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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A QUEM INTERESSA A DIVISÃO DO PARÁ?

A quem interessa a divisão do Pará? Para o agronegócio, entre eles o banqueiro Daniel Dantas, a divisão seria uma maneira de minimizar as preocupações dos países desenvolvidos em relação aos impactos ambientais que suas atividades causam na Amazônia, já que a região é uma área ocupada e semidevastada. Já a Vale, que está em Carajás, aposta na divisão para ter condições mais favoráveis de negociação com um estado iniciante, necessitando desesperadamente de recursos. Não haveria líder com força suficiente para obrigar a Vale a construir uma siderúrgica, como fez a ex-governadora Ana Júlia. Nessas condições, é de se imaginar quão precária se tornaria a já tênue ação fiscalizatória do poder público, com aumento do desmatamento, dos garimpos ilegais, da exploração predatória e da endêmica violência no campo. 
A questão do aumento de gastos por causa da divisão não é o maior dos problemas, como faz crer parte da grande mídia. Esse artigo de Lúcio Flávio Pinto aborda outros aspectos do tema - aliás, quase ignorado pela grande mídia nacional:  

A grandeza do voto


por Lúcio Flávio Pinto, no portal Yahoo


No domingo, 11, os paraenses serão protagonistas de um ato inédito no Brasil. Pela primeira vez na história nacional, uma unidade federativa decidirá pelo voto a sua configuração territorial. Até agora, a criação ou extinção de Estados foi ato exclusivo do poder central, imposto de cima para baixo; ou produto de uma transação entre as partes.


A constituição de 1988 abriu a possibilidade de essa decisão ser adotada através de plebiscito. Um ano depois da vigência da nova Carta Magna, em 1989, o Estado do Tocantins foi criado sem a necessidade dessa consulta. Goiás não se opôs ao desmembramento de todo o norte do seu território. Pelo contrário: durante os oito anos anteriores integrou uma comissão bipartite que preparou o surgimento do novo Estado. Tocantins nasceu sob o clima do entendimento.


Como o Pará atual não aceitou o fracionamento, a consulta plebiscitária se tornou necessária. Apesar da originalidade da situação, até alguns dias atrás a opinião pública ignorou o fato. Parecia considerá-lo um acontecimento irrelevante, restrito a um Estado distante e secundário na estrutura do poder. Só começou a se aperceber da relevância da questão agora, às vésperas da votação – o que dá uma medida mais real do significado da Amazônia para o Brasil, descontada a propaganda e a fantasia.


Deve-se ressaltar que a maioria dos paraenses também permanece quase tão jejuna nessa pauta quanto um paulista ou um pernambucano. E que pauta: cheia de complexidades e sutilezas.


Os 4,8 milhões de eleitores habilitados a participar do plebiscito não vão escolher um líder local para algum cargo ou decidir sobre uma anomalia particular. A decisão que tomarem mudará a configuração territorial brasileira e provocará efeitos profundos sobre todo país.


A responsabilidade é grave e única, de um tamanho cuja grandeza o eleitor médio não tem a menor idéia. A campanha eleitoral em quase nada o ajudou nessa tarefa, dispersa entre ataques e defesas passionais, como em quase toda eleição.


Hoje, o Pará é o 2º em território do Brasil (com mais de 15% de toda sua extensão) e o 9º em população. Se a maioria dos eleitores concordar em dividi-lo para o surgimento de dois novos Estados, o Pará remanescente passará a ser apenas o 14º em tamanho e o 12º em população. Sua nova configuração poderia situá-lo no rabo da fila da federação brasileira por quase todos os critérios. Já não seria uma fronteira com grande potencial de crescimento: teria que aplicar seu engenho e arte para resolver problemas estruturais, dentre eles um território que perdeu grande parte da floresta amazônica que possuía.


O novo Estado do Tapajós, a oeste, se tornaria o 3º em território do Brasil (abaixo apenas do Amazonas e Mato Grosso) e o 24º em população. Passaria a ser a personificação mais próxima da idealização da fronteira amazônica. Mas ao lado de grandes extensões de floresta nativa há elementos de intensa perturbação desse ideal: enormes minas em expansão, estradas que abrem veias de destruição no meio da mata, grilagem de terras, conflitos rurais, desmatamentos em incontida expansão. Quase todos os problemas do Pará atual com menos instrumentos de resolução. Versão piorada do original.


O possível Estado de Carajás, ao sul, nasceria com o 9º maior território e a 22ª população. Dentro da Amazônia, pode ser comparado a Rondônia, a mais bem sucedida das unidades federativas que se originaram dos antigos territórios federais (os outros são Roraima e Amapá).


O paralelo não é destituído de significação. Estado típico de imigração, Rondônia sofreu tal desmatamento que a principal meta das suas lideranças é retirá-lo da Amazônia e transferi-lo para o Centro-Oeste. Assim ampliariam (de 20% para até 80%) a área de imóveis rurais passível de novas derrubadas de floresta.


Rondônia se parece cada vez mais ao sertão, de onde veio grande parte dos seus atuais habitantes. Carajás também. Seus mais recentes moradores sentem-se mais identificados com a paisagem semelhante à dos seus locais de origem, mas a Amazônia só tem a lamentar – e a perder. Os defensores do atual modelo de ocupação da região, que leva a esses efeitos tão danosos, são os mesmos que lideram as três frentes. Fique tudo como está ou mude a divisão administrativa do espaço geográfico, não será para melhor.


Mas não é só o conteúdo amazônico dessa vasta região, que representa dois terços do território nacional, o que está em causa no plebiscito. É a própria composição da unidade (ou da identidade) nacional, um desafio ainda à espera de uma resposta melhor do que a dada até agora. De um lado, os que tentaram amesquinhar a questão, sugerindo restringir a consulta à população das regiões que pretendem se emancipar (o que seria um jogo de cartas marcadas, com resultado certo: a favor).


De outro, os que interpretaram conforme seus interesses a regra constitucional, segundo a qual a “população diretamente interessada” na questão é toda a população brasileira e não apenas os 4,8 milhões de eleitores paraenses. Argumentaram que o custo da instalação dos dois novos Estados terá que ser rateado entre todos e que os efeitos políticos prejudicarão os demais, sobretudo os Estados mais fortes (cujo peso no parlamento sofrerá nova redução quando, no lugar dos 17 deputados federais e 3 senadores paraenses, se apresentarem 32 deputados e 9 senadores dos três Estados derivados do Pará).


Numa decisão inspirada para os padrões das suas últimas deliberações, o Supremo Tribunal Federal rejeitou essa tese, formulada pelo jurista Dalmo de Abreu Dallari, ligado à esquerda paulista. A “população diretamente interessada” é apenas a do Pará. Além de consagrar uma lógica quase tautológica, o STF fortaleceu – como raras vezes isso ocorre – a debilitada federação brasileira de verdade, ao invés de passar mais verniz na República Unitária que somos, caracterizada pela hipertrofia de poder em Brasília.


Como seria bom se o eleitor se sentasse diante da urna informatizada com a consciência de estar contribuindo para aumentar a democratização do Brasil. Será utopia pretender que o eleitor seja, antes de tudo, um cidadão ativo?

domingo, 4 de dezembro de 2011

RETRATOS DO BRASIL

Um exemplo de que, às vezes, uma foto vale mais que mil palavras: uma menina de 22 anos, guerrilheira (Dilma Rousseff), encara seus algozes no tribunal militar do Rio de Janeiro em 1970, depois de passar por torturas. Os oficiais, todo-poderosos, escondem os rostos para não serem fotografados. Por que tanta vergonha? Eles não estavam defendendo o país contra o comunismo?Quem são eles? No vídeo, três décadas depois, a então ministra Dilma Rousseff desanca o senador Agripino Maia, apoiador da ditadura, que a acusara de mentir durante as torturas.


A MÁ CONSCIÊNCIA DO COLABORACIONISMO FRANCÊS

LOUIS VUITTON E A IMPRENSA Brumas de um passado inglório

Por Leneide Duarte-Plon (*)
29/11/2011 na edição 670

Sessenta e cinco anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, falar da ocupação e da colaboração de empresas francesas com o regime de Vichy (do general Pétain) e com os alemães é ainda um problema sensível. Imperativos econômicos muitas vezes impõem uma censura mal digerida por historiadores e jornalistas.

O site Mediapart e o jornal Le Canard Enchaîné revelaram este ano que durante a guerra houve colaboração francesa com os alemães por “imperativos econômicos”. Foi o caso de Louis Vuitton. Mas os famosos “imperativos econômicos” que justificaram a colaboração impediram este ano a revista Géo Histoire de publicar um texto sobre as relações perigosas de Louis Vuitton com o ocupante alemão. Explica-se: a marca de luxo é um importante anunciante de outras revistas (Gala, Femme Actuelle) que pertencem ao grupo Prisma Presse, proprietário de Géo Histoire.

O número especial de Géo Histoire de setembro-outubro tratava do tema “La France sous l’occupation”, mas o artigo que tinha por tema a colaboração econômica, um tabu nos meios empresariais franceses (Chanel e Renault teriam colaborado também) foi censurado pela revista, por recomendação do setor comercial.

Condecoração nazista
Segundo o site Mediapart, o artigo censurado não era propriamente um furo. Em 2004, o livro de Stéphane Bonvicini – Louis Vuitton, une saga française – já tratava do tema da colaboração de Louis Vuitton durante a guerra. O livro teve um lançamento que ficou quase clandestino, já que praticamente não se falou dele na imprensa. Et pour cause. O jornal britânico The Guardian lembrou na época que “Louis Vuitton é um dos maiores anunciantes da imprensa francesa”, tanto de grandes jornais como de grandes semanários e revistas de moda.


Segundo o Canard Enchaîné, o artigo de Géo Histoire tinha sido relido pelo redator-chefe da revista e por um historiador que atestou a veracidade dos fatos. Um trecho do artigo censurado dizia :

O marechal Pétain (esq.) e Adolf Hitler 

“Quando Philippe Pétain instala seu governo no Hôtel du Parc, em Vichy, todas as marcas de luxo que, como o joalheiro Van Cleef & Arpels, têm lojas no hotel são expulsas. Todas menos uma: Vuitton. A casa, fundada em 1854 por Louis Vuitton e tornada célebre pela imperatriz Eugénie (esposa de Napoleão), era dirigida em 1940 por Gaston, neto do fundador. Gaston pede a seu irmão Henry que mostre claramente a fidelidade ao novo regime para assegurar a perenidade da marca que vai fabricar objetos destinados a glorificar o marechal Pétain.

“Henry Vuitton mantém relações de amizade com oficiais da Gestapo. Vuitton foi um dos raros industriais condecorados pelos nazistas, em reconhecimento de sua lealdade, em cerimônia na qual os oficiais SS e a Wehrmacht usam uniformes desenhados por um estilista de Metzingen, um certo Hugo Boss, e confeccionados por deportados e trabalhadores do trabalho obrigatório na Alemanha”.

Ótima saúde
A supressão do artigo que mostra o passado nada glorioso da marca Vuitton foi feita para preservar as boas relações da empresa Prisma Presse, dona da revista, com o grupo LVMH (proprietário da Louis Vuitton). Mas os jornalistas da revista escreveram uma carta protestando contra a censura econômica exercida pela direção da publicação. Para tentar se justificar junto à redação, a direção alegou o conteúdo “discutível” dos artigos. Não convencidos com as explicações, os jornalistas enviaram carta de protesto ao comitê de ética do grupo.

Enquanto isso, a saúde financeira do grupo Vuitton continua excelente e os anúncios continuam chovendo nas revistas do grupo Prisma Presse.


(*)Leneide Duarte-Plon é jornalista em Paris

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PARA NÃO ESQUECER JAMAIS

Do blog do jornalista Mouzar Benedito:

K.: Não temos o direito de esquecer

“Mas ela não era comunista?”


O pai angustiado à procura da filha desaparecida ouviu essa pergunta várias vezes, ao falar com pessoas que julgava poder ajudar a encontrá-la, como se ser comunista justificasse tudo o que fizessem com ela, e era um tempo em que os comunistas e a esquerda mais radical não tinham a menor possibilidade de tomar o poder ou causar qualquer “mal” ao país.

Era o ano de 1974. As organizações guerrilheiras já tinham sido destroçadas no Brasil. Quem militou em organizações políticas guerrilheiras ou não, se não tivesse sido morto nem preso nem exilado, estava derrotado, sem ação, se limitando à procura da sobrevivência, alguns procurando atuar politicamente pelas vias legais.

Mas a ditadura continuava prendendo, torturando, matando, “desaparecendo” pessoas ligadas a essas organizações ou meramente suspeitas. Sadismo? Demonstração de poder? Maluquice?

O certo é que o aparato policial e militar continuava agindo como se os inimigos da ditadura estivessem em plena ação para derrubar o regime, embora o então presidente, general Ernesto Geisel, já falasse numa “abertura lenta e gradual”, para entregar o poder aos civis.

K. era sobrevivente de uma família que já tinha sido vítima do nazismo, na Polônia, que matara quase todos os seus parentes. Veio para o Brasil deixando seus mortos na Europa.

Aqui, vivia em paz, se dedicando à literatura iídiche (língua hoje quase extinta, falada pelos judeus da Europa Oriental). Tinha três filhos: dois homens, que moravam fora do Brasil, e uma moça, de quem se orgulhava muito, professora de Química da USP.

De repente, ela não aparece nem dá notícia.

E o velho K., calejado pela perseguição nazista mas um tanto ingênuo, sai à procura dela.

É um martírio que não acaba, dura anos, um jogo de desinformação manejado pela repressão que prendeu e certamente matou na tortura não só a filha, mas também o marido dela.

Na sua angústia, lembrando da perseguição nazista e comparando com ele o que acontecia aqui (“lá pelo menos eles informavam a família que prenderam e mataram as pessoas”), K. continua em sua busca incessante, e inútil.

É um drama muito bem contado num romance – na verdade uma história que não tem nada de ficção – de B. Kucinski, publicado pela Editora Expressão Popular, certamente inspirado no desaparecimento de sua irmã, Ana Rosa, e do marido dela, Wilson, embora os nomes deles nunca tenham sido citados no livro. K.é seu pai.

“De todos os livros que já li sobre esse período de horror, este é o que mais me emocionou”, diz a historiadora Maria Victoria Benevides, na orelha do livro. “Um libelo contra a desumanidade e a vilania do regime de opressão”, afirma J. Guinsburg, na quarta capa.

Alípio Freire considera o livro “Magistral, magistral…” e Avraham Milgram (do Museu do Holocausto, de Jerusalém) considera que “os relatos de B. Kucinski refletem maldade, indiferença, cumplicidade, oportunismo e prostração moral manifestadas num ambiente aparentemente simpático e dócil de uma sociedade sob ditadura militar”.

Concordo com todos, lembrando com certo asco passagens em que até rabinos e judeus ricos lavam as mãos (“mas ela não era comunista?”) e os mandões do Departamento de Química da USP aproveitam para demitir a professora querida dos colegas por “abandono de emprego”, para dar sua vaga a alguém das relações deles, sabendo que ela tinha sido presa e certamente morta.

E volto ao começo: eram pessoas que não ofereciam risco nenhum aos ditadores.

Foi um tempo de muito sofrimento para muitas famílias, como a de K.. E tudo isso tem que vir a público, ser esclarecido, para que não aconteça mais.

Os que se opõem à apuração do que aconteceu naquele período têm motivos para isso: serão revelados como monstros, cruéis, torturadores sádicos e assassinos. É o que são.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O PERIGO DAS PALAVRAS

Martin Heidegger e o nazismo: o ser no seu tempo
"Com base em Nietzsche, Heidegger nos dizia que a vontade é luta e que ela, para conservar-se, tinha que crescer sem jamais fazer cessar essa luta. O destino vital da vontade é crescer. Para ela, crescer não é conservar-se - é abominar conservar-se. Crescer é conquistar e dominar, é apoderar-se do espaço vital que ela, a vontade, requer para sua expansão. Conservação e crescimento definem a vontade de poder. Que, em sua infinita força vital, sabe que só crescendo poderá conservar-se. Como se cresce? Lutando. Somente pela luta se conquista o espaço que a vontade exige, o espaço vital. Donde a palavra luta soar poderosa naquele auditório febril. Soar nietzscheana Como apenas Heidegger conseguiria fazer Niestzsche soar. Solar luta, conquista, expansão, guerra.

As SA (tropas de assalto) do nazismo
Chegou o final. Para aquele momento, Heidegger nos reservava uma surpresa erudita, mas feroz. Talvez poucos a tenham compreendido - em toda sua profundidade - ali mesmo. Soou igualmente gloriosa. Soou luta, guerra. "Queremos", disse, "que nosso povo cumpra sua missão histórica. Queremos ser nós mesmos. Pois a força jovem e nova do povo, a qual já nos perpçassa, assim decidiu. No entanto, só compreenderemos plenamente o esplendor e a grandeza dessa arrancada quando tornarmos nossa a grande e profunda reflexão com que a velha sabedoria grega soube dizer que..." Deteve-se O silêncio ribombava, ensurdecia. [...] Todos esperávamos algo grande, desmesurado. [...] Heidegger disse: "Tudo o que é grande está em meio à tempestade". Percebi. Muitos perceberam. Era uma frase de Platão. Aliás, da República. Mas a palavra tempestade não era platônica. Não era sequer grega. Era a palavra que a SA escolhera para nome. Por que Heidegger disse Sturm? Platão, eu fui conferir naquela mesma noite, dizia perigo. Dizia: "Tudo o que é grande está em perigo". Ou "corre o risco de perecer". Mas não tempestade. Sturm, filho, é palavra do romantismo e da SA. A Seção de Assalto recebeu esse nome desde seu primeiro combate de rua, em Munique, por volta de 1921 [...]. Röhm e seus homens foram sempre, e sabidamente, a Sturmabteilung. Agora, com a palavra Sturm, Heidegger unira Platão às tropas de assalto de Röhm. Mais uma vez, o início nos dava a injunção da grandeza.Era Platão quem exigia que a SA fosse fiel à grandeza grega e à grandeza alemã, as quais ela agora deveria assumir e levar ao triunfo.

O início é ainda. Tudo o que é grande está em meio à tempestade.

Heidegger (assinalado) entre seus pares das SA
Entre vivas, entre gritos de guerra, de alegria e de entusiasmo, entre hinos e canções da SA, entre estandartes com suásticas agitados pelos ventos da tempestade (restava alguma dúvida disso?), entre braços erguidos que saudavam o Führer de Freiburg, entre ofensas aos comunistas, aos judeus, aos social-democratas, aos velhos professores que haveriam de ser expulsos, insultados, surrados, entre rugidos de Heil, Hitler! e, por fim, entre as palavras estrondosas, vociferantes, do hino da comunidade nacional, o genial autor de O ser o tempo, filósofo de nosso século, se retirou."

José Pablo Feinmann, A Sombra de Heidegger

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A CRISE EUROPEIA, SEGUNDO UM EX-TUCANO DESENVOLVIMENTISTA

O seminário A Crise do Capitalismo e o Desenvolvimento do Brasil, que ocorreu nesta segunda-feira no Rio de Janeiro, foi organizado conjuntamente pelos quatro maiores partidos de esquerda do país, por meio das fundações Perseu Abramo (PT), João Mangabeira (PSB), Maurício Grabois (PCdoB) e Leonel Brizola/Alberto Pasqualini (PDT). Os debates reuniram economistas, parlamentares, empresários, sindicalistas e dirigentes partidários de todo o país.


A primeira mesa de debates reuniu nomes como Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa, Luiz Carlos Bresser Pereira e Theotônio dos Santos na análise da crise financeira que atinge o centro da economia global e hoje se manifesta mais fortemente na União Européia, onde a adoção do euro como moeda comum já é posta em xeque.

O economista e ex-tucano Luiz Carlos Bresser Pereira

Segundo Bresser Pereira, a crise do euro tem dupla natureza: “De um lado, é uma crise fiscal de Estados que estavam razoavelmente equilibrados do ponto de vista fiscal até 2008. Um exemplo é a dívida pública da Irlanda, que era de 25% do PIB em 2007. Aí, veio a quebra dos bancos irlandeses, o governo socorreu e a dívida pública da Irlanda, no fim de 2010, era de 99% do PIB. A dívida pública surgiu da quebra dos bancos, fundamentalmente. Os Estados do Sul da Europa se endividaram para socorrer seus bancos e aí os mercados financeiros perderam a confiança nesses países e na sua capacidade de pagamento. Então, a taxa de juros está aumentando. Isso já aconteceu com a Irlanda, depois com a Grécia, e agora está acontecendo com Itália”.


A outra natureza da crise européia, segundo Bresser, é cambial: “Os países em crise aguda tiveram déficits públicos pequenos, mas grandes déficits em conta corrente, o que se explica em parte também pelo consumo irresponsável feito internamente. A taxa de câmbio implícita desses países, definida pela relação salário-produtividade, se apreciou, e eles, então, entraram em um déficit de conta corrente muito grande em relação à Alemanha. Isso implica em endividamento para empresas, famílias e bancos, e torna a situação insustentável para esses países”.


Segundo o economista, o que ocorre na União Européia é uma crise de soberania monetária: “Ou você tem autonomia e decide sobre sua vida ou fica na mão dos outros. Não há soberania possível se você não tem uma moeda nacional. Os países da zona do euro, quando fizeram o acordo, aceitaram trocar suas moedas nacionais por uma moeda estrangeira, o euro. A moeda nacional tem duas características muito importantes, que só se percebe em tempos de crise: você pode emitir e pode desvalorizar. A Grécia não pôde fazer isso, a Espanha e a Itália não poderão fazer isso…”.


Para Bresser, a solução para o problema da dívida pública começaria com uma medida: “O banco central europeu deveria funcionar como o banco nacional desses países. Ou seja, emitir dinheiro para comprar os títulos que estão a juros altíssimos, e com isso baixar a taxa de juros e reequilibrar o sistema”. Em relação ao déficit em conta corrente, a solução racional, segundo o economista, seria cada país poder desvalorizar sua moeda: “Com isso, você baixa o salário, mas de uma forma menos dolorosa, não baixa via desemprego. A decisão de países como Espanha ou Itália de continuar no euro é complicada. Não sou capaz de dizer o que vai acontecer”.
(Informações do site Carta Maior)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

UM COMUNISTA DA VELHA E BOA CEPA ITALIANA

Reflexões do veterano comunista italiano Pietro Ingrao (n. 1915), representante da ala esquerda do Partido Comunista Italiano (PCI), ex-editor do jornal L’Unità e formulador do conceito de democracia de massas no sentido de “democracia ampliada”. Ele terçava armas com outros próceres do partido, como Giorgi Amendola, representante da tendência social-democrata do partido. Que diferença com o tipo de “esquerda” que existe hoje na Itália e na Europa!


“Os gulags não foram uma fábula, mas não vejo por que hoje deveria assumi-los no meu patrimônio, no meu sentimento de comunista, agora que não tenho nem mesmo o álibi de ‘não saber’. Ao lado desta derivação, o movimento comunista no século XX arrastou classes sociais inteiras para a luta política e social, e grande parte do crescimento da democracia, pelo menos na Europa, está ligada a esta participação, a esta batalha. Por que não deveria revisitar e reexaminar nossa história, ver as luzes e as sombras? Enfraqueço-me? Penso exatamente o contrário: a autocrítica me reforça. O arrependimento é uma palavra que não pertence à minha linguagem, tem um sabor de sacristia. Mas, se arrepender-se significa reconhecer os erros, então não tenho medo desta palavra. Tentar compreender onde erramos me ajuda a viver, a me sentir mais forte, a olhar para a frente. A reconstruir o passado para dar uma indicação sobre o futuro: pode-se aprender com os erros. E no horizonte futuro resta a necessidade de uma resposta às exigências, decisivas, de sentido da vida, de horizonte, num mundo vergado como então, como em todo o século XX, pela maldição de uma guerra. Passei uma vida batendo-me por coisas essenciais: o direito de se alimentar, crescer, se instruir, se cuidar, ser criativo no próprio trabalho. O movimento operário, no curso de um século, cresceu no contexto da reivindicação de necessidades fundamentais, a começar pelo grande tema do resgate do trabalho, e da exigência destas coisas nasceu a ideologia comunista, com seus erros, suas culpas, seus delitos. A violência armada, infelizmente, teve um lugar na história e na ideologia do movimento comunista. Em nome desta violência, o homem foi posto sob cadeias, quando nós o queríamos livre. Nossa derrota nasceu também daqui. Mas aquelas exigências permanecem presentes, continuam a ser atuais, e alguém terá de responder a elas...”