakis ou Barack Obama, que vieram precisamente da ala mais à esquerda do Partido Democrata. O seu principal legado é precisamente ter influenciado toda uma geração de políticos que cresceu com ele, tendo conquistado o poder e primazia no Partido Democrata. Se (Barry) Goldwater é considerado o pai do conservadorismo moderno, McGovern cumpriu a mesma função para o “liberalismo” americano. 

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