terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A TRAGÉDIA DO OCIDENTE EM TRÊS ATOS


As duas guerras mundiais e o totalitarismo do século XX, com seu cortejo de genocídios e atrocidades, nascem das entranhas civilizadas da Belle Époque, quando se acreditava que se vivia no melhor dos mundos, onde os conflitos sangrentos e a penúria econômica eram coisas do passado. No século XVIII, o grande Voltaire já ironizara essa ilusão em Cândido ou o otimista, com o personagem do dr. Pangloss. Nestes trechos de O Castelo do Barba Azul, que editei arbitrariamente, o crítico literário George Steiner tenta dar conta das origens do trágico e curto século XX.

Não ter nem Céu nem Inferno
é ficar intoleravelmente carente e solitário
em um mundo que se tornou plano.
Dos dois, o Inferno demonstrou ser o mais fácil de recriar

Queda da Bastilha, 1789: grandes expectativas

"Nenhuma enxurrada de citações, nenhuma estatística pode recapturar para nós o que deve ter sido a excitação interior, a apaixonada aventura do espírito e da emoção desencadeada pelos eventos de 1789 e mantida, com ritmo fantástico, até 1815. Muito mais coisas que revolução e guerra estão envolvidas, em uma escala e alcance social e geográfico sem precedentes. A Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas - la grande épopée - literalmente aceleraram a marcha do tempo tal qual como as pessoas o sentiam [...]

"Até a Revolução Francesa e as marchas e contramarchas dos exércitos napoleônicos de Corunha a Moscou, do Cairo a Riga, a história havia sido, por larga margem, privilégio e terror de poucos [...] Foram os acontecimentos de 1789 a 1815 que permearam a existência comum, participar, da percepção dos processos históricos. A levée en masse dos exércitos revolucionários era muito mais do que um instrumento de guerra e doutrinação social que, havia muito tempo, persistiam. Fez mais que liquidar com as convenções da guerra profissiional, limitada. Como Goethe notou com precisão no campo de batalha em Valmy, os exércitos populares, o conceito de uma nação em armas, significavam que a história havia se tornado o ambiente do homem comum. Desse momento em diante, na cultura ocidental, todo dia traria novidades [...].

II
Bonaparte: as guerras trouxeram o homem comum à História

"O que se seguiu foi, é claro, uma longa fase de reação. Dependendo da linguagem política de cada um, pode-se ver esse período como um século de repressão por uma burguesia que se aproveitara da Revolução Francesa e das extravagâncias napoleônicas para sua própria vantagem econômica, ou como cem anos de gradualismo liberal e ordem civilizada. Rompida somente por espasmos revolucionários em 1830, 1848 e 1871 e por curtas guerras de caráter extremamente profissional e socialmente conservador, como a da Criméia e as prussianas, essa paz de cem anos moldou a sociedade ociental e estabeleceu os critérios de cultura que, até bem pouco tempo, foram os nossos. 

"Para muitos que em pessoa experimentaram essa mudança, essa queda na tensão, o abrupto fechar das cortinas sobre a manhã foi muitíssimo enervante. É nos anos após Waterloo que devemos procurar as raízes do "grande ennui (tédio)", que, já em 1819, Schopenhauer definiu como a enfermidade corrosiva da nova era. Que iria um homem de talento fazer depois de Napoleão? Como poderiam os organismos criados para o ar elétrico da revolução e da época imperial respirar sob o céu de chumbo do reinado da classe média? Como seria possível a um jovem ouvir de seu pai os relatos do Terror e de Austerlitz e depois caminhar placidamente pelo bulevar em direção ao escritório de contabilidade? Os dentes de rato roíam a polpa acinzentada do presente; isso exasperava, nutria sonhos selvagens [...]"

A Belle Époque escondia o próprio veneno

III

"O colapso das esperanças revolucionárias após 1815, a brutal desaceleração do tempo e das expectativas radicais deixaram um reservatório de energias turbulentas, não realizadas. A geração romântica tinha inveja de seus pais. Os "anti-herois", os dândis assolados pelo spleen (melancolia)no mundo de Sthendal, Musset, Byron e Púshkin movimentam-se pela cidade burguesa como condottieri desempregados. Ou, pior, como condottieri aposentados antes da primeira batalha, com uma pensão miserável. Mais ainda, a própria cidade, outrora festiva com os sinos da revolução, tinha-se tornado uma prisão. 

"A conjunção do extermo dinamismo técnico-econômico com larga medida de imobilismo social imposto, conjunção sobre a qual foi construído um século de civilização liberal burguesa, preparou uma mistura explosiva. Provocou na vida da arte e da inteligência certas respostas específicas e, no fim das contas, destrutivas. Estas, segundo me parece, constituem o significado do romantismo. É a partir delas que crescerá a nostalgia pelo desastre.     
          
" [...] a descrição que Freud faz (em O mal-estar da civilização)das tensões que as maneiras civilizadas impõem aos instintos humanos centrais e não realizados continua válida. Assim como as insinuações, abundantes na literatura psicanalítica (que é, por si mesma, pós-darwiniana), de que há nas interrelações humanas uma inelutável pulsão à guerra, a uma afirmação suprema da identidade à custa da destruição mútua [...]. 

O Grito (Münch): tédio desesperador 

"[...] por volta de 1900, havia uma propensão terrível, uma sede mesmo, por aquilo que Yeats viria a chamar 'maré turva de sangue'. Exteriormente serena e brilhante, la belle époque estava demasiado madura, de um modo ameaçador. Sob a superfície do jardim, compulsões anárquicas estavam chegando a um ponto crítico. Notem-se as imagens proféticas de perigo subterrâneo, de influências destrutitvas prontas a levantar-se dos esgotos e dos porões que atormentavam a imaginação literária desde o tempo de Poe e do Les misérables até o Princess Casamassima de Henry James. A corrida armamentista e a crescente febre do nacionalismo europeu eram, acho, apenas sintomas desse mal-estar intrínseco. O intelecto e o sentimento foram, literalmente, fascinados pela perspectiva de um fogo purificador."

George Steiner, No Castelo do Barba Azul

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