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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ESTIRPE EM EXTINÇÃO



Santiago Carrillo, tendo ao fundo a foto da Pasionaria
Santiago Carrillo, que morreu no último dia 18 aos 97 anos, pertencia a uma estirpe de políticos em extinção. Comunista histórico desde a Guerra Civil (1936-1939), ele foi um típico stalinista, suspeito inclusive de ter responsabilidade nos massacres de Paracuellos (1936), em que milhares de prisioneiros foram assassinados por forças comunistas. Com a derrota dos republicanos e a vitória dos fascistas de Francisco Franco na guerra civil, Carrillo foi para o exílio, onde ficaria 38 anos entre Paris e Moscou. Neste período, ele viria várias vezes clandestinamente para a Espanha.

Carrilo (centro) entre Berlinguer (esq.) e Marchais
Virou líder do Partido Comunista Espanhol em 1960, substituindo a lendária Pasionária (Dolores Ibarrurí). Em 1964, Carrillo expulsou do partido Jorge Semprún e Fernando Claudín, “revisionistas” defensores uma transição pacífica que, anos mais tarde, o próprio Carrillo abraçaria. O stalinista convicto começaria a mudar a partir da invasão da Tchecoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, em 1968. Na década seguinte, junto com os líderes dos Partidos Comunistas da Itália (Enrico Berlinguer) e França (Georges Marchais), lançaria o Eurocomunismo, um movimento que afirmava a independência dos PCs em relação a Moscou e o compromisso destes com a democracia como “valor universal”, rompendo com o marxismo-leninismo soviético, que defendia a “democracia burguesa” apenas como tática para se atingir o poder.

No Parlamento, como deputado pelo PCE
O zênite de Carrillo foi a transição espanhola para a democracia. Foi quando ele se revelou um estadista. Carrillo não apenas participou das negociações do processo de democratização levado à cabo por Adolfo Suárez como reconheceu a autoridade do rei Juan Carlos – embora o PCE sempre tenha sido republicano – para levar a bom termo a transição. Demonstrou coragem pessoal quando militares franquistas tentaram dar um golpe invadindo as Cortes (Parlamento) em fevereiro de 1981. Carrillo foi um dos três deputados que se recusaram a obedecer as ordens do coronel Tejera Molino de se abaixar; ele ficou sentado fumando calmamente enquanto o militar esbravejava com uma pistola na mão. Acabou, ele mesmo, vítima de um expurgo e foi expulso do PCE em 1985.

Na tentativa de golpe, Carrillo (dir.) e Adolfo Suárez permanecem sentados
Para uns, Carrillo foi a síntese da grandeza e dos erros da Espanha e da esquerda no século XX. Nas palavras de Carlos Alonso Zaldívar, em relação do partido, ele quis ser “o papa e Martin Lutero ao mesmo tempo”. Mas Carrillo foi, sobretudo, um dos “pais fundadores” da democracia espanhola – ao lado de Adolfo Suárez e Felipe González, entre outros. O que veio depois é desolador. “A geração de políticos posterior à transição encontrou um mundo mais cômodo e acreditou que a política era um assunto de dinheiro e publicidade. Na realidade, nestes tempos na Europa e Estados Unidos se produziu uma tempestade conservadora que desregulou o mundo financeiro. Enquanto isso, na Espanha, os novos políticos se dedicavam a buscar senhas de identidade para legitimar-se à margem de seus predecessores. Quando veio a especulação imobiliária, todos só viram dinheiro e dinheiro. Até que começaram a cair raios e relâmpagos. Então, descobrimos que não tínhamos mais refúgio. [...] Onde procurar? Se se trata de encontrar a saída, temos que olhar para trás”, escreveu Carlos Alonso Zaldívar no El País.       

  
             

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A OFENSIVA MIDIÁTICA


A Veja e a grande mídia mais uma vez destilam seu veneno fascistóide ao fazer pesadas acusações contra Lula. A fórmula é manjada: a Veja traz uma grave denúncia - sem mostrar provas - e imediatamente a matéria repercute em todos os outros grandes veículos. Prato cheio para a oposição. Depois, quando a denúncia se mostra insustentável, esquece-se o assunto. Mas o estrago está feito.

Desta vez, vieram com chamada de capa de uma "entrevista" de Marcos Valério em que ele acusa Lula de ser o chefe do "mensalão". Mas na matéria a revista admite que não entrevistou o publicitário e que obteve a informação junto a "amigos" dele. Depois, um jornalista da Globo veio com a história de que havia uma gravação com a entrevista. Mas Veja não divulgou a tal fita. Por que? E por que versões contraditórias sobre a "entrevista"?   

Nenhuma surpresa. Quem se lembra da "reporcagem" de um grampo que teria gravado uma conversa do senador Demóstenes Torres com o então presidente do STF Gilmar Mendes? O tal grampo nunca apareceu, mas a matéria derrubou o então diretor da Abin, delegado Paulo Lacerda, e enterrou a Operação Satiagaha da PF, que investigava o banqueiro Daniel Dantas.

E o que falar das inúmeras matérias da Veja que, depois se descobria, tinham como fonte o Carlinhos Cachoeira, comparsa de Demóstenes?        

Em matéria de "mal-caratismo", a mídia tupiniquim - com a Veja à frente - não fica nada a dever ao megaempresário Rupert Murdoch.
  
Atualmente, está em curso uma ofensiva para cortar as asas de Lula e do PT, isolando-os de Dilma Rousseff, que é bem avaliada e está segurando o país em meio à crise econômica. Mas não é só isso. Além de assumir o papel de partido político de oposição, a mídia tradicional está empenhada em defender, a ferro e fogo, o oligopólio conquistado pela permanência da “propriedade cruzada” – prática abolida em países desenvolvidos que permite que empresas de comunicação possam ser proprietárias, simultaneamente, de TVs, rádios, jornais, revistas e portais. Enquanto isso, o governo continua alimentando a grande mídia com gorda verba publicitária. 

Abaixo, vídeos com denúncias das maracutaias da Veja no caso Carlinhos Cachoeira; Jô Soares denunciando as práticas abusivas da Globo em 1987 e um impagável direito de resposta de 1994, em que Cid Moreira lê um texto de Leonel Brizola com ataques à Rede Globo...             




segunda-feira, 17 de setembro de 2012

MERAS COINCIDÊNCIAS...


Reflexões de um grande jornalista – e, agora, artista plástico – sobre as ‘coincidências’ nos incêndios das favelas de São Paulo e nas decisões do Supremo Tribunal Federal sobre o “mensalão”.      
Os incêndios em favelas, o STF, as coincidências e a causalidade
Por Enio Squeff, em Carta Maior
 Os incêndios que destruíram mais de vinte favelas em São Paulo, talvez confirmem as versões veiculadas, até agora, de que tudo aconteceu por acaso. Os historiadores da arte, que têm muito mais meios para investigar certos eventos, costumam registrar acasos e coincidências em praticamente todas as épocas; o cubismo de Braque e Picasso, por exemplo, podem, de fato, ter nascido na mente dos dois artistas – mas há quem diga que as coisas eram inevitáveis; ambos os pintores eram próximos, um frequentava o ateliê do outro, mas muito de suas obras mostravam evidências que apontavam para a mesma direção. A destruição de favelas não tem nada a ver com a arte, certamente. Mas é uma evidência que alguém lucrará com os numerosos terrenos, por fim, liberados de famílias com seus parcos direitos, subitamente transformados em cinzas. O Supremo Tribunal Federal tem sido exemplar na conclusão de que as evidências falam por si. Como dizia e diz a escolástica da Igreja, as evidências existem em si mesmas, não precisam ser provadas.

São mundos paralelos, parece. Diz-se dos artistas que seriam sensores da raça: eles pegariam as coisas no ar e as transformariam em música, em quadros, em livros. Os agentes da construção civil são sensores das oportunidades, desde que existam terrenos baldios – aparentemente sem donos – há que aproveitá-los para os bons lucros, mas também para o consenso, principalmente brasileiro, de que a indústria da construção civil é a maior geradora de empregos para a mão de obra não especializada. Coincidências de fatos, coincidência de fatores. 

No fundo, talvez, se esteja no mundo das conjecturas. Aqui e ali elas aparecem para confirmar – ou não – certas evidências. É o que tem valido, parece, inclusive para o STF no julgamento do mensalão: certas evidências prescindiriam de provas. Não foi o que valeu para a condenação do ex-presidente Collor, que foi absolvido – mas é, enfim, o que pode valer agora contra aqueles com que a grande imprensa acedeu ao Procurador Geral da República – de que os “mensaleiros” seriam os maiores criminosos do Brasil. 

Há, é certo, algumas centenas de acusados e esperar por sentenças condenatórias já há anos e por terem se apropriado não de 50 mil reais, como aconteceu com um deputado – o primeiro a ser punido por causa do mensalão – mas por terem roubado bem mais que milhões. Inútil mencioná-los: cada brasileiro tem algum nome na sua lembrança. Tudo leva a crer, porém, que há a coincidência de o julgamento acontecer às vésperas das eleições municipais. E que isso deve valer também como um feliz acaso – aquele de que a grande imprensa tenha praticamente exigido a realização de um julgamento nesta época do ano; e com uma pressa talvez nunca havida antes na história do Judiciário deste país.

Foi, a propósito, mais ou menos o que teria concluído o ministro Joaquim Barbosa. Ao ser questionado por uma jornalista por que não julgar um mesmo crime que teria sido cometido anos antes, por um outro partido, em Minas Gerais – não em Brasília – ele teria respondido que é assim mesmo; que o Supremo Tribunal fora obrigado pela grande imprensa – leia-se “opinião pública” – a proceder a um juízo praticamente exigido, imposto, portanto, à Suprema Corte. E daí as justaposições. 

Muitos musicólogos vêem coincidências inauditas entre certas composições quase que saídas à mesma época em diferentes países. Por exemplo: há quem adivinhe que em algumas sinfonias assinadas por Beethoven, existam coincidentemente, certos procedimentos muito parecidos com as de um compositor chamado Méhul (Etienne Henry Nicolas, 1763-1817), e que foi um dos expoentes da música engajada da Revolução Francesa. Não há nada que indique, diga-se em tempo, que o STF esteja se deixando influenciar pela mídia hegemônica a propósito do caso chamado “mensalão”. Haveria apenas uma mera conjugação que as vagas acusatórias contras os membros de um partido, feitas pela mídia, devessem ser devidamente levadas em conta pela Suprema Corte e que ela, afinal, decidisse levar a coisa avante com uma rapidez nunca vista antes. No fim das contas, haveria uma grande coincidência entre o desejo da mídia e o animus da Corte Suprema do Brasil.

Assim também com os incêndios nas favelas da paulicéia. “Nunca dantes na história” de São Paulo aconteceram tantas queimas de barracos num único período de alguns meses. Tudo seria obra do acaso. Há, realmente, que se considerar a seca, os numerosos “gatos” como se dizem das ligações clandestinas feitas nas favelas. E o resto seria, então, a confluência de alguns fatores, como o vento forte, o descuido – essas coisas todas que fazem da história também uma errância imprevisível, sem o que nem por que.

Em meio a tantas combinações casuais, quem sabe se devesse, também, pensar na Providência Divina. Dever-se-ia a ela, apenas à Providência, uma concordância nunca havida com tanto celeridade entre os membros do Supremo Tribunal Federal no caso específico de um único processo. 

No tempo da Inquisição, era o que contava e muito. Se o acusado, jogado num poço profundo, com pesos, afundasse irremediavelmente, ficava claro que a Providência era que o fizera mergulhar no abismo. E na morte. Se acontecesse o contrário – eis que o milagre valia ao acusado contar com as benesses do Santo Ofício. Deus o tinha absolvido – era tão somente um milagre. Nem mesmo uma coincidência. Digamos que seja isso também que esteja acontecendo com as favelas de São Paulo. De repente, por coincidência, ou por desígnios divinos, há como que, por combustão espontânea – um curto circuito, uma faísca. Pronto, o resultado pode ser o inesperado: algumas mortes (que se vai fazer?), mas a queima rápida de casas, pessoas, e tudo mais. 

A escritora norte-americana Suzan Sontag contava que levou um susto quando leu o Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. A história de um sujeito já morto que conta a sua própria vida, ainda que desde o fundo da sua tumba, era exatamente o argumento que ela tinha escolhido para fazer um romance. Garantia que foi por acaso. Não é de se descrer; ao descobrir a coincidência, a escritora norte-americana dizia com toda a sinceridade, que a versão de Machado era muito melhor que a dela. 

As coincidências entre o que quer a mídia e a decisão do Supremo Tribunal Federal, de julgar o mensalão, casualmente, antes das eleições transparecem de fato o que talvez sejam – justamente apenas questões de querências – a da grande imprensa, de que um partido seja punido, embora as provas sejam principalmente evidências e não mais que isso. Quanto ao Supremo – bem ele tem lá as suas razões. Assim como os incêndios de favelas sugerem muitas causas, talvez não caibam ilações. Tudo se dá por obra do acaso. Como se dá entre Mehul e Beethoven. Ou entre Picasso, Braque e o cubismo.

Jorge Luis Borges dizia que quem acreditava em casualidades, não sabia da lei das causalidades. Será? Neste caso, haveria, então, explicações para tantas coincidências. Ou não? Mais uma vez, com a palavra a história, ou se quisermos, a verdade histórica, se é que isso exista. 


Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

O AFFAIR MONTEIRO LOBATO


Nesta postagem do Paulo Moreira Leite, uma análise sobre a questão do racismo nos livros de Monteiro Lobato que não cai na armadilha da simplificação maniqueísta. Esta simplificação pretende opor censura x liberdade de expressão, mas acaba evitando a discussão do cerne do problema, que é nossa vergonhosa herança colonial-escravista.    

Racismo entre nós

Paulo Moreira Leite, em seu blog

Eu já não era tão jovem quando se dizia que a melhor definição de bobo era do sujeito que não consegue mascar chiclete e andar ao mesmo tempo.
Acho que isso se aplica ao debate sobre Monteiro Lobato. É nosso maior autor infantil. Deixou uma obra densa e complexa, com várias contribuições  ao entendimento do país. Mas Lobato era um autor racista e isso não pode ser escondido nem disfarçado. Precisa ser reconhecido e discutido pelos brasileiros, num sinal de respeito por nossa história e pelas vítimas de uma atitude que nossa Constituição define com crime inafiançável. Creio que devemos esse favor às futuras gerações, já que pouco podemos fazer pelas passadas, além de realizar um esforço para conhecer e estudar as dores do  tempo em que viveram.

O racismo de Lobato aparece para crianças, quando ele fala do “beiço” de Tia Nastácia, de sua “carne preta” e chega a dizer que ela subia numa árvore como “macaca de carvão.” O racismo para adultos foi explicitado em sua correspondência privada. Em cartas, ele admitiu que sentia inveja dos norte-americanos porque  tinham sido capazes de formar uma organização como a Ku Klux Klan, associação terrorista que sequestrava, torturava e enforcava negros no Sul, como uma vingança pela abolição da escravatura.

Monteiro Lobato admirava o Ku Klux Klan
(Observação minha, Cláudio Camargo: para quem tem dúvida, basta ler o que Lobato escreveu sobre o KKK: “Um dia se fará justiça ao Ku Klux Klan; tivéssemos uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”).

 Este aspecto da obra de Lobato é horrível e inaceitável, mas não é um traço pessoal do autor. É expressão do Brasil daquela época. Aprendi com Edward Said, um dos grandes autores de nosso tempo, indispensável para entendermos outro tipo de preconceito – contra povos árabes – que nenhum homem está 100% livre dos atrasos mentais de sua época. Estamos condenados a carregar, por herança familiar e social, as mazelas de nossa cultura e nosso meio. Podemos nos considerar felizes quando somos capazes de reconhecer e nos  emancipar de parte deles, em vez de apenas reproduzir e fortalecer as forças daninhas que foram interiorizadas em nossa formação. Mas ninguém é 100% livre de seu passado.

Fingir que o racismo não existe e denunciar toda reação como patrulha politicamente correta é um ato simplista, de quem se esconde atrás da liberdade de expressão para manter a discriminação e o preconceito.

Tia Nastácia, personagem de Monteiro Lobato
Quando Lobato escreveu muitos de seus livros infantis, a escravidão fora abolida há apenas 50 anos. Os antigos escravos eram marginalizados, discriminados e segregados.
Sem resposta aceitável para uma situação aberrante e vergonhosa, a cultura oficial brasileira daquela época olhava para estes brasileiros e tudo aquilo  que representavam como uma visão de superioridade – racismo. Era uma fora de jogá-los para fora da história. Sofriam porque mereciam. A escravidão, no fundo, era justa. Civilizava o negro, dizia outro grande escritor, José de Alencar, adversário empedernido da abolição, mesmo em 1888. A ciência explicava as raças e, com elas, as diferenças entre os homens, dizia o racismo científico que inspirava outro grande autor, Euclides da Cunha.

Num momento posterior, tentou-se adotar uma outra visão sobre essa condição do negro. A de que vivíamos numa democracia racial, onde todos eram iguais e não havia preconceito em função da cor da pele. Hipocrisia organizada, a ideologia da democracia racial atingiu um ponto maior de sofisticação a partir de um silogismo maroto. Já que os homens de ciência não reconhecem raça como um valor científico, biológico, e os homens são animais que acreditam na ciência, o racismo simplesmente não pode existir. Logo, quem denuncia o racismo fala de um fantasma.

Sabemos que tem gente que se julga muito inteligente e ganha a vida repetindo isso. 
Coisa de quem não sabe conviver com duas ideias diferentes. Racismo está na cultura, nos livros, no pensamento e, como vimos, em Monteiro Lobato. O porteiro da balada que cria dificuldade para deixar um negro entrar não tirou nota 10 em biologia, certo?

Gilberto Freyre: o racismo cordial?
Se você for honesto pode encontrar racismo até na obra de Gilberto Freyre, que não queria ser racista e  condenava o racismo quando era capaz de enxergá-lo – o que não acontecia sempre, como nós sabemos, a partir da regra de que ninguém zera sua herança cultural ou ideológica.   Freyre chega a atribuir o temperamento, a inteligência e outros traços de um indivíduo ao fato de ser descendente de branco, negro ou indígena. Dizia, por exemplo, que o negro possuía uma “energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical,” sugerindo que isso explicava que fosse usado no trabalho duro do engenho. Comparando populações brasileiras, Freyre dizia que o caráter “alegre, expansivo, sociável, loquaz” dos brasileiros nascidos da Bahia, devia-se ao elemento “negróide” de sua constituição, em contraste com populações “tristonhas, aladas, sonsas e até sorumbáticas” de outros Estados, que seriam “menos influenciadas pelo sangue negro e mais pelo indígena.”

É esta herança que devemos debater, discutir e impedir que seja retransmitida às novas gerações.

Eu acho, por isso, que o racismo da obra de Lobato deve ser exposto e colocado, em sala de aula, nas conversas de pais e filhos e toda vez que uma criança passar por aquelas palavras horríveis, deprimentes – mas que, nós sabemos, fizeram parte da experiência de homens e mulheres de uma época.

Sou contra proibir uma obra de Lobato – e também seria contra proibir O Mercador de Veneza, de Shakespeare, com várias passagens contra judeus, sucesso absoluto junto a certo público na Alemanha nazista — embora eu entenda a indignação de quem teve essa ideia.

Entendo porque é humilhante ser ofendido e ouvir, como resposta: que pena, deve ser assim mesmo porque afinal de contas a Constituição garante a liberdade de expressão.
É verdade. Mas a Constituição garante, também, o respeito à dignidade de cada cidadão – e o racismo é uma forma brutal de ataque à dignidade.

Minha opinião é que cabe ao Estado, num país que teve a coragem de colocar o combate ao racismo na própria Constituição, ser coerente com seus princípios e tomar a iniciativa de combater o racismo aonde ele se encontra. Não vale esconder nem fingir que não existe.

É por isso que sou favorável à ideia que as edições de Caçadas de Pedrinho sejam acompanhadas de uma nota explicativa capaz de situar Lobato e seu tempo. Este debate deve ser feito, irá formar crianças e jovens melhores. É um dever com todos brasileiros. E não vai alterar num único milímetro a obra original.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

30 ANOS SEM GRACE



Há 30 anos, na mesma estrada que a imortalizou no cinema em "Ladrão de casaca", morria num acidente automobilístico a princesa consorte de Mônaco Grace Kelly, expressão máxima da loira platinada de Hitchcock, símbolo de elegância e de glamour e matriarca do midiático clã Grimaldi.

Janela Indiscreta
Ao contrário de outras divas do cinema, como Marylin Monroe, Grace não veio da miséria; nasceu bonita e rica na Filadélfia (em 1928), filha de um construtor multimilionário que a matriculou nas melhores escolas do país. No cinema, tudo começou com "Disque M para matar", de Alfred Hitchcock, onde Grace comete um assassinato em legítima defesa com uma tesoura de escritório. Em "Janela indiscreta" Grace contracena com James Stewart, que um acidente transformara num voyeur insaciável – um alter ego do próprio Hitchcock?

Ladrão de Casaca
Mas talvez o filme no qual a atriz mais brilhou tenha sido um que é considerado um clássico menor na filmografia do cineasta: "Ladrão de casaca", trama de suspense que, por outro lado, brilhava como comédia de vaudeville. Com um excelente figurino de Edith Head e um jogo erótico de alta voltagem com Cary Grant aplacado pelos espartilhos da época (era 1955), a aristocrata que Grace interpretou nadava no Mediterrâneo, frequentava bailes de máscaras e conduzia de maneira temerária pelas estradas da Côte D'Azur.

(com informações da agência EFE)


PEDAGOGIA DO OPRESSOR


A conexão entre o que se aprende nas escolas e o que se pratica nas fileiras de um Exército que se diz de defesa, mas atua como força permanente de ocupação estrangeira.

Os palestinos nos livros escolares de Israel (Como se faz a desumanização de um povo)
Nilva de Souza
No Blog do Luis Nassif
Neste documentário, Nurit Peled-Elhanan fala de sua pesquisa relacionada com o conteúdo dos livros didáticos de Israel. Ela expõe em detalhes como estes livros são elaborados com o objetivo de desumanizar o povo palestino e fomentar nos jovens estudantes israelenses a base de preconceitos que lhes permitirá atuar de forma cruel e insensível com o mesmo durante o serviço militar.
Conforme explica Nurit Peled-Elhanan, as construções de mundo feitas a partir dos livros didáticos, por serem as primeiras a se sedimentarem na mente das crianças, são muito difíceis de serem erradicadas. Daí a importância que o establishment israelense dedica à ideologia a ser transmitida nos livros didáticos. Neles, os palestinos nunca são apresentados como seres humanos comuns. Nunca aparecem em condições que possam ser consideradas normais. Segundo Nurit Peled-Elhanan, não há nesses livros nem sequer uma fotografia de um palestino que mostre seu rosto. Eles são sempre apresentados como constituindo uma ameaça para os judeus.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

AS METAMORFOSES DO PT


  Trechos da postagem da Carta Maior sobre o seminário “Do petismo ao lulismo: o PT ontem e hoje”, um dos que abriram o Simpósio Internacional Esquerda na América Latina: História, Presente, Perspectivas, que acontece na USP.

Em sua exposição, André Singer afirmou que o PT surgiu como um partido de natureza radical mais significativa que seu caráter socialista. “Na história política do Brasil, há uma longa tradição de conciliação pelo alto. O PT se propôs a ser um partido radical a partir dessa leitura. Foi uma novidade a existência de um partido legal e abertamente radical. Numa cultura política avessa ao confronto, se apresenta como um partido que quer romper com a ordem. A segunda novidade e que deu certo: ganhou o apoio dos movimentos sociais desde o início”. 

O cientista político listou três evidências concretas do radicalismo do PT durante os anos 1980, que se traduziu em três recusas: a primeira, a votar em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em 1985, após a derrota das Diretas Já; a segunda, a votar a favor da Constituição de 1988; a terceira, o rechaço ao apoio do PMDB no segundo turno das eleições presidenciais de 1989, por este ser um partido burguês.


“Minha hipótese é que o PT arquivou esse radicalismo em 2002. Tomou a direção da moderação. Para mim, foi de repente, embora se olharmos com lupa os anos 1990 podemos perceber indícios disso. No entanto, publicamente, nos anos 1990 ainda não estava mudando. Em 2002, a mudança foi abrupta, com a assinatura da Carta ao Povo Brasileiro, que em seguida foi incorporada ao programa de governo do Lula. O que estava lá? Um conjunto de garantias ao capital de que o PT não faria um governo de ruptura. Foi uma mudança de fundo. De um partido de confronto para um partido de não confronto com o capital”, analisou.

Para Singer, o lulismo é a implementação na prática dessa nova política, mas com uma característica incomum: simultaneamente, a ativação de um mercado interno “por baixo”. “Foram executadas políticas de combate à pobreza capazes de ativar o mercado interno e diminuir a desigualdade social, cumprindo uma parte importante do programa original do partido.”