quinta-feira, 6 de maio de 2010

O NOVO PLANO BARUCH

“É minha convicção que nos encontramos em face de um dilema decisivo e incorrigível: ou nos preparamos para tomar posse de nossas riquezas naturais – no caso específico, atômicas – ou nos veremos constrangidos ao espetáculo degradante de assistirmos, impotentes, à evasão delas, por bem ou por mal... É essa a impressão objetiva que guardamos dos debates em que, com a maior sem-cerimônia se tratou das matérias primas como res communs, de “reajustamento das injustiças da natureza”. (Almirante Álvaro Alberto, pai do programa nuclear brasileiro)

Em 1946, os Estados Unidos elaboraram o "Plano Baruch", elaborado pelo financista Bernard Baruch. Era uma tentativa de internacionalizar as jazidas de urânio e tório de todo o mundo nas mãos da Comissão de Energia Atômica, controlada por eles. O argumento do plano para evitar uma corrida nuclear, singelo e oportunista, dizia que era preciso reparar uma "injustiça da natureza" que fazia com que os países que detinham a tecnologia nuclear - na época, apenas os EUA - não possuíssem jazidas, enquanto que os que não a detinham eram depositários dessas imensas riquezas. Embora tivesse recebido instruções do Itamaraty para apoiar incondicionalmente o plano, o almirante percebeu que, se o país não controlasse as minas, não teria controle sobre as etapas subsequentes dos materiais nucleares. Assim, ele reagiu contra a internacionalização das jazidas argumentando que estaria totalmente de acordo com a tese das "injustiças da natureza" desde que o mesmo critério fosse estendida às jazidas de petróleo e ouro - à época, os EUA eram os maiores detendores delas. Anos depois, o Brasil desenvolveu a tecnologia do enriquecimento de urânio através de ultracentrifugadoras e hoje está em vias de produzir combustível para usinas nucleares e para reatores nucleares de submarinos.

Sabe-se hoje que 81% das reservas de urânio conhecidas se encontram em seis países. Segundo o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, "o Brasil tem a 6ª maior reserva de urânio do mundo, tendo ainda a prospectar mais de 80% do seu território. A estimativa é de que o Brasil pode vir a deter a terceira maior reserva do mundo. Cinco companhias no mundo produzem 71% do urânio. O urânio na natureza se encontra em um grau de concentração de 0,7%. Para ser usado como combustível esse urânio tem de ser minerado, beneficiado, convertido em gás, enriquecido a cerca de 4%, reconvertido em pó e transformado em pastilhas, que é a forma do combustível utilizado nos reatores. Esse processo industrial é extremamente complexo e apenas oito países do mundo detém o conhecimento tecnológico do ciclo completo e a capacidade industrial para produzir todas as etapas do ciclo. Um deles é o Brasil. O Brasil combina, assim, a posse de reservas substanciais, e potencialmente muito maiores, com o conhecimento tecnológico e a capacidade industrial além de deter a capacidade industrial que permitiria produzir reatores".

De acordo com a Agência Brasil, o Brasil deu ontem (5) mais um passo para dominar o ciclo completo de preparação do combustível nuclear. A Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), o Instituto Militar de Engenharia (IME) e as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) iniciaram testes para a produção de tubos de zircônio, utilizados para armazenar urânio dentro dos reatores nucleares. Segundo o coordenador do laboratório responsável pelos testes, Luiz Henrique de Almeida, a partir destes ensaios com ligas de zircônio, será possível desenvolver uma tecnologia para que, no futuro, a indústria nacional seja capaz de produzir, em escala industrial, os tubos usados no armazenamento do urânio durante o processo de geração de energia nuclear. “O zircônio é o único material, que a gente conhece, que pode resistir ao esforço mecânico, à temperatura e à radiação dentro do reator ”, explicou Almeida.

O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, acredita que, com a tecnologia de armazenamento de urânio e a operação da fábrica brasileira de enriquecimento de urânio, nos próximos anos, o Brasil poderá tornar-se autossuficiente na produção de combustível nuclear e, com isso, ser independente dos demais países.“Se formos depender dos países desenvolvidos, realmente nós não vamos conseguir ter um programa [nuclear] bem-sucedido. É de todo interesse de muitos desses países que nós não sejamos independentes nessa área”, disse o ministro, que acredita que o o Brasil dominará o ciclo completo do combustível nuclear dentro de quatro a cinco anos.

O Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) de 1968, impõe o monopólio das armas nucleares aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança – EUA, Rússia, China, França e Reino Unido - e a contrapartida do compromisso de desarmamento progressivo. Aos demais, cabe renunciar ao desenvolvimento da tecnologia nuclear para fins militares. O Brasil assinou o tratado em 1998. O TNP não proíbe o desenvolvimento da tecnologia nuclear, nem a comercialização de urânio enriquecido, desde que para fins pacíficos. "Esse quadro motivou o governo dos EUA a convocar uma Cúpula sobre Segurança Nuclear, visando justamente alterar os termos acordados e insistindo em um Protocolo Adicional ao TNP. Esse Protocolo, por sua vez, objetiva claramente tolher o direito dos Estados de desenvolver a energia nuclear também para fins pacíficos, ampliando a competência da Agência Internacional de Energia Atômica para inspecionar instalações nucleares in loco a qualquer tempo. Na prática, o monopólio da tecnologia nuclear estaria assegurado, tanto para fins militares quanto para fins pacíficos", diz a professora Larissa Ramina, da USP.

São essas as razões pelas quais o Brasil sofre tanta pressão para assinar o protocolo adicional do TNP e juntar-se ao coro internacional liderado pelos EUA contra o programa nuclear do Irã. E se elegermos um governo subserviente aos interesses de Washington, como tantos que tivemos em passado muito recente, já se sabe o que vai acontecer...

2 comentários:

  1. Olá meu caro!

    Concordo total com teu texto.
    Apenas um esclarecimento ao publico mais leigo, sem nenhuma intenção de corrigi-lo e uma pergunta ao final.

    “O urânio na natureza se encontra em um grau de concentração de 0,7%...”

    O elemento químico Urânio (numero atômico Z=92 da tabela periódica) é encontrado na natureza na forma de Uraninita (UO2) numa abundância na crosta terrestre de 0,00027%. Dai tiramos o U238 (0,3%). Porém o Urânio 238, como isótopo de massa 238 (isótopo, mesmo elemento químico, mesmo número atômico, mas com quantidades de nêutrons diferentes em seu núcleo), não é físsil, ou seja, não serve como combustível nuclear. O que é necessário ser feito? Enriquece-lo. Transforma-lo em um isótopo U235 (isótopo com menos três nêutrons em seu núcleo), que existe dentro do U238, numa proporção de apenas 0,7%. este sim físsil. Um dos métodos existentes é a centrifugação, depois da obtenção do gás hexafluoreto de urânio (UF6). Você “separa” o U235 do U238. Isto é que se chama de enriquecimento do urânio por centrifugação. E o Brasil conseguiu aperfeiçoar a tecnologia da Ultra centrifugação (desenvolvida na Alemanha na Segunda Guerra, para variar. O Almirante Álvaro Alberto tentou trazer da de lá depois da guerra algumas centrífugas, mas sofreu pressões externas enormes), o que deixou os gringos “loucos”. Há alguns anos atrás, que eu me lembre, o pessoal do TNP quis fazer uma inspeção nas nossas usinas. Soube que, entre outras coisas, eles queriam na verdade “conhecer” nossa tecnologia de ultra centrifugação que, se para eles não era uma novidade, havia interesse em saber pelo menos a maneira, o grau de sucesso e a eficiência que estabelecemos. Nós deixamos o pessoal “dar uma olhada” de longe nas centrifugas, mas não a ponto de revelar alguns segredos... O que fizemos muito bem! Na minha modesta opinião, e o que nunca foi divulgado pelas autoridades nucleares, talvez o Brasil tenha conseguido desenvolver tecnologia de materiais supercondutores na sessão dos motores da centrifuga, o que reduziria e muito, o atrito entre seus componentes aumentando assim a velocidade de rotação dos cilindros. O uso final do U235 físsil, depende de seu grau de enriquecimento. Para fins pacíficos de reatores para geração de força elétrica, é necessário concentrações entre 3% e 5%. Para fins militares já é necessário 90% de enriquecimento. Aqui entra uma discussão. Se o Irã quer o seu uso pacífico, por que seus constantes anúncios de que estão obtendo cada vez mais um grau de enriquecimento (tudo bem que é de apenas 20% por enquanto)? E por que o governo brasileiro os apóia? O que há politicamente por trás disso?

    Abraços,

    Alex Soletto.

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  2. Alex, querido,
    Grato pelos valiosos esclarecimentos técnicos. Quanto à questão política, na minha modesta opinião, o governo brasileiro não apoia o desenvolvimento da bomba iraniana, apenas está adotando uma postura diplomática realista - ou de realpolitik, se você quiser - para poder ser um interlocutor nas negociações. Acredito que Teerã queira desenvolver um artefato nuclear para servir de dissuasão contra Israel. De qualquer forma, ninguém se incomoda com o fato de Israel - ou pior, o Paquistão - terem desenvolvido seus arsenais nucleares. Por que eles seriam mais confiáveis do que o Irã?
    grande abraço

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