segunda-feira, 7 de maio de 2012

PARA ONDE VAI A ESQUERDA EUROPEIA?


François Hollande comemora vitória ao lado da mulher 

A eleição do socialista Claude Hollande à presidência da França representa uma vitória das forças progressistas, na medida em que significa o fim do lamentável reinado de Nicolas Sarkozy, que comandou o mais reacionário dos governos da V República. Mas é preciso não alimentar ilusões em relação aos socialistas: tanto François Mitterrand na presidência quanto Lionel Jospin, que foi primeiro-ministro entre 1997 e 2002, se alinharam à lógica privatizante do Consenso de Washington. E olhe que Jospin tinha passado trotskista e representava a ala esquerda do Partido Socialista. Esperemos, no entanto. Quem sabe agora apresentem uma alternativa?

Mais interessante, contudo, parece ser o que está acontecendo na Grécia, onde a coalizão de esquerda Syriza tornou-se a segunda força política do país e propõe um governo que rejeite a política de austeridade para pagar a dívida a qualquer custo. Infelizmente, o KKE (Partido Comunista grego), outra força de esquerda importante, já rejeitou a aliança, repetindo o sectarismo esquerdista da III Internacional do chamado “Terceiro Período”.
Abaixo, artigo sobre a Grécia publicado no site “esquerda net”:

Syriza quer governo de esquerda para romper com a troika

Da esquerda net
O resultado das eleições gregas representa um autêntico terremoto político: com cerca de metade dos votos contados, a coligação Syriza, que se opõe ao memorando da troika, já ultrapassou em muito o resultado obtido nas eleições de 2009 e confirma-se como a segunda força política grega e a primeira da esquerda. Alexis Tsipras, o líder da coligação, diz que o resultado de hoje mostra que os gregos e os europeus querem “cancelar o memorando da barbárie” a que a troika tem sujeitado o seu país nos últimos anos. A confirmarem-se os resultados que apontam que os partidos que apoiam o memorando serão minoritários no Parlamento grego – mesmo com os 50 deputados que são automaticamente atribuídos ao partido vencedor, a Nova Democracia –, Tsipras propôs a formação de um governo de esquerda e disse que esta eleição é “uma mensagem de derrubada” do governo da troika.

Alexis Tsipras
“A nossa proposta é a de um governo de esquerda que, com o apoio do povo, irá recusar o memorando e pôr fim ao rumo pré-determinado do país para a miséria”, afirmou Tsipras, que disse estar certo que a subida meteórica do Syriza não se deve a uma pessoa ou partido em especial, mas a esta proposta que repetiu na campanha eleitoral. A coligação parceira do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu e no Partido da Esquerda Europeia – de que Tsipras é vice-presidente – venceu as eleições em onze círculos eleitorais, incluindo a capital Atenas.

O líder do PASOK falou antes de Tsipras e reagiu à derrota histórica – o partido deve perder mais de dois terços dos votos que teve na última eleição – dizendo que procurará formar um governo com os partidos que apoiam o memorando. Evangelos Venizelos disse estar certo que os resultados deste domingo “excluem o velho sistema dos dois partidos” no governo.

Antonis Samaras, líder do partido mais votado, reagiu aos resultados conhecidos com duas condições para dar início à formação do governo: a manutenção do euro e a mudança das políticas do memorando da troika para “ter crescimento e dar alívio à sociedade grega”.

Os resultados eleitorais — numa altura em que estão contados 70% dos votos –  dão 19,8% para a Nova Democracia, 16,3% para o Syriza, 13,6% para o PASOK, 10,5 para os Gregos Independentes, 8,4% para o KKE (PC grego), 6,9% para os neonazis da Aurora Dourada e 6% para a Esquerda Democrática. A extrema-direita do LAOS, que participou e depois rompeu com o governo da troika, não deverá eleger deputados, obtendo 2,9%. A abstenção está estimada em 38%.

Em comunicado, o KKE já rejeitou a proposta do Syriza, classificando esta força de social-democrata e acusando-a de servir para impedir a radicalização da sociedade grega. Para a secretária-geral Aleka Papariga, o resultado do partido não foi uma surpresa, mas a distribuição dos votos indica que o KKE não conseguiu mobilizar o sentimento antitroika do povo grego desta eleição, nem mesmo nos tradicionais bastiões eleitorais comunistas, perdendo votos nas zonas urbanas, onde disputa deputados com os neonazis. O surgimento em força da Aurora Dourada – sobretudo no voto urbano e nos bairros populares – veio abalar a política grega.

Resultados na Grécia são um “sinal importante que o povo grego dá à Europa”
“Já felicitamos o dirigente e o candidato da coligação de esquerda, com quem temos excelentes relações e com quem temos feito um caminho conjunto no sentido de combater esta Europa de austeridade”, informou Marisa Matias.

A eurodeputada do Bloco de Esquerda considera que, com estes resultados, o povo grego “rejeitou a deriva neoliberal de austeridade”. “O que é muito importante porque é um sinal claro de que o povo grego está aberto a que outras propostas surjam, que não sejam sempre neste mesmo caminho”, disse, sublinhando ainda que “rejeitou uma outra, de rejeitar o projeto europeu, porque a Europa pode ser outra coisa”.

Para Marisa Matias, porque “nunca colocaram a hipótese da saída do Euro, nem da União Europeia, mas antes lutaram por um projeto europeu que seja mais solidário e mais consistente”, os gregos dão “um sinal muito importante quer à Europa, quer a Portugal”, que está “numa situação muito semelhante à da Grécia”.

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