segunda-feira, 15 de outubro de 2012

HERÁCLITO NA ACADEMIA


Jean Monnet: sonho iluminista
A União Europeia foi um dos projetos mais ambiciosos para conjurar os conflitos nacionalistas que, entre os séculos XIX e XX, ensanguentaram o solo do velho continente. O erro dos europeus – percebido por Charles De Gaulle e outros - foi atrelar esse sonho europeísta à esfera de influência dos EUA, o chamado atlantismo. O quadro se agravou com o fim da Guerra Fria, particularmente a partir dos acordos de Maastricht de 1992, que buscavam conter o poderio da Alemanha unificada pela adoção da moeda única. Com isso, a utopia de Jean Monnet e Robert Schumann se transformou num projeto cujo principal beneficiário foi o capital financeiro. A adoção da moeda única em países tão díspares como Alemanha, França, Grécia, Portugal e Espanha acabou por fortalecer os primeiros e enfraquecer os últimos, que não podiam recorrer à desvalorização cambial para fazer face à alta competitividade dos alemães. As graves consequências desse modelo estão sendo sentidas agora com a resposta ortodoxa à crise fiscal que se abateu sobre a Europa, que já deixou, até agora, 25 milhões de desempregados.

Que o comitê norueguês do Nobel, responsável pelo Nobel da Paz, tenha dado o prêmio à União Européia nestas circunstâncias é um sinal do quão esvaziado do sentido original se tornou essa honraria. Além da imposição de políticas de austeridade que levam as populações de vários países europeus ao desespero e à revolta, a União Europeia sequer manteve a paz no continente nos últimos 60 anos, como alardeia a propaganda oficial. Trata-se de uma meia verdade; se não houve conflitos entre Alemanha e França, os rivais do passado, a UE foi incapaz de impedir as guerras civis dos Bálcãs, que tiveram início há 20 anos e causaram a maior carnificina na Europa depois da II Guerra Mundial.
Sarajevo bombardeada: inércia da Europa levou à intervenção da Otan

Além disso, a União Europeia não tem feito nenhum esforço pela desmilitarização do continente; ao contrário, apóia a OTAN (aliança militar ocidental liderada pelos EUA), que foi responsável pelas invasões do Iraque e do Afeganistão e por intervenções irresponsáveis, como na Líbia. Bruxelas também apóia a política das armas nucleares dos EUA, estacionadas em seis países europeus, e a venda de armas de Estados europeus para países de todo o mundo. Como se tudo isso não bastasse, os países europeus tornam-se a cada dia mais xenófobos, propensos a adotar medidas repressivas e discriminatórias contra imigrantes.

Heráclito de Éfeso: vir a ser
Mas talvez haja uma explicação. Assim como em 2009 os noruegueses premiaram antecipadamente o então recém-empossado presidente americano Barack Obama, agora eles galardeiam a União Européia não pelo que ela é, mas pelo que ela poderá vir a ser. Eles acreditam que o projeto da União ainda possa ser salvo e aprofundado. É uma aposta mais temerária do que a aposta de Pascal. Vai ver a academia virou discípula de Heráclito, cujo “vir a ser” dialético se contrapunha ao “ser imutável” de Parmênides...      

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