terça-feira, 29 de janeiro de 2013

EPITÁFIO PARA UM SONHO

Charles De Gaulle (esq.0 
Há 50 anos Konrad Adenauer e Charles De Gaulle enterravam séculos de hostilidades entre a Alemanha e a França e lançavam as bases da União Europeia, criada para abrir uma nova era de cooperação e desenvolvimento. Capturada pela lógica do capital financeiro nos anos 1990, o sonho de um Estado multinacional no velho continente está se esvaindo, senão morrendo, como mostra essa carta de alguns intelectuais europeus.
Paris - “A unidade da Europa era o sonho de uns poucos. Tornou-se uma esperança para muitos. Hoje é uma necessidade para todos nós”. A frase do ex-chanceler alemão Konrad Adenauer tem um lugar na história. Foi pronunciada dez anos antes de a França e a Alemanha firmarem, em 22 de janeiro de 1963, o tratado de cooperação franco-alemão conhecido como “Tratado do Eliseu”. Esse texto marca um passo definitivo para a reconciliação entre Paris e Berlim e reforçou a construção europeia.

Transcorreram exatamente 50 anos e esse “sonho” e essa “necessidade” estão hoje em pleno marasmo. A Europa está indo a pique. Isso é precisamente o que constata um grupo importante de intelectuais europeus que publicou um manifesto cujos três primeiros parágrafos constatam a orfandade que ameaça o Velho Continente: “A Europa não está em crise, está morrendo. Não a Europa como território, naturalmente, mas sim a Europa como Ideia. A Europa como sonho e como projeto”.

Este grupo de filósofos, escritores, psicanalistas e jornalistas, entre os quais se encontram personalidades como Umberto Eco, Salman Rushdie, Fernando Savater, Bernard-Henri Levy, Claudio Magris e Julia Kristeva apela à consciência dos dirigentes para que não se apague o sonho da unidade europeia surgido logo depois da Segunda Guerra Mundial. Neste sentido, os intelectuais assinalam que “esta Europa como vontade e representação, como quimera e como obra, essa Europa que nossos pais colocaram em pé, essa Europa que soube se tornar uma ideia nova, que foi capaz de aportar aos povos que acabavam de sair da Segunda Guerra Mundial uma paz, uma prosperidade e uma difusão da democracia inéditas, mas que, ante nossos próprios olhos, está se desfazendo uma vez mais”.

Em termos de Produto Interno Bruto (PIB), a Europa é, sem dúvida, a maior potência econômica que existe. Mas isso não basta porque, para os autores do manifesto, essa potência econômica tragou a ideia de Europa e o Velho Continente sonhado por seus pais fundadores está “se desfazendo em Atenas, uma de suas cunhas, em meio à indiferença e ao cinismo de suas nações irmãs”.

Modelo de integração e de paz para muitas democracias do mundo, a Europa vai morrendo por várias veias, começando por um de seus pilares, a Grécia: “dá a impressão de que os herdeiros daqueles grandes europeus, enquanto os gregos travam uma nova batalha contra outra forma de decadência e sujeição, não têm nada melhor a fazer que castigá-los, estigmatizá-los, pisoteá-los e, a partir dos planos de austeridade, despojá-los do princípio de soberania que, há tanto tempo, eles próprios inventaram”.

Esse diagnóstico é válido também para a Itália, país onde se inventou a “distinção entre a lei e o direito, entre o homem e o cidadão”, país que está na “origem do modelo democrático que tanto contribuiu” e, hoje, “está enfermo de um berlusconismo que não tem fim”. Enfermidade crucial que envolve também o ideal europeu e que faz da Itália o “doente do continente. Que miséria! Que ridículo!”.
O chamado destes intelectuais do Velho mundo é tão dramático quanto lúcido. Em sua breve e apaixonada demonstração, o texto mergulha na grande miséria europeia contemporânea: miséria moral, ética, miséria da solidariedade, miséria dos ideais que os europeus impulsionaram pelo mundo.

Daí que o manifesto insista em que a Europa faz água por todos os lados: “de leste a oeste, de norte a sul, com a ascensão dos populismos, dos chauvinismos, das ideologias de exclusão e ódio que a Europa tinha precisamente como missão marginalizar, esfriar, e que voltam vergonhosamente a levantar a cabeça. Quão longe está a época na qual, pelas ruas da França, em solidariedade com um estudante insultado pelo responsável de um partido de memória tão escassa como suas ideias, se cantava “todos somos judeus alemães!”.
Distúrbios na Grécia, onde nasceu (e morreu?) a democracia
Que longe parecem hoje os movimentos solidários, em Londres, Berlim, Roma, Paris, com os dissidentes daquela outra Europa que Milan Kundera chamava a “Europa cativa” e que parecia o coração do continente! E quanto à pequena internacional de espíritos livres que lutavam, há 20 anos, por essa alma europeia que Sarajevo encarnava, sob as bombas e presa de uma impiedosa ‘limpeza étnica’, onde está, por que já não é mais ouvida?”.

Sonho e realidade dos quais, de pronto, milhões de indivíduos despertam sacudidos pela crise do euro, “essa moeda única abstrata, flutuante porque não está ancorada na economia, nos recursos, em um sistema fiscal convergente”. O horizonte desenhado pelos signatários do manifesto para voltar a dar corpo ao sonho europeu é a união política do Velho Continente, sem a qual não haverá vida possível: “O teorema é implacável. Sem federação, não há moeda que se sustente. Sem unidade política, a moeda dura algumas décadas e depois, aproveitando uma guerra ou uma crise, será dissolvida”.

O chamado divulgado neste fim de semana apresenta um paradigma curioso: “antes se dizia: socialismo ou barbárie; hoje é preciso dizer: união política ou barbárie. Melhor dizendo: federalismo ou explosão e, na loucura da explosão, regressão social, precariedade, desemprego galopante, miséria. Melhor dizendo: ou a Europa dá um passo decisivo a frente, na direção da integração política, ou sai da História e desaparece. Já não resta outra opção: unidade política ou a morte”.

A corrida vertiginosa para esse fim da Europa já começou, dizem os autores, e se não forem tomadas as medidas adequadas e não simples maquiagens nada a deterá: “a Europa sairá da História. De uma forma ou de outra, se não for feito algo ela desaparecerá. Isso deixou de ser uma hipótese, um vago temor, um trapo vermelho que se agita ante os europeus recalcitrantes. É uma certeza. Um horizonte insuperável e fatal. Todo o resto – truques de mágica de alguns, pequenos acordos de outros, fundos de solidariedade por aqui, bancos de estabilização por ali – só serve para adiar o fim e distrair o moribundo com a ilusão de uma sobrevida”.

Serão escutados estes herdeiros do pensamento crítico que ainda parece conservar essa dimensão tão europeia que consiste em nunca perder a capacidade crítica frente ao comportamento dos Estados? Apostar nisso seria outro sonho: entre social-democratas que desenham políticas liberais, socialistas de joelhos diante de grandes corporações e capazes de voltar a servir o prato da “guerra contra o terrorismo islâmico” para justificar intervenções militares em outros países – como o Mali – enquanto as pessoas morrem como moscas na Síria, entre governos liberais sacudidos por níveis de corrupção e fatos dignos de comédias, não se vê por onde possa aparecer alguém capaz de encarnar o grande sonho europeu. Ao menos que aqueles que o fomentaram se levantem de suas tumbas.

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