domingo, 18 de dezembro de 2011

O ÚLTIMO ESTADISTA TCHECOSLOVACO

Dramaturgo, dissidente e dirigente político, Václav Havel (1936-2011), morto neste domingo, fazia parte de uma estirpe de políticos tchecoslovacos - Thomas Masaryk, Edvard Benes e Alexander Dubcek - que não deixou herdeiros.  

O diretor de uma peça que mudou a história 

Timothy Garton Ash, The Guardian

Mãos zunindo como duas hélices, Václav Havel movia-se com seu característico andar, apressado e de passos curtos, pelo salão espelhado do teatro Lanterna Mágica, quartel general da revolução de veludo. A figura robusta, ligeiramente inclinada, vestida em jeans e suéter, parou por um momento, começou a falar acerca de algumas “negociações importantes”; mal estava na terceira sentença, foi interrompido. Ele deu um sorriso apologético por sobre o ombro, como que dizendo “O que um homem pode fazer?”.

Muitas vezes, Havel falava como se fosse um crítico irônico assistindo ao teatro da vida, mas lá no Lanterna Mágica, em 1989, ele se tornou o ator principal e diretor de uma peça que mudou a história.

Havel foi uma figura definidora da Europa do final do século 20. Ele não foi apenas um dissidente; ele foi a epítome do dissidente, como viemos a entender aquele termo novo. Ele não foi apenas o líder de uma revolução de veludo; ele foi o líder da revolução de veludo original, aquela que nos deu uma marca aplicada a muitos outros protestos de massa não-violentos desde 1989. (Ele sempre insistiu que foi um jornalista ocidental que cunhou o termo.)

Havel não foi apenas um presidente; ele foi o presidente fundador do que hoje é a República Tcheca. Ele não foi apenas um europeu; foi um europeu que, com a eloquência de um dramaturgo profissional e a autoridade de um ex-prisioneiro político, nos lembrou das dimensões históricas e morais do projeto europeu.

Olhando para a bagunça em que aquele projeto está hoje em dia, pode-se apenas chorar: “Havel! A Europa precisava de ti.”

Ele foi também um dos seres humanos mais engajados que eu jamais conheci. A primeira vez que o encontrei foi no começo dos anos 1980, quando acabara de emergir de vários anos na prisão. Conversamos em seu apartamento na beira do rio, com suas largas mesas e largas vistas de Praga. Embora à época a polícia secreta comunista avaliava, provavelmente de forma correta, que o centro ativo do movimento Carta 77 era de apenas umas poucas centenas de pessoas, ele insistiu que o silencioso apoio popular estava crescendo. Um dia, os círios cintilantes romperiam o gelo. É importante lembrar que ninguém sabia quando aquele dia chegaria.

Vaclav Havel e o ex-líder da Primavera de Praga, Alexander Dubeck  (à esq.)
No final das contas, o dia chegou apenas seis anos depois, mas bem poderia ter levado 22 anos, como foi o caso para Aung San Suu Kyi – que Havel generosamente indicou para o prêmio Nobel de Paz, numa época em que ele próprio poderia tê-lo ganho. A honra do dissidente não vem da coroa do político vencedor. Havel foi a epítome do dissidente porque ele persistiu em sua luta pacientemente, sem fazer uso da violência, com dignidade e humor, sem saber quando ou mesmo se a vitória viria. O sucesso já estava naquela persistência mesma, na prática da “antipolítica” – ou política como a arte do impossível. No meio-tempo, ele analisava o sistema comunista em ensaios profundos mas pé-no-chão e em cartas da prisão para sua esposa Olga.

Em sua famosa parábola do vendedor de hortaliças que coloca um cartaz na janela de sua loja, entre maças e cebolas, dizendo “Trabalhadores de todo o mundo, Uni-vos!” – embora, claro, o homem não acreditasse em uma palavra do cartaz – Havel captou o critério essencial de que toda resistência civil se alimenta: mesmo o mais opressivo dos regimes depende de alguma complacência mínima das pessoas que governa. Em um ensaio seminal, ele falou do “poder dos sem-poder”.

Quando a oportunidade de praticar resistência civil se apresentou, Havel transformou tudo isso em teatro político de um tipo eletrizante. A praça Venceslau em Praga foi o palco. Um elenco de 300 mil pessoas falou com uma voz. Pode chorar, Cecil B. DeMille. Ninguém que esteve lá jamais vai esquecer a visão de Havel e Alexander Dubcek, o heroi de 89 e o heroi de 68, lado a lado na sacada: “Dubcek-Havel! Dubcek-Havel!”. Ou o som de 300 mil chaveiros chacoalhados como sinos chineses. Raramente, se é que já, uma minoria tão ínfima se transformou tão rapidamente em uma imensa maioria. Que o mesmo possa ocorrer brevemente em Myanmar.

Mas a Tchecoslováquia – como ainda era chamada – teve o benefício de ter chegado tarde à festa de 1989. Poloneses, alemães orientais e húngaros já haviam feito a maior parte do trabalho duro, aproveitando a brecha aberta por Gorbachev. Quando cheguei em Praga e fui atrás de Havel em seu pub subterrâneo favorito, brinquei que na Polônia o processo durara 10 anos, na Hungria 10 meses, na Alemanha Oriental 10 semanas; talvez aqui ela durasse apenas 10 dias. Ele imediatamente me fez repetir o chiste para uma equipe de vídeo amadora. No final, ele se tornou presidente dentro de sete semanas. Lembro-me vividamente do momento em que apareceram alguns adesivos caseiros dizendo “Havel para presidente”. “Posso pegar um?”, ele polidamente perguntou ao estudante que distribuía os adesivos.

“Povo, seu governo retornou a vocês!”, ele declarou no discurso de Ano Novo em 1990, que o inaugurou como chefe de estado, ecoando o primeiro presidente da Tchecoslováquia, Tomas Garrigue Masaryk. Aquelas primeiras semanas no Castelo de Praga foram loucas, hilárias, encorajadoras e caóticas. Ele exibiu a câmara de tortura original: “Acho que a usaremos para negociações.”

Mas aí veio a dura labuta de desfazer o comunismo. Todo o veneno acumulado em 40 anos começou a vazar. Operadores políticos arrogantes, como Václav Klaus, pularam à proa. A mesma coisa com o nacionalismo, eslovaco e por fim tcheco. Havel batalhou com toda sua eloquência para manter junto o sonho de Masaryk de uma república civil, multinacional – em vão.

Ele voltou à cena como presidente do que hoje é a República Tcheca, que emergiu do assim chamado divórcio de veludo com a Eslováquia. Sentia, com boas razões, que tinha que estar presente na criação. Penso que ele permaneceu por tempo demais nesse papel. Menos teria sido mais. Com a saúde debilitada, se exauriu com os infinitos deveres cerimoniais e baixas brigas políticas internas, e, em tempo, seu povo se cansou dele.


Nós dois tivemos uma longa discussão durante os anos 1990 sobre se alguém podia ser um político em atividade e um intelectual independente ao mesmo tempo. Ele insistia que sim. Mas também prometia, sempre que nos encontrávamos, que, assim que acabasse o mandato, escreveria uma peça sobre a comédia dos altos círculos políticos, que ele pôde observar em primeira mão. Seria algo sobre a falta de poder dos poderosos.

Com o passar dos anos, comecei a duvidar de que ele fosse cumprir essa promessa. Sua palavra, no entanto, era tão boa quanto ele. Leaving – uma peça caracteristicamente irônica sobre a perda de poder e a ânsia para tê-lo de volta – foi filmada recentemente sob sua própria direção, com sua segunda esposa, Dagmar, em um papel de ponta.

Agora, cedo demais, Havel nos deixou pela última vez. Mas poucos deixaram tanta coisa de valor para trás.

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