quinta-feira, 31 de maio de 2012

A VOLTA AO "CREIO PORQUE É ABSURDO"



Roland Barthes
Prestes a completar 94 anos, Billy Graham talvez seja o mais velho e famoso dos pastores evangélicos americanos. Sua prédica serviu de modelo para todas as denominações pentecostais e neopentecostais. Esse texto do semiólogo francês Roland Barthes, de 1957, revela como se operou o deslocamento do discurso religioso cristão, do racionalismo ao irracionalismo - um retrocesso ao "creio porque é absurdo" de Tertuliano - e como Graham é um fiel servidor do establishment americano. Não é à toa que ele se relacionou muito bem com quase todos os presidentes americanos desde Eisenhower – a exceção foi John Kennedy, que era católico.       


Billy Graham no Vel D’Hiv

Roland Barthes, em Mitologias

“Se Deus fala realmente pela boca do Dr. Graham, temos de reconhecer que Deus é surpreendentemente tolo: a Mensagem espanta pela sua chatice e infantilidade. Em todo caso, certamente, Deus abandonou o tomismo e demonstra uma nítida aversão à lógica: a Mensagem é constituída por uma infinidade de afirmações descontínuas lançadas ininterruptamente, sem espécie alguma de relação entre elas, cujo conteúdo é apenas tautológico (Deus é Deus). O mais insignificante irmão marista, e o pastor mais acadêmico fazem figura de intelectuais decadentes perto do Dr. Graham.

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Billy Graham, o ovo da serpente do Edir Macedo 

O “gênero” Billy Graham rompe com toda uma tradição do sermão, católico ou protestante, herdada da cultura antiga, que só funcionava em termos de persuasão. O cristianismo ocidental sempre se submeteu, em seu método expositivo, ao quadro geral do pensamento aristotélico, sempre aceitando colaborar com a razão, mesmo quando se tratava de inspirar confiança no irracional da fé. Rompendo com séculos de humanismo (mesmo apesar de suas formas terem sido ocas e rígidas, a preocupação de um outro subjetivo esteve raras vezes ausente do didatismo cristão), o Dr.Graham apresenta-nos um método de transformação mágica, substituindo a persuasão pela sugestão: a violência e intensidade da declamação, a expulsão sistemática de todo conteúdo racional da proposição, a ruptura incessante dos encadeamentos lógicos, as repetições verbais, a designação grandiloquente da Bíblia erguida na ponta dos dedos como um abridor de latas universal de um camelô e sobretudo a ausência de calor humano, o desprezo manifesto pelo outro, todas estas operações fazem parte do material clássico da hipnose de music-hall: repito que não existe nenhuma diferença entre Billy Graham e o Grand Robert.

[...]

Tudo isso nos diz respeito muito diretamente: para começar, o “sucesso” de Billy Graham manifesta a fragilidade mental da pequena-burguesia francesa, classe na qual se recrutou, ao que parece, a maioria do público dessas sessões: a plasticidade de adaptação desse público a formas de pensamento alegóricas e hipnóticas sugere que existe em tal grupo social aquilo que se poderia chamar de uma situação de aventura: uma parte da pequena-burguesia francesa já nem é protegida pelo seu famoso “bom senso”, que é a forma agressiva da sua consciência de classe. Mas não é tudo: Billy Graham e a sua equipe insistiram fortemente, e por diversas vezes, no objetivo dessa campanha: “despertar” a França (“Vimos Deus fazer grandes coisas na América; um despertar de Paris teria uma influência imensa sobre o mundo inteiro” — “Nosso desejo é que alguma coisa aconteça em Paris, de modo que tenha repercussões no mundo inteiro”).

Obviamente tal ótica é idêntica à de Eisenhower nas suas declarações sobre o ateísmo dos franceses. A França existe para o mundo pelo seu racionalismo, sua indiferença à fé, pela irreligião dos seus intelectuais (tema comum na América e no Vaticano; tema, aliás, já muito batido): é deste pesadelo que se torna necessário arrancá-la. A “conversão” de Paris teria evidentemente o valor de um exemplo mundial: o Ateísmo abatido pela Religião no seu próprio covil. De fato, sabemos que se trata de um tema político: o ateísmo da França só interessa à América porque, para ela, ele constitui a primeira etapa para o Comunismo. “Despertar” a França do ateísmo é despertá-la do fascínio comunista. A campanha de Billy Graham foi apenas um episódio macarthista”.

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