segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

VER PARA CRER


Alexandre Millerand
 O socialismo francês é historicamente pródigo em produzir frustrações. Essa história começou com Alexandre Millerand, socialista que no início do século XX participou de um governo do qual fazia parte um dos líderes da repressão à Comuna de Paris de 1871; teve um novo capítulo com a Frente Popular de 1936, que simplesmente virou as costas à República Espanhola quando esta foi atacada pelos fascistas de Francisco Franco - apoiado por Hitler e Mussolini -, adaptando-se à trágica realpolitik da época. Na IV República, os socialistas apoiaram alegremente as guerras coloniais no Vietnã e na Argélia. E o reinado de François Mitterrand (1981-1995)começou com grandes nacionalizações, mas deu marcha à ré, aceitou a ordem neoliberal e colocou uma pá de cal em qualquer  veleidade transformadora da antiga SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária). Este artigo que reproduzo abaixo revela que o candidato socialista à sucessão de Sarkozy, François Hollande, fez um giro à esquerda e rejeitou o "socialismo liberal". Bem, até por sobrevivência, ele teria que fazer isso. Resta saber se não é apenas conversa eleitoreira.

O giro à esquerda dos socialistas franceses


Eduardo Febbro, em Carta Maior

François Hollande: a nova "force tranquille"?
Paris – A dinâmica positiva que o socialismo francês colocou em marcha não se detém desde que, no ano passado, organizou as primárias para designar o candidato às eleições presidenciais de abril e maio. Segundo reiteradas pesquisas de opinião, François Hollande conserva sempre uma folgada vantagem sobre o presidente Nicolas Sarkozy, que aspira a reeleição, mas que ainda não lançou oficialmente sua candidatura.
Pela primeira vez nos últimos 20 anos, o socialismo francês assumiu francamente sua identidade e colocou sobre a mesa um programa de clara inspiração de esquerda. Em dois atos sucessivos, o candidato do PS fixou um rumo tanto mais inédito quanto propor uma plataforma de esquerda para uma época de profunda crise do liberalismo.

Nas últimas duas semanas, Hollande deixou para trás a linha “socialismo liberal” de seus antecessores, as ridículas polêmicas dentro de seu campo e a imagem de homem brando, indeciso, instável e inconsistente que a direita francesa e a imprensa tinham tecido em torno dele. François Hollande entrou de cheio na eleição presidencial com um discurso combativo, anti-consensual, marcado por um contundente giro à esquerda e uma frase que diz tudo: “meu adversário, meu verdadeiro adversário não tem nome, nem rosto, nem partido. Nunca apresentará sua candidatura e, consequentemente, não será eleito. Ainda assim, esse adversário governa. Esse adversário é o mundo das finanças”. Frase chocante que teve um sólido impacto na opinião pública e no próprio campo conservador.

Durante esse discurso, Hollande detalhou seis medidas para regular os mercados financeiros e lançou uma clara advertência aos “delinquentes financeiros, os fraudulentos, os pequenos selvagens”. O homem moderado e em aparência tímido se vestiu de guerreiro da cruzada contra a impunidade do sistema financeiro. A leitura imediata desse discurso não se fez esperar, tanto na opinião pública, que o percebeu como uma iniciativa para restaurar a política para além dos mercados, como dentro da direita.

O primeiro a medir o impacto do que poderia acontecer nas eleições presidenciais de abril e maio foi o próprio presidente francês. Nicolas Sarkozy oficializou sua candidatura à reeleição mediante um leque de confidências em off de alto valor negativo. “Se fracasso, deixo a política. É uma certeza!”, disse Sarkozy a um grupo de jornalistas. Até agora, sua candidatura à reeleição era virtual, mas o presidente a fez passar ao terreno do quase real com uma perspectiva negativa.

A bateria de pesquisas de opinião adversas, o lugar ocupado pelo candidato socialista na preferência do eleitorado e o efeito que teve o discurso de Hollande introduziram um fator de pessimismo. Não obstante, hábil como poucos, as confidências de Sarkozy são um plano de pré-campanha que foi se aperfeiçoando nas últimas semanas. Entre confidências em off e intervenções perfeitamente programadas de seus assessores mais próximos, Sarkozy ataca o candidato socialista da sombra e sem haver ainda posto um pé na campanha eleitoral. Segundo o vespertino Le Monde, na mesma reunião com os jornalistas, o mandatário disse: “Em todo caso, estou perto do final. Pela primeira vez na minha vida, me encontro de frente com o final da minha carreira”.

As massas francesas estão impacientes
O presidente francês está seguro de que vai esmagar seu rival. Entretanto, o socialismo francês colocou várias peças chave no tabuleiro presidencial. Os socialistas realizaram uma tripla operação. Sem citá-lo sequer, François Hollande atacou Sarkozy por seus laços conhecidos com o sistema financeiro, atraiu à suas filas os setores mais radicais da esquerda francesa e apagou sua imagem de homem indeciso. O discurso durante o qual lançou sua campanha está cheio de frases contra os reis do dinheiro e de um sexteto de medidas bem claras.

A primeira consiste em votar uma lei que obrigará os bancos a “separar suas atividades de crédito das operações especulativas”. Mais ofensivo ainda, Hollande anunciou que “proibirá pura e simplesmente os produtos financeiros sem relação com as necessidades da economia real”. O líder do PS completou logo seu dispositivo com a apresentação de seu programa eleitoral. Trata-se de um projeto destinado “à mudança” que consta de umas 60 medidas políticas e econômicas avaliadas em cerca de 20.000 milhões de euros.

Segundo Hollande, esse pacote de medidas será financiado com os 29 bilhões obtidos com a supressão das isenções fiscais – uma boa parte destas decididas por Sarkozy. Segundo o candidato do PS, seu plano acarretará em um aumento de 1% no gasto público. Toda a arquitetura destas 60 propostas gira em torno do que Hollande chamou “um ajuste realista” que, segundo esclareceu, nunca perderá de vista a justiça social.

O representante do partido da rosa adianta um mandato muito diferente ao de Sarkozy. Se ganhar a eleição, disse, sua primeira decisão consistirá em aprovar a reforma fiscal e financeira com a meta declarada de incrementar os impostos “aos que mais ganham, aos bancos e às grandes empresas”. A ruptura com a política fiscal de Sarkozy é espetacular. Logo no começo de seu mandato, Nicolas Sarkozy aprovou o polêmico “escudo fiscal” com o qual limitou o porcentual impositivo dos ricos. Hollande toma o caminho contrário: o imposto de renda aumentará dos 41% atuais a 45% para os que ganham mais de 150.000 euros por ano.

Sarkô e Angela Merkel: os coveiros da Europa
O lema socialista desta eleição 2012 é “a igualdade, a juventude, a educação e a justiça”, disse François Hollande em sua apresentação à imprensa. Todo o esforço socialista parece orientado a desandar os passos de Sarkozy. O aspirante do PS prometeu que se for eleito em maio próximo voltará a negociar o tratado europeu pactuado no ano passado entre Sarkozy e a chanceler alemã Angela Merkel.

Há muito tempo que os socialistas não expunham programa tão ambicioso, ainda mais quando este se desdobra em plena crise, com medidas como a preservação dos grandes grupos estatais, a criação de um banco público de investimento ou a introdução de um sistema de poupança isenta de impostos e destinada às pequenas e grandes empresas. As reformas propostas por François Hollande retomam os esquecidos hinos da social-democracia européia, convertida ao ultra liberalismo nos últimos 20 anos: reformar para redistribuir a riqueza, reformar para equilibrar a justiça social.

Faltam mais de dois meses para o primeiro turno da eleição presidencial, mas pouco a pouco, o PS francês instalou na opinião pública a validade de um programa de forte inspiração socialdemocrata, a idéia de que há vida fora do dogma ultra liberal, o princípio básico de que os bancos não podem fazer o que lhes dê vontade e que, para todas estas coisas, a ação política e o Estado podem voltar a ter um sentido.

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