terça-feira, 15 de maio de 2012

A COMISSÃO DA VERDADE, O ESCULACHO E A MÍDIA


A dois dias da instalação da Comissão da Verdade, o Movimento Levante Popular da Juventude promoveu mais uma rodada de esculacho a torturadores e agentes da repressão da ditadura em vários pontos do país. Foram onze mobilizações ocorridas em 11 estados, incluindo Rio, Bahia e Minas Gerais. Oito agentes foram “esculachados”. Uma das manifestações ocorreu no Guarujá, em frente à casa do tenente-coronel da reserva Maurício Lopes Lima, um dos algozes de Dilma Rousseff no Doi-CODI.
Em Belo Horizonte, o alvo do esculacho foi João Bosco Nacif da Silva, médico-legista da Polícia Civil da ditadura, que teria atestado um laudo médico de suicídio para um prisioneiro torturado em uma delegacia da capital mineira em 1969. Nacif da Silva tentou agredir os manifestantes, o que motivou o encerramento precoce do ato.
O grupo também promoveu manifestação em frente à residência do general da reserva José Antônio Nogueira Belham, denunciado como torturador do militante Rubens Paiva. Belham, que mora na zona sul da capital fluminense, foi o chefe do DOI-CODI do Rio durante a ditadura.
Na capital baiana, quem recebeu o esculacho foi Dalmar Caribé, cabo do Exército acusado de ser um dos responsáveis pelos assassinatos dos militantes Carlos Lamarca e Zequinha Barreto. Em Recife, o desembargador aposentado Aquino de Farias Reis, ex-delegado do DOPS também foi alvo de manifestação.

No mesmo dia, sete militares da reserva que integram o Clube Naval no Rio, liderados pelo almirante Tibério Ferreira, anunciaram que irão se reunir para formar uma “Comissão Paralela da Verdade”. Eles querem agir como uma Shadow Comission para prestar assessoria jurídica aos militares que, eventualmente, prestem depoimento à Comissão. É inacreditável como esses caras fazem de tudo para responsabilizar a instituição Forças Armadas pelos crimes dos facínoras da ditadura...   

Enquanto isso, a Comissão da Verdade parece que já começa a incomodar. Na segunda-feira, a mídia conservadora dizia que a Comissão já nascia com divergências sobre o escopo de seu trabalho. De acordo com a Folha de S, Paulo, o ex-ministro José Carlos Dias disse que a Comissão iria investigar crimes cometidos “pelos dois lados”. Hoje, contudo, a nuvem se dissipou, com vários de seus membros afirmando que a comissão foi criada para descobrir as circunstâncias de violações de direitos humanos cometidos por agentes do Estado. “Nenhuma comissão tem essa bobagem de dois lados”, disse o diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, um dos indicados. “O outro lado (o dos guerrilheiros e presos políticos) já foi suficientemente condenado, assassinado, desaparecido”, concluiu. Em declaração ao jornal O Globo, José Carlos Dias, por sua vez, disse que tinha sido mal interpretado. A declaração sobre os “dois lados” tinha saído na Folha.

O diplomata Paulo Sérgio Pinheiro
O curioso é que o Globo publicou esse desmentido internamente, sob um título “Não tem dois lados, o outro foi assassinado”, enquanto a chamada de capa crava: “Comissão da Verdade já se divide sobre foco”. Ora, não há nem nunca houve nenhuma discussão sobre o foco da Comissão, porque, como lembrou o Paulo Sergio Pinheiro em entrevista ao Estadão de hoje, seu papel está definido na lei que a criou: “investigar as violações de direitos humanos esclarecendo as circunstâncias em que ocorreram, bem como os casos de tortura, morte, desaparecimento forçado, ocultação de cadáver e sua autoria, ainda que no exterior”.           

Teremos uma longa e penosa batalha pela frente...

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