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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

COVEIROS CUIDANDO DO ENFERMO


A economista Maria da Conceição Tavares
A seguir, trechos da conversa de Maria da Conceição Tavares, a decana das nossas economistas,com o portal Carta Maior:

Carta Maior - No caso do Brasil, no que esta crise difere da de 2008, que superamos rapidamente? Dá para usar a mesma receita de então?
Maria da Conceição Tavares — É muito difícil (suspira). Primeiro, pela natureza arrastada, enrustida desse longo crepúsculo. Você fica a tomar medidas pontuais. Tenta mitigar a questão do câmbio para evitar a concorrência predatória das importações. Mas tem efeito limitado. Você aperta os controles aqui, mas o dólar está derretendo lá fora. Está derretendo sob o peso da recessão e do imobilismo político de quem deveria tomar as rédeas da situação. O Brasil não tem como impedir que o dólar derreta no sistema financeiro mundial.

CM  —Isso foi diferente em 2008...
MCT — Em 2008 nós tivemos um efeito oposto; capitais em fuga migraram de várias partes do mundo, de filiais de bancos e multinacionais, para socorrer a quebra das matrizes na Europa e nos EUA. Então o que houve ali foi uma desvalorização cambial; o Real ficou mais fraco. Isso facilitou as coisas pelo lado das exportações e da contenção de importações, ainda que quase tenha levado à breca aqueles que especulavam contra a moeda brasileira, fazendo hedge fictício para ganhar na desvalorização. Mas do ponto de vista macroeconômico foi um quadro mais favorável. Hoje é o inverso.

CM - As reservas atuais, da ordem de US$ 340 bilhões são um alento?
MCT — Também há diferenças desfavoráveis nas contas externas. As reservas hoje são basicamente formadas pela conta de capitais; não tanto pelo superávit comercial, como era então. Significa que hoje são a contrapartida de algo fluido, capitais que não sabemos exatamente se representam investimento produtivo, de mais longo curso, ou especulação capaz de escapar abruptamente. Sobretudo, tenho receio porque uma parte considerável desse ingresso é dívida privada. Com a anomalia dos juros, os maiores do mundo – a nossa herança maldita - e a oferta barata e abundante de dinheiro lá fora, nossas empresas se endividaram a rodo. Se houver uma reversão do ciclo, se o dólar se valorizar, o descasamento entre um passivo em dólar e receitas em reais, no caso de quem não exporta, ou exporta pouco, será traumático. Essa contabilidade hoje por certo é mais grave do que o passivo em hedge que quase quebrou grandes grupos brasileiros em 2008.

CM - Então a margem de manobra do governo Dilma é menor?
MCT - (suspira) Estávamos melhor antes. E muito do que fizemos então não dá para fazer agora...


CM — Mas o governo pode...
MCT — O governo Dilma poderá agir de forma distinta e contundente se a crise virar o Rubicão; aí tudo é lícito e possível.

CM - Por exemplo?
MCT - Por exemplo centralizar o câmbio; controlar importações, remessas etc.

CM — E enquanto isso não ocorre?
MCT - Mas enquanto se arrasta assim, uma crise enrustida, que vai minando, desagregando, sem ser confrontada, fica difícil. Você toma medidas pontuais que se dissolvem.

CM - Há uma superposição de colapso do neoliberalismo com esfarelamento político que realimenta e reproduz o processo?
MCT - Veja, é um colapso empírico da agenda do neoliberalismo. Avulta que a coisa é um desastre e os meus colegas economistas dessa cepa, espero, devem estar conscientes disso. Mas que poder têm os economistas? Nenhum. O poder que conta está nas em outras mãos, a dos responsáveis pela crise. Vivemos um colapso neoliberal sob o tacão dos ultra-neoliberais. Não estamos falando de gente normal, é preciso entender isso. Não são neoliberais comuns. Meu Deus, o que é isso que estão fazendo nos EUA? É a treva! Vivemos um colapso do neoliberalismo sob o tacão dos ultra-neoliberais: isso é a treva! E ela se espalha desagregando, corroendo.

CM — Devemos nos preparar para uma crise longa?
MCT — Sem dúvida. Por conta dessa dimensão autofágica que não enseja um desdobramento político à altura, que inaugure um novo ciclo, como foi com Roosevelt e o New Deal em 29.

CM — As bases sociais do New Deal não existem mais nos EUA?
MCT - Não existem mais. Obama é o reflexo disso. É uma liderança intrinsecamente frouxa. Não tem a impulsão trabalhista e progressista que sustentou o New Deal. É frouxo. Seu eleitorado é difuso ah, ótimo, ele se comunica com os eleitores pelo twitter etc. E aí? É uma força difusa, desorganizada, estruturalmente à margem do poder. Está fora do poder efetivo no Congresso que é da direita, dos ricos, dos grandes bancos e grandes corporações, como vimos agora no desenho do pacote fiscal. Está fora da indústria também que foi para a China. Esse limbo estrutural é o Obama. Ele pode até ser reeleito, tomara que seja. A alternativa é amedrontadora. Mas isso não mudará a sua natureza frouxa.

CM — Se não existe o componente político que assemelhe essa crise a de 1929, então o que é isso, essa ’treva’ que estamos vivendo?
MCT — (ri) Uma treva é uma treva... O que passamos agora é distinto de tudo o que se viu em 29... Todavia não menos grave e talvez mais angustiante. É um colapso enrustido, como eu disse. Arrastado, latejante, sob o tacão de forças como essas dos ultra-neoliberais. Tampouco é um fascismo explícito, porém, como se viu na Europa, em 30. Até porque o nazismo, por exemplo, e isso não abona em nada aquela catástrofe genocida, postulava o crescimento com forte indução estatal. O que se tem hoje é o horror; um vazio político de onde emergem essas criaturas dos EUA, e coisas assemelhadas na Europa. Será uma crise longa, penosa, desagragdora, mais próxima da Depressão do final do século XIX...

CM - O declínio de um império, como foi o declínio do poder da Inglaterra no final século XIX?
MCT — Sim, é um quadro mais próximo daquele. O poder inglês foi sendo contrastado por nações com industrialização mais moderna. Um arranjo com estrutura de integração superior entre a indústria e o capital financeiro e que aos poucos ultrapassaria a hegemonia inglesa. Foi uma quebra, uma inflexão entre o capitalismo concorrencial e o capitalismo monopolista. A Inglaterra que havia sido a ‘fábrica do mundo’ perdeu o posto para o agigantamento fabril americano e alemão. Isso se arrastou por décadas. Foi uma Depressão, a primeira Depressão que tivemos no capitalismo (durou de 1873 a 1918). Levou à Primeira Guerra, que resultou na Segunda...


CM — Os EUA são a Inglaterra da nossa longa crise... E o novo hegemon?
 MCT - As forças que se articularam na sociedade norte-americana, basicamente forças conservadoras, de um reacionarismo profundo, não em condições de produzir uma nova hegemonia propositiva. Claro, eles têm as armas de guerra. Não é pouco, como temos visto. Vão se impor assim por mais tempo. Mas daí não sai um novo hegemon. Vamos caminhar para um poder multilateral, negociado, sujeito a contrapesos que nos livrarão de coisas desse tipo, como a ascendência do Tea Party nos EUA. Uma minoria que irradia a treva para o mundo.



domingo, 7 de agosto de 2011

VINGANÇA PÓSTUMA


Filinto Müller, o Himmler tupiniquim

Segundo informa a ISTOÉ, por iniciativa da senadora Ana Rita (PT-ES), a Ala Senador Filinto Müller do Senado Federal poderá vir a se chamar Ala Senador Luís Carlos Prestes. Será uma vingança póstuma do líder comunista contra seu subordinado na Coluna e depois seu algoz. Müller foi expulso da Coluna a pedido de Prestes por ter proposto deserção coletiva a seus subordinados. Feito chefe da polícia do Distrito Federal por Getúlio Vargas, transformou a tacanha repressão brasileira numa eficaz máquina de tortura e assassinato que prendeu 20 mil pessoas.

Luís Carlos Prestes

Segundo o repórter David Nasser, no livro Falta alguém em Nuremberg, para montar sua polícia política Filinto Müller recrutou indivíduos da escória do Exército, caracerizados pelo servilismo ao chefe e pela brutalidade contra os presos. Em 1935, após a Rebelião Comunista, Müller chefiou as operações para capturar os revolucionários; os policiais comandados por ele torturaram, por semanas, Arthur e Elise Ewert, agentes da Comintern enviados para o Brasil para promover a revolução, até conseguir chegar a Prestes. Este foi preso em março de 1936. Segundo Fernando Morais, Müller se dedicou à caça do líder comunista também por causa do incidente que levou a sua expulsão da Coluna Prestes. Com Prestes foi presa também sua mulher, a judia alemã Olga Benario, também agente do Comintern, que, mesmo grávida, seria deportada para a Alemanha Nazista, onde morreria no campo de extermínio de Bernburg em 1942.

Em 1937 Filinto Müller visitou Henrich Himmler, chefe da Gestapo, cujos métodos admirava. Há suspeitas de que tenha havido intercâmbio entre as duas polícias - um grande história até hoje não contada, seja por jornalistas ou historiadores.  

Transformado em político, Müller se tornaria um dos próceres da ditadura militar instalada no país em abril de 1964. Até hoje, em seu estado (Mato Grosso), ele é conhecido muito mais pela sua atividade política do pela de chefe da repressão. Foi líder do governo do general Emílio Garrastazu Médici no Senado. Morreu no dia em que completava 73 num acidente aéreo em Paris.

Que o exemplo prospere e não tenhamos mais que nos envergonhar de ter logradouros públicos com o nome de torcionários como Sérgio Fleury, Milton Tavares e Dan Mitrione.  

sábado, 6 de agosto de 2011

TIGRE DE PAPÉIS

Mao Tsé-tung disse no Livro Vermelho que "o imperialismo e todos os seus lacaios são tigres de papel". 
Hoje, a China tem o maior número de papéis da divida pública do Tesouro americano. Depois que a agência de avaliação de risco Standard & Poor's rebaixou a nota dos papéis da dívida dos EUA de AAA para AA+, os EUA deixaram de ter os títulos mais confiáveis do mundo. Preocupadas, as autoridades chinesas pediram garantias para esses papéis. Antes do anúncio, a China já tinha pedido "responsabilidade" às autoridades americanas. Além de ser uma ironia da História, o fato de a potência comunista remanescente ter nas mãos grande parte dos papéis do Tesouro da maior potência capitalista permite à China dar "lições de moral" a Tio Sam, dizendo que este deveria curar seu vício pelo endividamento passando a viver com seus próprios meios...   

Pensando bem, acho que o imperialismo é um tigre de papéis... 

AS “VIVANDEIRAS” TEMEM QUE AMORIM TENHA ÊXITO


Celso Amorim: a velha mídia não lhe perdoa o êxito como chanceler

É assustador o ódio que a velha mídia nutre pelo ex-chanceler Celso Amorim, nomeado pela presidenta Dilma Rousseff para substituir Nelson Jobim no Ministério da Defesa. Nem bem saíram as notícias de que ele seria o escolhido – o que nenhum veículo previu, aliás – e já começaram a circular rumores de que Amorim teria problemas em ser aceito pelo Exército. Segundo o jornalista Rodrigo Vianna, nas organizações Globo, a ordem é baixar o pau no Amorim. “Acabo de receber a informação, de uma fonte que trabalha na TV Globo: a ordem da direção da emissora é partir para cima de Celso Amorim, novo ministro da Defesa. O jornalista, com quem conversei há pouco por telefone, estava indignado: ‘é cada vez mais desanimador fazer jornalismo aqui’. Disse-me que a orientação é muito clara: os pauteiros devem buscar entrevistados – para o JN, Jornal da Globo e Bom dia Brasil – que comprovem a tese de que a escolha de Celso Amorim vai gerar ‘turbulência’ no meio militar. Os repórteres já recebem a pauta assim, direcionada: o texto final das reportagens deve seguir essa linha. Não há escolha.”

O ex-ditador Castello Branco conhecia bem as vivandeiras

Já a Folha diz, nomeando o general da reserva Augusto Heleno como “porta-voz informal do Exército”, que os militares mandaram um “recado” a Amorim: de as Forças Armadas não querem saber de “comprometimento ideológico” (!!). E o Estadão sugere que a presidenta se reuniu com os comandantes militares para lhes assegurar que não haverá “revanchismo”. Parece brincadeira. O pior é que não é; a velha mídia voltou a fazer o papel das “vivandeiras alvoroçadas que vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar”, na impagável definição do marechal Castello Branco.


Celso Amorim foi um dos melhores ministros das Relações Exteriores que o Brasil já teve. Na trilha do Barão do Rio Branco, ele não se conformou com o papel subalterno que as potências reservaram ao Brasil e foi um dos articuladores do Grupo dos 20 (G-20), montado em torno dos Brics (Brasil, China, Índia e Rússia). O grupo começou a enfrentar os interesses dos Estados Unidos e da Europa na Organização Mundial do Comércio (OMC) na questão dos subsídios agrícolas e depois transformou-se num contraponto às grandes potências no cenário internacional. O Brasil adotou uma atitude soberana, ganhou projeção e passou a ser respeitado internacionalmente, mas a mídia tupiniquim, viúva da diplomacia de “punhos de renda” da era FHC – que não se envergonhava de fazer tudo o que seu mestre Tio Sam mandava, inclusive o chanceler Celso Lafer tirar os sapatos para entrar nos EUA – não lhe perdoou a altivez. Durante os oito anos que comandou o Itamaraty, Celso Amorim foi vítima de uma campanha sistemática levada a cabo pelos grandes veículos, que o tratavam como esquerdista irresponsável e não poucas vezes o insultavam.



Clemenceau conhecia os militares 

Agora, ao vê-lo nomeado para o cargo de ministro da Defesa, a velha mídia tenta intrigá-lo com as Forças Armadas. Houve até uma declaração em off vazada pela Folha de um militar que teria dito que diplomata não gosta de guerra e, por isso, não poderia ser ministro da Defesa (!!!). Inacreditável! Seria bom lembrar as palavras de Georges Clemenceau, primeiro-ministro da França entre 1906-1909 e 1917-1920: “A guerra é um assunto sério demais para ser deixada na mão de militares”.

Mas não é de guerra que se trata; é de consolidar a Estratégia Nacional de Defesa – elaborada por Nelson Jobim, é necessário reconhecer – e fazer com que os militares obedeçam à agenda traçada pelo governo legitimamente constituído. E isso significa aceitar Comissão da Verdade e revisão da Lei de Anistia, se ela vier a acontecer. Na democracia, as Forças Armadas devem obediência estrita ao poder civil. Elas não têm que aceitar ou rejeitar nada por si próprias; têm que bater continência. Quando quiseram colocar seus interesses acima da Constituição e agir como “intérpretes da Nação”, deu no que deu. Celso Amorim tem todas as condições de cumprir a missão de enquadrar os militares na nova ordem democrática. Suspeito que a possibilidade de ele ter êxito é que deixa as “vivandeiras” alvoroçadas.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A MUSA DA PRIMAVERA CHILENA

Reproduzo o perfil publicado pelo portal operamundi sobre a bela militante comunista que vem se destacando nas passeatas e na liderança da luta contra a política privatista do governo chileno

Camila Vallejo: o rosto e a voz da nova geração política chilena


Victor Farinelli
Santiago

Ela nasceu num Chile que exigia mudanças, cinco meses antes do plebiscito (abril de 1988) que marcou o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Aos 23 anos, a estudante universitária diz sentir que sua geração desperta politicamente sem crer que a atual democracia representa os interesses da maioria. E, em busca de um modelo mais amplo e representativo, a futura geógrafa – lembrada pelo caminhar cheio de certezas e a já conhecida argola no nariz – delineia as coordenadas do primeiro movimento político formado por chilenos que eram jovens demais nos anos de repressão.

Camila Vallejo Dowling, filha de Reinaldo Vallejo e Mariela Dowling – membros do Partido Comunista perseguidos na ditadura –, se destaca como uma das principais líderes da CONFECH (Confederação dos Estudantes do Chile), órgão recém criado para congregar as diversas federações estudantis responsáveis pela chamada “primavera estudantil chilena” e quer alimentar um movimento social que, segundo ela, já ultrapassou o âmbito meramente educacional.

Estudantes chilenos protestam em Santiago contra a política privatista de Piñera para a Educação

Após realizar três megamanifestações em frente ao Palácio de La Moneda – a maioria com mais de 150 mil pessoas em Santiago – Camila se tornou a primeira figura política de destaque nacional de uma geração que era considerada apolítica e desinteressada, qualificações rejeitadas por ela. “A ditadura gerou um grande contingente de jovens apolíticos, educado através do medo, mas os que se manifestam hoje são outros. Após aquela geração, surgiu uma juventude muito forte, ainda que inexperiente. Ela é mais crítica e quer recuperar a política com ideias mais amplas; quer outra democracia”, afirma a militante, dona de um olhar reto, direto, frequentemente confundido com braveza.

Camila preside a FECH (Federação dos Estudantes da Universidad de Chile). Quando os estudantes de diferentes federações estudantis reuniram sua indignação e criaram a CONFECH, em maio deste ano, ela rapidamente se impôs como porta-voz e foi o rosto das primeiras marchas e manifestações realizadas pelo movimento, que combate o lucro nas instituições educacionais chilenas e pede o retorno da educação pública gratuita e de qualidade. Isso porque, no Chile, escolas e universidades chamadas públicas cobram mensalidades.

Uma “primavera” que floresceu num dos outonos mais frios do país nos últimos anos. A temperatura já flertava com os graus negativos no começo do mês de maio quando o atraso nas bolsas de estudos concedidas pelo Ministério da Educação terminou com a paciência de milhares de pais e estudantes ao longo do país.


Foi quando Camila e a CONFECH se tornaram protagonistas e os estudantes incrementaram as marchas e protestos bem humorados, com “beijaços” e coreografias em grupos. Eventos que conseguiram derrubar o ministro Joaquín Lavín e contribuíram para a queda da popularidade do presidente Sebastián Piñera, além de mudar a percepção da sociedade sobre a politização dos jovens no país. Segundo o Servel (Serviço Eleitoral do Chile), o número de inscritos para as eleições dentro da faixa etária entre 20 e 30 anos variou negativamente nos últimos cinco anos.

No entanto, os que se manifestam não encontram espaço na política devido ao sistema eleitoral - binominal -, que favorece a continuidade e dificulta a renovação geracional. Para Camila, os governantes chilenos têm facilidade para corromper a democracia real, “mas os novos espaços de participação popular estão sendo criados, nas redes sociais, por exemplo, e no fim, essa geração que está criando espaços vai fazer com que as barreiras geracionais acabem sendo derrubadas pelo próprio peso.”

Machismo
Após os primeiros atos, os meios de comunicação apontaram os holofotes sobre Camila, mas frequentemente destacando sua beleza física, em detrimento das qualidades intelectuais. “Tive de aguentar coisas que colegas homens jamais tiveram de enfrentar”, diz, para depois destacar que o impacto do movimento na sociedade relegou esse rótulo machista sobre as mulheres a um segundo plano: “Vejo isso com bons olhos”.

Ela comemora também a possibilidade de um maior intercâmbio político entre estudantes da região sul-americana. “Na medida em que os países fortalecerem a unidade regional, os movimentos estudantis também o farão. Pretendemos comparecer ao CLAE (Congresso Latinoamericano e Caribenho de Estudantes)”.

Camila é militante do Partido Comunista, mas destaca que a confederação que representa agrega estudantes de diferentes vertentes políticas e que a disposição por mudanças no país é equivalente entre todos. “O nefasto desempenho das políticas educacionais da Concertação, que defendeu o modelo instaurado por Pinochet, ajudou a nossa causa a unir forças, e agora, com a direita de volta ao poder, querendo reforçar a privatização do sistema e o lucro das instuições, ficou mais fácil reunir pessoas insatisfeitas”, analisa.

Em um congresso estudantil realizado em Punta Arenas, no extremo sul do Chile, Camila e a CONFECH começaram a confeccionar o que denominaram “um Grande Acordo Social para a Educação”, em clara resposta ao GANE (Grande Acordo Nacional para a Educação) lançado há duas semanas por Piñera e recusado pelos estudantes. Segundo eles, ele legaliza o lucro e aprofunda o atual modelo de educação. “Pretendemos levar essas propostas ao Executivo e ao Legislativo. Vamos batalhar para que elas sejam aceitas nessas instâncias. Para isso também contamos com o apoio já observado pelos trabalhadores e pela sociedade em geral”, finalizou Camila.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

VISÕES DA CRISE

Duas análises sobre a crise da dívida norte-americana, uma da Carta Maior, outra de Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia e articulista do New York Times:

A NOVA AGENDA POLÍTICA DO PÓS-CRISE: ESTADOS ENGESSADOS, DESEMPREGO E RADICALIZAÇÃO SOCIAL

“A rendição de Obama à lógica do arrocho fiscal imposta pelo extremismo conservador não é um ponto fora da curva. Não vai passar logo. Seus efeitos não recairão apenas sobre os idosos e os loosers norte-americanos. Obama protagoniza de forma assustadoramente passiva – até para quem desconfia de lideranças-twiter – um enredo que se espalha urbi et orbi. Na Europa como nos EUA, a desordem gerada pelo colapso das finanças desreguladas está sendo ‘equacionada’ pelo cânone dos interesses que a originaram. Nos EUA quem os vocaliza é o liberal-fascismo do Tea Party, que reduziu Obama a coadjuvante da cena política. Na Europa, três mosqueteiros de cepa correlata, Merkel, Sarkozy e Trichet, anunciaram há 15 dias um acordo ‘redentor’ para escalpelar a Grécia sem ferir os mercados. A promessa era interromper o contágio que já tomava de assalto o Tesouro espanhol e italiano, obrigados a pagar juros crescentes a credores em fuga. Durou pouco. Nesta 3º feira, numa apoteose da espiral assistida desde então, a Espanha teve que pagar os maiores juros desde 1995 para renovar papagaios no mercado. Agosto promete ser o mais quente da história italiana. Berlusconi terá que repactuar juros incidentes sobre umvoume de dívidas equivalente ao passivo da Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda juntos. Na zona do euro ou na do dólar, os Estados, grosso modo, quebraram na luta contra as chamas do incêndio especulativo de 2007/2008. No rescaldo recessivo os captais incendiários exigem que o bombeiro reduza o hidrante fiscal a um conta gotas orçamentário ortodoxo. E assegure assim a solvência da dívida privada reciclada em déficit público. A desaceleração econômica embutida nessa lógica tem implicações práticas ascendentes: o desemprego nos EUA é de 9%; a média na Europa é de 10%. Projeções indicam que o patamar de emprego pré-crise só será reposto nos EUA dentro de uns cinco anos, ou 60 meses. Mas quem já caminha sobre brasas recessivas tem pela frente um longo e traumático ciclo de retração fiscal feito de cortes sobre receitas declinantes. Anos e anos de eclipse econômico e destruição de conquistas sociais se anunciam. Capitais especulativos continuarão a buscar praças mais apetitosas, como a dos juros oferecidos pelo Brasil, agravando desequilíbrios cambiais conhecidos. As ruas do mundo ficarão lotadas de desempregados e manifestantes. A proporção vai depender da reação dos partidos e sindicatos progressistas diante dos fatos pedagógicos que marcaram a história dos EUA nos últimos dias.”


(Carta Maior, 02/08/ 2011)

O presidente se rende
Médicos medievais escolhem sangrar o paciente

PAUL KRUGMAN
New York Times

Um acordo para elevar o teto de endividamento [do governo americano] está sendo fechado. Se passar, muitos comentaristas vão declarar que um desastre foi evitado. Mas eles estarão errados.

Pois o acordo, dada a informação sobre ele disponível, é um desastre, e não apenas para o presidente Obama e seu partido. Vai danificar uma economia já deprimida; provavelmente vai tornar o antigo déficit dos Estados Unidos ainda pior, não melhor; e, mais importante, ao demonstrar que extorsão nua e crua funciona, sem causar custo político, vai colocar os Estados Unidos no caminho para o status de república das bananas.

Comecemos pela economia. Nós atualmente temos uma economia profundamente deprimida. Vamos continuar a ter uma economia deprimida por todo o próximo ano. E provavelmente teremos uma economia deprimida até 2013, se não além.

O pior que se pode fazer nestas circunstâncias é cortar os gastos do governo, já que isso vai deprimir a economia ainda mais. Não preste atenção naqueles que invocam a fadinha da confiança, alegando que ações duras no corte do orçamento vão dar segurança aos empresários e consumidores, fazendo com que eles gastem mais. Não funciona desse jeito, um fato que é confirmado por muitos estudos históricos.

Na verdade, cortar gastos quando a economia está deprimida não vai nem mesmo ajudar muito na situação do orçamento, pode até piorar. De um lado, os juros em empréstimos federais já estão bem baixos; assim, os cortes vão fazer pouco para reduzir os custos de juros futuros. De outra parte, enfraquecer a economia agora vai prejudicá-la a longo prazo, o que por sua vez vai reduzir a arrecadação futura. Assim, aqueles que exigem cortes são como médicos medievais que tratam os pacientes com sangramento, tornando-os ainda mais doentes.

E então temos os termos do acordo, que representam uma rendição abjeta da parte do presidente. Primeiro, haverá grande corte de gastos, sem aumento da arrecadação. Em seguida, um comitê fará recomendações sobre futuras reduções do déficit — e se estas recomendações não forem aceitas, haverá novos cortes de gastos.

Os republicanos supostamente terão um incentivo para fazer concessões da próxima vez, porque gastos em defesa poderão ser incluídos nos cortes subsequentes. Mas o Partido Republicano acaba de demonstrar que aceita o risco de um colapso financeiro até obter o que os mais extremistas de seus integrantes querem. Por que esperar que serão mais razoáveis da próxima vez?

Na verdade, os republicanos vão se sentir encorajados pela maneira como o sr. Obama se entrega diante de ameaças. Ele se rendeu em dezembro passado, ao estender todos os cortes de impostos de Bush; ele se rendeu na primavera, quando os republicanos ameaçaram fechar o governo; e ele se rendeu em grande estilo agora, sob extorsão pura e simples, na questão do teto da dívida. Talvez só eu veja uma tendência nisso.

Desta vez o presidente tinha alguma alternativa? Sim.


Em primeiro lugar, ele poderia e deveria ter exigido um aumento no teto da dívida em dezembro passado. Quando perguntado porque não o fez, respondeu que estava certo de que os republicanos agiriam com responsabilidade. Boa!

Mesmo agora, o governo Obama poderia ter recorrido a manobras legais para driblar o teto da dívida, usando qualquer uma de várias opções. Em circunstâncias normais, isso poderia parecer um passo extremo. Mas Obama enfrentava a realidade do que está acontecendo, ou seja, da extorsão de um partido que, afinal, controla apenas uma das casas do Congresso, e assim seria totalmente justificável.


Pelo menos o sr. Obama poderia ter usado a possibilidade de uma disputa legal para fortalecer sua posição de barganha. Em vez disso, no entanto, ele descartou isso desde o começo.


Mas se ele jogasse duro isso não ia preocupar os mercados? Provavelmente, não. Na verdade, se eu fosse um investidor eu ia me sentir seguro, não desanimado, com a demonstração de que o presidente era capaz e desejava enfrentar a chantagem dos extremistas de direita. Em vez disso, ele escolheu demonstrar o oposto.


Não se enganem, o que estamos testemunhando aqui é uma catástrofe em múltiplos níveis.


É, naturalmente, uma catástrofe política para os democratas, que por algumas semanas pareciam ter os republicanos em fuga por causa do plano deles de desmantelar o Medicare [programa federal de saúde]; agora o sr. Obama jogou tudo aquilo fora. E os danos não acabaram: haverá outros pontos de estrangulamento que os republicanos poderão usar para criar uma crise a não ser que o presidente se renda e agora eles podem agir confiantes de que Obama vai se render de novo.

No longo prazo, no entanto, os democratas não serão os únicos perdedores. O que os republicanos conseguiram foi colocar em questão nosso próprio sistema de governo. Afinal, como a democracia americana pode funcionar se a política é ditada pelo partido mais preparado para ser cruel e para ameaçar a segurança econômica da Nação? E a resposta é… talvez não possa.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

JOGOS DE GUERRA

A GUERRA DE QUARTA GERAÇÃO (4GW)


Guerras com linhas, colunas, campo de batalha ordenado e disciplina 
A teoria da Guerra de Quarta Geração (4GW) foi formulada em 1989 por William Lind (O rosto da guerra em transformação: até a quarta geração, 2004) e outros integrantes do Marine Corps. Trata-se do conflito pós-Clausewitz, que considerava a guerra a continuação da política por outros meios e, portanto, um instrumento par excellence do Estado nacional. Segundo o documento de Lind, as quatro gerações de guerra tiveram início com o Acordo de Paz de Westphalia, em 1648, quando os Estados nacionais assumiram o monopólio da guerra. A Primeira Geração (1648-1860) é a guerra de linhas e colunas, que exige um campo de batalha ordenado, disciplina e ordem.

Primeira Guerra Mundial: metralhadores a rtilharia
A segunda geração refletiu as transformações da Revolução Industrial, marcando a incorporação de novas armas (mosquetes raiados, armas de retrocarga e metralhadoras). Desenvolvida pelo Exército francês, a Guerra de Segunda Geração procura solução no fogo concentrado, a maior parte dele da artilharia. Foi sintetizada no slogan: “a artilharia conquista e a infantaria ocupa”, sendo mais tarde incorporada a aviação na missão de conquista. Nesta fase, sobressaem o comando e o poder de fogo, amplo conhecimento e domínio sobre o campo de batalha para planejar as manobras e fazê-las cumprir.

Segunda Guerra Mundial: mobilidade e destruição
A Guerra de Terceira Geração foi desenvolvida pelo Exército alemão depois da Primeira Grande Guerra, e baseia-se não tanto no poder de fogo e no atrito mas na velocidade, na surpresa e no deslocamento mental e físico do inimigo. É a blitzkrieg (guerra-relâmpago). A própria cultura militar foi afetada, retirando o foco do processo ou do método e direcionando-o ao resultado da batalha. Isso significa que a iniciativa, mais do que a obediência, se tornou fundamental para o êxito das missões.

A Guerra de Quarta Geração marca a mudança mais radical desde a Paz de Westphalia, porque o Estado perde o monopólio sobre a violência e a guerra, em um cenário em que forças militares estatais se defrontam com oponentes não-estatais. É a guerra de baixa intensidade e assimétrica, típica da era globalizada. Envolvem tanto guerrilhas, conflitos urbanos como tercerização da ação militar, com empresas particulares de segurança (como a Blackwater no Iraque) executando tarefas antes destinadas a Exércitos regulares. As principais caracerísticas dessa Guerra de Quarta Geração pode ser assim resumidas:

1) Não-linearidade – inexistência de uma sequência tradicional vista em conflitos anteriores: tocaias, escaramuças, guerrilhas, linhas, colunas, cercos, ocupações e batalhas;

2) Sem fronteiras - difícil distinção entre guerra e paz, inexistência de declarações formais de guerra, de exércitos regulares, bandeiras, estandartes ou combatentes uniformizados;

3) Terra de ninguém - Não demarcação clara de fronts ou de campos de batalhas – o inimigo pode estar em toda parte e ao mesmo tempo em lugar algum;

4) Uso da mídia - Inclusão de alvos com maior exposição midiática, que abalem os valores e os comportamentos da sociedade oponente. Espetacularização das ações sobre alvos militares e não-militares, abalando a autoestima das populações e impondo a perda de confiança nas autoridades civis e militares;

Guerra assimétrica: sem fronteiras

5) Colapso do inimigo - Impedir a transmissão de dados ou de energia elétrica por alguns dias pode ser mais impactante que o afundamento de um porta-aviões; provocar uma crise especulativa ou abalar o funcionamento do sistema financeiro é mais eficaz do que uma tentativa de sitiar uma sede de governo e


6) Novas tecnologias – Modificação da dimensão do combate e da forma de atuação de combatentes, regulares ou não. Uma fração de tropa dotada de equipamento e armamento de última geração (comandos)pode causar danos a instalações ou paralisar um comboio de suprimentos; especialistas em TI podem paralisar comunicações de satélites e inviabilizar sistemas de comando e controle de armas inteligentes contra o inimigo.

Essa teoria é interessante porque explica tanto a natureza dos ataques terroristas made in Al Qaeda quanto permite estabelecer um paradigma para as sotisticadas estratégias desenvolvidas pelas superpotências para atingir seus objetivos em países emergentes.