quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O PESADELO DE VINÍCIUS DE MORAES EM BUENOS AIRES

O pianista Francisco Tenório Jr., o "tenorinho"
O pianista de Vinícius de Moraes, Francisco Tenório Jr., o Tenorinho, foi uma vítima avant la lettre da ditadura militar argentina. Ele foi sequestrado e morto por militares da Marinha dias antes do golpe militar de 24 de março de 1976. Mas o aparelho repressivo da ditadura, que massacraria cerca de 30 mil pessoas nos anos seguintes, já estava montado, e tinha como auxiliares os grupos paramilitares de extrema-direita como a “Triple A” (Aliança Anticomunista Argentina), criado pela sinistra figura de José López Rega, vulgo El Brujo, secretário particular daquela patética presidente, Maria Estela Martínez de Perón, a Isabelita. Tenorinho foi morto, supostamente, pelo infame tenente (e não capitão, como diz o texto abaixo) Alfredo Astiz – aquele que ficaria famoso por se infiltrar entre as Madres da Plaza de Mayo e que anos depois se entregaria aos britânicos nas Malvinas sem dar um tiro sequer.
O texto abaixo conta os detalhes daquele episódio e da busca desesperada e inútil do poetinha por seu pianista.



Quando Vinicius procurou Tenório Jr. em Buenos Aires

Por Webster Franklin

Da Carta Maior

No dia 18 de março de 1976, Tenório Cerqueira Jr., pianista brasileiro que acompanhava Vinicius de Moraes em duas apresentações na capital argentina, desceu de seu quarto do hotel Normandie na Avenida Corrientes e, na esquina com a Rua Rodríguez Peña, quatro homens o jogaram em um Ford Falcon sem placas. Posteriormente o levaram a uma delegacia da Rua Lavalle e depois à Escola de Mecânica da Armada, onde, segundo testemunhas, foi assassinado com um tiro pelo capitão da Marinha, Alfredo Astiz.

Francisco Luque - Direto de Buenos Aires

Buenos Aires - “Tenorinho desapareceu”, disse Vinicius com um tom frio e seco, quase inaudível. Marta Rodríguez Santamaría, sua mulher argentina, e a pintora Renata Schussheim o acompanham enquanto o poeta desliga o telefone e começa a dimensionar a notícia. É tarde de sábado do dia 18 de março de 1976 e ainda que o grupo compreenda as dimensões do fato não imagina que o pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior havia sido detido por um grupo de operações da marinha argentina. Também não imaginam que o golpe de Estado na Argentina é iminente nem que a Operação Condor começa a alçar vôo.

Vinícius de Moraes

A reconstrução do relato e o horror dos momentos vividos durante março de 1976 são detalhados pela escritora Liana Wenner em seu livro Nuestro Vinicius. Vinicius de Moraes em el Río de la Plata: um perfil em várias vozes sobre o vínculo fraterno que estabeleceu o poeta com o mundo cultural e artístico portenho, que começa quando, em 1966, dois jovens editores o visitam no Rio de Janeiro com a oferta de difundir sua obra na Argentina.

Às três da madrugada do dia 18 de março de 1976, Tenório Cerqueira Jr., um pianista brasileiro reconhecido no mundo do jazz, desceu de seu quarto do hotel Normandie na Avenida Corrientes e, na esquina com a Rua Rodríguez Peña, quatro homens vestidos de civil o introduziram em um Ford Falcon sem placas. Posteriormente o levaram a uma delegacia da Rua Lavalle e depois à Escola de Mecânica da Armada, ESMA, onde, segundo testemunhas, no dia 25 de março recebeu um tiro de misericórdia disparado pelo capitão da Marinha, Alfredo Astiz.

Tenório tinha 35 anos, estava casado, tinha quatro filhos e um quinto estava por nascer.


Em seu livro, Wenner conta que horas antes de sua desaparição, Tenório Jr., junto à cantora Amélia Colares, o baterista Mutinho e o baixista Azeitona, haviam acompanhado Vinícius de Moraes e Toquinho no teatro Gran Rex em uma das duas apresentações agendadas na cidade.

Paradoxalmente com os fatos posteriores, as críticas ao show verteram elogiosos comentários ao jovem pianista:


“O espetáculo apresentou uma revelação que surpreendeu muitos espectadores: o excelente trabalho de Tenório Jr. O pianista, além de acompanhar eficazmente, executou uma brilhante composição que, paradoxalmente, se constituiu na mais autêntica expressão da música contemporânea brasileira”, diz o jornal El Cronista Comercial do dia 18 de março de 1976. Quando a crítica chegou às bancas, Tenório Jr. estava em mãos dos para-policiais.


O jornalista Eric Nepomuceno, exilado em Buenos Aires nesses dias, relata: “Naquela época Vinicius procurou o Tenório como louco pela cidade, seu desaparecimento lhe pesou muito. Ele mobilizou tudo o que esteve ao seu alcance para encontrá-lo, e existem documentos que dizem que na embaixada lhe mentiram porque houve um funcionário que o viu morto. Vinicius ia à embaixada brasileira em Buenos Aires e voltava muito frustrado. Que lhe diriam aí? Ele estava chorando na catacumba equivocada. Quando fui pedir asilo, com a minha mulher e o meu filho de um ano, depois de 24 de março, me negaram. Nem sequer aos dois receberam. Vinicius, talvez por esperança ou por ingenuidade, não se deu conta de que, além do inferno que se cozinhava na Argentina, a embaixada brasileira era uma sucursal invejosa desse inferno. Ali havia um cara cujo sonho era fazer o mesmo no Brasil”.

Graças às gestões de Vinicius, o jornal Última hora do dia 21 de março publicou: “MÚSICO BRASILEIRO QUE NÃO APARECE. Há poucos dias tivemos a oportunidade de assistir um novo recital de Vinicius de Moraes e Toquinho, que se apresentavam acompanhados por três músicos brasileiros que também já são conhecidos de nosso público: Azeitona, Mutinho e Tenório Jr.”.

“Ontem, este último foi novamente notícia, mas, lamentavelmente, na crônica policial por causa de seu desaparecimento há quase quatro dias. Segundo se soube Francisco Tenório Cerqueira Júnior, tal é seu verdadeiro nome, abandonou o hotel onde se alojava junto com sua esposa e o resto do conjunto com a intenção de adquirir alguns medicamentos. Desde então não se teve mais notícias de seu paradeiro, com o imediato alarme do grupo de artistas. “O fato ocorreu na quinta-feira passada, por volta das três da madrugada”.

Sem resultados positivos, Vinícius recorreu à justiça. Apresentou um recurso de habeas corpus através de um juiz conhecido de sua mulher. Três dias depois da apresentação se produziu o golpe de Estado e o juiz foi exonerado. Antes de abandonar o caso, o juiz avisou que não procurassem mais Tenório porque os que procuravam os desaparecidos “corriam sério risco de desaparecer”. Enquanto isso insistia em que a embaixada de seu país se responsabilizasse pelo caso.

No mesmo dia do golpe militar, 24 de março, o jornal La Razón publicou em um pequeno quadro: “VINICIUS DE MORAES SOLICITOU AJUDA PARA ENCONTRAR SEU PIANISTA”. Todas as gestões foram infrutíferas.

A revelação do desaparecimento de Tenório Jr. se conheceria anos depois. Claudio Vallejos, um suboficial da ESMA, integrante do Serviço de Informação e torturador, declarou ter participado do sequestro do músico. Vallejos chegou ao Brasil vendendo um dossiê de brasileiros desaparecidos durante o golpe militar argentino, entre eles o de Tenório. Segundo seu relato, Tenório foi sequestrado por seu aspecto – cabelo comprido, barba, desalinhado, tipo Lennon-, um fiel retrato de um intelectual de esquerda. Além disso, falava muito bem espanhol o que pesou contra ele. “Astiz o assassinou no porão da parte antiga da ESMA, mas desconheço onde o enterraram”, relatou.

A Escola de Mecânica da Armada, centro de torturas

No dia 25 de março de 1976, a Marinha argentina enviou um comunicado à diplomacia brasileira em Buenos Aires no qual reconhece sua responsabilidade. “Lamentamos informar o falecimento do cidadão brasileiro Francisco Tenório Júnior, passaporte n° 197803, de 35 anos, músico de profissão, residente na cidade do Rio de Janeiro. O mesmo se encontrava detido à disposição do PEN, o qual foi oportunamente informado a essa embaixada. O cadáver se encontra a disposição da embaixada no necrotério judicial da cidade de Buenos Aires, onde foi remetido para a devida autópsia”.


As testemunhas indicam que Tenório Jr. foi uma das primeiras vítimas da ditadura argentina.

Em meados de abril de 1976, Vinicius de Moraes se despediu de sua mulher e tomou o avião para o Rio de Janeiro. Nunca mais voltaria a se apresentar em um teatro argentino.

Aqui, duas músicas de tenorinho, do álbum Embalo (1964):









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