quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

OBAMA, LINCOLN E LUTHER KING


Posse de Barack Obama em 21 de janeiro de 2013

Martin Luther King na Marcha sobre Washington, agosto de 1963
Emancipação? Soa muito bem.

Chega o dia 21 e nós já nos familiarizamos com o fato de que 2013 começa com a segunda posse de Barack Obama no dia de Martin Luther King. O ano também coincide com o 50º aniversário da Marcha a Washington e o 150º aniversário da Proclamação da Emancipação. Muitos aniversários. É só uma coincidência curiosa? As conexões podem ser mais profundas. 

Por começar com a Emancipação. A declaração, efetivada em 1º de janeiro de 1863, proclamava a liberdade de todos os escravos que viviam nos Estados Confederados – mas já houvera emancipações anteriores. Na guerra revolucionária, foi prometida emancipação aos africanos escravizados que lutassem contra os britânicos. Posteriormente, outros garantiram sua liberdade por trabalho duro ou fuga, ou ambos. 

A Emancipação não foi tão boa quanto diziam que seria. Por uma coisa: a declaração de 1863 não se referia aos escravos da União. Em Delaware e Kentucky, 40 mil pessoas tiveram que esperar dois anos pela 13º emenda. Mesmo nos anos revolucionários havia um problema: a liberdade legal não chegava necessariamente com os meios para se viver livremente.

Eleanor Eldridge, filha de um combatente na guerra revolucionária, oferece um relato sobre seu pai e seu irmão, escravos que lutaram bravamente apesar das determinações sob a promessa de terra e liberdade no que à época era território de Mohawk. Ela escreveu:

“O que eram as privações, a fadiga, os perigos, as angústias? Eles não haviam vislumbrado a estrela d'alva da liberdade cintilando no leste? Eles não sairiam em breve das listas de bens para tornarem-se homens?”

Ao fim da guerra, os irmãos Eldridge ficaram chocados. Inflação massiva e o crash financeiro tornaram o dinheiro da recompensa desprezível. Para citar Eleanor Eldridge novamente:

“Ao fim da guerra eles foram ditos livres, mas seus serviços foram pagos com dinheiro velho. A depreciação e a ruína final deixaram a eles nenhuma riqueza além da inestimável liberdade... Eles estavam livres. Sem fundos, eles não podiam tomar posse de suas terras em Mohawk. E até hoje seus filhos não puderam recuperá-las.”

Eleanor continua por descrever como ela e seu marido trabalharam para comprar um lar e como ela perdeu o que conseguira num cambalacho hipotecário na década de 1800 – não soa familiar?

Harriet Tubman, escrava fugitiva que conduziu muitos à liberdade, descreveu sua escapada da seguinte maneira:

“Eu olho para minhas mãos para saber se eu sou a mesma agora que sou livre. Havia tanta glória em tudo aquilo... Eu fiz a travessia que há muito sonhava fazer. Eu estava livre, mas não havia alguém que pudesse me dar as boas-vindas à terra da liberdade. Eu era uma estrangeira numa terra estranha”.

Tampouco houve boas-vindas para as mulheres e homens libertos nos anos 1860. Como contam Angela Davis e Michelle Alexander (autora de The New Jim Crow), no tempo exato em que ex-escravos estavam criando as próprias comunidades e plantando o que colheriam para si próprios, as velhas elites escravocratas aprovaram leis “antivadiagem” que, essencialmente, tornavam crime ser um empregado autônomo ou não ter um patrão (branco). Facilmente presos e condenados sob nova legislação, “prisioneiros negros eram forçados a trabalhar por pouco ou nenhum pagamento”, escreve Alexander. As provisões antiescravidão da 13º emenda são uma exceção conveniente para o trabalho prisional.

Sem o compromisso federal para mudar a estrutura de poder no sul, antigos senhores de escravos puderam usar sua influência política para legislar, e seu poderio econômico para armar a população e a Ku Klux Klan. Entre 1868 e 1876, a maior parte dos anos teve de 50 a 100 afro-americanos linchados. 

Nosso período tem muito em comum com aquele chamado de Era Dourada. Naqueles tempos, como agora, ricos e pobres estavam extremamente divididos; industriais e grandes banqueiros estavam em pé de guerra contra reformistas, operários, mulheres, negros libertos e imigrantes. Naquela época, como agora, a natureza do trabalho, da vida, da política e da demografia na nação eram incertas. Muitos brancos temiam pelo futuro da sua “raça”. 

O quanto estamos emancipados atualmente? A resposta depende das pessoas com quem se fala e das perguntas que são feitas. Tendo como parâmetro a escravidão, a sociedade atual é relativamente livre – mas, que comparação! Evocando Eldridge e Tubman, os recursos de que as pessoas precisam para viver livremente ainda são estratificados, e seguem velhos princípios. Educação de qualidade, moradia, trabalho, saúde; livramo-nos juridicamente das placas de “apenas para brancos”, mas vejam os níveis de prosperidade econômica, o indicador mais decisivo para o acesso a todas essas coisas. 

O cenário é revelador. No ano passado, pesquisadores do Insight Center for Community Economic Development (Centro de Estudos para o Desenvolvimento Econômico Comunitário), com sede em Oakland, divulgaram que o rendimento familiar médio de uma mulher afro-americana economicamente ativa era de US$ 100, em comparação com US$ 42.100 de uma mulher caucasiana equivalente (ou 40% além disso para um homem caucasiano). É espantosa as diferenças causadas por séculos de escravidão. 

Martin Luther King e seus companheiros sabiam que mudanças não viriam a partir de presidentes, mas de movimentos. Presidentes podem agir, mas são os movimentos que os fazem agir. Só os movimentos sociais têm o poder emancipatório para se fortalecer a partir de números, até mesmo os números dos desfavorecidos. 

A marcha em Washington conjugou a demanda por liberdade com a demanda por empregos. Notem como a mídia endinheirada poucas vezes chamou a marcha por seu nome completo: Marcha em Washington por Liberdade e Emprego. 

Nós precisamos de outra marcha, mas, mais importante, precisamos de outro movimento social com a mesma força. As pessoas gostam de dizer que liberdade não é de graça. Mas o mesmo ocorre com a emancipação: ela custa o status quo. Para emancipar um antigo estado escravocrata como o nosso, é preciso muito mais que uma declaração. Nós ainda não chegamos lá. 

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