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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

UMA IGREJA EM CADA ESQUINA?


Um texto interessante do Azenha sobre o papel da direita religiosa nos Estados Unidos e o crescimento da participação das igrejas na política no Brasil, cuja expressão mais recente é a candidatura do Celso Russomano, que tem apoio da igreja universal do “bispo” Macedo, de sua dissidente, a igreja mundial do poder de Deus, e de setores carismáticos da igreja católica. Estaremos caminhando para minar as bases do Estado laico?      

Como a direita religiosa organizou um bloco que mudou a política norte-americana

Luiz Carlos Azenha, no Viomundo

Morei pela primeira vez nos Estados Unidos durante o único mandato de Jimmy Carter. O presidente originário da Geórgia, no sul, era um batista abertamente religioso. Dizia-se, então, que ser sulista ou ter um sulista na chapa era condição indispensável para disputar a Casa Branca. Uma forma de dar satisfação ao chamado Bible Belt, o Cinturão da Bíblia.
Carter foi derrotado em 1980 pela crise econômica, pelo debacle no resgate dos reféns norte-americanos presos na embaixada dos Estados Unidos em Teerã e por não ser suficientemente anticomunista (por causa da resposta dele à invasão soviética do Afeganistão). É do período de Carter o surgimento, nos Estados Unidos, da chamada Moral Majority, a Maioria Moral, uma organização militante em defesa de causas cristãs.
Ronald Reagan inspirou a "maioria moral"

O republicano Ronald Reagan chegou ao poder com apoio da Maioria Moral. O grupo, já extinto, ajudou a consolidar uma coalizão religiosa ecumênica que assumiu protagonismo de longo prazo na política dos Estados Unidos. Ela se reuniu em torno de temas como o combate ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a promoção do ensino religioso e do criacionismo. O ápice do poder da coalizão foi nos dois governos de George W. Bush: a direita religiosa forneceu a militância, os neocons reunidos em publicações conservadoras e think-tanks de Washington ofereceram as ideias e o dinheiro vinha de grupos lobistas ou milionários como os irmãos Koch.

É importante lembrar que, nos anos 50, evangélicos trabalharam ativamente contra a eleição do primeiro presidente católico dos Estados Unidos, John Kennedy. De certa forma, os fiéis mais conservadores se aglutinariam mais tarde numa resposta à contracultura dos anos 60 e à “esquerdização” do Partido Democrata, que adotou a plataforma dos direitos civis.

Foi a luta pelos direitos civis, aliás, que deu ao Partido Democrata uma aguerrida militância; o Partido Republicano, que se ressentia da falta de ligação com organizações de base, conseguiu a sua na direita religiosa. Cabos eleitorais, voluntários para bater de porta e porta e fazer propaganda, para ligar e convencer amigos, parentes e vizinhos a votar ou apoiar uma causa.

No Brasil, como notou Vladimir Safatle recentemente, a Igreja Católica, que esteve na base da formação do PT — com suas Comunidades Eclesiais –, nos últimos anos deu uma grande guinada conservadora. Em São Paulo já se nota uma aproximação entre os carismáticos e os evangélicos. José Serra ensaiou a sua própria ‘coalizão’ religiosa em 2010, com o então bispo de Guarulhos e o pastor Silas Malafaia. Mas, é importante destacar, embora ambos tenham apoiado o mesmo candidato não atuaram conjuntamente.

Celso Russomano (à esq.) e o "bispo" Edir Macedo
Não se trata ainda, portanto, de nossa Maioria Moral. É que enquanto os católicos representam interesses econômicos consolidados, os evangélicos ocupam desproporcionalmente a base da pirâmide social — a inclusão social tem prioridade sobre as questões morais. Por paradoxal que seja, almejam mudança com “ordem”, o que resume grosseiramente a proposta de Celso Russomano. Segundo o Estadão, um de cada cinco eleitores tradicionais do PT é evangélico – justificativa dada pela campanha ao informar que Fernando Haddad vai disputar o voto evangélico com o candidato do PRB.

TUCANALHA?


Os tucanos são, de longe, o partido com maior número de políticos rejeitados pela Lei da Ficha Limpa nas eleições deste ano – 3,5% dos candidatos do PSDB estão impedidos, contra 1% do PT, segundo levantamento da insuspeita Folha de S. Paulo.

Será que eles podem, então, ser chamados de “tucanalha”?   

De qualquer forma, o “mensalão”, que escandalizou a classe média, está sendo julgado. Já os escândalos dos tucanos – compra de votos para a reeleição, mensalão “mineiro”, pasta rosa, Sivam, privataria – foram bem maiores e não causaram tanto escândalo assim. Ah, tinha me esquecido: é a tal massa cheirosa...

Folha informa: petralha é lenda

Paulo Moreira Leite, em seu blog

A liberdade de expressão permite que cada um fale o que quer e escreva como quiser mas às  vezes a literatura deve ceder seus direitos a matemática.
Trazida ao mundo político durante o governo Lula, o termo “petralha” é uma falsificação, revela um levantamento da Folha de S. Paulo.
Ao juntar PETista com metRALHA, dos irmãos Metralha, de Disney, aquele que tinha simpatias pelo fascismo, o que se pretende é sugerir que o Partido dos Trabalhados é, como diz o procurador-geral da República, uma “organização criminosa.”
Será?
Analisando os 317 políticos brasileiros que foram impedidos de se candidatar pela lei Ficha Limpa, a Folha de S. Paulo fez uma descoberta fantástica.
Os petistas tem 18 candidatos que a Justiça impediu de candidatar-se em função daquilo que em outros tempos se chamava de folha corrida. Não é pouco, certamente.
Homens públicos devem ter uma reputação sem manchas e seria preferível que nenhum candidato – do PT ou de qualquer outro partido – tivesse uma condenação nas costas.
O problema é que os supostos petralhas são apenas o 8o. partido em condenações. Se houvesse um campeonato nacional de ficha-suja, estariam desclassificados nas quartas-de-final e voltariam para casa sob vaias da torcida, que iria até o aeroporto jogar casta de laranja no desembarque da delegação.
E se você pensa que o primeiro colocado é o PMDB, tão associado às más práticas da política, símbolo do atraso, da fisiologia e da corrupção – em especial depois que se aliou a Lula, nunca antes — enganou-se. O líder é o PSDB.
Está lá, na Folha. Os tucanos tiveram 56 candidatos rejeitados pela Lei dos Ficha Suja. Isso dá três vezes mais do que os petistas. Para falar em termos relativos: a porcentagem de ficha suja tucana entre seus candidatos é de 3,5%. Dos petistas, 1%.
Em sua entrevista em Paris, logo depois da entrevista de Roberto Jefferson onde ele denunciou o mensalão, Lula disse que o PT apenas fazia “o que os outros partidos sempre fizeram.”
Lula foi muito criticado por isso, na época. Vê-se que Lula  errou, mas por outro motivo: o PT fazia menos do que os outros partidos.
O levamento mostra, por exemplo, que até o PSD de Gilberto Kassab tem mais condenados do que os petistas. O PPS, que é infinitamente menor do que o PT, tem nove condenados. O PMDB, tem 46.
E agora?

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A MORTE DO CARDEAL COMPASSIVO



Morreu aos 85 anos um dos últimos representantes do clero católico liberal, o cardeal italiano Carlo Maria Martini, ex-arcebispo de Milão. Embora fosse da Companhia de Jesus, ordem que nunca teve um papa, Martini era um dos papabili do último Conclave, que elegeu o atual pontífice em 2004. Dizem que Martini, que liderava os poucos cardeais progressistas, teria feito um acordo para apoiar a eleição de Joseph Ratzinger em troca da promessa de reformas na Igreja. Deve ter se arrependido amargamente...

Defensor do ecumenismo e do diálogo entre católicos e não-crentes, inclusive ateus, Martini protagonizou um famoso debate epistolar com  Umberto Eco, depois transformado em livro (Em que crêem os que não crêem?). Ele também defendeu posições polêmicas dentro de uma Igreja cada vez mais retrógada, como o diálogo com os divorciados, a interrupção das terapias em doenças terminais quando prolongam artificialmente a vida, a flexibilização da Igreja em questões como o celibato dos padres e a ordenação de mulheres. Martini também fez críticas à encíclica Humanae e Vitae, do papa Paulo VI – que rejeita a contracepção artificial – e à posição pífia do Vaticano em relação aos casos de pedofilia em todo o mundo.  

Martini foi um dos últimos representantes de uma linhagem de clérigos católicos compassivos e antenados às mazelas do capitalismo, como João XXIII, D. Oscar Romero. D. Hélder Câmara e D. Paulo Evaristo Arns.   

Abaixo, trechos de suas últimas entrevistas:       

“A Igreja atrasou-se duzentos anos. Porque não se mexe? Temos medo? Medo em vez de coragem? Mas a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem."

“A Igreja está cansada, na Europa do bem-estar e na América. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias e a burocracia da Igreja aumenta, os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos. Mas será que tudo isto exprime aquilo que somos hoje?"

“A Igreja deve reconhecer os próprios erros e deve percorrer um caminho radical de mudança, começando pelo papa e pelos bispos. Os escândalos da pedofilia levam-nos a começar um caminho de conversão. As questões sobre a sexualidade e sobre todos os temas relacionados com o corpo são um exemplo desse caminho de conversão. Elas são importantes para cada um e por vezes são também mesmo muito importantes. Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda ouvem os conselhos da Igreja em matéria de sexualidade. Neste campo, a Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos meios de comunicação?”

“Os sacramentos não são um instrumento ao serviço da disciplina, mas sim uma ajuda aos seres humanos nas etapas do seu caminho e nas fraquezas da vida. Estaremos levando os sacramentos àqueles que precisam renovar suas forças? Penso em todos os divorciados e nos casais que são fruto de um segundo casamento, nas famílias reconstituídas. Estas têm necessidade de uma proteção especial. A Igreja defende a indissolubilidade do matrimônio. [...] A atitude que temos para com as famílias reconstituídas determina a aproximação da Igreja em relação aos filhos. Uma mulher foi abandonada pelo marido e encontra um novo companheiro que se ocupa dela e dos seus filhos. [...] Se esta família é discriminada, são marginalizados a mãe e os filhos. E se os pais se sentem fora da Igreja, ela perde a geração futura”.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O VEZO DA VEJA


Ao contrário do que muitos pensam, não é de hoje a prática execrável da Veja de inventar entrevistas e falsificar declarações de entrevistados. Não por outras razões artistas como Chico Buarque de Hollanda e Caetano Veloso se recusam a falar com a revista que a classe média babaca adora. Este texto historia um pouco essa mania.    
A loga tradição das "entrevistas" inventadas
Por Sylvia Debossan Moretzsohn
Do Observatório de Imprensa
Renato Maurício Prado , a última vítima da Veja
Uma revista publica um pingue-pongue – entrevista em formato de perguntas e respostas – com um jornalista que imediatamente denuncia em seu blog o “engodo”, porque não teria dado entrevista alguma; a revista responde reafirmando a autenticidade do texto e tudo fica por isso mesmo, a palavra de um contra a da outra.
Foi na semana passada. A edição 2284 da Veja Rio, que começou a circular no domingo (26/8), trazia, na coluna “Beira Mar”, uma suposta entrevista com o colunista esportivo Renato Maurício Prado, do Globo, sobre o fim de seu contrato com a SporTV, depois de uma discussão ao vivo com o apresentador Galvão Bueno, durante um programa de debates nos últimos Jogos Olímpicos.
Já na terça-feira (28), na nota “Pingo nos is”, ao pé de seu blog, reproduzida no dia seguinte em sua coluna no caderno de Esportes do jornal impresso, Renato afirmava que não dera entrevista: teria apenas atendido ao telefonema da repórter e explicado que não queria falar, “até por entender que nós, jornalistas, não somos notícia”. Ressaltava inclusive um erro na menção à sua participação num programa de rádio, já extinto havia mais de dois anos, e lamentava a utilização de uma foto sua, feita para sua coluna no Globo, pois, para o leitor, ficava a impressão de que ele teria posado para Veja.
Em nota oficial, publicada na quinta-feira (30/8), a revista rejeitava o desmentido.
O que se diz no contestado pingue-pongue não tem qualquer relevância para além do previsível noticiário sobre “celebridades e personalidades do Rio”, que é o tema dessa seção da revista. A questão do método, sim, é que é de extrema relevância, independentemente do assunto, da importância das fontes ou da parcela do público a que se destina esse tipo de informação. Ou fraude.
A farsa da reportagem
Não é de hoje que Veja é criticada por utilizar artifícios estranhos aos mais elementares princípios éticos do jornalismo. Entre eles, a descontextualização, ou mesmo a pura e simples invenção de declarações. Recordo aqui, apenas para ilustrar, um caso de grande repercussão ocorrido há pouco mais de dois anos: o texto intitulado “A farra da antropologia oportunista“, publicado em maio de 2010, que acusava pesquisadores de forjar a existência de comunidades indígenas ou quilombolas em proveito próprio – das ONGs das quais participavam – e em detrimento das perspectivas de desenvolvimento do país. Para tanto, utilizava supostas afirmações de dois antropólogos, Mércio Pereira Gomes e Eduardo Viveiros de Castro, que argumentariam no sentido pretendido pela revista.
A farsa da reportagem foi denunciada em pelo menos três artigos neste Observatório (ver "Como demonizar populações vulneráveis", "Reflexão sobre 'espertinhos' e ‘espertalhões’" e "Dados fantasiosos, informações deformadas') e na resposta do professor Gomes ("Resposta a uma matéria falsa"), que recusava à Veja “o falso direito jornalístico” de atribuir-lhe “uma frase impronunciada e um sentido desvirtuante” daquilo que pensava sobre a questão indígena brasileira. 
O protesto de Viveiros de Castro também circulou amplamente pela internet e provocou uma troca de mensagens entre ele a revista (ver aqui), na qual ficava evidente a inexistência de entrevista e a deturpação dos argumentos do pesquisador, retirados de um artigo seu.
O mais curioso é que Veja concluía sua resposta dizendo que o antropólogo a havia autorizado a utilizar o tal artigo “da forma que bem entendesse”. O que, a rigor, jamais poderia ocorrer, porque evidentemente nenhum texto pode ser utilizado de qualquer jeito: precisa ser citado de acordo com a sua própria coerência interna, conforme o contexto em que foi escrito.
O elogio da fraude
Qualquer semelhança não é mera coincidência
Criada em 1968 por Mino Carta, Veja passou por uma série de mudanças ao longo dessas mais de quatro décadas, e só um estudo detalhado poderia apontar o que a levou a se distanciar progressivamente da prática rigorosa do jornalismo para enveredar por uma política editorial que pretende amoldar a realidade às suas pautas, utilizando quaisquer recursos para a obtenção dos resultados previamente definidos. O recente episódio que envolveu o colunista esportivo seria, portanto, apenas uma derivação social e politicamente irrelevante de um processo incorporado há muito tempo.
Entretanto, nesse processo há um aspecto essencial e aparentemente inocente que deveria chamar a atenção, sobretudo de jovens aspirantes a jornalistas, especialmente agora que a discussão a respeito da adequada formação retorna, com o debate sobre a exigência do diploma universitário: é que as regras elementares do método jornalístico não são tão elementares assim. Pois que mal faz inventar entrevistas, desde que elas sejam simpáticas às fontes?
Em Notícias do Planalto, lançado em 1999 e prestes a ser reeditado, Mario Sergio Conti relata a esperteza de Elio Gaspari, então em início de carreira:
“[Gaspari] estava numa agência de notícias no Galeão. O aeroporto era o ponto de passagem dos poderosos da República. Os políticos, ainda em trânsito da antiga para a nova capital, embarcavam nos voos matutinos para Brasília. No Galeão desembarcavam as celebridades estrangeiras que visitavam o Rio. Como se podia entrar na área da alfândega, os jornalistas circulavam e faziam entrevistas. Os repórteres da agência tinham de falar com os passageiros famosos, redigir as matérias na sala de Imprensa, tirar cópias num estêncil a álcool e mandá-las para os jornais. Gaspari logo constatou que o tempo médio de embarque e desembarque, vinte minutos, era escasso. Enquanto entrevistava um deputado, perdia outros três que entravam no avião para Brasília. Passou a acordar de madrugada para ler os jornais e, com base neles, escrever pequenas entrevistas de políticos comentando os assuntos do dia. Se concordavam com as respostas, passavam a ser os entrevistados de fato e de direito. Assim, podia mandar aos jornais três, quatro entrevistas, em vez de uma. Os entrevistados agradeciam porque, além de estarem nos jornais, às vezes pareciam mais inteligentes ou engraçados do que realmente eram.”
Esses políticos jamais poderiam sonhar que algum dia lhes cairia no colo um assessor tão bom, e ainda por cima gratuito. Conti prossegue, muito divertido:
Gaspari inventou um peculiar método para alimentar falas de suas fontes
“Em Veja, o método foi refinado e usado anos a fio. Gaspari inventava um raciocínio para avivar uma matéria, geralmente de madrugada, no calor do fechamento, e mandava um repórter achar alguém famoso que quisesse assumir a autoria. A frase “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual” nasceu assim, proposta por Gaspari ao carnavalesco Joãozinho Trinta. O truque era puro Elio Gaspari. Tinha algo de molecagem, mas ficava nos limites das normas jornalísticas, na medida em que ninguém era forçado a encampar uma declaração. O seu fim último era levar um fato novo ao leitor (...)”. (grifo meu).
Então ficamos assim: inventar declarações e atribuí-las a terceiros faz parte das normas jornalísticas, desde que sejam favoráveis a essas fontes. Nada impede, tampouco, que se recorte um artigo e nele se insiram perguntas, para dar a impressão de um pingue-pongue. Terão razão, afinal, certos teóricos que dizem que jornalismo é ficção?
Essas coisas as escolas – pelo menos, as escolas de qualidade – não ensinam. Pelo contrário, refutam e denunciam. No entanto, renomados jornalistas – nos quais, naturalmente, muitos jovens se miram – praticam e enaltecem o que deveriam combater. E a fraude só causa revolta quando contraria os envolvidos.
Mas nem por isso deixa de ser o que é.
Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

UMA REVOLUÇÃO PARADIGMÁTICA


Um livro aparentemente despretensioso do físico Thomas S. Kuhn revolucionou nossa percepção sobre as teorias científicas e popularizou o conceito de “paradigma”
Teoria sobre revoluções científicas faz 50 anos
JOHN NAUGHTON

RESUMO Desenvolvida pelo físico Thomas Kuhn no clássico "A Estrutura das Revoluções Científicas" (1962), a teoria de paradigmas que são compartilhados pela comunidade científica até que sejam superados tornou-se um lugar-comum em discussões intelectuais e corporativas, mas permanece brilhante e atual.
Thomas S. Kuhn
Há 50 anos, a editora da Universidade de Chicago lançou um dos livros mais influentes do século 20: A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn. Para tirar a prova, basta pensar se você já ouviu ou empregou a expressão "mudança de paradigma", provavelmente a mais usada -e abusada- nas discussões contemporâneas sobre mudança organizacional e progresso intelectual.
A sacada de Kuhn surgiu da compreensão de que, se alguém deseja entender a ciência aristotélica, precisa conhecer a tradição intelectual na qual Aristóteles trabalhava. Para ele, o termo "movimento" queria dizer mudança em geral - não só a mudança de posição de um corpo, hoje.
Essa percepção é o propulsor do livro de Kuhn, que foi lançado em 1962, com 172 páginas. O autor se referia à edição como "um simples rascunho". Sem dúvida preferiria ter escrito um tijolo de 800 páginas. A legibilidade e a relativa brevidade do tal "rascunho" foram cruciais para o seu sucesso.
A proposição central é que um estudo cuidadoso da história da ciência revela que o desenvolvimento, em qualquer campo científico, acontece em fases. A primeira é a "ciência normal". Nessa fase, uma comunidade de pesquisadores que compartilha uma estrutura intelectual - "paradigma" ou "matriz disciplinar" - se envolve na solução de enigmas gerados por discrepâncias (anomalias) entre o que o paradigma prevê e o que a observação ou experimento revela.
Em geral, as anomalias são resolvidas por alterações graduais de paradigma ou pela constatação de erros de observação ou nos experimentos. Como define o filósofo Ian Hacking em seu prefácio para a nova edição de "A Estrutura das Revoluções Científicas", "a ciência normal não busca novidade, mas limpar o status quo. Tende a descobrir o que espera descobrir".
O problema é que em períodos mais longos as anomalias não resolvidas se acumulam e a situação força os cientistas a questionar o paradigma. Quando isso acontece, a disciplina entra em crise, caracterizada, nas palavras de Kuhn, por "uma proliferação de articulações convincentes, a disposição de tentar qualquer coisa, a expressão de descontentamento explícito, o recurso à filosofia e ao debate de preferência aos fundamentos".
A crise é resolvida por uma mudança revolucionária de visão do mundo, na qual o paradigma deficiente é substituído por um novo. É a "mudança de paradigma" que se tornou clichê, e depois que ela acontece o campo científico retorna à ciência normal, mas com nova estrutura. E o ciclo recomeça.
O que mais incomodou os filósofos foi o argumento segundo o qual paradigmas concorrentes são "incomensuráveis", ou seja, não há modo objetivo de avaliar seus méritos. Não há, por exemplo, como testar os méritos comparativos da mecânica newtoniana (que se aplica a planetas e bolas de bilhar, mas não ao que acontece dentro do átomo) e da mecânica quântica (que trata do nível subatômico).
Mas, se os paradigmas rivais forem de fato incomensuráveis, isso não implicaria que as revoluções científicas, ao menos em parte, tivessem bases irracionais?
A grande ideia de Kuhn – a de um "paradigma" como estrutura intelectual que torna a pesquisa possível – ganhou vida própria. Charlatães, marqueteiros e administradores de empresas a usam para convencer seus clientes da necessidade de mudanças em sua visão de mundo. E cientistas sociais viram uma rota para a respeitabilidade e as verbas de pesquisa, o que por sua vez resultou na emergência de paradigmas patológicos em áreas como a economia.
Albert Einstein criou um novo paradigma para a Física 
A ideia mais intrigante, porém, é a de usar o pensamento de Kuhn para interpretar sua realização. Discreto, ele causou uma revolução conceitual mudar nossa compreensão da ciência. Mas as anomalias já começam a se acumular. Kuhn acreditava que a ciência girasse em torno de teorias, mas uma vanguarda cada vez mais forte usa pesquisas baseadas não em teorias, mas em dados.
E, embora a física fosse indubitavelmente a rainha das ciências, quando o livro de Kuhn foi escrito, esse papel agora é da genética molecular e da biotecnologia. Será que sua análise se aplica a essas novas áreas? Se não, será o momento de uma mudança de paradigma?
A ideia de Kuhn ganhou vida própria. Charlatães e marqueteiros a usam para convencer seus clientes da necessidade de mudanças em sua visão de mundo
Tradução: Paulo Migliacci

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

CHEGA DE BRINCAR DE ORNITORRINCO

O ornitorrinco, um mamífero ovíparo. 

O Brasil está deixando para trás uma oportunidade histórica de fazer uma reforma política decente, que acabe principalmente com o financiamento privado das campanhas políticas. Os escândalos recentes – e não apenas o mensalão – mostram que essa reforma é uma necessidade premente. Aliás, é interessante notar que, neste ano, em função da CPI do Cachoeira e do julgamento do mensalão, as empresas estão evitando doar grandes quantias a candidatos e partidos e, em conseqüência, as campanhas estão mais pobres. Ficou provado é possível baratear o custo das eleições.
          
Abaixo, um texto do Nassif sobre a necessidade de se rever práticas políticas nefastas adotadas em nome da estabilidade política do nosso “presidencialismo de coalizão” - expressão que lembra a metáfora do Chico de Oliveira, comparando o Brasil ao Ornitorrinco - um bicho estranho, mamífero que bota ovo, um intermediário primitivo entre o mamífero e a ave na escala da evolução, um animal que não parece uma coisa nem outra.
  
As lições não aprendidas do mensalão
Por Luís Nassif
[...]
Tanto no mensalão como na votação da emenda da reeleição, o objetivo era a cooptação de parlamentares. Apenas os métodos foram diferentes.
No período FHC, a cooptação se deu através das emendas parlamentares, prática inaugurada no seu governo.
Cada emenda envolve três tipos de interesse: do parlamentar que a propôs, da empresa que será beneficiada com ela e do governo federal, a quem cabe a sua liberação.
Havia, então, uma triangulação.
1.     Os operadores do governo acertavam com os governadores o apoio da sua bancada.
2.     Em seguida, liberavam a emenda.
3.     O dinheiro chegava na ponta e o governador (e a empreiteira) fazia o acerto com seus deputados.
Esse mesmo modelo foi aplicado para derrotar o ex-presidente Itamar Franco na convenção do PMDB que pretendia lançá-lo como candidato à presidência da República. A operação foi articulada pelo então Ministro dos Transportes de FHC, Eliseu Padilha.
***
O chamado “mensalão” foi fruto do amadorismo inicial do PT.
FHC havia consagrado uma tecnologia de governabilidade apoiando o PSDB em um grande partido, o PFL, O PT decidiu fortalecer pequenos partidos. E o pacto passava por bancar os custos de campanha dos parlamentares. Deu no que deu.
Depois do escândalo, o PT fechou apoio do PMDB, aproximou-se do candidato a partido grande, o PSB, e passou a se valer da metodologia das emendas parlamentares, tal e qual o governo FHC.
***
Agora se tem os dois principais partidos do país – PT e PSDB – recorrendo a métodos de cooptação que precisam ser revistos. Esse mesmo modelo é aplicado em Brasília e em São Paulo.
***
Durante algum tempo justificou-se esse modelo. O país iniciava o aprendizado democrático e a questão da governabilidade era relevante, especialmente depois de um governo (José Sarney) que andou toda sua gestão na corda bamba e outro (Fernando Collor) que perdeu o mandato.
***
Mas já é hora de se aprimorar a democracia brasileira. Ao tentar tirar casquinha da situação, FHC não colabora para esse aprimoramento. Nem Lula, ao minimizar o episódio.
Há um modelo imperfeito, que torna os governos reféns e, ao mesmo tempo, cooptadores de partidos políticos, assim como os parlamentares reféns dos financiadores de campanha.
O episódio será positivo se ajudar a deflagrar uma ampla discussão sobre o modelo político, a formação de partidos, o financiamento privado de campanha, a questão das emendas parlamentares.  Se usado oportunisticamente, o país não terá nada a ganhar com o episódio.


AS SANDICES DE FHC

Artigo interessante postado na Carta Maior sobre as bobagens ditas nos últimos dias por FHC, que parece ter esquecido as condições que entregou o país a Lula em 2003.   

Tucanolices e coisa séria
Por Saul Leblon, do Carta Maior
O maior feito monetário do conservadorismo brasileiro foi jogar a taxa de juro do país no patamar meliante de 44%. O colosso se deu em 1999. Paradoxalmente, na gestão do principal analista financeiro da atualidade, Fernando Henrique Cardoso, que se dedica à generosa tarefa de explicar à Presidenta Dilma,como se sabe uma jejuna em economia perto dos seus cabedais, que o problema central da Nação hoje é o legado do ciclo Lula.

Para ficar apenas no alicerce fiscal/monetário: em dezembro de 2002 -- último mês do PSDB na Presidência da República-- a relação dívida/PIB atingia estratosféricos 63,2%, praticamente o dobro dos 30,2% existentes no início do ciclo tucano, em 1994. Anote-se: isso, depois de um salto da carga fiscal, que passou de 28,6% para 35% no período. Hoje a relação dívida/PIB é de 35%; a previsão para 2013 é de 32,7%. 

Reverteu-se o desastre com uma oscilação de apenas 2 pontos na receita tributária, sem considerar as desonerações e incentivos fiscais. A média da taxa de juros real (acima da inflação) no período de 1997 a 1999 foi de estupendos 21,4%. Hoje é de inéditos 1,98%. Regressões e digressões tucanas, um pleonasmo, elidem o que de fato importa: apesar da queda de 4,5 pontos nos juros desde agosto de 2011, o orçamento de 2013 reserva aos rentistas R$ 108 bi; destina R$ 38 bi à educação e R$ 79,4 bi à saúde. 

Aos investimentos ( PAC e Minha Casa) couberam R$ 187 bi. Mesmo que se reduza à metade o gasto com juro, o espaço fiscal para um salto substantivo --indispensável-- nos recursos aos investimentos e serviços essenciais continuará magro. Depois da vitórias contra a pobreza, chegou a vez de afrontar a desigualdade. Entre outras tarefas estruturais, isso pressupõe ampliar o universo tributável de modo a abranger o estoque da riqueza existente. O oposto das tolices regurgitadas por FHC, que ainda festeja uma das derradeiras e melancólicas vitórias da agenda demotucana: subtração de recursos à saúde pública. Registre-se para os anais esse carimbo de uma cepa ideológica, em seu artigo no Estadao, neste domingo: "a oposição conseguiu suprimir a CPMF, cortando R$ 50 bilhões de impostos, e a derrama continuou impávida..." (FHC; Estadão, 02-09-2012). Basta isso.