A greve
Encouraçado Potemkin
Outubro
Ivan, o Terrível
Que Viva México!
Trata-se de um blog despretensioso de um jornalista dublê de sociólogo que deixou as grandes redações depois de ter acumulado décadas de experiência e, em função disso, acredita que tenha algo a transmitir a eventuais leitores... além de, claro, cumprir o dever de ofício de ajudar a "desafinar o coro dos contentes", como dizia Torquato Neto, e de "consolar os aflitos e afligir os consolados", como pregava Joseph Pulitzer.
"Há um amontoado de corpos no vagão, esta dor lancinante no joelho direito. Os dias e as noites. Faço um esforço e tento contar os dias, contar as noites. Isso talvez me ajudará a ver claro. Quatro dias, cinco noites. Mas talvez eu tenha contado mal ou então há dias que se transformam em noites. Tenho noites a mais, noites a revender. Uma manhã, é seguro, foi numa manhã que esta viagem começou. Toda aquela jornada. Em seguida uma noite. E depois uma outra jornada. Estávamos ainda na França e o trem apenas tinha se mexido. Ouvíamos vozes, às vezes ferroviários além do ruído das botas dos sentinelas. Esqueça esta jornada, isto foi o desespero. Uma outra noite. Levanto um outro dedo na penumbra. Um terceiro dia. Uma outra noite. Três dedos da mão esquerda. É nesse dia que estamos. Quatro dias, então, e três noites. Avançamos rumo à quarta noite, ao quinto dia. Rumo à quinta noite, ao sexto dia. Mas somos nós que avançamos? Estamos imóveis, amontoados uns sobre os outros, é a noite que avança, a quarta noite rumo a nossos futuros cadáveres imóveis"
Os singelos versos do poema Rosa de Hiroshima, de Vinícius de Morais (musicado por Gerson Conrad e interpretado por Ney Matogrosso), são uma das mais belas manifestações poéticas contra a estupidez, a crueldade e a violência da guerra nuclear.
Mas o horror trazido pelo medo atômico também nos deixou “cegos inexatos” em relação à violência de outros bombardeios da mesma época, não atômicos, mas igualmente indiscriminados contra civis. Como o de Dresden (Alemanha), entre 13 e 14 de fevereiro de 1945, quando aviões britânicos e americanos despejaram 3.900 toneladas de bombas e dispositivos incendiários na cidade, pulverizando-a e matando cerca de 22 mil civis. Ou os de Tóquio, entre 9 e 10 de março de 1945. Nestes, os americanos esperaram as condições meteorológicas ideais para que os incêndios provocados pelas explosões de bombas incendiárias e napalm jogadas pelas Superfortalezas voadoras B-29 sobre casas de madeira e bambu se espalhassem. Também não havia alvos militares. Entre 83 mil e 100 mil civis morreram. Ou então os terríveis bombardeios britânico-americanos - represália à ofensiva alemã sobre Londres em 1940 - que calcinaram Hamburgo, em 1943, e provocaram a morte de nada menos que 50 mil pessoas.
Mas ele também escreveu que a guerra é a continuação da política por outros meios. Assim, há considerações de ordem política, militar e geopolítica que, senão justificam, pelo menos explicam o motivo da aparente insanidade do lançamento de Little Boy e Fat Man (nome das bombas lançadas, respectivamente, sobre Hiroshima e Nagasaki pelo bombardeiro Enola Gay). A primeira é que os EUA temiam que a guerra se prolongasse indefinidamente, dada a disposição do Exército nipônico de lutar até o último homem. Quanto teria custado em vidas americanas uma invasão por terra do Japão? Quanto tempo seria preciso até que os aliados provocassem a derrota final das forças do imperador Hirohito? Tudo isso entrou no cálculo de Washington.
Mas há outra questão, esta de natureza geopolítica e que talvez tenha pesado ainda mais na decisão da Casa Branca de lançar a arma fatal. No início de 1945, a União Soviética começou a atacar o Japão, invadindo as ilhas Sakalinas e Kurilas. Os americanos temiam que os soviéticos pudessem ocupar o Japão ou parte dele, como na Alemanha. Para evitar perder mais terreno para os soviéticos, o presidente Harry S Truman autorizou o lançamento das bombas atômicas sobre as cidades japonesas. O impacto deixou o Japão de joelhos e apressou o fim da guerra antes que o Exército Vermelho tivesse condições de avançar mais em território japonês.
"Para que a roda gire, para que a vida possa ser vivida, as impurezas são necessárias, assim como são necessárias as impurezas do solo para que ele possa ser fértil. É necessário dissenso, diversidade [...] o fascismo não os quer, os proíbe, e é por isso que você não é um fascista; o fascismo quer que todos sejam o mesmo, e você não é"
“Fabricar consentimento, pela velha arte da manipulação da opinião pública, não morreu com a democracia, como se supunha”
Quando surgiu, em 1980, o PT se pretendia um partido de ruptura absoluta não apenas com a herança trabalhista de Getúlio Vargas como também com o passado stalinista da esquerda ortodoxa formada na escola do Partido Comunista Brasileiro (PCB, o "partidão"). Em relação à herança varguista, o PT encampava as teorias sobre o populismo criadas por alguns intelectuais da USP (hoje abrigados no PSDB): tratava-se de um governo autoritário, desmobilizador das massas, que atrelou os sindicatos ao Estado e criou a CLT inspirada na Carta del Lavoro do fascismo. Vargas representava o nacionalismo ultrapassado, que hostilizava o dinâmico capital estrangeiro - afinal, nessa visão, o polo automobilístico do ABC foi obra de multinacionais como a Volks, a Ford e a Scania. Já em relação à tradição da esquerda, o PT - onde se digladiavam egressos da extrema esquerda, da igreja progressista e "novos" sindicalistas - rejeitava a subordinação do movimento operário aos interesses de um Estado socialista - fosse ele a URSS, a China ou a Albânia - e as concepções de regimes de partido único, típicos do stalinismo. Quanto a esse último ponto, não havia o que objetar, embora o PT, às vezes, pretendesse reinventar a roda desqualificando as lutas populares e nacionalistas anteriores ao seu surgimento. 
Racha do PMDB em 1987, o PSDB foi a contraparte "cheirosa" do PT. Comungando a oposição à herança trabalhista-getulista, PT e PSDB pareciam então ser as duas faces da mesma moeda, a social-democracia brasileira: o primeiro, mais radical e de base operária, e o segundo, mais pragmático e de classe média. Só que os petistas tinham um partido de massas, como a social-democracia europeia, enquanto que os tucanos só tinham cardeais. Para Luís Werneck Vianna, intelectual do Iuperj oriundo do "partidão", isso era um mero detalhe: PT e PSDB eram partidos "paulistas" forjados na redemocratização para dar voz aos setores sociais nascidos com a modernização industrial de São Paulo. Suas origens eram "privadas", as relações capital-trabalho, não o Estado. Além desse berço comum, o desprezo de petistas e tucanos pelo varguismo vinha também do fato de que ambos traziam no DNA a luta contra a ditadura militar. E Vargas conduzira parte de seu projeto político sob a ditadura do Estado Novo (1937-1945) - uma máquina de tortura e repressão que os militares copiariam. O fato de ele ter sido eleito democraticamente em 1950 e de ter se suicidado em 1954 para evitar um golpe da direita que queria impedir as reformas não muda essa realidade.
Quando chegou ao poder, em 1995, FHC estava decidido a "enterrar a era Vargas" e tudo o que ela representava: populismo, nacionalismo, estatismo. Ele quase conseguiu: privatizou a Vale do Rio Doce, o sistema Telebrás e a Embraer, num processo muitas vezes espúrio que ficou conhecido como "privataria". A Petrobras e o Banco do Brasil escaparam por pouco. Por sua vez, Lula, quando finalmente chegou ao poder, em 2003, num primeiro momento ficou paralisado pela herança fernandista - a necessidade de manter a estabilidade da moeda e de não provocar fuga de capitais. Essa postura paralisou o governo em seu início e levou muitos analistas a afirmar que o PT no poder seria igual ao PSDB, talvez com mais "cesta básica". A intransigência na área monetária e as trapalhadas iniciais do Fome Zero pareciam confirmar tal prognóstico.
Esse temor somente se dissiparia no segundo mandato, quando Lula, graças ao mensalão (astúcia da História?) ficaria livre de sua poderosa entourage - principalmente Antônio Palocci e José Dirceu - e passaria a conduzir diretamente o governo. Foi quando finalmente o "lulismo" adquiriu identidade própria. Aí, ganharam corpo os programas sociais, os investimentos em infraestrutura (PAC), o aumento real do salário, o crescimento do empregos - agora num quadro de crescimento sustentado. A ideia de empresas estatais estratégicas se fortaleceu depois que a Petrobras obteve a autossuficiência e descobriu petróleo no pré-sal. Finalmente a crise econômica internacional em 2009 reforçou ainda mais a opção "keynesiana" do governo; embora atingida, a economia brasileira se recuperou rapidamente graças à ação do Estado para estimular o consumo das classes populares. Agora até Werneck Vianna diz que Lula resgatou a era Vargas. "O Lula é um Getúlio", admitiu Vianna numa entrevista, embora o vezo pecebista o leve a dizer que o presidente meramente concluiu a "modernização conservadora" de Vargas. Mas o próprio Lula hoje admite ser herdeiro do projeto nacional-desenvolvimentista. Seus ícones - Vargas, Juscelino e Jango - passaram a integrar o panteão do lulismo.
De outro, temos o projeto do PSDB-DEM, encampado pela grande mídia e pelos organismos financeiros internacionais, que, na falta de nome melhor designaremos como "neoliberal", implantado pelos dois governos FHC (1995-2002). Para ele a estabilidade econômica é sinônimo exclusivo de estabilidade monetária. Ele também busca abertura financeira ao exterior, escora-se na âncora cambial, vê o equilíbrio fiscal como panaceia e promove a privatização de empresas públicas sem considerar os interesses estratégicos do país .
Os resultados já podem ser medidos: a taxa de crescimento do PIB a partir de 2006 se tornou mais elevada. "O crescimento a partir daquele ano trouxe uma característica de qualidade e durabilidade temporal: a taxa de crescimento do investimento se tornou, pelo menos, o dobro da taxa de crescimento de toda a economia", diz Sicsú. O crédito se ampliou drasticamente, de 23% do PIB em 2003 para 46% em 2009. E a expansão do emprego com carteira assinada deu um salto gigantesco: enquanto nos oito anos de FHC foram criados 1.260.000 empregos com carteira assinada, de 2003 a 2010 foram criados mais de 10 milhões de empregos formais. O salário mínimo ficou em média em US$ 150, enquanto que sob FHC a média era US$ 55; a média dos benefícios pagos entre 1995-2002 foi de R$ 18 milhões mensais, enquanto que de 2003 a 2009 a média subiu para R$ 24 bilhões mensais.
Hoje, a Costa Rica é um país predominantemente de classe média - urbana e rural - com cerca de 20% de pobres numa região em que a pobreza é generalizada e com uma agricultura diversificada, sem as pragas da monocultura e do latifúndio. E, como já se disse, foi o único país que escapou do turbilhão de ditaduras truculentas e guerras civis sangrentas que assolou a região e, só nos anos 70, matou 200 mil pessoas na Guatemala, 75 mil em El Salvador e outras dezenas de milhares na Nicarágua.