terça-feira, 3 de abril de 2012

DA INQUISIÇÃO À INTERNET

"Creio porque é absurdo"
(Tertuliano de Cartago (160-260), um dos pais da Igreja Católica)

Abaixo, uma resenha de do escritor americano Miguel Conner sobre o livro  The New Inquisitions, de Arthur Versluis, do Michigan State State University. O livro faz o controle político da sociedade remontar ao século II, no contexto da luta da nascente ortodoxia católica contra as heresias. Segundo ele, essa luta deu início à política de controle de corações e mentes que desembocaria nas Inquisições dos séculos XII e XVI e, muito depois, nos totalitarismos.
Tese polêmica, mas muito interesante. 

 AS ORIGENS DO TOTALITARISMO E DO CONTROLE DE PENSAMENTO


Miguel Conner


A maioria das pessoas conhece termos como "orwelliano", "politicamente correto", "patrulhamento ideológico" ou "admirável mundo novo", bem como os sistemas opressivos seculares e religiosos que os inspiraram ao longo da história. Apesar desses mecanismos que matam a individualidade serem construções relativamente modernas, não são apenas tão antigos quanto o cristianismo, mas na verdade se originaram com o cristianismo!

Mais surpreendente talvez seja saber que certas facções do cristianismo estão utilizando esses mecanismos até hoje. Em seu livro seminal, The New Inquisitions, Arthur Versluis, propõe que foi a caça à heresia promovida pelos pais da igreja primitiva que deu origem ao DNA que estruturou, muito mais tarde, as instituições totalitárias e o Estado policial. O desprezo cego destes bispos contra seus adversários teológicos, principalmente os gnósticos, acrescentou uma dimensão infernal às formas de controle sociais que poderiam ser aplicadas a seus súditos.

Antes do surgimento da figura do herege, impérios conquistaram quase que exclusivamente recursos naturais, escravos e prestígio, mas a maioria das nações subjugadas tinha a permissão de manter suas crenças nativas, costumes e ideologias. A perseguição religiosa dentro de um império geralmente surgia quando um sacerdote ou nobre – representantes na Terra de deuses específicos – iniciavam alguma forma de insurreição.

Os exemplos são numerosos: os egípcios permitiram que os israelitas e outras raças escravizadas existissem livremente como cultura; os babilônios isolavam o clero judaico das massas em uma espécie de prisão em um clube de campo; e os romanos eram famosos pela liberdade religiosa, desde que tanto cidadãos quanto estrangeiros obedecessem às leis, pagassem impostos e jurassem a santa fidelidade ao imperador. Recompensa ou punição era geralmente aplicada por causa do comportamento de um indivíduo ou grupo.


De acordo com Versluis, uma mudança sísmica ocorreu no século II DC, quando o cristianismo começou a solidificar-se como uma religião organizada ao invés de múltiplas seitas independentes.

Tertuliano de Cartago
Padres da Igreja como Irineu de Lyon e Tertuliano de Cartago viram a necessidade de racionalizar os dogmas de sua religião a fim de ganhar respeitabilidade dentro do Império Romano. Dissidências ou especulações autônomas poderiam ameaçar a própria sobrevivência do cristianismo (pelo menos essa era sua razão de ser).

Eles desenharam uma linha dura na área doutrinária, referindo-se à sua forma de cristianismo como "ortodoxia" (do grego para "bem pensantes"). Do outro lado estavam os gnósticos, que foram chamados de “hereges” (do grego "para aquele que escolhe", no contexto do pensamento divergente da norma padrão). Estas respectivas categorias foram aplicadas aos membros das suas igrejas depois de apressadas investigações. Tal demarcação acabou sendo designada para comunidades inteiras e as mais "hereges" denunciadas , sendo os termos convenientemente abrangentes para outras seitas, religiões e até mesmo princípios políticos.

Em outras palavras, um inimigo já não era definido pelos seus atos, lealdade ou mesmo cidadania, mas por seus próprios pensamentos! Como a ala ortodoxa cresceu e se associou ao governo romano, volumosos textos foram escritos sobre como reconhecer, decifrar e corrigir aqueles que haviam feito uma escolha longe do “bom pensamento”. Pela primeira vez na História uma forma de pensar poderia ser criminalizada pelo Estado.

O massacre dos hereges cátaros
Este modelo de controle totalitário não foi totalmente aperfeiçoado até a chegada da Inquisição no século XII. Apesar da percepção comum, a Inquisição não foi implementado para lidar com os judeus, bruxas ou de outras minorias, mas, ironicamente, contra os gnósticos e os cátaros rebeldes do sul da França. Com a bênção do papa e da cobiça de nobres oportunistas, a caça aos hereges tornou-se a principal arma para combater a resistência dos gnósticos medievais.

Uma vez que os cátaros e os seus simpatizantes católicos foram aniquilados, este instrumento de controle absoluto migrou para outras formas de pensamento que não estavam em linha com a Igreja (e, mais tarde, muitas linhas protestantes). A prática da tortura, tribunais simulados, provas plantadas, o incentivo à delação, execuções públicas exemplares, entre outras técnicas, sofisticaram-se ao ponto de o medo ser o suficiente para literalmente fazer populações inteiras se tornarem ortodoxas ou “politicamente corretas”.

Apesar do advento da era do Iluminismo e das nações democráticas, a história revela claramente que a fórmula repressiva dos pais da primeira igreja e dos inquisidores medievais nunca foi abandonada. A Nova Inquisição oferece os habituais e infames exemplos famosos de regimes autoritários e patrulhamento dos pensamentos, como os corruptores da Revolução Francesa, o marxismo europeu-asiático, o nazismo, e espectros diferentes do fascismo. No entanto, Versluis oferece evidências de intelectuais que influenciaram notórios movimentos despóticos, direta ou indiretamente, e que estavam bem conscientes sobre os caçadores de hereges e suas metodologias (e, certamente, convocaram o bicho-papão do gnosticismo quando necessário).

A pergunta pode surgir é o porquê de o livro se chamar “As novas inquisições”, uma vez que o crime do pensamento é imortal e sempre se transforma e migra para diferentes lugares e épocas. A resposta é a advertência de Versluis de que o vírus caça à heresia ainda é considerado uma toxina viável por muitos no poder, mesmo em sociedades livres. O pânico ao satânico e a “Illuminatifobia” dos anos 1980 e 1990 no Ocidente são dois casos que, felizmente, não evoluiram para literal caça às bruxas. E como Versluis afirma, é uma sombria ironia que os alarmistas principais destes dois casos, Pat Robertson e Tim Lahey, são eles próprios membros do clandestino e atualmente ativo Conselho de Política Nacional. Em essência, esta organização cristã illuminati cria falsos illumitatis que são implantados nas mentes da população, a fim de criar cismas e fabricar ameaças, tornando assim mais fácil de controlar a percepção do público.

Como mencionado, a dura verdade é que a caça aos hereges e o Golem da Inquisição jamais serão destruídos, porque são produtos da imaginação infernal de quem achava que o bem maior significa a falta de livre arbítrio e o livre pensamento. Os gnósticos tomaram os primeiros golpes deste Golem, além de incontáveis milhões de pessoas pagaram caro por nada mais do que terem tido ideias para depois serem punidos por outras ideias.

No entanto, a ortodoxia (bem pensante) pode ser contida por uma atitude feroz de heresia (escolha além do aceitável), como a História tem também revelado muitas vezes. Mas talvez isso só torne as coisas mais difíceis. O inquisidor moderno não exige mais câmaras de tortura ou vizinhos delatores quando a internet, mensagens eletrônicas, redes sociais e outros meios de comunicação fizeram pensamentos do público mais acessível do que nunca. Tudo o que precisamos para contaminar a liberdade é que ocorra, algum dia, o casamento entre um sistema de crenças ditatorial e o Estado. Quando se menos espera, os pensamentos de alguém podem se transformar em testemunha condenatória em algum tribunal corrompido.

Ou talvez mais apropriado, é a exegese do “Grande Inquisidor” de Dostoievski feita por Versluis, onde depois de Cristo ter sido capturado, revelam-Lhe no que se tornará civilização após a sua partida:


“Nós não estamos trabalhando para Ti, mas para ele [o diabo], que é o nosso mistério. Nós, continua ele, seremos césares e depois vamos planejar a felicidade universal do homem através de alguns meios que possam unir tudo em um unânime e harmonioso formigueiro. O Grande Inquisidor é quele que rejeita a transcendência e abraça a imanência, isto é, o histórico e mundano poder, a fim de ajudar a humanidade a realizar a utopia terrena através do impedimento da liberdade humana”.


As ideias podem realmente mudar o mundo. Mas algumas ideias seriam melhores se fossem deixadas na imaginação infernal de certas pessoas, para que não tenhamos um admirável mundo novo com seus Golens.

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