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sábado, 17 de abril de 2010

DOIS FUNERAIS: KACZYNSKI E TITO

A morte do presidente da Polônia, Lech Kaczynski, num acidente aéreo, causou comoção no país e no mundo. Ele morreu quando ia à Rússia para prestar homenagem aos milhares de militares poloneses massacrados pelo Exército soviético nas florestas de Katyn em 1940. A tragédia fez com que a maioria dos obituários se esquecessem de que Kaczynski liderava um governo extremamente nacionalista e reacionário. Ele, seu irmão gêmeo e ex-primeiro ministro Jaroslaw Kaczynski, encarnavam, junto com o ex-presidente Lech Walesa, os piores demônios da Polônia. Seu governo tentava restaurar a pena de morte no país – proibido aos integrantes da União Européia, da qual a Polônia faz parte –, além de alimentar, junto ao setor mais retrógrado da Igreja Católica polonesa, uma campanha contra as feministas, os homossexuais, os estrangeiros e os judeus. Kaczynski promoveu uma “caça às bruxas” na Polônia, com uma lei infame, a “lei da lustração”, com a qual vários de seus antigos companheiros do Solidariedade mais à esquerda, como o historiador Bronislaw Geremek, foram perseguidos e difamados. Kaczynski foi uma espécie de Le Pen eslavo. Agora, vários líderes mundiais prestam homenagem ao “grande estadista”.
Quarenta anos atrás, os funerais do presidente iugoslavo Josip Broz Tito também atraíram a nata dos dirigentes mundiais a Belgrado, capital da então Iugoslávia. Vieram líderes dos dois lados da Guerra Fria, como o dirigente soviético Leonid Brejnev, a primeira-ministra conservadora do Reino Unido, Margaret Thatcher, o líder palestino Yasser Arafat e o chanceler alemão Helmut Schmidt, entre outros. Mas Tito, ao contrário de Kaczynsky, apesar de ditador, foi o líder da resistência comunista contra a ocupação nazista do país, rompeu com Stálin em 1948 sem aderir ao bloco ocidental e manteve a Iugoslávia unida, criando uma fórmula de convivência entre sérvios, croatas, eslovenos, montenegrinos e bósnios. A traição ao seu legado pelos líderes nacionalistas sérvios e croatas mergulharia a Iugoslávia na mais sangrenta guerra civil na Europa depois da II Guerra e esfacelaria o país. Hoje, Tito permanece no limbo da História.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

TODOS SE CANSAM DE TUDO

"Existem quatro lendas relativas a Prometeu:

De acordo com a primeira, ele foi preso num rochedo do Cáucaso por ter traído os segredos dos deuses em benefício do homem, e os deuses enviaram abutres para se alimentarem de seu fígado, que era perpetuamente renovado.

De acordo com a segunda, Prometeu, atormentado pela dor de bicadas dilacerantes, foi se colando cada vez mais profundamente ao rochedo até vir a se tornar parte dele.

De acordo com a terceira, sua traição foi esquecida ao longo de centenas de anos, esquecida pelos deuses, pelos abutres e por ele mesmo.

De acordo com a quarta, todos foram se cansando daquele caso sem sentido. Os deuses foram se cansando, os abutres foram se cansando, a ferida cicatrizou de cansaço.

Restou a inexplicável massa do rochedo. A lenda tentou explicar o inexplicável. Como ela se originou de um substrato de verdade, era de se esperar que acabasse inexplicável"
Franz Kafka, The Complete Stories

UM PASSO À FRENTE, DOIS ATRÁS

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, havia se firmado como o melhor ocupante da pasta desde que ela foi criada, em 1999. Primeiro, elaborou um Plano Nacional de Defesa (PND) que redefiniu o papel das Forças Armadas brasileiras - até então, elas seguiam parâmetros estratégicos definidos na época da Guerra Fria - e lançou as bases para a reconstrução da indústria bélica nacional. A partir disso, a compra dos caças supersônicos do programa FX foi reprogramada, priorizando-se a transferência de tecnologia; decidiu-se também pela continuidade do programa do submarino nuclear brasileiro, em parceria com a França. E Jobim também soube impor a autoridade do ministério sobre a caserna, chamando para a pasta a responsabilidade de indicar os comandantes militares.

Mas agora, inexplicavelmente, ele anuncia a assinatura de um tratado militar com os Estados Unidos, restaurando, de certa forma, o acordo de 1952, rompido unilateralmente em 1977 pelo governo brasileiro. Como lembrou Mauro Santayana, acordos militares são necessários quando um inimigo comum ameaça os contratantes. Mas o Brasil não tem contencioso com seus vizinhos, nem divergência com algum país que não possa ser resolvido com a diplomacia. As únicas ameaças que sofremos são às soberanias da plataforma continental e da Amazônia. E esta última ameaça - mesmo que hipotética - vem justamente dos Estados Unidos. Não é à toa que os militares brasileiros que atuam na região hoje estudem as táticas de guerrilha na selva do general vietnamita Vo Nguyen Giap, que enfrentou e venceu os franceses e os americanos.

Se o tratado foi assinado por causa da "boa vontade" do governo Obama com o Brasil, trata-se de uma ingenuidade franciscana. Acordos são assinados entre Estados, independentemente de quem os governe. Hoje é Obama, amanhã poderá ser Bush III ou Nixon II. Mas se foi para facilitar a venda de aviões de treinamento Super Tucano da Embraer para os EUA, como sugerem alguns, estaremos igualmente em maus lençóis. Além de uma aliança militar desnecessária, os EUA poderão exigir, em contrapartida, que o governo brasileiro compre os caças F-18 Super Hornet, da Boeing, ficando à mercê dos humores americanos no quesito transferência de tecnologia. Se isso acontecer, estaremos dando, então, dois passos atrás depois de termos dado um grande passo à frente.

terça-feira, 13 de abril de 2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

MISSA LUBA


Música tradicional do Congo

Kyrie (Eleison) e outras. Gravação de 1965