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terça-feira, 16 de abril de 2013

CASO PROFUMO: O TURNING POINT

John Profumo, secretário de Guerra do Reino Unido em 1963 
Há 50 anos estourou na Grã Bretanha o chamado Caso Profumo, talvez o primeiro escândalo cujas conotações sexuais tenham sido mais amplamente exploradas pela mídia do que suas dimensões políticas. John Profumo, então secretário da Guerra do Reino Unido, envolveu-se com uma bailarina chamada Christiane Keeler. Até aí, tudo bem; na época os jornais britânicos e anglo-saxões eram extremamente discretos com as puladas de cerca de seus líderes. O problema é que Keeler também tinha um caso com Yevgeny Ivanov, adido naval da embaixada soviética em Londres e tido como espião pelo MI-5 (serviço de contra-espionagem britânico).

Os rumores do triângulo amoroso vieram à público em 1962; em março de 1963 Profumo foi obrigado a prestar esclarecimentos à Câmara dos Comuns. Mas ele não só negou que tivesse qualquer relação com Keeler como também ameaçou processar os deputados por calúnia, injúria e difamação se o assunto saísse daquele âmbito, a Câmara dos Comuns (vejam só como eles eram discretos naqueles tempos pré 1968...).

A" femme fatale"
A preocupação dos comuns se justificava, pois na época a Guerra Fria estava em seu apogeu. O affair do secretário da Guerra com a bailarina não era uma questão de mera infidelidade conjugal, como aconteceria décadas mais tarde com o presidente americano Bill Clinton e a estagiária charuteira Monica Lewinsky, mas um problema de segurança nacional. Afinal, fazia poucos meses que o mundo havia escapado de uma hecatombe nuclear com a crise dos mísseis de Cuba (outubro de 1962), quando EUA e URSS quase apertaram os botões. Que segredos de Estado o secretário da Guerra poderia ter revelado na alcova a Keeler e esta ao amante e espião soviético?

Christiane Keeler, em fotos de Lewis Morley 
O caso resvalou para o escândalo sexual quando fotos de Keller em poses eróticas, tiradas por Lewis Morley em maio daquele ano, foram publicadas pelo Daily Mirror, que obteve uma cópia sem autorização do fotógrafo. O affair pegou fogo e em junho Profumo acabou confessando que mentira e renunciou. O governo do primeiro-ministro conservador Harold Mcmillan cairia meses depois. E o médico que apresentou Keeler a Profumo, o dr. Stephen Ward, suicidou-se. A moral ainda era vitoriana, mas a prática desonesta do Mirror e a exploração sensacionalista de escândalos de celebridades se tornaria um padrão na mídia britânica e mundial.        

segunda-feira, 15 de abril de 2013

PEDE PARA SAIR, JUAN CARLOS!


Em Madri, espanhóis pedem plebiscito pela III República
Milhares de pessoas realizaram no domingo uma manifestação em Madri para comemorar os 82 anos da II República (1931-1939) e exigir um referendo para saber se a população quer continuar a ser governada por uma monarquia ou se prefere a instalação da III República. A manifestação também reivindicava a nacionalização dos bancos, reforma política, punição dos crimes da ditadura franquista e não-pagamento da dívida.
   
A monarquia espanhola, de fato, é uma excrescência. A primeira república (1873-1874) foi uma experiência efêmera; já a segunda, surgida em 1931 depois da ditadura de Primo de Rivera, abriu um período de profundas transformações, crise institucional e guerra civil, que culminou na instalação da ditadura direitista do general Francisco Franco (1939-1975). O ditador assumiu todas as rédeas do poder, mas preparou o neto do rei Alfonso XIII, Juan Carlos, para sucedê-lo. Um caso curioso de um regime que interrompeu e, ao mesmo tempo, manteve a monarquia.

His Finest Hour: Juan Carlos I impede o golpe militar em 1981 
Rejeitado inicialmente como franquista, o rei Juan Carlos I conquistou o apoio das forças progressistas ao apoiar firmemente o processo de transição à democracia. O monarca se legitimaria em fevereiro de 1981, quando abortou uma tentativa de golpe militar capitaneada por oficiais de extrema-direita que não se conformavam com o fim do regime. Na TV, o rei Juan Carlos exigiu respeito à sua autoridade e ao processo democrático. Os militares enfiaram o rabo entre as pernas e se entregaram. Na época, o líder comunista Santiago Carrillo, republicano histórico, disse que, em razão do papel do monarca na transição, não teria problemas em virar monarquista.
             
Mas o tempo passou e a monarquia espanhola virou uma relíquia do passado. E que exala mofo. O sintoma mais recente disso é o caso de corrupção conhecido como Operação Babel, que envolve o ex-jogador de handebol Iñaki Urdangarin, marido da princesa infanta Cristina, a duquesa de Palma de Mallorca. Ele está sendo investigado pela polícia por uma suspeita de desvio de fundos públicos, fraude e lavagem de dinheiro através do Instituto Nóos, uma ONG de incentivo ao esporte.

Juan Carlos posando de Hemingway na Botsuana
Já no ano passado, a imagem da família real tinha ficado muito desgastada com uma viagem do rei Juan Carlos para caçar elefantes na Bostuana no momento em que a crise da dívida européia atingiu o país, além de um suposto escândalo amoroso do rei com uma empresária alemã.

Pesquisa publicada em novembro de 2012 pelo jornal ABC indicava que apenas 45,8% dos espanhóis acreditavam que a manutenção da monarquia contribuía para a democracia, enquanto o apoio ao rei era de 55%. Na semana passada, o El País publicou uma pesquisa na qual 53% dos entrevistados desaprovam a monarquia, contra 42% de apoiadores.

UM LEGADO NEFASTO

Margaret Thatcher

Margaret Thatcher deixa um legado dos mais nefastos da história contemporânea: a desconstrução do welfare state, o Estado de bem-estar penosamente erguido em toda a Europa ocidental, inclusive por governos conservadores, depois da devastação das duas guerras mundiais. Isso sem falar no apoio desavergonhado que a “dama de ferro” deu ao ditador chileno Augusto Pinochet – aliás, ele próprio um thatcherista avant la lettre.

Mas, acima de tudo, Thatcher – e o americano Ronald Reagan – quase fizeram o Estado voltar a ser o “comitê executivo da burguesia”, principalmente do setor financeiro, cuja hegemonia representa o capitalismo mais rapace e voraz, com o assalto permanente aos direitos sociais e trabalhistas. Essa ilusão com as virtudes da “mão invisível” do mercado – que faria Adam Smith corar – durou quase 30 anos e só começou a desmoronar com a crise de 2008. E, mesmo assim, essa crise não abalou a teimosia da troika – leia-se, Alemanha – em receitar doses cavalares de austeridade aos países da União Europeia que estão endividados até o pescoço. Pouco importa se a adoção desse receituário significa jogar 50% dos jovens no desemprego, como na Espanha – ou 70%, como na Grécia. No resto do mundo desenvolvido, dos EUA ao Japão, os dirigentes já se convenceram de que o neoliberalismo fracassou e seu arsenal é desastroso para enfrentar a crise econômica.

Thatcher e Augusto Pinochet
Já no Brasil, a maioria da grande mídia e de seus miquinhos amestrados – oops, quero dizer, comentaristas econômicos – vive no mundo da fantasia e do passado. Para eles, o Consenso de Washington segue firme e forte e quem não vê isso são apenas os “perfeitos idiotas latino-americanos”. Por isso batem forte no governo porque a presidente Dilma Rousseff  mostra disposição de se afastar cada dia mais da ortodoxia incensada pela banca e seus representantes. O catastrofismo das viúvas de Thatcher-Reagan – e de Roberto Campos, por que não? – teve início quando o governo começou a baixar os juros; continuou quando foram lançadas as bases de uma política industrial para o país e aumentou agora, quando o governo resolveu desonerar a folha de vários setores econômicos. O último round foi a grita generalizada contra a ameaça da inflação, um mero pretexto para que os juros voltem a ser aumentados e encham as burras do setor rentista.

Adam Smith
Deveriam ler mais Adam Smith. “É injusto que toda a sociedade contribua para custear despesas cujos benefícios vão apenas para uma parte desta sociedade”. 
      

quinta-feira, 4 de abril de 2013

HÁ MÉTODO NESSA LOUCURA


O ditador Kim Jon-un e a suposta namorada
A maioria das notícias sobre as tensões na península coreana está eivada de simplismos maniqueístas. Como se tudo não passasse de ações tresloucadas de um ditadorzinho inexperiente, herdeiro de uma dinastia cruel e desalmada. É evidente que a dinastia Kim (pai, filho e neto), que governa a Coréia do Norte desde 1945, não é o melhor exemplo de sanidade e compostura políticas, para dizer o mínimo. Mas é preciso entender as crises entre as Coreias de um ponto de vista geopolítico. Por trás de discursos grandiloqüentes e de ameaças guerreiras há muito mais cálculo político do que supõe nossa vã filosofia política.

Incrustada entre potências como a China, Japão e Rússia, a península coreana sempre serviu como campo de batalha desses países. Os coreanos sobreviveram tentando jogar um país contra o outro e, ao mesmo tempo, manifestando subserviência, principalmente em relação aos soberanos chineses. Mas, depois de vencer a China e a Rússia, entre o final do século XIX e o início do XX, o Japão transformou a Coréia num protetorado, entre 1910 e 1945. Durante a Segunda Guerra, os coreanos foram usados pelo Japão como força de trabalho semiescrava. Na Conferência de Yalta, em fevereiro de 1945, os aliados concordaram que a Coréia integraria a futura “zona de influência” soviética, em troca do apoio de Stálin aos EUA na guerra contra o Japão. Com a derrota dos japoneses, os soviéticos ocuparam o norte da península, enquanto que o Exército dos EUA ocupou o sul. Mas os americanos decidiram, unilateralmente e sem consultar sequer os coreanos, dividir a país em torno do Paralelo 38º: a Coréia do Norte, comunista; e a Coréia do Sul, pró-americana. Esse fato, mais o advento da bipolaridade EUA-URSS e da Guerra Fria, adiariam ad infinitum a realização das eleições gerais no país, previstas para 1950.

O regime norte-coreano cultiva o mito da autossuficiência
Em 1950, o ditador norte-coreano Kim Il-Sung – que havia sido colocado no poder pelos soviéticos – mandou suas tropas invadirem a Coréia do Sul, numa tentativa de unificar o país manu militari. Então os EUA, aproveitando o boicote temporário da URSS ao Conselho de Segurança da ONU, fizeram a organização aprovar uma resolução autorizando o envio de tropas para defender a Coréia do Sul. Sob a bandeira da ONU, os EUA enviaram soldados para a península, enquanto que a China comunista engajava seus exércitos para ajudar a Coréia do Norte. A guerra terminou em 1953 em um impasse, com um armistício e a divisão do país, que sobreviveu ao colapso do bloco soviético e permanece até hoje.

A Guerra da Coréia terminou em 1953 e ficou inconclusa
Como explicar a permanência dessa divisão aparentemente anacrônica? Segundo o professor Ian Buruma, do Bard College, “a dinastia Kim se arroga o direito à legitimidade com base no Juche, a ideologia oficial do regime que enfatiza a determinação do país a se tornar autossuficiente”. Com isso, durante a Guerra Fria, Kim Il-sung tentou jogar a China contra a URSS para garantir a proteção de ambos. “Para a dinastia Kim sobreviver, a ameaça de inimigos externos é fundamental”, diz Buruma. Esse jogo acabou com o fim da URSS, em 1991. Como restou apenas a China, o regime norte-coreano ficou totalmente dependente dos humores dos governantes de Pequim.

Treinamento militar na Coréia do Sul: jogos de guerra
Assim, ainda segundo a análise de Buruma, há somente uma maneira de desviar a atenção dessa situação humilhante: “fazer propaganda da autoconfiança do país e transformar num discurso histérico uma iminente ameaça dos imperialistas americanos e seus lacaios sul-coreanos”. Os ziguezagues em relação à questão nuclear fazem parte desse jogo.

O drama, no entanto, é que uma mudança do status quo da região não interessa a nenhum dos players da região. “A China quer manter o país como um Estado-tampão e teme que milhões de refugiados fujam para o território chinês no caso de um colapso norte-coreano; os sul-coreanos jamais poderiam se permitir absorver a Coréia do Norte da mesma maneira como a Alemanha Ocidental incorporou a República Democrática da Alemanha; e nem o Japão, nem os Estados Unidos mostram-se dispostos a pagar pela limpeza depois de uma implosão norte-coreana”, diz o professor Buruma. 
           

VOVÔ NÃO IRIA GOSTAR...

Aécio Neves, muito menor que o avô 

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), provável candidato tucano à Presidência da República em 2014, tropeçou na língua e chamou o golpe cívico-militar de 1964 de “revolução”, como os militares e seus acólitos costumavam se referir à ruptura da legalidade e instalação da ditadura. A expressão foi usada em um encontro do senador mineiro com prefeitos na cidade de Santos. Defendendo as reivindicações dos prefeitos, Aécio fez um relato de episódios históricos que teriam levado à centralização do Estado brasileiro. Em determinado momento, o senador disse que esse fenômeno advém da proclamação da República. “Veio a revolução de 64, novo período de grande concentração de poder nas mãos da União, apesar de ter sido um período em que foram criadas políticas compensatórias para determinadas regiões menos desenvolvidas”, disse o tucano. Indagado por jornalistas sobre a razão de ter usado tal expressão, Aécio tergiversou: “ditadura, revolução, como quiserem”. Depois, talvez arrependido, arrematou: “ditadura, regime autoritário, que todos nós lutamos para que fosse vencido”. Então, tá...

A linguagem, todos sabemos, não é inocente. Aécio deve ter sido traído pelas práticas de seu partido, cada vez mais uma caricatura da velha UDN. Vide o que aconteceu com o secretário particular de Alckmin, esse janotinha direitista chamado Ricardo Salles. As bobagens reacionárias que ele disse (questionou, por exemplo, a existência de crimes cometidos pelos militares durante a ditadura) provocaram reações de antigos militantes esquerdistas que hoje estão no ninho tucano, como o senador Aloysio Nunes Ferreira (ex-ALN) e o ex-vice-governador Alberto Goldman (ex-PCB).

Tancredo não votou em Castello, mas Ulysses sim
Quem deve estar se revirando no túmulo é o avô de Aécio, Tancredo Neves, que morreu presidente sem ter conseguido tomar posse. Tido como uma das raposas conservadoras do velho PSD, Tancredo, no entanto, jamais traiu suas origens e convicções. Era ministro da Justiça de Getúlio Vargas em 1954 quando os brigadeiros se amotinaram na “República do Galeão”, no episódio do atentado ao jornalista Carlos Lacerda que resultou na morte do major da Aeronáutica Rubens Vaz. Tancredo foi o único do gabinete a sugerir que Getúlio prendesse os revoltosos. Quando Jango foi deposto, Tancredo o acompanhou até o aeroporto para o voo que o levaria ao exílio. E quando os militares reabriram o Congresso mutilado pelas cassações para que fosse encenada a farsa da “eleição” do marechal Castello Branco à Presidência, Tancredo foi o único parlamentar do PSD a votar contra. O ex-presidente Juscelino Kubitschek e o deputado Ulysses Guimarães - futuro "Senhor Diretas" - votaram em Castello. Tancredo era um conservador esclarecido, ao contrário do neto.           

terça-feira, 2 de abril de 2013

NASCIMENTO E MORTE DO SOCIALISMO

Revoluções de 1848 na Europa, o berço do socialismo 

O socialismo, como força política significativa, surgiu na Europa em meados do século XIX, depois da grande vaga revolucionária de 1848 e da Comuna de Paris de 1871. O movimento se armou com as teorias comunistas elaboradas por Karl Marx e Friedrich Engels, organizando-se em sindicatos e partidos operários, principalmente na Alemanha e na França, onde se forjaram atuando a duras penas, sob a repressão implacável de Otto von Bismarck e Napoleão III, respectivamente. O programa original dos socialistas europeus – já então conhecidos como social-democratas – era revolucionário: na esteira de Marx e Engels, previa que as contradições internas do capitalismo abririam o caminho para uma revolução do proletariado e a implantação do socialismo. Para a social-democracia nascente, a democracia representativa era apenas um meio de se fortalecer para denunciar o capitalismo.

Karl Marx e Friedrich Engels
Mas no final do século XIX, ao perceber que a crise final do capitalismo não acontecia e que as condições materiais da classe operária melhoravam, principalmente por causa da ação dos socialistas, teóricos e políticos como Edward Bernstein (Alemanha) e Alexandre Millerand (França) começaram a pensar que a revolução se tornara impossível e que agora a tarefa dos socialistas era lutar para reformar o capitalismo, tornando-o mais humano. Essas teses, chamadas de “revisionistas” e “possibilistas” foram atacadas pela nata da II Internacional, de Karl Kautsky a Rosa Luxemburgo, passando por Georg Plekânov e August Bebel. Mas a II Internacional só racharia mesmo com a Primeira Guerra Mundial, quando seus principais dirigentes decidiram apoiar seus governos nacionais. Líderes como Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Vladimir Lênin denunciaram o “chauvinismo” das lideranças da organização e romperam com ela.

A Revolução Bolchevique de Outubro de 1917
O racha se tornaria definitivo em 1917, quando Lênin e Trotsky lideraram a revolução bolcheviue (comunista) na Rússia czarista. A partir de então, o movimento operário se dividiu em duas alas inconciliáveis: de um lado os social-democratas ou socialistas, que acabaram adotando as teorias de Bernstein/Millerand, embora, num primeiro momento, sem abandonar o discurso marxista; de outro, os comunistas, que diziam que apenas resgatavam a tradição revolucionária abandonada pela II Internacional. A III Internacional (ou Komintern), com sede em Moscou, surgia como a sede da revolução socialista internacional, esperando pelo despertar do proletariado ocidental.

Stálin na Praça Vermelha
Mas a revolução mundial faltou ao encontro. Fracassou na Alemanha, na Hungria, na Polônia e na Itália. Os soviéticos então recuaram a adotaram a ideia – até então estranha ao marxismo – de “socialismo num só país”. A partir de então, o experimento comunista na União Soviética, com a perenização de uma ditadura de partido único, parecia indicar o único caminho possível à esquerda revolucionária mundial – dissidências como o trotskismo eram marginais. Mesmo com a coletivização forçada entre 1929-1934, a derrota dos republicanos na guerra civil espanhola de 1936; os sangrentos expurgos de 1936-1938 no PC soviético e o colossal erro de avaliação da III Internacional, cuja subestimação do perigo nazista na Alemanha impediu a formação de uma aliança entre comunistas e socialistas. Mas o decisivo envolvimento do Exército Vermelho na II Guerra na derrota do nazi-fascismo, bem como a formação de inúmeras guerrilhas comunistas contra os alemães em vários países europeus (Itália, França, Iugoslávia) levou o prestígio da URSS aos píncaros.

Willy Brandt no Congresso de Bad Godsberg (1959)
O fim do conflito mundial trouxe a bipolaridade EUA/URSS e a Guerra Fria. Regimes pró-soviéticos dominaram o Leste Europeu. E a social-democracia finalmente deu adeus ao marxismo em 1959, quando o Partido Social Democrata Alemão, no Congresso de Bad Godsberg, abandonou a referência à luta de classes, ao proletariado e à revolução socialista. Por outro lado, o congresso mudou a relação do partido com a democracia representativa: de tática para tomar o poder ela virou “valor universal”.

O período de 1950 a 1979 foram os “anos dourados” da social-democracia europeia. Com ajuda do Plano Marshall, do keynesianismo e, às vezes, até dos partidos conservadores, a social-democracia construiu o welfare state na Europa, com pleno emprego, ampla rede de proteção social e garantias individuais. O preço foi se alinhar aos Estados Unidos e à OTAN (aliança militar ocidental) contra a União Soviética. Já esta última, apesar de experimentar grande desenvolvimento econômico e tecnológico, enfrentou muitas rebeliões em seus satélites do Leste: Belgrado (1947); Berlim (1953); Budapeste e Varsóvia (1956) e Praga (1968) – todas, à exceção de Belgrado e Varsóvia, sufocadas com tanques do Pacto de Varsóvia. Mesmo a vitória dos comunistas na China, em 1949, se revelaria fonte de permanentes dores de cabeça para Moscou, até o rompimento, em 1961.

Berlinguer, Carrillo e Marchais, os pais do Eurocomunismo
Os anos 1970 e 1980 trouxeram mudanças significativas para os grandes partidos comunistas e socialistas da Europa ocidental. Em primeiro lugar, os maiores PCs do Ocidente (Itália, França e Espanha) romperam com a tutela de Moscou e fundaram o “Eurocomunismo”, uma tendência que, de certa maneira, fez o caminho de volta e abraçou as teses reformistas que o SPD adotara em Bad Godsberb. Entre as mudanças, a mais decisiva para os comunistas foi a admissão de que a democracia deixara de ser expediente tático para se tornar “valor universal”, como para os social-democratas.

Estátua de Lênin retirada
Estes, por sua vez, viveriam uma espécie de “reação termidoriana”. Acossados pelos conservadores, que adotaram o receituário neoliberal para desmantelar o welfare state, os social-democratas capitularam, copiando a fórmula de seus inimigos. Começaram na Espanha, com Felipe González; depois na França, com François Mitterrand; no Reino Unido, com Tony Blair; e finalmente na Alemanha, com Gerhard Schröder. Ao aplicarem as mesmas políticas de austeridade, arrocho, corte de impostos e aumento do desemprego de Thatcher e Ronald Reagan, os social-democratas jogaram a última pá de cal no welfare state, talvez o melhor experimento social da humanidade. A queda do Muro de Berlim (1989) e a implosão da União Soviética (1991) acabaram por completar esse desmonte. O resultado é que hoje não apenas a utopia comunista foi derrotada; também a ideia do capitalismo com face humana morreu. Ficamos à mercê das teorias liberticidas de Milton Friedman e Friedrich Hayek, irremediavelmente fadados a viver no mundo hobbesiano do homem como lobo do homem.    

segunda-feira, 1 de abril de 2013

1º DE ABRIL DE 1964: O DIA DA INFÂMIA


 
João Goulart (ao lado da mulher, Maria Thereza):  opção pela não-resistência 
Há 49 anos, no dia da mentira, as mesmas forças econômicas e políticas que hoje fazem feroz oposição ao governo de Dilma Rousseff e ao ex-presidente Lula se articularam com a grande mídia (como hoje...), setores de direita das Forças Armadas e a cúpula da Igreja Católica para desfechar um golpe de Estado contra o presidente João Goulart. Esses setores estavam inconformados com as “reformas de base”, prometidas por Jango, e com a ascensão ao primeiro plano da vida política do país dos segmentos historicamente excluídos: operários, camponeses e soldados. Para ganhar a classe média, os conservadores manipularam habilmente o temor do “perigo comunista” e da instalação de uma “república sindical” no país.

General Olympio Mourão, a "vaca fardada" 
Mas, articulado desde 1954 contra Getúlio Vargas, o golpe só saiu porque um general de três estrelas tresloucado, Olympio Mourão Filho – que mais tarde se autodenominaria uma “vaca fardada” – se precipitaria fazendo seus recrutas, sediados em Minas Gerais, marcharem contra o Rio de Janeiro, então a sede do poder central. Dois ou três caças da FAB teriam resolvido o problema, se o presidente Goulart estivesse disposto a resistir, como fizera Leonel Brizola em 1961, quando os comandantes militares tentaram impedir a posse de Jango depois da renúncia de Jânio Quadros. Mas Jango preferiu deixar o poder para evitar uma guerra civil, que provocaria, segundo ele, “derramamento de sangue de brasileiros”. No entanto, é certo que, se houvesse resistência, o golpe seria apenas adiado, já que a ruptura entre Jango e a cúpula militar se tornara irreversível desde que o presidente prestou sua solidariedade aos marinheiros amotinados e aos sargentos reunidos no Automóvel Clube às vésperas da quartelada. De qualquer forma, a resistência tornaria as coisas bem mais difíceis para os golpistas.

A ausência de resistência teve conseqüências trágicas. Em primeiro lugar, levou parte da esquerda que antes orbitava em torno do Partido Comunista Brasileiro (PCB) a optar pela luta armada contra o regime, num momento de ampla desmobilização e desorganização dos trabalhadores e dos camponeses. O resultado foi uma repressão brutal e feroz, particularmente depois do AI-5, que transformou a tortura em instrumento de Estado e provocou centenas de mortos e “desaparecidos” políticos. Em segundo lugar, a ausência de resistência ao golpe permitiu que, quando o regime finalmente se exauriu, tivesse condições de promover a transição controlada – a tal “abertura lenta, segura e gradual” – na qual os militares bloquearam toda possibilidade de investigação dos crimes da ditadura.

Os chefes da ditadura e da repressão: Castello, Costa e Silva e Geisel 
Agora, com a Comissão da Verdade, teremos condições de começar a escrever essa história, apesar do pessimismo de muito na esquerda. Estão vindo à tona as circunstâncias da prisão e morte de Rubens Paiva e Vladimir Herzog, entre outros, bem como as ligações perigosas entre os empresários e os porões da ditadura, e entre os diplomatas americanos e os generais brasileiros. Essa discussão está se tornando pública. É o primeiro passo para incriminar os responsáveis pelos crimes da ditadura, apesar da decisão do STF contra a punição aos repressores. Temos que criar condições para responsabilizar os chefões, e não apenas a parte inferior da cadeia de comando. Brilhante Ustra; Carlinhos Metralha; o capitão Albernaz; Fleury; o brigadeiro Burnier, mas também Médici, Costa e Silva, Geisel, Castello e Figueiredo. Que sejam postumamente expulsos do Exército e desonrados, como aconteceu com Jorge Videla ainda em vida.