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sábado, 7 de agosto de 2010

A LONGA VIAGEM

"Há um amontoado de corpos no vagão, esta dor lancinante no joelho direito. Os dias e as noites. Faço um esforço e tento contar os dias, contar as noites. Isso talvez me ajudará a ver claro. Quatro dias, cinco noites. Mas talvez eu tenha contado mal ou então há dias que se transformam em noites. Tenho noites a mais, noites a revender. Uma manhã, é seguro, foi numa manhã que esta viagem começou. Toda aquela jornada. Em seguida uma noite. E depois uma outra jornada. Estávamos ainda na França e o trem apenas tinha se mexido. Ouvíamos vozes, às vezes ferroviários além do ruído das botas dos sentinelas. Esqueça esta jornada, isto foi o desespero. Uma outra noite. Levanto um outro dedo na penumbra. Um terceiro dia. Uma outra noite. Três dedos da mão esquerda. É nesse dia que estamos. Quatro dias, então, e três noites. Avançamos rumo à quarta noite, ao quinto dia. Rumo à quinta noite, ao sexto dia. Mas somos nós que avançamos? Estamos imóveis, amontoados uns sobre os outros, é a noite que avança, a quarta noite rumo a nossos futuros cadáveres imóveis"
Jorge Semprún, A Longa Viagem, sobre o transporte de prisioneiros ao campo de concentração de Büchenwald, o maior em território alemão 

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O HORROR VISÍVEL E O HORROR INVISÍVEL

Os singelos versos do poema Rosa de Hiroshima, de Vinícius de Morais (musicado por Gerson Conrad e interpretado por Ney Matogrosso), são uma das mais belas manifestações poéticas contra a estupidez, a crueldade e a violência da guerra nuclear.



Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas, inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Mas, oh não se esqueçam
da rosa, da rosa
da rosa de Hiroshima
a rosa hereditária
a rosa radioativa
estúpida, inválida
a rosa com cirrose
a anti-rosa atômica

sem cor sem perfume
sem rosa, em nada 
Todo ano o mundo relembra com horror a tragédia das duas bombas atômicas jogadas em agosto de 1945 pelos americanos nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Calcula-se que 140 mil civis morreram na primeira e 80 mil na segunda. Isso sem falar dos incontáveis feridos que ficaram inválidos e das dezenas de milhares de pessoas contaminadas que morreriam de câncer anos depois. As cenas de pessoas mutiladas até hoje nos chocam e causam asco pelo deplorável estado a que chegou a condição humana. Quase voltamos ao estado da natureza hobbesiano (a guerra de todos contra todos).

Mas o horror trazido pelo medo atômico também nos deixou “cegos inexatos” em relação à violência de outros bombardeios da mesma época, não atômicos, mas igualmente indiscriminados contra civis. Como o de Dresden (Alemanha), entre 13 e 14 de fevereiro de 1945, quando aviões britânicos e americanos despejaram 3.900 toneladas de bombas e dispositivos incendiários na cidade, pulverizando-a e matando cerca de 22 mil civis. Ou os de Tóquio, entre 9 e 10 de março de 1945. Nestes, os americanos esperaram as condições meteorológicas ideais para que os incêndios provocados pelas explosões de bombas incendiárias e napalm jogadas pelas Superfortalezas voadoras B-29 sobre casas de madeira e bambu se espalhassem. Também não havia alvos militares. Entre 83 mil e 100 mil civis morreram. Ou então os terríveis bombardeios britânico-americanos - represália à ofensiva alemã sobre Londres em 1940 - que calcinaram Hamburgo, em 1943, e provocaram a morte de nada menos que 50 mil pessoas.

Mas, é bom lembrar – e a lembrança não é uma justificativa, ao contrário – de que quem começou a bombardear alvos civis foram os nazistas, em 1937 em Guernica (Espanha) e depois, em 1940, na Inglaterra. Com relação à "Pérfida Albion", os alemães ainda disseram que os objetivos dos bombardeios não eram os civis, mas as instalações militares e a infraestrutura do inimigo. O fato de muitas delas ficarem em cidades densamente povoadas ganhou uma “explicação” que depois os americanos batizariam de “dano colateral”: mortes de civis por “acidente”. Mas em Guernica não havia essa desculpa: os pilotos alemães da Legião Condor e os italianos da Aviazione Legionaria simplesmente massacraram a população para enfraquecer o moral republicano e “testar” a nova tática, como depois admitiu Hermann Göring, comandante da Lutfwaffe.

Tudo isso para dizer que toda guerra é bárbara; não existe guerra civilizada. "A moderação na guerra é um absurdo", escreveu o grande pensador prussiano Carl Von Clausewitz.

Mas ele também escreveu que a guerra é a continuação da política por outros meios. Assim,  há considerações de ordem política, militar e geopolítica que, senão justificam, pelo menos explicam o motivo da aparente insanidade do lançamento de Little Boy e Fat Man (nome das bombas lançadas, respectivamente, sobre Hiroshima e Nagasaki pelo bombardeiro Enola Gay). A primeira é que os EUA temiam que a guerra se prolongasse indefinidamente, dada a disposição do Exército nipônico de lutar até o último homem. Quanto teria custado em vidas americanas uma invasão por terra do Japão? Quanto tempo seria preciso até que os aliados provocassem a derrota final das forças do imperador Hirohito? Tudo isso entrou no cálculo de Washington.

Mas há outra questão, esta de natureza geopolítica e que talvez tenha pesado ainda mais na decisão da Casa Branca de lançar a arma fatal. No início de 1945, a União Soviética começou a atacar o Japão, invadindo as ilhas Sakalinas e Kurilas. Os americanos temiam que os soviéticos pudessem ocupar o Japão ou parte dele, como na Alemanha. Para evitar perder mais terreno para os soviéticos, o presidente Harry S Truman autorizou o lançamento das bombas atômicas sobre as cidades japonesas. O impacto deixou o Japão de joelhos e apressou o fim da guerra antes que o Exército Vermelho tivesse condições de avançar mais em território japonês.

O aliança com os soviéticos já dera lugar ao medo do "perigo vermelho". E, como disse Shakespeare, “o horror visível tem menos poder sobre a alma do que o horror imaginado”. 

terça-feira, 3 de agosto de 2010

UM QUÍMICO E SEUS ELEMENTOS CONTRA O FASCISMO

"Para que a roda gire, para que a vida possa ser vivida, as impurezas são necessárias, assim como são necessárias as impurezas do solo para que ele possa ser fértil. É necessário dissenso, diversidade [...] o fascismo não os quer, os proíbe, e é por isso que você não é um fascista; o fascismo quer que todos sejam o mesmo, e você não é"

"Não é verdade que a desordem seja necessária para descrever a desordem: não é verdade que o caos na página escrita é o melhor símbolo do caos extremo a que somos submetidos: considero isto um erro característico do nosso século inseguro"

Primo Levi (1919-1987), escritor italiano, químico de profissão, prisioneiro dos nazistas em Auschwitz-Birkenau, autor de É Isto Um Homem? A Trégua, Afogados e Sobreviventes - livros em que narra, de maneira crua e direta, o cotidiano do campo de extermínio - e A Tabela Periódica. Suicidou-se em 1987.

A PLATEIA SÓ DESEJA SER FELIZ

“Fabricar consentimento, pela velha arte da manipulação da opinião pública, não morreu com a democracia, como se supunha”

"A massa é constantemente exposta à sugestão. Ela lê não as notícias, mas as notícias com a aura da sugestão sobre elas, indicando a linha de ação a ser tomada"

“Assumimos que o que cada homem faz é baseado não num conhecimento direto e certo, mas em imagens feitas por si próprio ou que lhe são dadas”

"Quando resultados rápidos são imperativos, a manipulação das massas através dos símbolos pode ser somente a única forma rápida de ter uma coisa urgente feita. É freqüentemente mais importante agir do que entender. E, às vezes, é verdade que a ação falhará se todos a compreenderem"

"Quando os assuntos públicos são popularizados em discursos, manchetes, peças, filmes, cartuns, novelas, estátuas ou pinturas, sua transformação em interesse humano requer primeiro abstração de seu original, e então animação do que foi abstraído. Não podemos estar muito interessados, ou muito comovidos, por coisas que não vemos. Dos assuntos públicos cada um de nós vê muito pouco, e, portanto, eles permanecem maçantes a nada apetitosos, até que alguém, com o labor de um artista, os transladam para um filme"

Walter Lippmann (1889-1974), jornalista e escritor americano, autor do livro Opinião Pública. Para ele, os seres humanos condensam as idéias em símbolos e o jornalismo, na medida em que se transforma em mídia de massa, é incapaz de educar o público, como supunham os iluministas. Mesmo que os jornalistas se esforcem para informar o público sobre questões importantes, Lippmann acreditava que a massa do público leitor não está interessada em aprender e assimilar os resultados de uma investigação jornalística. Esse leitor-massa é demasiado egocêntrico e alienado para se preocupar com políticas públicas, exceto nos casos relativos a questões locais.

Pois é, seu Zé (Gonzaguinha)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

UM LEGADO INCÔMODO - PARA QUEM?

Quando surgiu, em 1980, o PT se pretendia um partido de ruptura absoluta não apenas com a herança trabalhista de Getúlio Vargas como também com o passado stalinista da esquerda ortodoxa formada na escola do Partido Comunista Brasileiro (PCB, o "partidão").  Em relação à herança varguista, o PT encampava as teorias sobre o populismo criadas por alguns intelectuais da USP (hoje abrigados no PSDB): tratava-se de um governo autoritário, desmobilizador das massas, que atrelou os sindicatos ao Estado e criou a CLT inspirada na Carta del Lavoro do fascismo. Vargas representava o nacionalismo ultrapassado, que hostilizava o dinâmico capital estrangeiro - afinal, nessa visão, o polo automobilístico do ABC foi obra de multinacionais como a Volks, a Ford e a Scania. Já em relação à tradição da esquerda, o PT - onde se digladiavam egressos da extrema esquerda, da igreja progressista e "novos" sindicalistas - rejeitava a subordinação do movimento operário aos interesses de um Estado socialista - fosse ele a URSS, a China ou a Albânia - e as concepções de regimes de partido único, típicos do stalinismo. Quanto a esse último ponto, não havia o que objetar, embora o PT, às vezes, pretendesse reinventar a roda desqualificando as lutas populares e nacionalistas anteriores ao seu surgimento.  

Racha do PMDB em 1987, o PSDB foi a contraparte "cheirosa" do PT. Comungando a oposição à herança trabalhista-getulista, PT e PSDB pareciam então ser as duas faces da mesma moeda, a social-democracia brasileira: o primeiro, mais radical e de base operária, e o segundo, mais pragmático e de classe média. Só que os petistas tinham um partido de massas, como a social-democracia europeia, enquanto que os tucanos só tinham cardeais. Para Luís Werneck Vianna, intelectual do Iuperj oriundo do "partidão", isso era um mero detalhe:  PT e PSDB eram partidos "paulistas" forjados na redemocratização para dar voz aos setores sociais nascidos com a modernização industrial de São Paulo. Suas origens eram "privadas", as relações capital-trabalho, não o Estado. Além desse berço comum, o desprezo de petistas e tucanos pelo varguismo vinha também do fato de que ambos traziam no DNA a luta contra a ditadura militar. E Vargas conduzira parte de seu projeto político sob a ditadura do Estado Novo (1937-1945) - uma máquina de tortura e repressão que os militares copiariam. O fato de ele ter sido eleito democraticamente em 1950 e de ter se suicidado em 1954 para evitar um golpe da direita que queria impedir as reformas não muda essa realidade.
Quando chegou ao poder, em 1995, FHC estava decidido a "enterrar a era Vargas" e tudo o que ela representava: populismo, nacionalismo, estatismo. Ele quase conseguiu: privatizou a Vale do Rio Doce, o sistema Telebrás e a Embraer, num processo muitas vezes espúrio que ficou conhecido como "privataria". A Petrobras e o Banco do Brasil escaparam por pouco. Por sua vez, Lula, quando finalmente chegou ao poder, em 2003, num primeiro momento ficou paralisado pela herança fernandista - a necessidade de manter a estabilidade da moeda e de não provocar fuga de capitais. Essa postura paralisou o governo em seu início e levou muitos analistas a afirmar que o PT no poder seria igual ao PSDB, talvez com mais "cesta básica". A intransigência na área monetária e as trapalhadas iniciais do Fome Zero pareciam confirmar tal prognóstico.
 
Esse temor somente se dissiparia no segundo mandato, quando Lula, graças ao mensalão (astúcia da História?) ficaria livre de sua poderosa entourage - principalmente Antônio Palocci e José Dirceu - e passaria a conduzir diretamente o governo. Foi quando finalmente o "lulismo" adquiriu identidade própria. Aí, ganharam corpo os programas sociais, os investimentos em infraestrutura (PAC), o aumento real do salário, o crescimento do empregos - agora num quadro de crescimento sustentado. A ideia de empresas estatais estratégicas se fortaleceu depois que a Petrobras obteve a autossuficiência e descobriu petróleo no pré-sal. Finalmente a crise econômica internacional em 2009 reforçou ainda mais a opção "keynesiana" do governo; embora atingida, a economia brasileira se recuperou rapidamente graças à ação do Estado para estimular o consumo das classes populares. Agora até Werneck Vianna diz que Lula resgatou a era Vargas. "O Lula é um Getúlio", admitiu Vianna numa entrevista, embora o vezo pecebista o leve a dizer que o presidente meramente concluiu a "modernização conservadora" de Vargas. Mas o próprio Lula hoje admite ser herdeiro do projeto nacional-desenvolvimentista. Seus ícones - Vargas, Juscelino e Jango - passaram a integrar o panteão do lulismo.

Heranças à parte, hoje está muito claro que, nestes últimos 20 anos, houve dois projetos distintos para o Brasil. De um lado, o projeto desenvolvimentista de Lula. Segundo caracterização de João Sicsú, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, os balizadores econômicos desse projeto são a manutenção da inflação em níveis moderados, a administração fiscal para equilibrar as contas públicas associado a programas de obras de infraestrutura e políticas anticíclicas, a redução da vulnerabilidade externa e algum nível de administração cambial, a ampliação do crédito e o aumento do investimento público e privado. Os objetivos econômico-sociais desse projeto são a geração de milhões de empregos com carteira assinada, melhoria da distribuição de renda e recuperação real do salário mínimo.

De outro, temos o projeto do PSDB-DEM, encampado pela grande mídia e pelos organismos financeiros internacionais, que, na falta de nome melhor designaremos como "neoliberal", implantado pelos dois governos FHC (1995-2002). Para ele a estabilidade econômica é sinônimo exclusivo de estabilidade monetária. Ele também busca abertura financeira ao exterior, escora-se na âncora cambial, vê o equilíbrio fiscal como panaceia e promove a privatização de empresas públicas sem considerar os interesses estratégicos do país . 

Os resultados já podem ser medidos: a taxa de crescimento do PIB a partir de 2006 se tornou mais elevada. "O crescimento a partir daquele ano trouxe uma característica de qualidade e durabilidade temporal: a taxa de crescimento do investimento se tornou, pelo menos, o dobro da taxa de crescimento de toda a economia", diz Sicsú. O crédito se ampliou drasticamente, de 23% do PIB em 2003 para 46% em 2009. E a expansão do emprego com carteira assinada deu um salto gigantesco: enquanto nos oito anos de FHC foram criados 1.260.000 empregos com carteira assinada, de 2003 a 2010 foram criados mais de 10 milhões de empregos formais. O salário mínimo ficou em média em US$ 150, enquanto que sob FHC a média era US$ 55; a média dos benefícios pagos entre 1995-2002 foi de R$ 18 milhões mensais, enquanto que de 2003 a 2009 a média subiu para R$ 24 bilhões mensais.

Portanto, não é apenas a extensão do Bolsa Família que diferencia os dois projetos. 
Faltou falar da política externa, que se tornou alvo preferencial da direita, a ponto de, pela primeira vez, entrar fortemente na campanha eleitoral. Mas isso já é outra história - ou outra postagem...    

domingo, 1 de agosto de 2010

UM ESTADISTA DO CARIBE

"Todos nós herdamos do sangue lusitano uma certa dosagem de lirismo", diz a letra de Fado Tropical, de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra. Já a história da América Hispânica, por sua vez, parece ter herdado um certo gosto espanhol pela "martiorologia", pelo messianismo e pela tragédia que embota a capacidade de reconhecer processos históricos verdadeiramente revolucionários. A saga da esquerda latino-americana está coalhada de líderes caídos, como Emiliano Zapata, Augusto Sandino, Farabundo Martí, Che Guevara e Salvador Allende. Na falta destes, tiranos vestutos como Fidel Castro, que se notabilizou pelo uso do paredón e pela ditadura de partido único, ou líderes histriônicos como Hugo Chávez, são entronizados no panteão da esquerda anti-imperialista. Mas uma verdadeira revolução pacífica e democrática, como a consumada por José Pepe Figueres Ferrer na Costa Rica como chefe de um governo de transição (1948) e em dois mandatos constitucionais (1953-1958 e 1970-1974), fica no limbo da História.











Filho de um médico catalão, José Pepe Figueres liderou uma revolta armada contra a oligarquia costa-riquenha em 1948, deflagrada contra uma fraude eleitoral. Em pouco mais de 40 dias, a Legião Caribe, uma força de estudantes, camponeses e militares, tomou o poder em San José. Don Pepe assumiu a liderança de uma Junta de Governo que convocou uma Assembléia Constituinte e se dissolveu depois que foi promulgada a Constituição, 18 meses depois. E o governo provisório tomou duas medidas radicais; a primeira foi a nacionalização dos bancos, que representou um golpe decisivo na burguesia compradora, beneficiando pequenos e médios empresários. "O caráter marcadamente comercial com que os bancos vinham operando, se bem que era bom para seus acionistas, que conseguiam uma aplicação segura ao financiar a importação de whisky, não é o mais saudável para um país que necessida desenvolver sua agricultura, suas indústrias e não conta fundamentalmente para tanto com outros recursos que não os do crédito bancário", justificou Figueres. A outra medida revolucionária foi a dissolução do Exército regular, que foi substituído por uma força policial, a Guarda Civil. Como resultado, a Costa Rica se tornou um dos países do Caribe que mais cresceram economicamente distribuindo renda e, na outra ponta, conseguiu evitar os dois flagelos que açoitariam a região a partir dos anos 50: guerras civis e ditaduras militares. E nem a dupla ameaça de uma rebelião armada de antigos revolucionários que não aceitavam a dissolução do Exército articulada a uma tentativa de invasão da Nicarágua, então nas mãos da sanguinária família Somoza, em 1955, fez Pepe voltar atrás nas suas decisões revolucionárias.
É verdade que, para conjurar a ameaça de invasão nicaraguense, foi crucial conseguir o apoio de Tio Sam. Figueres sabia que um país tão pequeno e tão próximo dos Estados Unidos como a Costa Rica não poderia desafiar o poderio de Washington. Por isso, explorando habilmente os contatos que tinha com o establishment americano - ele mesmo era casado com uma americana - Don Pepe conseguiu que Washington condenasse a invasão nicaraguense - e lembre-se que Somoza, o ditador nicaraguense, era "a son of a bitch but our son of a bitch" (um filho da puta, mas o nosso filho da puta), segundo Allen Dulles, diretor da CIA. Naquele início da guerra fria, Figueres convenceu os americanos de que reformas sociais eram a melhor maneira de se evitar o comunismo. E assim os americanos, embora contrariados, tiveram que engolir quando o governo da Costa Rica taxou a subsdiária da United Fruit, La Bananera, com impostos de 15%, depois 30% e em seguida iniciou o processo de nacionalização da indústria bananeira. E Don Pepe nunca deixou de manifestar solidariedade anti-imperilista, apoiando movimentos revolucionários no Caribe, como a Revolução Cubana de 1959 e a Revolução Nicaraguense de 1979, embora discordasse publicamente do caminho marxista-leninista seguido por Fidel Castro. 
Hoje, a Costa Rica é um país predominantemente de classe média - urbana e rural - com cerca de 20% de pobres numa região em que a pobreza é generalizada e com uma agricultura diversificada, sem as pragas da monocultura e do latifúndio. E, como já se disse, foi o único país que escapou do turbilhão de ditaduras truculentas e guerras civis sangrentas que assolou a região e, só nos anos 70, matou 200 mil pessoas na Guatemala, 75 mil em El Salvador e outras dezenas de milhares na Nicarágua.
Como se não bastasse, a Costa Rica é hoje um país ecologicamente correto, com cerca de 30% de seu território deslumbrante constituído por unidades de conservação ambiental. 
Ah, Don Pepe não tombou heroicamente nem virou ditador. Morreu pacatamente em 1990, aos 84 anos.  
"Infeliz do povo que precisa de herois", dizia Bertrold Brecht.