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sexta-feira, 8 de junho de 2012

TORTURA NUNCA MAIS? FALTA MUITO...


Uma pesquisa do Núcleo de Estudos da Violência da USP revelou que 47,5% da população brasileira concordam totalmente, em parte ou discordam apenas em parte da prática da tortura para obter provas contra crimes, enquanto que 52,5% desaprovam essa prática medieval. Em 1999, a mesma pesquisa apontava que a tortura era condenada por 71,2% dos brasileiros. A nova pesquisa mostra também que o número de pessoas que discordam totalmente da invasão de residências pela polícia caiu de 78,4% para 63,8%; com o de atirar em suspeito, de 87,9% para 68,6%; e dos que discordam da agressão ao suspeito caiu de 88,7% para 67,9%.

Estamos retrocedendo. Com a democratização, depois de 21 anos de ditadura militar, parecia que a cultura democrática começava a se instilar, pouco a pouco, na tradição autoritária da sociedade brasileira. O apoio à pena de morte e à tortura, que já tinham sido majoritários, estavam perdendo terreno com o passar dos anos. Mas essa pesquisa do NEV mostra que não é bem assim. Como não estamos vivendo uma crise econômica com desemprego alto e aumento generalizado da violência, a persistência desse culto aos métodos torcionários se deve à hegemonia ideológica do discurso oligárquico e fascista sobre a violência.


Portanto, se os setores democráticos e progressistas da sociedade não empreenderem um trabalho de defesa e promoção dos direitos humanos, veremos crescer cada vez mais o apoio à tortura e às ações violentas do Estado.


O fato de não termos condenado a tortura da ditadura militar punindo torturadores deu nisso: a prática continua disseminada nas delegacias de polícia - prioritariamente contra pretos e pobres -, com quase metade da população, inclusive muitos "bem-pensantes" da classe média, corroborando sem culpa a prática da "tigrada" .  

Abaixo, um trecho do livro Dos Delitos e das Penas, de Cesare Beccaria, publicado, vejam vocês, no ano da graça de 1764:

“É uma barbaria consagrada pelo uso na maioria dos governos aplicar a tortura a um acusado enquanto se faz o processo, quer para arrancar dele a confissão do crime, quer para esclarecer as contradições em que caiu, quer para descobrir os cúmplices ou outros crimes de que não é acusado, mas do qual poderia ser culpado, quer enfim porque sofistas incompreensíveis pretenderam que a tortura purgava a infâmia.

Cesare Beccaria
Um homem não pode ser considerado culpado antes da sentença do juiz; e a sociedade só lhe pode retirar a proteção pública depois que ele se convenceu de ter violado as condições com as quais estivera de acordo. O direito da força não pode, pois, autorizar um juiz a infligir uma pena a um cidadão quando ainda se duvida se ele é inocente ou culpado.

Eis uma proposição bem simples: ou o delito é certo, ou é incerto. Se é certo, só deve ser punido com a pena fixada pela lei, e a tortura é inútil, pois já não se tem necessidade das confissões do acusado. Se o delito é incerto, não é hediondo atormentar um inocente? Com efeito, perante as leis, é inocente aquele cujo delito não se provou.

Qual o fim político dos castigos? o terror que imprimem nos corações inclinados ao crime.

Mas, que se deve pensar das torturas, esses suplícios secretos que a tirania emprega na obscuridade das prisões e que se reservam tanto ao inocente como ao culpado?
Importa que nenhum delito conhecido fique impune; mas, nem sempre é útil descobrir o autor de um delito encoberto nas trevas da incerteza.

Um crime já cometido, para o qual já não há remédio, só pode ser punido pela sociedade política para impedir que os outros homens cometam outros semelhantes pela esperança da impunidade.

Se é verdade que a maioria dos homens respeita as leis pelo temor ou pela virtude, se é provável que um cidadão prefira segui-las a violá-las, o juiz que ordena a tortura expõe-se constantemente a atormentar inocentes.

Direi ainda que é monstruoso e absurdo exigir que um homem seja acusador de si mesmo, e procurar fazer nascer a verdade pelos tormentos, como se essa verdade residisse nos músculos e nas fibras do infeliz! A lei que autoriza a tortura é uma lei que diz: “Homens, resisti à dor. A natureza vos deu um amor invencível ao vosso ser, e o direito inalienável de vos defenderdes; mas, eu quero criar em vós um sentimento inteiramente contrário; quero inspirar-vos um ódio de vós mesmos; ordeno-vos que vos tomeis vossos próprios acusadores e digais enfim a verdade ao meio das torturas que vos quebrarão os ossos e vos dilaceração os músculos... ”

Esse meio infame de descobrir a verdade é um monumento da bárbara legislação dos nossos antepassados, que honravam com o nome de julgamentos de Deus as provas de fogo, as da água fervendo e a sorte incerta dos combates. Como se os elos dessa corrente eterna, cuja origem está no seio da Divindade, pudessem desunir-se ou romper-se a cada instante, ao sabor dos caprichos e das frívolas instituições dos homens!
[...]

A infâmia não é um sentimento sujeito às leis ou regulado pela razão. É obra exclusiva da opinião. Ora, como a tortura torna infame aquele que a sofre, é absurdo que se queira lavar desse modo a infâmia com a própria infâmia.

Não é difícil remontar a origem dessa lei estranha, porque os absurdos adotados por uma nação inteira se apoiam sempre em outras idéias estabelecidas e respeitadas nessa mesma nação. 

O uso de purgar a infâmia pela tortura parece ter sua fonte nas práticas da religião, que tanta influência exerce sobre o espírito dos homens de todos os países e de todos os tempos. 

A fé nos ensina que as nódoas contraídas pela fraqueza humana, quando não mereceram a cólera eterna do Ser supremo, são purificadas em outro mundo por um fogo incompreensível. 

Ora, a infâmia é uma nódoa civil; e, uma vez que a dor e o fogo do purgatório apagam as manchas espirituais, porque os tormentos da questão não tirariam a nódoa civil da infâmia?

Creio que se pode dar uma origem mais ou menos semelhante ao uso que observam certos tribunais de exigir as confissões do culpado como essenciais para sua condenação. Tal uso parece tirado do misterioso tribunal da penitência, no qual a confissão dos pecados é parte necessária dos sacramentos.”

(Beccaria, Cesare, Dos Delitos e das Penas, capítulo XII – da questão da tortura)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

COLEGUINHAS ALCAGUETES


O programa Dossiê Globonews, do jornalista Geneton Moraes Neto, levou ao ar uma reveladora entrevista de Paulo Egídio Martins, ex-governador biônico de São Paulo (1975-1979). Na entrevista, o ex-governador revela bastidores da luta pelo poder entre facções militares da ditadura que levou ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do II Exército em 25 de outubro de 1975. Egídio diz que está disposto a depor na Comissão da Verdade. Este trecho da entrevista me pareceu revelador:   

Geneton Moraes Neto – O senhor fez uma reunião com o então secretário de  Cultura, José Mindlin; com o coronel Erasmo Dias, secretário de segurança; com o diretor do DOPS, Romeu Tuma e com o representante do SNI, coronel Paiva, para discutir a nomeação do jornalista Vladimir Herzog para a TV Cultura. Qual foi o resultado da reunião?

Paulo Egídio Martins, ex-governador biônico de São Paulo
Paulo Egydio Martins – “Quem me trouxe o problema foi o secretário de Cultura, meu amigo José Mindlin, que disse: ‘Estou recebendo acusações de ter escolhido, com muitas dificuldades, um responsável pelo Jornal da Cultura. E esse indivíduo que escolhi agora está sendo acusado – por uma imprensa marrom – de ser comunista’. Eu não tinha a menor idéia, cá entre nós. Se a Globo tinha cinqüenta por cento de audiência, o Jornal da Cultura deveria ter zero vírgula zero um de audiência. Quem era o diretor de jornal da TV Cultura era algo que não estava na minha cabeça –  de jeito nenhum. Se era comunista, se não era comunista….Virei para Mindlin: ‘O problema não é meu. É seu. Você resolve como quiser’. E Mindlin: ‘Isso tem me causado incômodo. Preciso que você verifique se procede alguma coisa ou não’.  Numa reunião, deixei instruções específicas : eu queria ter  informações do Serviço Secreto do Exército , Marinha e Aeronáutica e do SNI sobre se alguma coisa constava sobre aquele diretor de jornal da TV Cultura – de quem eu nunca ouvido o nome antes – , chamado Vladimir Herzog. Passaram-se dez, quinze dias. Houve outra reunião, em que as mesmas pessoas se reportaram a mim: ‘Nós levantamos tudo. Nada consta, senhor governador’. Eu disse: ‘Mindlin, veja a resposta: se nada consta, você fica livre para decidir o que quiser. Já cumprimos nossa obrigação de verificar se procedia uma acusação ou não. Ficou provado que não procede. Você, agora, aja como quiser agir. Quer manter, mantenha. Não quer manter, não mantém. Após esse incidente, houve a determinação se ele comparecer ao DOI-CODI, onde acabou assassinado’”.

Bem, o que chama a atenção nessa revelação tardia de Paulo Egídio Martins é que quem alertou a repressão sobre a militância de Herzog no PCB não foram os serviços de inteligência, mas jornalistas dedo-duros. Havia um crápula notório, de nome Cláudio Marques, diretor do Diário Comércio e Indústria e colunista nos jornais dominicais Shopping News e City News. Além disso, ele ocupava 10 miutos diários na TV Bandeirantes de São Paulo, patrocinados pela Construtora Adolpho Lindenberg. O dono dessa construtora era Adolpho Lindenberg, que também era diretor da TFP (Tradição, Família e Propriedade), organização católica ultramontana que combatia os setores progressistas da Igreja e via comunistas por todo lado.         

Em 1975, Marques usou sua coluna várias vezes para delatar colegas jornalistas, principalmente Vladimir Herzog. Uma delas:

O jornalista Vladimir Herzog
“A TV Educativa continua uma nau sem rumo. Repercutindo – pessimamente – o documentário exibido pelo Canal 2, fazendo apologia do Vietcong. Eu acho que o pessoal do PC da TV Cultura pensa que isso virou um fio.” (Shopping News, 7/8/75).

O problema é que não era apenas a “mídia marrom” que dedurava. Outro jornalista que aderiu à campanha de delação iniciada por Cláudio Marques era um medalhão do Jornal da Tarde e do Estadão, Lenildo Tabosa Pessoa.

No JT de 23/9/75 ele escreveu:
“A infiltração da esquerda contestatória no sistema e na democracia em vários escalões só não vê quem é conivente e burro. O caso da TV VietCultura (uma referência à TV Cultura) extrapolou. E muito...”
(Lenildo Tabosa Pessoa, Uma Questão de Horário, JT, 23/9/75).

A adesão dos jornalões foi fundamental para o golpe de 1964 e para a “legitimação” ideológica da ditadura perante amplos setores da classe média. E o “mau caratismo” de alguns coleguinhas dedo-duros ajudou a repressão a prender, torturar e matar muitos que se opunham ao regime.

A Comissão da Verdade vai ter muito trabalho.



terça-feira, 5 de junho de 2012

RFK: UMA TRAJETÓRIA INSÓLITA


Em tempos de escassez de liberais – no sentido americano do termo, isto é, social-democrata – nos EUA, vale a pena lembrar a trajetória de Robert Francis Kennedy, o irmão mais novo de John Fitzgerald Kennedy, assassinado em 6 de junho de 1968. Foi uma trajetória insólita, ainda mais para um americano. Fiel às posições anticomunistas do pai, “Bobby”, como era conhecido, começou sua carreira política assessorando Joseph McCarthy, senador de extrema-direita que presidia o famigerado Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso. Bobby foi um dos mais dedicados auxiliares do senador que caçava bruxas por todos os lados. Como conselheiro do comitê que investigava as atividades criminosas de sindicatos, Bobby peitou o presidente do sindicado dos caminhoneiros (Teamsters), o mafioso Jimmy Hoffa. Em 1961, quando foi nomeado Procurador Geral (equivalente a ministro da Justiça) pelo presidente John Kennedy, Bobby ainda era marcado por uma postura fundamentalmente conservadora.

Em termos políticos, aliás, John Kennedy era tão obcecado pelo anticomunismo quanto Eisenhower ou Nixon. O presidente democrata não só aprovou operações secretas contra Cuba, como a invasão da Baía dos Porcos em 1961, como iniciou a escalada das tropas americanas no Vietnã e a corrida nuclear - apesar das bobagens em contrário ditas no filme JKF, de Oliver Stone. John e Bobby também aprovaram diversas ações contra Cuba, como a Operação Mongoose, destinada a provocar a derrubada do regime castrista.

Mas Bobby Kennedy fez a virada política decisiva do clã. E esta se deu por causa do pastor negro Martin Luther King, líder da luta pelos direitos civis. Bobby, que inicialmente mandara o FBI espionar King por suspeitar que seu movimento estava infiltrado por comunistas, passou a defendê-lo na luta contra os racistas do sul dos Estados Unidos. O procurador se envolveu a tal ponto que ajudou o governo a preparar a Civil Rights Act (Lei dos Direitos Civis), que, entre outras coisas, acabava com a discriminação racial que perdurava no sul desde a Guerra Civil. Muito criticada no Congresso, a lei foi aprovada em 1964, sob o impacto do assassinato de John Kennedy.

Eleito senador por Nova York em 1964, Bobby mergulhou na campanha pelos direitos civis e na defesa dos marginalizados, principalmente negros e pobres das grandes cidades. Fez críticas duras ao apartheid (regime de supremacia branca então vigente na África do Sul), coisa que poucos políticos, à época, tinham coragem. O senador também se tornou um crítico ácido da Guerra do Vietnã, indispondo-se cada vez mais com o presidente Lyndon Johnson. Naquele ano de 1968, lançou-se pré-candidato à Casa Branca pelo Partido Democrata, conquistando o apoio de parte da juventude que se rebelava contra o establishment. Foi assassinado no Hotel Ambassador, em Los Angeles, quando comemorava a vitória nas prévias da Califórnia. Seu irmão caçula, o senador Edward (Teddy) Kennedy, foi o mais "esquerdista" dos Kennedys, tornando-se o principal crítico da ajuda militar americana a ditadores como Pinochet. Depois dele, os democratas foram cada vez mais para o centro do espectro político.

MONSTRUOSA BANALIDADE


Eichmann em Jerusalém
Em 31 de maio fez 50 anos que foi enforcado em Israel o nazista Adolf Eichmann, principal operador do extermínio dos judeus em campos da Europa do Leste. Capturado em Buenos Aires por um comando argentino em 1960, Eichmann foi julgado em Jerusalém, condenado e executado. A filósofa judia de origem alemã Hannah Arendt assistiu ao processo e fez reportagens para o New Yorker, depois transformados em livro (Eichmann em Jerusalém).

Suas observações críticas incomodaram o establishment israelense e judaico, mas forneceram elementos essenciais ao debate sobre a natureza do nazismo. As reflexões de Arendt sobre a pessoa de Eichmann e sobre o Holocausto são perturbadoras. Em Eichmann em Jerusalém ela afasta-se do conceito de “mal radical” – elaborado em As Origens do Totalitarismo –, e esboça outro bem diferente, o da “banalidade do mal”, pelo qual crimes hediondos podem ser cometidos por burocratas obedientes. Para Arendt, Eichmann não era sádico nem demoníaco, antes um diligente cumpridor dos deveres e das leis – uma pessoa “normal”, em suma. “No Terceiro Reich, o mal tinha perdido aquela característica que o torna reconhecível para a maior parte das pessoas – a característica de ser uma tentação”.

Trechos de Eichmann em Jerusalém:

“De uma vida monótona, sem significação e conseqüência, o vento o soprara para as páginas da História, da forma como ele a entendia, isto é, para um movimento que continuava sempre a se desenvolver, e no qual alguém como ele podia começar do nada e ainda assim fazer carreira."
A filósofa Hannah Arendt

"[…] Não entrou no Partido por convicção nem jamais se deixou convencer por ele [...] foi como ser engolido pelo Partido contra todas as expectativas e sem decisão prévia. Aconteceu muito depressa e repentinamente. Ele jamais conheceu o programa do Partido [...] Kaltenbrunner disse para ele: Por que não se filia à SS: E ele respondeu: Por que não?”

“Eichmann era um homem que não parava para refletir. Ele não tinha perplexidades e nem  perguntas, apenas atuava, obedecia. Seu desejo [era] de agir corretamente, de ser um funcionário eficiente, de ser aceito e reconhecido dentro da hierarquia.”

“Sem dúvida, os juízes tiveram razão quando disseram ao acusado que tudo o que dissera era 'conversa vazia' – só que eles pensaram que o vazio era fingido, e que o acusado queria encobrir outros pensamentos, que embora hediondos, não seriam vazios. Essa idéia parece ter sido refutada pela incrível coerência com que Eichmann, apesar de sua má memória, repetia palavra por palavra as mesmas frases feitas e clichês semi-inventados (quando conseguia fazer uma frase própria, e a repetia até transformá-la em clichê) toda vez que se referia a um incidente ou acontecimento que achava importante." 

O Obersturmbannführer Eichmann
(…) o que ele dizia era sempre a mesma coisa, expressa com as mesmas palavras. Quanto mais se ouvia Eichmann, mais óbvio ficava que sua incapacidade de falar estava intimamente relacionada com sua incapacidade de pensar…”

“O fator mais potente no apaziguamento da consciência de Eichmann foi não ter conseguido encontrar ninguém, absolutamente ninguém, que fosse de fato contra a Solução Final.”

“Seus atos eram de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetia insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei”. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

SEIS DÉCADAS VOS CONTEMPLAM



A coroação de Elizabeth II
Quando Elizabeth II sucedeu ao seu pai George VI como monarca do Reino Unido, em 1952, vivíamos em pleno clima da Guerra Fria, com os expurgos stalinistas campeando no Leste Europeu e o macarthismo perseguindo intelectuais nos EUA. Enquanto Gene Kelly dançava Singing in the Rain, revistas populares diziam que os discos voadores eram artefatos construídos pela Rússia comunista. O veterano Winston Churchill era primeiro-ministro britânico pela segunda vez, enquanto que o general Dwight Eisenhower ainda não tinha sido eleito presidente dos Estados Unidos (o democrata Harry Truman ocupava a Casa Branca). 

Getúlio Vargas, desta fez como presidente eleito democraticamente, enfrentava as oligarquias e a direita militar em meio à campanha O Petróleo é Nosso. Enquanto Gracililano Ramos escrevia Memórias do Cárcere, Jorge Amado preparava Os Subterrâneos da Liberdade, um libelo stalinista ao PCB. O papa Pio XII alinhava a Igreja Católica no combate ao comunismo enquanto que, no Brasil, era fundada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Josef Stálin, um ano antes de morrer, enxergava conspiração por todos os lados.

Evita Perón
Na Argentina o general Juan Domingo Perón governava enquanto sua mulher, Evita, a líder dos “descamisados”, agonizava (ela morreria em 26 de julho); Fulgêncio Batista tomava o poder em Cuba; os Estados Unidos detonavam a primeira bomba de Hidrogênio; a Guerra da Coréia vivia um impasse, com americanos e sul-coreanos combatendo norte-coreanos e chineses. Havia uma Indochina e ela era francesa, assim como a Argélia. Também havia duas Alemanhas.

O processo contra Rudolf Slánský (foto) 
Em Paris, Camus e Sartre se estranhavam por causa da publicação, pelo primeiro, de O Homem Revoltado, uma crítica aos totalitarismos – Sartre acabara de ingressar no Partido Comunista. Em Praga o ex-secretário geral do PC tchecoslovaco, Rudolf Slánský, e 12 outros líderes do partido eram executados num expurgo antissemita. Enquanto isso, em Washington, o senador Joseph McCarthy continuava a "caça às bruxas" contra intelectuais e artistas progressistas. O avião a jato comercial era novidade e a televisão engatinhava no Brasil. Enquanto Bill Halley and His Comets começavam a fazer sucesso com o rock’n roll, novas modalidades de jazz (cool e bebop) expressavam o mal-estar com a civilização feita à imagem e semelhança do sonho americano.  

EM BUSCA DA "MASSA CHEIROSA"

A burguesia paulista é oligárquica e elitista numa sociedade construída pelo trabalho de negros, nordestinos e imigrantes; apoiou o golpe militar, a ditadura e o Doi-CODI por causa do "milagre econômico"; acha o Serra o máximo e o Lula um analfabeto corrputo e ambicioso, embora seus modelos de líderes tenham sido bandoleiros  como Domingos Jorge Velho, Adhemar de Barros, Jânio Quadros e Paulo Maluf; viaja a Paris, Madri e Roma, mas se esbalda mesmo em Las Vegas, Miami e Orlando; fica indignada porque suas antigas empregadas estão virando cabeleireiras e enchendo os aeroportos; aplaude a violência da Rota contra bandidos pobres mas convive com gângsters de colarinho branco. E essa mentalidade fascista foi inteiramente assimilada pela classe média alta. Aqui, uma radiografia da burguesia paulista pelo prof. Emir Sader:       


O dedo de Lula


Do Blog do Emir Sader
A sociedade brasileira teve sempre a discriminação como um dos seus pilares. A escravidão, que desqualificava, ao mesmo tempo, os negros e o trabalho – atividade de uma raça considerada inferior – foi constitutiva do Brasil, como economia, como estratificação social e como ideologia.


Uma sociedade que nunca foi majoritariamente branca, teve sempre como ideologia dominante a da elite branca.  Sempre os brancos presidiram o país, ocuparam os cargos mais importantes nas FFAA, nos bancos, nos ministérios, na direção das grandes empresas, na mídia, na direção dos clubes – em todos os lugares em que se concentra o poder na sociedade.
Retirantes, de Cândido Portinari
A elite paulista representa melhor do que qualquer outro setor, esse ranço racista. Nunca assimilaram a Revolução de 30, menos ainda o governo do Getúlio. Foram derrotados sistematicamente por Getúlio e pelos candidatos que ele apoiou. Atribuíam essa derrota aos “marmiteiros”- expressão depreciativa que a direita tinha para os trabalhadores, uma forma explícita de preconceito de classe.


A ideologia separatista de 1932 – que considerava São Paulo “a locomotiva da nação”, o setor dinâmico e trabalhador, que arrastava os vagões preguiçosos e atrasados dos outros estados – nunca deixou de ser o sentimento dominante da elite paulista em relação ao resto do Brasil. Os trabalhadores imigrantes, que construíram a riqueza de Sao Paulo, eram todos “baianos” ou “cabeças chatas”, trabalhadores que sobreviviam morando nas construções – como o personagem que comia gilete, da música do Vinicius e do Carlos Lira, cantada pelo Ari Toledo, com o sugestivo nome de pau-de-arara, outra denominação para os imigrantes nordestinos em Sao Paulo.


A elite paulista foi protagonista essencial nas marchas das senhoras com a igreja e a mídia, que prepararam o clima para o golpe militar e o apoiaram, incluindo o mesmo tipo de campanha de 1932, com doações de joias e outros bens para a “salvação do Brasil”- de que os militares da ditadura eram os agentes salvadores.
Terminada a ditadura, tiveram que conviver com o Lula como líder popular e o Partido dos Trabalhadores, para o qual canalizaram seu ódio de classe e seu racismo. Lula é o personagem preferencial desses sentimentos, porque sintetiza os aspectos que a elite paulista mais detesta: nordestino, não branco, operário, esquerdista, líder popular.


Getúlio, o vilão; Jorge Velho, o herói
Não bastasse sua imagem de nordestino, de trabalhador, sua linguagem, seu caráter, está sua mão: Lula perdeu um dedo não em um jet-sky, mas na máquina, como operário metalúrgico, em um dos tantos acidentes de trabalho cotidianos, produto da super exploração dos trabalhadores. O dedo de uma mão de operário, acostumado a produzir, a trabalhar na máquina, a viver do seu próprio trabalho, a lutar, a resistir, a organizar os trabalhadores, a batalhar por seus interesses. Está inscrito no corpo do Lula, nos seus gestos, nas suas mãos, sua origem de classe. É insuportável para o racismo da elite paulista.


Essa elite racista teve que conviver com o sucesso dos governos Lula, depois do fracasso do seu queridinho – FHC, que saiu enxotado da presidência – e da sua sucessora, a Dilma. Tem que conviver com a ascensão social dos trabalhadores, dos nordestinos, dos não brancos, da vitória da esquerda, do PT, do Lula, do povo.
O ódio a Lula é um ódio de classe, vem do profundo da burguesia paulista e de setores de classe média que assumem os valores dessa burguesia. O anti-petismo é expressão disso. Os tucanos são sua representação política.


Da discriminação, do racismo, do pânico diante das ascensão das classes populares, do seu desalojo da direção do Estado, que sempre tinham exercido sem contrapontos. Os Cansei, a mídia paulista, os moradores dos Jardins, os adeptos do FHC, do Serra, do Gilmar, dos otavinhos – derrotados, desesperados, racistas, decadentes.

AS LIGAÇÕES PERIGOSAS

Esse tipo de artigo – que desvenda as relações perigosas de um grande jornal com o poder – você jamais lerá num jornalão ou outro veículo da grande mídia tupiniquim e latino-americana. Para ela, qualquer discussão sobre democratização dos meios de comunicação é sinônimo de tentativa de cercear a liberdade de imprensa. Aliás, os barões da mídia e seus miquinhos amestrados adoram misturar conceitos, confundindo liberdade de expressão, liberdade de informação com liberdade de imprensa – coisa que os liberais clássicos jamais fizeram. 

O que há por trás de um jornal chamado Clarín

Por Eric Nepomuceno, na Carta Maior

“Até hoje lembro os rostos de meus torturadores. Porém, nenhum desses rostos, nenhum desses olhares, me persegue e amedronta mais em meus pesadelos que o olhar de Héctor Magnetto me dizendo que ou assinava a venda de Papel Prensa, ou eu e minha filha seríamos mortas”, relatou Lidia Papaleo, viúva de David Graiver, ex-proprietário de Papel Prensa, diante de um tribunal. Héctor Magnetto era e continua sendo o principal executivo do grupo Clarín.

Lídia Papaleo
Na América Latina, não é nada incomum – aliás, muito pelo contrário – que, durante regimes de exceção, que é como os delicados de vocabulário e os débeis de caráter chamam as ditaduras, grandes conglomerados de comunicações tenham surgido, se consolidado e se transformado em impérios. 

É curioso reparar como a forma em que esses grupos e organizações foram criados corresponde a uma clara divisão do mercado, cuidando sempre de reservar espaço para que atuem, na prática, como monopólios. Assim, passam a impor suas vontades e suas visões do mundo, que no fundo são o eco exato do que dita a voz do poder econômico. Dizem não depender do governo, o que, a propósito, é mentira. Nada dizem de sua dependência vital, direta, do poder econômico, sua verdadeira verdade. 

Observar essa espécie de fenômeno comum às nossas comarcas mostra a clara existência de um modelo, implantado aqui e acolá com leves variações, mas sempre ao redor do mesmo mecanismo.

Por trás da furiosa oposição que o grupo Clarín faz ao governo de Cristina Fernández de Kirchner existe uma história linear, típica desse mecanismo. 

O grupo apoiou sem pejos uma ditadura espúria, com todos os ingredientes comuns às nossas comarcas (favorecimento do poder econômico à custa do atropelo dos direitos civis mais elementares, sedução e cumplicidade de parcelas das classes médias, omissão diante da atuação brutal dos agentes encarregados de impor o terrorismo de Estado, através de prisões ilegais, torturas, assassinatos e desaparecimentos de opositores). Nesse período, se fortaleceu enormemente. 

Assim, o retorno da democracia encontrou o grupo consolidado, e oscilando levemente ao sabor dos novos ares. Soube ser crítico na medida exata – medida limite – durante todos os governos seguintes, observando sempre que não fossem tocados de forma direta seus interesses (ou seja, os do poder econômico preponderante, o interno e o externo) e que as manchas do passado não fossem trazidas à luz do sol. 

Até que tropeçou com um governo de outra tintura, que resolveu correr o risco de enfrentar os tais interesses e atiçar o passado. A crescente polarização que a Argentina vive nos últimos anos não faz mais que fortalecer esse embate. 

O espaço para a crítica clara e frontal – e o governo de Cristina Kirchner merece e deve ser criticado em copiosos aspectos – perdeu lugar para a confrontação aberta, sem regras e princípios. A manipulação e a distorção de fatos e informações passaram a ser o pão de cada dia. 

Acontece que, muitas vezes, não basta com ocultar ou sabotar informação. A vida tem seus próprios caminhos, e esses caminhos frequentemente escapam do controle dos que se acreditam capazes de controlar a própria realidade.

Agora mesmo tornou a saltar ao sol uma das fontes de tamanha fúria, um dos grandes nós desta questão: o passado do Clarín. Trata-se de uma série de revelações que o jornal já não consegue mais tapar.

Dia desses, e uma vez mais, Lidia Papaleo, viúva de David Graiver, falou. Agora, diante de um tribunal. E tornou a repetir, com mais detalhes que antes, o que viveu depois da misteriosa morte do marido no México, em agosto de 1976 (a ditadura de Videla tinha escassos cinco meses de vida), num desastre de avião jamais explicado. 

Agora, e de novo, ela contou, com todas as letras, como foi coagida a vender ao Clarín as ações com que Graiver, um financistas astuto e brilhante, controlava a Papel Prensa, única fornecedora e distribuidora de papel-jornal no país. 

Contou como foi presa depois – depois – de ter fechado o negócio. Os compradores foram o desaparecido jornal ‘La Razón’, o ‘La Nación’, e, levando a maior parte, o ‘Clarín’. 

A certa altura de seu depoimento, Lidia Papaleo contou das sevícias que padeceu. Muitas vezes, depois de vexada, era largada estendida no chão da cela ou da sala de tormento. ‘E então eles vinham e cuspiam e ejaculavam em cima de mim’, contou ela. 

Antes que o juiz interrompesse a sessão para que o público abandonasse o recinto e ela pudesse continuar com seu rosário de horrores, Lidia disse:
Héctor Magnetto: ele também se esquiva na "liberdade de imprensa"
- Até hoje lembro os rostos de meus torturadores. Porém, nenhum desses rostos, nenhum desses olhares, me persegue e amedronta mais em meus pesadelos que o olhar de Héctor Magnetto me dizendo que ou assinava a venda de Papel Prensa, ou eu e minha filha seríamos mortas.

Pois bem: Héctor Magnetto era e continua sendo o principal executivo do grupo Clarín. Foi quem, naquele distante 1976, e antes do sequestro e das torturas de Lidia Papaleo, se reuniu com ela, e foi diante dele que ela capitulou. 

Meses depois, assim que a transação foi sacramentada, Lidia acabou sendo levada para os calabouços do horror. Por quê não a prenderam antes? Por uma questão legal: havia uma lei que passava diretamente às mãos do Estado as propriedades dos subversivos presos. E a ditadura não queria se apoderar da fábrica Papel Prensa: queria compensar os bons serviços prestados ao regime pelos três jornais contemplados. 
O banqueiro David Graiver  
Por quê a prenderam? Por achar que havia mais patrimônio a ser espoliado. E porque era mulher, tinha sido casada com um financista acusado de cuidar do dinheiro dos Montoneros e, enfim, porque prender, violar e vexar era parte da rotina do sistema que compensou o silêncio cúmplice e interessado dos Magnettos da vida. 

Assim começou a fortaleza e o império do grupo Clarín. Depois vieram as concessões de rádio e televisão em cascata, depois veio todo o resto.
Essa a história que há por trás da história. Os mesmos métodos aplicados contra Lidia Papaleo continuam sendo aplicados no dia-a-dia do grupo. 

Nisso, pelo menos, há que se reconhecer uma consistente coerência: os que controlam o grupo Clarín jamais deixaram de ser o que foram. Continuam agindo como agiram, e cuidando, sempre, de jamais se aproximar da perigosa linha que marca o início de um território que desconhecem, chamado dignidade.