quarta-feira, 21 de março de 2012

DANTE NO INFERNO OU AONDE VAMOS PARAR?


"O abuso da graça é afetação; o abuso do sublime, absurdo. Toda perfeição é um defeito."
 (Voltaire)
A Gherush 92, uma organização que assessora o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas no âmbito de projetos para a educação, desenvolvimento e direitos humanos, classificou a Divina Comédia, escrita provavelmente entre 1307 e 1321 por Dante Alighieri, como uma obra "antissemita" e "islamofóbica", e que, por essa razão, deveria ser retirada dos programas escolares. Tudo em nome dos valores multiculturais da atualidade.  

Sim, é isso mesmo. Esses policiais do pensamento politicamente correto dizem que a Divina Comédia, uma Magnum Opus do pensamento ocidental, “apresenta um conteúdo que é ofensivo e discriminatório, tanto na substância quanto na linguagem, e isso sem que haja qualquer filtro ou que sejam fornecidas considerações críticas em relação ao antissemitismo e ao racismo”. George Orwell, que sabia que quem controla o passado controla o futuro, não se surpreenderia com essa "Novilíngua" em que o obscurantismo se traveste de defensor dos oprimidos.

Em outras palavras, Dante não deveria ter escrito a Divina Comédia como um homem do século XIV, mas com a cabeça do século XXI - multicultural e relativista. Só assim os tribunais da Inquisição multiculturalista poderiam absolvê-lo. Entramos no terreno do delíro absoluto. Por esse critério, que nada fica a dever aos Torquemadas, Fouquier-Tinvilles e Vichinskys da vida, deveríamos começar por proibir a Bíblia, especialmente o Velho Testamento – por incentivar assassinatos, vendetas e massacres –; o Talmud, por pregar a existência de um povo eleito –; e do Corão, por defender a guerra santa contra os infiéis. E o que dizer das obras de Cervantes, Shakespeare, Dickens, Marlowe, Chaucher, Eliot, Pound, Céline, Borges?

O próximo passo talvez seja a destruição desses livros. Quem sabe pela fogueira, para dar mais vigor às intenções purificadoras?

Um comentário:

  1. Como se diz popularmente "de boas intenções o inferno está cheio".
    No brado do politicamente correto cria-se o fantasma-carrasco do ajustamento cego, sem críticas, sem reflexão.
    Como bem nos lembra Hanna Arendt, a única coisa que não podemos fazer é deixar de pensar.

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