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terça-feira, 20 de julho de 2010

JOVENS: OS MADUROS E OS TRESLOUCADOS

Pouca idade não é, necessariamente, critério de avaliação política quando se trata de exercício do poder. Três presidentes americanos assumiram a Casa Branca antes dos 50 anos: John Kennedy, aos 43; Bill Clinton aos 46 e Barack Obama aos 47. Todos enfrentaram e superaram desafios gigantescos: Kennedy evitou uma guerra nuclear mundial durante a crises dos mísseis em 1962 e encaminhou a lei de direitos civis; Clinton enfrentou uma ameaça de impeachment da direita raivosa e conseguiu se safar e Obama já conseguiu, antes do meio do mandato, aprovar no Congresso as reformas da previdência e a financeira. Por isso, é pífio o argumento de que as sandices do candidato a vice na chapa de José Serra, deputado Índio da Costa (DEM-RJ), podem ser atribuídas à sua pouca idade (39 anos). Mas tipos como este também servem para lembrar que a juventude, por si só, jamais deve ser tomada como critério isolado de virtù política, como entendia Maquiavel. A arrogância juvenil do desqualificado candidato a vice faz  lembrar o sábio Tancredo Neves, candidato à presidência da República em 1984, respondendo ao tresloucado Paulo Maluf, então com 53 anos, que desdenhara da idade provecta do adversário (75 anos): "Nero, aos 30 anos , incendiou Roma; Adenauer, aos 85, reconstruiu a Alemanha". Ou então a tirada atribuída ao indefectível Jânio Quadros, que teria dito a Fernando Collor, candidato a presidente aos 40 anos em 1990, que ele era muito jovem para o cargo. "Mas o senhor se elegeu aos 43 anos", retrucou Collor. E Jânio, com aquele ar professoral: "Pois é. E veja o senhor a merda que deu!"

sábado, 17 de julho de 2010

A ÁCIDA LUCIDEZ DE ORWELL

"As massas nunca se revoltarão espontaneamente, e nunca se revoltarão apenas por serem oprimidas. Com efeito, se não se lhes permitir ter padrões de comparação nem ao menos se darão conta de que são oprimidas"



"A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa"


"Santos deveriam ser considerados culpados até provarem sua inocência"

"Se liberdade significa alguma coisa, é o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir"

"Existem coisas em que só intelectuais são loucos de acreditar"

"Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado"

"Quando se diz que um escritor está na moda, isso quer dizer que ele é admirado por menores de trinta anos"
George Orwell - aliás, Eric Arthur Blair, 1903-1950 - jornalista e escritor de esquerda, combatente na guerra civil espanhola ao lado dos republicanos, crítico feroz tanto do imperialismo quanto do stalinismo 

sexta-feira, 16 de julho de 2010

OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

Construção (Chico Buarque de Hollanda)
http://www.youtube.com/watch?v=P7mHf-UCZp0

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa quer ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quatel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventuialmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Excercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia "sim"
começam a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhjos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão

Porém, por imprescindível
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não ves o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um siêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silencio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperanca sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção
(O Operário em Construção, Vinícius de Moraes, 1956)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

MARÍLIA DE DIRCEU

Minha bela Marília, tudo passa;
A sorte deste mundo é mal segura;
Se vem depois dos males a ventura,
Vem depois dos prazeres a desgraça.
Estão os mesmos Deuses
Sujeitos ao poder ímpio Fado:
Apolo já fugiu do Céu brilhante,
Já foi Pastor de gado.
A devorante mão da negra Morte
Acaba de roubar o bem, que temos;
Até na triste campa não podemos
Zombar do braço da inconstante sorte.
Qual fica no sepulcro,
Que seus avós ergueram, descansado;
Qual no campo, e lhe arranca os brancos ossos
Ferro do torto arado.
Ah! enquanto os Destinos impiedosos
Não voltam contra nós a face irada,

Façamos, sim façamos, doce amada,

Os nossos breves dias mais ditosos.
Um coração, que frouxo
A grata posse de seu bem difere,
A si, Marília, a si próprio rouba,
E a si próprio fere.

Ornemos nossas testas com as flores.
E façamos de feno um brando leito,
Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
Gozemos do prazer de sãos Amores.
Sobre as nossas cabeças,
Sem que o possam deter, o tempo corre;

E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.

Com os anos, Marília, o gosto falta,
E se entorpece o corpo já cansado;
triste o velho cordeiro está deitado,
e o leve filho sempre alegre salta.
A mesma formosura
É dote, que só goza a mocidade:
Rugam-se as faces, o cabelo alveja,
Mal chega a longa idade.


Que havemos de esperar, Marília bela?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;
E pode enfim mudar-se a nossa estrela.
Ah! Não, minha Marília,
Aproveite-se o tempo, antes que faça
O estrago de roubar ao corpo as forças
E ao semblante a graça.
Tomás Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu, Lira XIV

terça-feira, 13 de julho de 2010

14 DE JULHO, SEMPRE!

"Não se pode reinar inocentemente"


"Toda a gente está ansiosa pela República; ninguém quer nem a pobreza nem a virtude"


"As virtudes indomáveis dão lugar a costumes atrozes"

Louis Antoine de Saint-Just (1767-1784)

La Marseillaise
http://www.youtube.com/watch?v=4K1q9Ntcr5g

La Marseillaise interpretada por Mireille Mathieu (1989)
http://www.youtube.com/watch?v=SIxOl1EraXA&feature=related

O EXTERMINADOR ATACA NOVAMENTE

O exterminador Nelson Tanure (à dir.) voltou ao ataque e já acabou com mais um grande veículo da imprensa brasileira. Há um ano ele devolvia a Gazeta Mercantil aos seus antigos proprietários, depois de ter enterrado o mais tradicional jornal de economia do Brasil. Agora, o empresário das docas anuncia o fim da circulação do Jornal do Brasil impresso: em breve, aquele que foi um dos mais influentes jornais do país existirá apenas em versão digital. Perto desse tipo de predador, o empresário William Randolph Hearst (1863-1951, à esq.), modelo para o Cidadão Kane, de Orson Welles, foi um benfeitor da humanidade.
O Jornal do Brasil foi fundado em 1891 para defender o deposto regime monarquista. Entre seus colaboradores estavam intelectuais do porte de Joaquim Nabuco, Eça de Queirós, José Maria da Silva Paranhos, Oliveira Lima e o barão do Rio Branco. Rui Barbosa chegou a ser seu redator-chefe em 1893, mas foi afastado naquele mesmo ano quando o marechal Floriano Peixoto mandou fechar o jornal. O motivo: o Jornal do Brasil entrevistara o contra-almirante Custódio de Melo, líder da segunda Revolta da Armada. Foi reaberto em 1894 sob a direção da família Mendes Almeida; posteriormente passaria ao controle do conde e da condessa Pereira Carneiro e finalmente para o genro deles, Nascimento Brito. Nos anos 1930, depois de uma série de crises financeiras, o JB foi transformado num “boletim de anúncios” e passou a ser jocosamente chamado de “jornal das cozinheiras”.

Em 1956, a condessa lançou o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Dois anos depois, ela chamou o jornalista Odylo Costa Filho para comandar uma equipe de jovens e dinâmicos jornalistas que promoveu uma ampla reforma gráfica e editorial. Foi talvez a maior revolução da imprensa no Brasil. O JB se transformou num veículo dinâmico e moderno, tornando-se um modelo que os demais diários do país em pouco tempo copiariam. Embora tenha apoiado do golpe cívico-militar de 1964, o JB fez um jornalismo crítico depois da instalação da ditadura.
Sua edição mais memorável foi a de 14 de dezembro de 1968, um dia depois da decretação do AI-5, que acabou com as garantias constitucionais no país. Impossibilitado de criticar diretamente o regime, o jornal apelou para a fina ironia: no alto da primeira página, uma pequena chamada no canto superior direito lembrava: “Ontem foi o dia dos cegos”. Na previsão do tempo, no canto superior esquerdo, a seguinte metáfora: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx. 38º em Brasília. Mín 5º nas Laranjeiras”.
Agora, o JB acabou melancolicamente, quase como a Gazeta Mercantil. Tanure vai se notabilizando como coveiro de grandes jornais brasileiros. Bem que ele podia fazer uma oferta aos Civita pela Veja...