terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A MODERNA INQUISIÇÃO

O escritor português José Saramago, no Índex da Opus Dei
A Opus Dei, organização católica ultraconservadora abençoada pelo Vaticano e cuja presença e influência nos órgãos de imprensa latino-americanos são notórias, soltou um Índex, típico dos tempos da Inquisição, no qual lista vários livros considerados “perigosos” para os fiéis. Entre os autores condenados pelos homens do cilício (com “c” mesmo; trata-se do instrumento de autoflagelo que os membros da seita usam) estão os escritores Mário Vargas Llosa, um liberal, e José Saramago, um comunista. Não se pode dizer que a Opus Dei não é coerente: apesar de todo o seu discurso “modernizante”, é herdeira do Concílio de Trento, parteiro da Contra-Reforma e da Segunda Inquisição. Por isso, liberais, socialistas, comunistas e outros herdeiros do Iluminismo são alvos preferenciais. Mas na lista há também apenas escritores, como Eça de Queirós.        
Doze livros de Saramago são “proibidos” pela Opus Dei, revela DN
Da Fundação José Saramago
Doze livros de José Saramago estão entre os classificados com os mais altos níveis de interdição do Opus Dei a nível internacional, num índex que envolve 79 obras de autores portugueses, incluindo Eça de Queirós, Fialho de Almeida, Vergílio Ferreira, Miguel Torga, Lídia Jorge ou David Mourão-Ferreira. Esta é uma das revelações de um extenso trabalho de reportagem feito pelo jornalista Rui Pedro Antunes e publicado no dia 28 de janeiro no Diário de Notícias.
O dossiê analisa as formas de financiamento e o milionário patrimônio do Opus Dei, organização criada por Escrivá de Balaguer e presente em Portugal em várias áreas do poder político e econômico. Inclui uma entrevista com o líder do Opus Dei em Portugal, José Rafael Espírito Santo, e depoimentos de responsáveis da Igreja Católica.
Imagem de Escrivá Balaguer, lider da Opus Dei 
A existência de um Índex de livros – de ficção e de não ficção – é outro tema essencial deste conjunto de textos do Diário de Notícias, que entrevista a propósito a presidenta da Fundação José Saramago. “Só me surpreende que não estejam nessa lista todos os livros de José Saramago”, diz Pilar del Río, que considera o Opus Dei “uma seita castradora”. Sublinha que José Saramago nunca escreveu sobre a mesma porque “essa seita é uma formiga e por isso não lhe interessava para nada”. Os livros de Saramago que a Opus Dei proíbe aos seus membros são: CaimO Evangelho segundo Jesus CristoManual de Pintura e Caligrafia e Memorial do Convento
Lídia Jorge, cujos livros A Costa dos Murmúrios e O Dia dos Prodígios têm também o nível mais alto de interdição, diz que este Índex é “uma vergonha”, uma listagem “feita por gente retrógrada e abstrusa”. E acrescenta: “São pessoas que desprezo porque se armam em mentores, em guardas morais, quando, no fundo, revelam uma ignorância absoluta sobre o papel da literatura”.
De Eça de Queirós, o Opus Dei proíbe, com o nível mais alto, A RelíquiaO Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio. Os Maias, A Capital e Correspondência de Fradique Mendes estão no segundo nível mais alto de proibição, isto é, são “livros que não é possível ler exceto com a autorização da Cúria”.
Os autores portugueses não estão sozinhos nesta lista que tem seis níveis de interdição, o mais alto dos quais é de “leitura absolutamente proibida”. Dela fazem parte 14 dos 15 últimos prêmios Nobel da Literatura (apenas se exclui Le Clézio). Mario Vargas Llosa é o que tem mais obras indiciadas, num total de 17, vindo logo a seguir José Saramago com doze.
Também na não-ficção a lista revelada pelo Diário de Notícias é e extensa e variada, incluindo Marx, Freud, Jean-Jacques Rousseau, Charles Darwin e Hitler. Entre as obras portuguesas, estão Portugal Amordaçado de Mário Soares, A Revolução de 1383 de António Borges Coelho e até a História da Literatura portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes.

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