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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

E, NO ENTANTO, É PRECISO CANTAR

Manifestante das Femen detida por policial em Kiev (Ucrânia)
Impressionante a velocidade com que as coisas se transformam e se esvaziam na sociedade do espetáculo – “tudo o que é sólido desmancha no ar”, já dizia o velho Marx. Em 2008 surgiu um grupo feminista na Ucrânia, as Femen, que inventou uma insólita maneira de protestar contra a sociedade machista e patriarcal: fazendo topless em público e pintando o corpo com palavras de ordem. O grupo, que nasceu na capital Kiev, realiza protestos ruidosos contra atos de sexismo, o turismo sexual e a exploração de menores, as agências internacionais de casamento, as religiões organizadas e outros. Volta e meia a imprensa divulga fotos de meninas seminuas do Femen sendo arrastadas por policiais truculentos para dentro dos camburões. O grupo chamou a atenção da mídia e começou a se espalhar pelo mundo, mas no país de origem bateu de frente com a conservadora opinião pública ucraniana. 


Ativista derruba cruz  
O estopim ocorreu na última sexta-feira, dia 17, quando a ativista Inna Shevchenko derrubou uma cruz dedicada a vítimas da fome provocada pela coletivização forçada promovida pelo stalinismo na Ucrânia nos anos 1930. As autoridades fecharam a sede e instauraram um processo contra o grupo – o que deve lhe aumentar a popularidade no exterior.


Sara Winter (à dir.) em manifestação no Masp 
O fenômeno chegou ao Brasil com o nome de Femen Brazil (com “z”).  No final de julho, duas manifestantes vestidas apenas de calcinhas e com palavras de ordem pichadas nos corpos foram ao vão do MASP protestar contra a decisão do Conselho Regional de Medicina (CREMRJ) do Rio contra os partos caseiros. Uma das moças, Sara Winter, de 20 anos, que já tinha se destacado em junho por ter sido  presa em Kiev numa manifestação do grupo durante a Eurocopa, apareceu como a porta-voz da organização no país. A moça, cujo nome verdadeiro é Sara Fernandes Giromini, virou celebridade da noite para o dia. Na semana passada, ela acabaria detida pela polícia paulista depois de participar de um protesto das Femen Brazil contra o governo do presidente russo Vladimir Putin pela prisão e condenação das integrantes do grupo punk Pussy Riots.

Mas os 15 minutos de fama de Sara, parece, não duraram muito. Descobriu-se que, no passado, “Sara Winter” simpatizara com grupos neonazistas e que era muito conservadora e moralista. A ponto de, em 2011 ter publicado um texto nas redes sociais criticando a Marcha das Vadias – movimento que luta contra agressão das mulheres, muitas vezes chamando a atenção com roupas sumárias –, dizendo que o grupo confundia liberdade de expressão com “promiscuidade”. 


Mulheres na "Marcha das Vadias"
Curiosamente, os argumentos de Sara contra as “vadias” são semelhantes aos usados por conservadores contra as Femen: “por que diabos essas meninas não fizeram uma marcha normal, quero dizer, COM ROUPAS NORMAIS, reivindicando o direito das mulheres [...] Mas é claro que é muito mais divertido tornar a coisa polêmica, usar a faceta da liberdade de expressão para andar seminua nas ruas e se encher de um ‘orgulho puta’ (como diz um cartaz aí), daria pra fazer a mesma marcha com outro nome, com roupas e sem orgulho puta, mas aposto que não dariam tantas pessoas quanto na original”, afirmou.

A cruz de ferro tatuada: culto ao nazismo?
Mas teve mais. Em seu perfil no Facebook, Sara Winter listou pessoas e grupos que admirava: Plínio Salgado – líder do Integralismo, cópia tupiniquim do nazi-fascismo dos anos 1930 –; o movimento skinnhead e líderes conservadores como Ronald Reagan. Estranho para uma libertária, não? E a moça também tem uma tatuagem em cima do seio esquerdo que reproduz uma cruz de ferro. Embora seja uma antiga condecoração militar alemã inspirada no símbolo dos Cavaleiros Templários, a cruz de ferro é frequentemente associada – erroneamente, é verdade – a um símbolo nazista. 

De qualquer modo, as simpatizas da jovem por personagens reacionários fica evidente quando se lembra que Sarah Winter é o nome da mais famosa nazista britânica (1870-1944), uma nobre ligada à British Union os Fascists. Questionada, a Sara brasileira disse que aquelas opiniões eram “coisa do passado”, que a cruz de ferro é apenas uma referência aos templários e que o codinome Sara Winter foi uma homenagem à cantora Sara Spring. “Ela é primavera (spring) e eu sou inverno (winter)”, disse. Pode ser. Sara é muito jovem e pode ter mudado de opinião. Mas fica a dúvida...

A superficialidade e a atomização dos movimentos de protestos são a fórmula para que se tornem folclóricos e fracassem. As Femen certamente encontraram uma forma engenhosa de lutar contra o machismo. Mas só agit prop, como se dizia antigamente, não basta. Se movimentos libertários como esse não ampliarem sua base de apoio, conectando-se a movimentos sociais de massa, e não buscarem alguma coerência política, durarão o tempo em que durar a curiosidade pública alimentada pela mídia. Fazer topless para protestar contra o patriarcalismo é simpático num primeiro momento, mas tende a virar folclore no segundo seguinte. Ou seja: não basta fazer ações espetaculares contra o machismo, é preciso romper o isolamento e inserir esses movimentos num processo maior de luta pela ampliação da democracia. Isso significa ligar o combate ao patriarcalismo às lutas contra o racismo, a xenofobia, a exploração do trabalho, o desemprego e, last but not least, em defesa da liberdade de expressão.

Manifestantes do Occupy Wall Street
Mas, não se iludam, isso não acontecerá. Não há mais movimentos de massa organizados capazes de, pelo menos, épater la bourgeoisie. Os movimentos e organizações políticas que conseguiram conter a sanha do capital tiveram suas garras devidamente cortadas.  Tampouco há libertários acreditando que a imaginação tomará o poder. Nos anos 1960, a contracultura hippie criticava a escalada e os crimes do governo americano na Guerra do Vietnã e pregava a subversão dos costumes por meio do amor livre: Make Love, not war.  Na época, era uma mensagem transgressora, mas depois ela foi devidamente domesticada, esvaziada de qualquer sentido subversivo. O sonho acabou, ou melhor, os sonhos acabaram: a revolução foi para as calendas gregas, o reformismo está congelado e a contracultura é apenas uma lembrança de velhos hippies. O mesmo destino aguarda movimentos como o Occupy Wall Street e as Femen. Logo, logo, haverá bonequinhas delas sendo vendidos em shopping centers.

E, no entanto, é preciso cantar...


  

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

MAS ELES NÃO SÃO DO PRIMEIRO MUNDO?


Pinochet e Thatcher: a 'pérfida Albion' não esquece os amigos 

O país que libertou o psicopata assassino Augusto Pinochet por “razões humanitárias” e que cujos governos mantiveram relações promíscuas com o hipermagnata da mídia Rupert Murdoch agora se recusa a dar um salvo conduto para que Julian Assange, criador do Wikileaks, possa se asilar no Equador. Sim, o Equador de Rafael Correa, aquele inimigo contumaz da liberdade de imprensa, segundo a grande mídia, lembram-se? Não satisfeito, o governo de Sua Majestade britânica ameaça invadir a embaixada do Equador em Londres - coisa que nem ditaduras têm coragem de fazer. E todo mundo acha normal. Imaginem a grita se Rafael Correa ou Hugo Chávez tencionassem algo semelhante. 

O soldado Bradley Manning, preso sem julgamento nos EUA

E o que dizer do governo americano, que mantém preso, em confinamento solitário, sem julgamento – sabe-se lá por quanto tempo – o soldado Bradley Manning, que passou as informações sigilosas do Departamento de Estado para o Wikileaks? Cadê os movimentos sociais, as ONGs internacionais que denunciam abusos só abaixo do Rio Grande? Cadê as entidades de defesa dos homossexuais? (Manning é homossexual)? Cadê a mídia sempre pronta a denunciar ameaças à liberdade de expressão na Venezuela, no Equador e na Argentina? Ou a violação de direitos humanos não conta quando acontece num país de "Primeiro Mundo"? O texto do Paulo Moreira Leite faz um bom apanhado sobre o caso.

Liberdades seletivas

Paulo Moreira Leite, em seu blog

Pois é, meus amigos. Coube ao governo de Rafael Correa, apontado como inimigo da liberdade de imprensa, acusado de ser um candidato a ditador latino-americano, boliviariano de carteirinha, a primeira e até agora única iniciativa para defender os direitos de Julian Assange, o patrono do Wikileaks, responsável pelas mais importantes revelações sobre a diplomacia norte-americana desde a a liberação dos papéis do Pentágono, durante a Guerra do Vietnã.

Você sabe a história. Com auxílio de fontes militares, Assange divulgou pelos principais jornais do planeta um pacote de documentos internos do Departamento de Estado. Mostrou políticos locais bajulando embaixadores. Desmascarou demagogos e revelou pilantras sempre a postos a prestar favores a Washington, contrariando os interesses de seus países.

Graças a Assange, fomos informados de que a embaixada dos EUA em Tegucigalpa sempre soube que a queda de Manoel Zelaya, em 2009, foi um golpe de Estado – e não uma ação em defesa da democracia, como Washington passou a acreditar quando se constatou que seus aliados de sempre haviam se livrado de um adversário bolivariano para governar o país com os métodos reacionários de sempre.
Manifestantes pró-Assange em frente à embaixada do Equador em Londres

Não é qualquer coisa, quando se sabe que, três anos mais tarde, outro elo fraco da democracia no continente – o Paraguai – seria derrubado num golpe instantâneo, desta vez com apoio de Washington desde o primeiro minuto.

As informações divulgadas por Assange não têm aquela função de entretenimento cotidiano, que alimenta a indústria de comunicação com sua carga regular de fofocas, escândalos, e vez por outra,  grandes reportagens – relevantes ou não.
Ele também não é uma Yaoni Sanchez, a dissidente cubana que faz oposição ao regime de Fidel Castro. Yaoni deveria ter todo o direito de trabalhar em paz, ninguém discute.

Num período de Murdoch na Inglaterra e jornalismo cachoeira no Brasil, Assange atua em outra esfera e assumiu relevância mundial.
Veicula informações de interesse público, confiáveis e fidedignas, que nos ajudam a entender como o mundo funciona nos bastidores da vida real e não nos coquetéis promovidos por empresas de relações públicas. Seu trabalho contribui, efetivamente, para elevar a consciência de nossa época. E é por isso que incomoda tanto. Pressionadas, até corporações financeiras gigantescas, como Visa e Master Cards, deixaram de receber as contribuições que sustentavam o Wikileaks.

Num mundo em que tantos pilantras e delinquentes se enrolam na bandeira da liberdade de expressão para aplicar golpes e divulgar mentiras, Assange recoloca em termos atuais o debate sobre sigilo da fonte. Defender o sigilo da fonte, muitas vezes, é apenas uma obrigação em nome de um direito maior, que envolve uma proteção universal.

A defesa da liberdade de imprensa, muitas vezes, é feita apesar da imprensa. APESAR de seus erros, apesar de seus desvios, não se pode aceitar  a censura e por isso defendemos o direito da imprensa errar. É essa situação que leva muitas pessoas a defender – com indignação risível – profissionais e veículos que cometem grandes barbaridades e veiculam delinquências em letras de forma só porque tem certeza da própria impunidade.

Julian Assange provocou escândalos porque não precisava ser tolerado nem defendido. Jamais publicou uma informação errada. Jamais pode ser acusado de falsificar um único dado. E, em nova ironia da história, o soldado  que é apontado como  sua fonte permanece preso, incomunicável, há quase 3 anos, num quartel dos Estados Unidos.
Com tais antecedentes, você não teria receio de ser raptado e levado sem julgamento para uma prisão nos EUA?

Murdoch (à esq.) e o premiê britânico David Cameron: eles se entendem 
Estamos assim. Libera-se a fonte dos picaretas e malandros. Prende-se  a fonte do Wikileaks. Murdoch e seus empregados que espionavam famílias e cidadãos inocentes, corrompendo policiais para conseguir segredinhos e ganhar dinheiro, tem direito a constituir advogado, comparecem a julgamento, se defendem. Já o Wikileaks é tratado na força bruta.

Há outra ironia, porém. Abrigado na representação do Equador em Londres, Assange precisa de um salvo conduto para deixar o país. O governo Cameron  se recusa a fornecer o documento. Conforme notícia dos jornais, até ameaça invadir a embaixada, o que seria, vamos combinar, um escândalo dentro de outro. Assim, o governo  que protegeu e alimentou tantos empregados de Rupert Murdoch e sua fábrica de mentiras, resolve jogar duro contra uma organização que até agora só publicou verdades indesmentíveis.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

DEMOCRACIA NA AMÉRICA: NÃO É BEM ASSIM


O sistema prisional americano é considerado um dos piores do mundo. Ele é tão repressivo que abriga 25% da população carcerária mundial, embora os EUA respondam por apenas 5% da população do globo. Nem a ditadura chinesa tem proporção tão alta de presos. A maior parte dos presos é negra, num país em que os negros constituem minoria (cerca de 12%). E a situação das prisões piorou consideravelmente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, sem falar em Guatánamo.  Além disso, os EUA são um dos únicos países desenvolvidos que não aboliram a pena de morte. O Estado do Texas, que já foi governado por George W. Bush, é o campeão de execuções. Exames de DNA provaram, à posteriori, que vários executados eram inocentes. Mas nada parece convencer as autoridades americanas a mudar o sistema. Abaixo, um texto do Terra sobre o tema:     
Do Terra
Com 55 da população mundial, EUA têm 25%   dos presos 
Os Estados Unidos têm, menos de 5% da população mundial, mas respondem por quase 25% dos presidiários do planeta. Os EUA lideram o mundo na produção de presidiários, um reflexo de uma abordagem relativamente recente e agora caracteristicamente americana quanto ao crime e castigo.
Americanos estão cumprindo sentenças de prisão por crimes como uso de drogas e passar cheques sem fundo, que raramente resultariam em encarceramento em outros países.
E, além disso, as sentenças no país se tornaram muito mais longas do que as de prisioneiros de outras nações. Criminologistas e estudiosos do direito em outras nações industrializadas se declaram chocados e atônitos diante do número e da duração das sentenças de prisão que costumam ser aplicadas nos EUA.
O país tem 2,3 milhões de criminosos atrás das grades, número muito superior ao de qualquer outra nação, de acordo com dados do Centro Internacional de Estudos Penitenciários, do King's College, em Londres.
A China, com população quatro vezes maior que a americana, ocupa um distante segundo posto, com 1,6 milhão de prisioneiros. O número exclui centenas de milhares de pessoas que cumprem sentenças de detenção administrativa, muitas das quais no sistema extrajudicial chinês de reeducação pelo trabalho, que muitas vezes recebe ativistas políticos que não cometeram qualquer crime.
San Marino, com uma população de cerca de 30 mil habitantes, ocupa o último posto na longa lista de 218 países que o centro compilou. Há apenas um prisioneiro lá.
Os EUA também estão no primeiro posto em uma lista mais significativa preparada pelo centro, organizada por porcentagem de população encarcerada.
Há 751 presidiários para cada 100 mil habitantes, nos Estados Unidos, e se incluirmos no conta apenas os adultos, 1% da população do país está na prisão.
O único outro grande país industrializado a chegar perto é a Rússia, com 627 presidiários por 100 mil habitantes. Os demais têm índices muito inferiores - 151 na Inglaterra, 88 na Alemanha e 63 no Japão.
A média entre todos os países pesquisados é de 125, cerca de um sexto do índice americano. Não há dúvida de que os altos índices de encarceramento ajudaram a reduzir a criminalidade no país, ainda que os especialistas discordem quanto às dimensões do efeito.
Os criminologistas e especialistas judiciais americanos e internacionais apontam para um emaranhado de fatores que explicariam o nível incomum de encarceramento no país: incidência maior de crimes violentos, normas mais duras de sentenciamento, um legado de disparidade racial, fervor especial no combate às drogas, o temperamento dos americanos, e a falta de uma rede de segurança social.
Até mesmo a democracia influencia a situação, porque muitos dos juízes são selecionados em eleições, o que representa outra anomalia americana. Cedem às demandas populistas por Justiça mais severa.
Qualquer que seja a razão, a disparidade entre o sistema de Justiça americano e o do resto do mundo está crescendo rapidamente. "Longe de servir como modelo ao mundo, os EUA contemporâneos são encarados com horror", disse James Whitman, especialista em direito comparativo da Universidade Yale. Certamente não temos governos europeus enviando delegações ao país para aprender como administrar prisões."
As sentenças de prisão se tornaram "imensamente mais duras do que em qualquer outro país ao qual os EUA seriam usualmente comparados", disse Michael Tonry, um dos principais estudiosos americanos de política criminal.
De fato, diz Vivian Stern, pesquisadora do centro de estudos penitenciários do King's College, o nível de encarceramento fez dos EUA "um país renegado, uma nação que tomou a decisão de não adotar a abordagem ocidental normal sobre o tema".
A alta nos índices de encarceramento americanos é tendência recente. De 1925 a 1975, o índice se manteve estável, em cerca de 110 presidiários por 100 mil habitantes.
Os números começaram a disparar em função do movimento de combate ao crime por meio de leis mais severas, iniciado no final dos anos 70. O índice relativamente elevado de crimes violentos no país, em parte facilitado pela disponibilidade bem maior de armas, ajuda a explicar o número alto de presidiários no país.
"Os índices referentes a assaltos não diferem tanto entre Nova York e Londres", disse Marc Mauer, diretor executivo da Sentencing Project, uma organização de pesquisa e defesa dos presidiários.
"Mas caso consideremos os índices de homicídio, especialmente com o uso de armas de fogo, a disparidade aumenta muito." A despeito de uma queda recente, o índice de homicídios nos EUA continua quatro vezes superior ao de muitos países da Europa Ocidental.
Mas essa é apenas uma explicação parcial. Os EUA na verdade têm índices relativamente baixos de crimes não violentos. O número de furtos e invasões de domicílio é proporcionalmente inferior no país ao da Austrália, Canadá e Inglaterra.
As pessoas que cometem crimes não violentos em outros países têm menos probabilidade de ir para a prisão, e certamente recebem sentenças bem mais curtas do que acontece nos EUA, que na verdade são o único país avançado a impor sentenças de prisão a pessoas culpadas de crimes como passar cheques sem fundos.
Whitman, que estudou o trabalho de Alexis de Tocqueville sobre as prisões dos EUA, quando perguntado sobre o motivo da alta na população carcerária americana respondeu que "infelizmente, boa parte da resposta se relaciona à democracia - exatamente o tema de que Tocqueville tratou. Temos um sistema de justiça criminal altamente politizado".
Tradução: Paulo Migliacci 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

FALTAM MUITOS NO BANCO DOS RÉUS


O Tribunal de Justiça de São Paulo reconheceu hoje, por três votos a zero, o coronel da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra como torturador. Sobre ele, o ex-ministro da Justiça e atual integrante da Comissão da Verdade José Carlos Dias disse o seguinte:

O coronel Ustra encarna a lembrança mais terrível do período que vivemos. Terá dito que lutou pela democracia, quando, na realidade, emporcalhou, com o sangue de suas vítimas, a farda que deveria honrar”. 
A ação contra Brihante Ustra foi movida pela família Teles (César, Criméia e Maria Amélia), presos e torturados no DOI-Codi do II Exército em 1973. Para Fábio Konder Comparato, advogado da família, “a decisão vai melhorar muito a imagem do Brasil diante de organizações internacionais que defendem os direitos humanos”. Foi a primeira vez que um órgão colegiado da Justiça brasileira reconheceu um agente da ditadura como torturador. Em junho, Ustra foi condenado em primeira instância a indenizar a família do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, assassinado em 1971 em decorrência de torturas no DOI-Codi da Tutóia.
Trata-se de uma decisão histórica. Embora ainda caiba recurso, o veredicto do TJ confirma condenações de Ustra em primeira instância. Mas é preciso lembrar que não basta reconhecer torturadores que, embora oficiais das Forças Armadas, eram paus mandados dos altos mandos militares e do próprio governo de então. Como lembra Paulo Sérgio Pinheiro, outro integrante da Comissão da Verdade:  

“[A prática de torturas durante a ditadura militar] não foi abuso, não foi excesso: foi uma política de Estado. As dezenas de jovens assassinados no Araguaia foram mortos por uma política pública que dizia que eles não poderiam sair vivos de lá. As casas de tortura [a Casa da Morte em Petrópolis e similares] também operavam por ordem dos ministérios militares. Se não conseguirmos comprovar que todas as práticas de agentes contra militantes foram políticas de Estado, falharemos no nosso papel”

Então, é preciso responsabilizar os mandantes, mesmo que estejam mortos. Na Argentina, o general Jorge Rafael Videla foi condenado à prisão perpétua e perdeu todos os postos e condecorações militares. Hoje ele é um nada. Aqui, não apenas nenhum torturador – à exceção agora de Ustra – foi processado ou condenado como os marechais e generais que chefiaram a ditadura – como Médici, responsável pela ordem de aniquilar os guerrilheiros do Araguaia – não apenas mantiveram seus postos, manchando as Forças Armadas que lutaram contra o nazi-fascismo na Itália, como dão nomes a ruas e logradouros. Petulantes, as viúvas da ditadura ainda impedem qualquer reconhecimento feito a combatentes. Em 2007, por exemplo, o Ministério da Justiça concedeu a Carlos Lamarca (assassinado em 1971) o posto de coronel do Exército – ele chegou a capitão – e o pagamento de uma indenização à sua família. Mas em 2010, a Justiça acatou um pedido do Clube Militar e suspendeu as ações.

Em 1946, o jornalista David Nasser escreveu um livro, Falta Alguém em Nuremberg, denunciando a impunidade do chefe da repressão do Estado Novo, o capitão Filinto Müller. Pois bem, hoje, faltam muitos, quase todos, no banco dos réus dos violadores de direitos humanos durante a ditadura.      

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A VITÓRIA PÓSTUMA DE BARRY GOLDWATER

Paul Ryan (esq.) e Mitt Romney
Com sua proverbial verve, Noam Chomsky disse certa vez que os Estados Unidos são um país de partido único, com duas facções; democratas e republicanos. O país berço da democracia moderna está muito próximo disso, com o agravante de que as diferenças entre as duas facções estão se estreitando a cada dia. Não é de hoje que o Partido Republicano virou um partido de direita e o Partido Democrata, uma agremiação de centro, mas cada vez mais próximo do centro-direita. Mas preocupante é a marcha célere dos republicanos rumo à extrema direita. No sábado, o candidato republicano Mitt Romney escolheu como vice um representante do Tea Party, o congressista Paul Ryan, de Wisconsin. Trata-se de um crítico feroz dos gastos públicos, antiabortista fanático, favorável à criminalização do aborto em qualquer circunstância, mesmo em casos de risco para a vida da mãe e estupro. Quase um homem do Neardenthal, em suma.    
Barry Goldwater

Esse giro ultraconservador foi tentado pela primeira vez em 1964, quando os republicanos lançaram o reacionário senador pelo Arizona Barry Goldwater como candidato à Casa Branca. Ao contrário dos republicanos tradicionais, ele destoava do consenso que se criou depois da guerra em torno das políticas sociais do New Deal. Também defendia que os EUA jogassem bombas atômicas sobre o Vietnã. Perdeu fragorosamente para o democrata Lyndon Johnson, que jogava “apenas” bombas convencionais e de napalm sobre os vietnamitas. Em 1968 os republicanos lançaram Richard Nixon que, embora anticomunista ferrenho, era um republicano pragmático, tradicional. Tanto que, em seu governo, Nixon articulou uma aliança com a China de Mao, fez a détente com a URSS, reduzindo testes nucleares, e pôs fim à Guerra do Vietnã – não sem antes invadir o Camboja e bombardear impiedosamente os vietnamitas. A virada republicana à direita à outrance ocorreu em 1980, quando o californiano Ronald Reagan, herdeiro político de Goldwater, ganhou as primárias republicanas e depois conquistou a Casa Branca. Não por acaso, o último representante do ultraliberalismo americano (que significa algo como social-democrata europeu), Ted Kennedy, foi derrotado nas primárias pelo então presidente democrata Jimmy Carter, que perderia para Reagan. 

O inacreditável Dan Qayle

Depois de Reagan, os republicanos tradicionais voltaram à cena com a eleição de George H.W. Bush (pai), mas seu vice era um ser apatetado chamado Dan Quayle, que, aliás, era muito mais um reaça estulto do que propriamente direitista ideológico. Uma piada da época dizia que o serviço secreto americano estava orientado para eliminar Quayle imediatamente caso Bush fosse assassinado. E então, depois do interregno Bill Clinton, vieram as trevas de Bush Jr. Prova de que política não está no gene, George W. Bush era alinhado com os ultraconservadores “neocons”, e fez talvez a administração mais reacionária e incompetente dos EUA. Seu vice, Dick Cheney, conseguia ser ainda mais retrógado, embora tivesse mais luzes que o chefe. 

E a mais inacreditável ainda Sarah Palin

E quando o pêndulo republicano se inclinou novamente para um pragmático (John McCain), em 2008, o GOP teve que compensar os ultras escolhendo uma vice troglodita, Sarah Palin, alguém tão à direita – e intelectualmente no mesmo nível de Dan Quayle – que, perto dela, Margareth Thatcher parece uma perigosa e sofisticada comunista. A fórmula se repete agora com Paul Ryan, um hidrófobo à Barry Goldwater, mas muito mais estúpido do que ele.   

LA MEDIA DESNUDA

La Maja Desnuda, de Goya 

Dois textos, um do Paulo Nogueira, ex-diretor da Época, outro do Jotavê, do blog do Nassif, dão conta do mal-estar que atinge a grande mídia brasileira, ameaçada de ser desmascarada pelo envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, assim como um de seus áulicos, o ex-senador Demóstenes Torres, autoproclamado Catão dos Trópicos. Historicamente comprometidos com os grandes grupos econômicos dominantes, implacáveis na destruição de adversários políticos e vivandeiras incorrigíveis, mas com discurso pseudo-liberal, os barões estão ficando mais nus do que La Maja Desnuda, do Goya...      

O triunfo de Alberto Dines 

Por Paulo Nogueira  
O jornalista Alberto Dines tinha uma boa definição sobre o código de conduta da grande imprensa brasileira. Era como se as publicações pertencessem à “Hípica”, um clube fechado no qual, por mais que os sócios se detestassem, ninguém falava publicamente nada de reprovável de ninguém. Era bom para eles próprios, mas não, necessariamente, para o interesse público.
O jornalista Alberto Dines
Dines foi, ele próprio, uma exceção de breve mas luminosa duração ao fazer, nos anos 1970, o ‘Jornal dos Jornais’ na Folha, uma crítica domenical da mídia.
Não é exagero afirmar que a carreira profissional de Dines nas grandes corporações foi praticamente liquidada por causa do inovador ‘Jornal dos Jornais’, uma das experiências mais fascinantes da história do jornalismo nacional. Dines teve que esperar a internet para, nela, construir o Observatório da Imprensa, uma espécie de versão digital do ‘Jornal dos Jornais’.
Quando diretor da Editora Globo, propus certa vez a João Roberto Marinho uma reportagem na Época sobre denúncias na internet contra a grande imprensa. Num email a JRM, que é na prática o editor das Organizações Globo, lembrei a frase de Dines sobre a Hípica. Bem, para encurtar a história, a recomendação – ordem, usemos a palavra certa – foi para não dar o texto.
Pois a Hípica foi invadida.
Na televisão e no mundo do papel, a Record e a Carta Capital estão publicando coisas que jamais seriam levadas ao público antes – excetuado o da internet.
Há interesses claros por trás da Record e da Carta, e o público deve levá-los em consideração. A Record quer derrubar a Globo, e tem um problema específico com a Abril, que publica a Veja. A Carta, fora a simpatia por Lula, é dirigida por Mino Carta. Mino jamais superou o trauma de sua saída da Veja, no final dos anos 1970. A cada dia, parece detestar mais Roberto Civita, ao qual atribui sua saída. Se pudesse, Mino marcaria um encontro com Civita numa próxima vida para um acerto de contas.
Do ponto de vista jornalístico, e estilístico, o material da Carta é superior ao da Record. Basicamente, porque Mino tem um talento extraordinário. E, ideologicamente, sua simpatia pelos chamados “99%” – semelhante à social democracia europeia, representada no presidente francês François Hollande – está muito acima da exploração da fé feita pela igreja que controla a Record.
Fique, ainda uma vez, claro: há, claro, viés no conteúdo da Record e da Carta sobre o que Dines chamou de “Hípica”. Não existe nele o que os idealistas chamam de objetividade e imparcialidade.
Mas, mesmo com essa ressalva, o público lucra com o novo quadro. Sobre isso não é dúvida. Da troca de tiros vai nascer, na marra, um debate indispensável sobre quais são os limites éticos e legais do jornalismo – até que ponto jornalistas podem ir à busca de informações.
Uma descarga de transparência na mídia – nos nomes que estão aí e nos que porventura chegarem com a nova era digital – pode não ser do interesse da “Hípica” de que falava Dines, mas é de absoluto interesse público.

O governo e a convocação de Policarpo na CPI

Por  Jotavê
Policarpo Jr., diretor da sucursal de Brasília de Veja
A Globo, ontem, fez o jogo dela. Sabe que a revista Veja corre o perigo de ir para a fogueira e tratou de sair na frente, dando uma matéria no Fantástico a respeito de Carlinhos Cachoeira. Nem uma palavra sobre Policarpo Jr., é claro. Faz sentido. Afinal, a emissora foi parceira da Veja esse tempo todo. Repercutiu uma a uma as matérias criminosas feitas pela revista, como o grampo sem áudio. Se disser que Veja estava o tempo todo vinculada a um criminoso irá admitir indiretamente que ela também estava. Nojento, portanto. Mas compreensível.
Mais nojenta e menos compreensível é a atitude dos parlamentares da base aliada na CPMI, que vêm atuando como verdadeiros guardiões da revista, sabotando sistematicamente todas as tentativas de convocar Policarpo Jr. para depor. O Partido dos Trabalhadores não é uma pobre vítima do PMDB de Temer, como dizem alguns. É CÚMPLICE de Temer. Ambos atuam em conjunto para proteger a revista. Há vozes isoladas (não só nem principalmente do PT) pedindo a convocação. O PT enquanto partido tem sido CONTRA. 
Ao que tudo indica, existe um acordo de "cavalheiros" entre o governo Dilma Rousseff e a editora Abril. A revista Veja faria apenas críticas pontuais ao governo, sem lançar nenhum tipo de campanha sistemática de desestabilização. Em troca, o governo cerraria fileiras contra o envolvimento da revista na CPMI. Agora, com o surgimento de novas evidências, o preço parece ter aumentado. Já não basta mais "pegar leve". Tem que aderir. Tem que apoiar. Anunciando na capa seu apoio ao governo Dilma Rousseff, a revista (para usar a metáfora popular que vem tão a propósito neste caso) ficou de quatro. Não se trata exatamente, como se vê, de uma posição política.
Meu palpite é que o assunto ganhou dinâmica própria. Cada vez menos deputados estarão dispostos a encobrir as falcatruas da revista. Temos que ficar atentos. Minhas atenções, por exemplo, recaem sobre o deputado Protógenes Queiroz, em quem infelizmente votei nas últimas eleições. No momento em que mais precisávamos dele, sumiu. Fez tanto barulho, e na hora H não dá as caras. O delegado deve explicações, sim, e não apenas a respeito da revista Veja. Vemos agora quem era o Dadá que ele chamou para auxiliá-lo durante a operação Satiagraha. Um capanga de Carlos Cachoeira. Um torturador a mando de um bicheiro, pelo que mostram os áudios divulgados ontem pela Rede Globo. Não duvido que o silêncio do delegado seja o produto de algum tipo de chantagem. Envolveu-se até o pescoço com essa gente, que agora tem munição de sobra para usar contra ele, caso não se comporte direitinho. 

Temos que denunciar sistematicamente E SEM MEDO os parlamentares que traem nosso voto nesse caso. Nada de aliviar a situação dos parlamentares do PT, por exemplo. Cada um tem que mostrar a sua cara. Queremos a convocação de Policarpo Jr. Queremos ver a revista Veja na berlinda, explicando-se a respeito de suas relações com Carlos Cachoeira. Achamos uma infâmia que parlamentares de esquerda ajam como têm agido nesse caso. Não votaremos mais em quem se comporta desse modo. Vocês ficarão sozinhos em breve. Sem mandato, serão alvos fáceis para seus algozes. Quatro anos passam muito rapidamente. Dois, aliás, já se passaram. 

 

POLÍTICA, NÃO APENAS ELEITORAL


Trechos da entrevista com o cientista político Luis Werneck Vianna, onde ele fala sobre alianças políticas, presidencialismo de coalizão, e da necessidade de rompermos o quadro de imobilismo que esse sistema propicia. Para isso, diz Werneck, é preciso encontrar novas formas de conjurar a instabilidade crônica que levou às traumáticas renúncias de dois presidentes psicologicamente instáveis e que não tinham maioria no Congresso: Jânio Quadros em 1961 e Fernando Collor de Melo, em 1992. Segundo ele, é preciso institucionalizar um sistema de alianças para consolidar os partidos e depender menos do personalismo político.
         
HU On-Line – Que espécie de política se desenha em nosso país a partir das alianças que vêm sendo feitas em nome da busca pelo poder?
Jânio Quadros: personalista e errático...
Werneck Vianna – Nossa forma não programática de alianças, que são feitas por meros interesses eleitorais – como o tempo de televisão –, já têm uma certa história. O presidencialismo de coalizão tem tido essa característica entre nós, porque não necessariamente ele deve ser tão arbitrário quanto à orientação programática. Mas o fato é que ele tomou essa característica desde o governo Fernando Henrique Cardoso, porque as alianças têm sido desencontradas. Ao longo dos mandatos do PT, especialmente a partir do segundo mandato do presidente Lula, isso tomou uma proporção imensa.
Na verdade, essas alianças não são feitas para que uma determinada orientação seja posta em prática, ou um determinado programa se viabilize, mas apenas para garantir maioria parlamentar para o governante.

Aliás, o tema da maioria parlamentar se tornou um espantalho desde o impeachment do governo Collor. Hoje a queda é atribuída, em boa parte de modo verdadeiro, ao fato de ele vir de um partido minoritário e não ter sabido compor uma base congressual. A partir daí, esse espantalho vem dominando o presidencialismo brasileiro.

O fato é que, desde que essa política foi sendo vitoriosa, caíram todas as reservas, todas as prudências, formando-se um campo aberto de troca. Esse é o lado nefasto.
No entanto, olhando de outro ângulo, essa base larga, essa ampla maioria que hoje o chefe do Executivo tem conseguido lograr no Legislativo tem dado estabilidade à política brasileira.

Mas é uma estabilidade que não faculta a aventura, o risco, a descoberta, a inovação. Certas reformas muito necessárias para que o país dê um avanço, um salto, esbarram nessa larguíssima coalizão, que atinge várias dimensões, desde a economia e a política até a sociedade.

...Como Collor de Melo, 30 anos depois
Os ventos cruzados que se estabelecem no interior da coalizão governamental fazem com que haja um comportamento paquidérmico do governo, que é obrigado a respeitar os limites dados por essa amplíssima base governamental, onde todos cabem e onde tudo cabe. São embates que se sucedem e que têm um consenso muito difícil, e que não dão nenhum bônus, não dão agilidade e limitam a capacidade de uma nação em um momento em que inovar é fundamental.

É preciso mudar o repertório da política que está anacrônico já há algum tempo. É evidente que essas alianças, por outro lado, afetam a identidade partidária. Os partidos já são naturalmente enfraquecidos por uma série de circunstâncias sociais que não são atuantes apenas aqui no Brasil, mas com essas acrobacias se tornam ainda mais vulneráveis.

Por exemplo, em tese é aceitável, mas é difícil digerir o apoio de Paulo Maluf à candidatura do PT, por causa do histórico de oposição entre eles e pela história pessoal de Maluf, que não é muito recomendável.

IHU On-Line – É possível governar sem alianças políticas em um regime democrático?
Werneck Vianna – As alianças são absolutamente necessárias. Quanto a isso não resta nenhuma dúvida. Em uma sociedade plural, como a brasileira, pensar que uma tendência ou partido, ou apenas um sistema de orientação dará cabo dos problemas existentes é cair na ilusão, mesma ilusão que o Collor teve, de que a partir de um Executivo forte é possível reformar e reestruturar o país.
Essa experiência foi feita também por Jânio Quadros antes de 1964, que governou sem uma base forte de sustentação e isso o levou à crise e à renúncia.


IHU On-Line – O problema está nos limites dessas alianças…
Werneck Vianna – Certamente. O limite deveria ser o programa. Mesmo que não fosse um programa explícito, mas um programa que tivesse certa abrangência, que pudesse admitir parceiros com identidades diversas e que pudesse ser revisado, e não essa “feira” ideológico-político-partidária em que nos encontramos, cujo efeito é o de estimular o decisionismo do Executivo, porque, dado esse embate entre as forças políticas que têm orientação desencontrada, esse poder se sente compelido a agir por sua própria orientação, tentando produzir resultados quase autocraticamente, através desse sistema decisionista, vertical. Este é um efeito muito negativo dessa construção.

IHU On-Line – O senhor poderia fazer uma breve análise do atual quadro partidário brasileiro?
Werneck Vianna – Não é fácil. Se formos tentar trabalhar a partir da clivagem mais ideológica, de velho tipo, teremos os partidos de orientação socialista e os partidos de orientação liberal-burguesa. Num campo teremos o PT, o PCdoB, o PSOL, o PPS de certo modo, que tem até o socialismo no nome, e teremos o PSB. E do outro lado teremos o DEM e outros que de memória não consigo recuperar. Não posso esquecer de mencionar o PDT, que entra no campo doutrinário do socialismo, isso se formos tomar o que é dito e não o que é praticado. Essa linha ideológica se mostra inoperante para recortar o quadro atual.

Alianças: por que esta aliança causou tanta indignação cívica... 
O que temos é agregação de interesses. Temos partidos que agregam os evangélicos, os ruralistas e as corporações, que também se fazem presentes. Elas invadem a vida partidária. Esse sistema partidário não foi feito para que a sociedade encontre formas expressivas de se incluir no mundo da política. Ele está feito para expressar interesses e diferenças regionais; não é um quadro que favoreça a limpeza e a firmeza de identidade. 

Ele está voltado para uma grande competição eleitoral. Isso certamente não oferece um bom cenário para a democracia política brasileira.
Por outro lado, tudo o que existe em nossa sociedade encontra formas de expressão na vida política partidária, o que é uma dimensão saudável. No entanto, isso cria um quebra-cabeça de enorme dificuldade.

O presidencialismo de coalizão é uma resposta a isso: é criar certa unidade a partir deste mundo extremamente fragmentário. O problema é que só quem pode estabelecer essa unidade é o Executivo, o que faz com que esse quadro, que é aparentemente ameno e afável de expressão da diversidade existente na sociedade brasileira, contenha elementos autoritários, que favorecem a ação do Executivo, porque só ela é capaz de cimentar e soldar essa multiplicidade de identidades e interesses.

Diga-se de passagem que o presidente Lula demonstrou um enorme tirocínio e habilidade em trabalhar diante desse cenário, tirando proveito desse quadro político e colocando-o a seu favor. Essa solda, esse cimento que ele soube instituir não é uma arte de fácil transferência. Essa era uma das características dele, pela sua capacidade de articulação que veio do seu treinamento no mundo sindical.
Com a Dilma temos outro quadro na mesma política. Ela imprime outra administração, de alta burocracia do mundo da gestão, o que não quer dizer que ela seja indiferente à política. E não é. Mas ela não tem nem o mesmo gosto, nem o mesmo treino.

...E esta, nem tanto - na verdade, quase nada?
IHU On-Line – Em entrevista concedida à nossa revista em março deste ano, o senhor apostava no ressurgimento da política nos próximos anos com muita força, apontando que “não há mais possibilidade de segurar a sociedade com esse jogo de manter os contrários em permanente equilíbrio”. Como avalia essa declaração hoje, quatro meses depois?
Werneck Vianna – Confirmo-a inteiramente. Só que quando me refiro aos “contrários”, não falo das concepções antagônicas do mundo como, por exemplo, concepções socialistas e concepções liberal-capitalistas. Eu estava me referindo a interesses. O que eu estava dizendo é que o governo Lula foi capaz de trazer para o seu interior múltiplos interesses divergentes como a agricultura familiar e o agronegócio.
Eu dizia que essa operação tinha um prazo de validade e que no governo Dilma tenderia a se derruir. E vejo que está se derruindo diante dos nossos olhos. Nós podemos dizer que a política volta agora de forma muito clara. As eleições municipais estão deixando isso manifesto. A pluralidade da sociedade está procurando formas expressivas como independência dessa forma política do presidencialismo de coalizão.