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quinta-feira, 17 de maio de 2012

O OVO DA SERPENTE


Este artigo do Mauro Santayana revela as origens do udenismo midiático que norteou a oposição ao segundo governo de Getúlio Vargas, à JK, a Jango e o apoio ao golpe militar, à ditadura e, depois, a Sarney, Collor e FHC, bem como a oposição sistemática aos governos Lula e Dilma. E depois eles ainda se acham supermoderninhos...   

O golpe da informação
Historiador a serviço da CIA revela como ideias e recursos dos Estados Unidos seduziram a imprensa brasileira nos anos 1950 e semearam o golpe

Por Mauro Santayana, na Revista do Brasil
Há 48 anos, quando o Brasil vislumbrava reformas constitucionais necessárias a seu desenvolvimento, os Estados Unidos financiaram e orientaram o golpe militar. E interromperam uma vez mais um projeto nacional proposto em 1930 por Vargas. Os acadêmicos podem construir teses sofisticadas sobre a superioridade dos países nórdicos para explicar o desenvolvimento da Europa e dos norte-americanos e as dificuldades dos demais povos em acompanhá-los, mas a razão é outra. Com superioridade bélica, desde sempre, impuseram-se como conquistadores do espaço e saqueadores dos bens alheios, os quais lhes permitiram o grande desenvolvimento científico e militar nos séculos 19 e 20 e sua supremacia sobre o resto do mundo.
Podemos ver a origem do golpe de 1964 mais próxima uma década antes. Em 1953, diante da resistência de Getúlio, que quis limitar as remessas de lucros e criou a Petrobras e a Eletrobrás para nos dar autonomia energética, a ação “diplomática” dos Estados Unidos cercou o governo. Com o aliciamento de alguns jornalistas e dinheiro vivo distribuído aos grandes barões da imprensa da época, construiu a crise política interna. Entre a lei que criou a Petrobras e a morte de Getúlio, em 24 de agosto de 1954, o Brasil viveu período conturbado igual aos três anos entre a renúncia de Jânio e 1964.
A propósito do projeto de Getúlio, seria importante a tradução no Brasil de um livro no qual essa operação é narrada em detalhes: The Americanization of Brazil – A Study of US Cold War Diplomacy in The Third World, 1945-1954. Um estudo sobre a diplomacia americana para o Terceiro Mundo em tempos de Guerra Fria. O autor, Gerald K. Haines, é identificado pela editora SR Books como historiador sênior a serviço da CIA, o que lhe confere toda a credibilidade.
Haines mostra como os donos dos grandes jornais da época foram “convencidos” a combater o monopólio estatal, até mesmo com textos produzidos na própria embaixada, no Rio. E lembra a visita ao Brasil do secretário de Estado Edward Miller, com a missão de pressionar o governo a abrir a exploração do petróleo às empresas norte-americanas. O presidente da Standard Oil nos Estados Unidos, Eugene Holman, orientou Miller a nos vender a ideia de que só assim o Brasil se desenvolveria. Mas o povo foi às ruas e obrigou o Congresso a impor o monopólio.
A domesticação dos meios de informação do Brasil começara ainda no governo Dutra. Os americanos usaram as excelentes relações entre os intelectuais e jornalistas e o embaixador Jefferson Caffery, nos meses em que o Brasil decidira por aliar-se aos Estados Unidos na luta contra o nazifascismo, em benefício de sua expansão neocolonialista.
A criação da Petrobras levou os ianques ao paroxismo contra Vargas, e os meios de comunicação acompanhavam a histeria americana. A estatal era vista como empresa feita com o amadorismo irresponsável dos ignorantes.
A morte de Vargas não esmoreceu os grupos que tentaram, em 11 de novembro do ano seguinte, impedir a posse de Juscelino. O golpe de Estado foi frustrado pela ação rápida do general Teixeira Lott. Em 1964, a desorganização das forças populares favoreceu a vitória dos norte-americanos, que voltaram a domesticar a imprensa e o Parlamento e manipularam os chefes militares brasileiros.
Os êxitos do governo atual e a nova arregimentação antinacional contra a Petrobras – agora com o pré-sal – devem mobilizar os trabalhadores que não estão dispostos a viver o que já conhecemos. Sabem que a situação internacional tende para a direita, e não podemos repetir apenas que o povo esmagará os golpistas. É necessário não só exercer a vigilância, mas agir, de forma organizada e já, para promover a unidade nacional em defesa do desenvolvimento de nosso país.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A RESISTÊNCIA, LÁ E AQUI


“A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”, dizia o velho Marx. Acuados pela inevitabilidade da instalação da Comissão da Verdade, os torturadores, a direita e seus aliados insistem na tese de “investigar os dois lados”. Aqui, duas contribuições a meu ver bastante importantes para essa discussão. 
  
Investigar “outro lado” na ditadura: seria igualar nazistas à Resistência Francesa

RODRIGO VIANNA
Raymond Aubrac e sua mulher Lucie
Raymond Aubrac morreu no mês passado. Tinha 97 anos, viúvo. Na França, era tratado como herói. Lutou de armas na mão contra os nazistas e contra os franceses colaboracionistas, que aceitaram manter um regime fantoche em apoio a Hitler.
Aubrac e a mulher, morta há uma década, foram líderes da Resistência Francesa. Se morassem no Brasil, parte dos comentaristas e colunistas da direita brazuca certamente diriam que eles tinham sido “terroristas”. Sim, Aubrac lançou bombas, deu tiros. Foi preso, escapou milagrosamente dos nazistas. Tinha inimigos. E lutou. E não deixou de lutar. Depois da Guerra, tornou-se amigo de Ho Chi Minh. E na última campanha eleitoral, declarou apoio a Hollande, do Partido Socialista. Ele tinha um lado.

Um homem precisa ser “neutro” pra lutar por Justiça? Tolice. Mais que tolice. Argumento falacioso a proteger criminosos de guerra. Seja na Europa ou na América do Sul. 

Aqui, às vezes cola. Lá, não cola…
No Brasil, Aubrac e a mulher talvez fossem chamados de “petralhas”. Mais que isso. Talvez aparecesse um ex-ministro tucano dizendo que “os dois lados” precisam ser investigados. Sim! Não é justo julgar (ou relatar os crimes, que seja) apenas dos pobres nazistas. E as “vítimas inocentes” do “outro lado”? Essa Resistência Francesa era “criminosa”…

Aubrac seria execrado, ofendido. Pela internet, circulariam e-mails idiotas chamando o sujeito de “terrorista”, talvez achassem uma foto dele com  fuzil pra dizer: olha só, o “outro lado” era adepto da força bruta, não era bonzinho, também precisa ser investigado…

[...] para a direita brasileira (e os apavorados que se acham de esquerda e têm medo de enfrentá-la) seria preciso enviar a Resistência Francesa a julgamento! Afinal, a Resistência pegou em armas, cometeu “crimes”.

No Brasil, por hora, nem se fala em julgamento. Mas numa simples Comissão a relatar os crimes cometidos por agentes do Estado. Crimes contra a Humanidade. Não se fala em execrar soldados, sargentos ou oficiais que, eventualmente, tenham matado guerrilheiros em combate. Da mesma forma, nunca ninguém se atreveu a “condenar” soldados alemães que lutaram nas trincheiras ou nas ruas.

O que se pretende é relatar crimes de tortura, desaparecimento, assassinatos cometidos a sangue frio… Ah, mas estávamos numa “guerra”, dizem militares brasileiros (secundados por civis perversos, e até por gente de boa fé mas desinformada)  que atacam a Comissão. Há controvérsias se aquilo que ocorreu no Brasil foi uma “guerra”…
Aqui, eles seriam criminosos e terroristas...

De todo jeito, na Europa houve “guerra”. Pra valer. Nem por isso, crimes contra a Humanidade deixaram de ser julgados. Nazistas e seus colaboradores que torturaram, assassinaram e incineraram gente indefesa foram a julgamento. A Resistência Francesa não foi a julgamento.
Nem irá.







A falácia dos dois lados

PAULO MOREIRA LEITE
Leio na Folha que, conforme José Carlos Dias, um dos mais conhecidos integrantes da Comissão da Verdade formada para investigar crimes de direitos humanos, ela deverá focalizar as responsabilidades dos “dois lados”.
José Carlos Dias foi advogado de presos políticos durante a ditadura. Também foi ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Este ponto de vista é preocupante.

A Comissão não foi criada como um seminário genérico sobre desrespeito aos direitos humanos – onde caberia avaliar erros e desvios de conduta de qualquer pessoa, autoridade ou não, de direita ou de esquerda, em qualquer  tempo e espaço do território brasileiro. Caberia, nessa situação, discutir o papel dos “dois lados”. Ou três “lados,” quatro, ou cinco…

Criou-se a Comissão da Verdade com uma finalidade específica, que é examinar os crimes da ditadura,  porque esta foi a lacuna deixada pela história. Estamos falando de crimes cometidos por representantes do Estado, em nome dele, e não por qualquer pessoa.

E queremos a verdade – não uma guerra de versões nem uma história declaratória.

Ou será que vamos julgar o “lado bom” e o “lado ruim” da ditadura, ou lado “bom” e o lado “ruim” de quem lhe fazia oposição?

A ideia é mostrar que “os dois lados” cometeram erros e devem ser igualmente perdoados?

Ninguém percebeu que toda ditadura é, por definição, um regime de “um lado só”?

Os atos – violentos ou não, legítimos ou não — cometidos pelos adversários do regime militar foram apurados, avaliados e punidos em seu devido tempo, como demonstram as 7.367 denuncias apresentadas à Justiça Militar entre 1964 e 1979.

No esforço para punir brasileiros que não aceitavam submeter-se a um regime de força, criado a partir de um golpe que derrubou um governo constitucional, o Estado brasileiro cometeu crimes inaceitáveis e vergonhosos. Executou pessoas indefesas, não informou seu paradeiro às famílias nem deu esclarecimentos fidedignos sobre os acontecimentos envolvidos em suas mortes. São estes fatos que a Comissão deve apurar.

O esforço para olhar os “dois lados” do período só faria sentido se naquele período estivéssemos diante de um Poder legítimo, que teria cometido excessos e abusos em nome de seu direito de exercer a violência para garantir o respeito à lei e à ordem.

Mas não é disso que se trata. Estamos falando do massacre da Lapa, ocorrido em 1976, quando três militantes foram executados sem que pudessem representar perigo algum, ameaça alguma. Ou sobre Rubens Paiva, empresário que compareceu em seu carro para prestar um depoimento  ao Exército e nunca mais foi visto.

A maioria dos atos de violência cometidos pelos adversários do regime foram julgados e esclarecidos, com emprego de tortura e violência nos interrogatórios, inclusive contra menores, às vezes na presença de crianças.
Quando isso não ocorreu, é porque os acusados não tiveram direito de defesa. Foram executados de modo sumário e covarde em vez de serem levados aos tribunais. Eliminá-los tinha prioridade sobre garantir o respeito à Lei – mesmo a lei do regime militar.

Lamarca: executado
Não por acaso, todo esforço de esclarecer mesmo crimes atribuídos a oposição se volta contra a ditadura e seus responsáveis — mais uma vez, é o regime de um lado só.
Por exemplo: quem gosta de lembrar que o capitão Carlos Lamarca foi um dos responsáveis pelo julgamento e execução do tenente PM Alberto Mendes, no Vale da Ribeira, deveria perguntar a quem perseguiu e fuzilou o próprio Lamarca, faminto e doente, no interior da Bahia, por que não se quis levar um dos chefes da guerrilha ao banco dos réus. Ali Lamarca poderia esclarecer as circunstâncias e motivações daquela decisão trágica.

Marighella: executado
Outro exemplo: quem gostaria de apurar assaltos e atos de violência cometidos pelos Grupos Táticos Armados da ALN poderia conseguir um depoimento dos policiais ainda vivos da equipe do delegado Fleury. Eles poderiam explicar por que se preferiu executar Carlos Marighella numa rua dos Jardins, em São Paulo, em vez de lhe dar uma chance de explicar-se num tribunal civilizado.
Isso aconteceu porque, entre 1964 e 1985 o Brasil foi governado por um regime que usurpou o Estado brasileiro ao impedir que a população escolhesse seus governantes por métodos democráticos.

A longa noite da ditadura foi uma sucessão de atos anti democráticos e ilegais, que tiveram início com um golpe de Estado e prosseguiram em medidas autoritárias contra a Justiça e os direitos do cidadão.
Por isso seus atos não podem ser nivelados à resistência de quem teve disposição e capacidade de sacrifício para enfrentar um regime de força.
Fazer isso implica em embelezar a ditadura, dar-lhe uma estatura moral que ela não possuía e nunca pretendeu possuir, pois governava essencialmente a partir da força bruta.

Jean Moulin 
Guardando todas as diferenças entre os dois casos, alguém acharia razoável que, para se investigar Klaus Barbie, o carrasco nazista de Lyon, se apurasse a violência organizada pela Resistência Francesa de Jean Moulin?
Ou que as investigações sobre o ditador Rafael Vidella, chefe de uma ditadura que matou milhares de argentinos, só pudessem ser iniciadas depois que se esclarecesse o papel de Mário Santucho, um dos líderes da luta armada,  em atos de violência?

terça-feira, 15 de maio de 2012

A COMISSÃO DA VERDADE, O ESCULACHO E A MÍDIA


A dois dias da instalação da Comissão da Verdade, o Movimento Levante Popular da Juventude promoveu mais uma rodada de esculacho a torturadores e agentes da repressão da ditadura em vários pontos do país. Foram onze mobilizações ocorridas em 11 estados, incluindo Rio, Bahia e Minas Gerais. Oito agentes foram “esculachados”. Uma das manifestações ocorreu no Guarujá, em frente à casa do tenente-coronel da reserva Maurício Lopes Lima, um dos algozes de Dilma Rousseff no Doi-CODI.
Em Belo Horizonte, o alvo do esculacho foi João Bosco Nacif da Silva, médico-legista da Polícia Civil da ditadura, que teria atestado um laudo médico de suicídio para um prisioneiro torturado em uma delegacia da capital mineira em 1969. Nacif da Silva tentou agredir os manifestantes, o que motivou o encerramento precoce do ato.
O grupo também promoveu manifestação em frente à residência do general da reserva José Antônio Nogueira Belham, denunciado como torturador do militante Rubens Paiva. Belham, que mora na zona sul da capital fluminense, foi o chefe do DOI-CODI do Rio durante a ditadura.
Na capital baiana, quem recebeu o esculacho foi Dalmar Caribé, cabo do Exército acusado de ser um dos responsáveis pelos assassinatos dos militantes Carlos Lamarca e Zequinha Barreto. Em Recife, o desembargador aposentado Aquino de Farias Reis, ex-delegado do DOPS também foi alvo de manifestação.

No mesmo dia, sete militares da reserva que integram o Clube Naval no Rio, liderados pelo almirante Tibério Ferreira, anunciaram que irão se reunir para formar uma “Comissão Paralela da Verdade”. Eles querem agir como uma Shadow Comission para prestar assessoria jurídica aos militares que, eventualmente, prestem depoimento à Comissão. É inacreditável como esses caras fazem de tudo para responsabilizar a instituição Forças Armadas pelos crimes dos facínoras da ditadura...   

Enquanto isso, a Comissão da Verdade parece que já começa a incomodar. Na segunda-feira, a mídia conservadora dizia que a Comissão já nascia com divergências sobre o escopo de seu trabalho. De acordo com a Folha de S, Paulo, o ex-ministro José Carlos Dias disse que a Comissão iria investigar crimes cometidos “pelos dois lados”. Hoje, contudo, a nuvem se dissipou, com vários de seus membros afirmando que a comissão foi criada para descobrir as circunstâncias de violações de direitos humanos cometidos por agentes do Estado. “Nenhuma comissão tem essa bobagem de dois lados”, disse o diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, um dos indicados. “O outro lado (o dos guerrilheiros e presos políticos) já foi suficientemente condenado, assassinado, desaparecido”, concluiu. Em declaração ao jornal O Globo, José Carlos Dias, por sua vez, disse que tinha sido mal interpretado. A declaração sobre os “dois lados” tinha saído na Folha.

O diplomata Paulo Sérgio Pinheiro
O curioso é que o Globo publicou esse desmentido internamente, sob um título “Não tem dois lados, o outro foi assassinado”, enquanto a chamada de capa crava: “Comissão da Verdade já se divide sobre foco”. Ora, não há nem nunca houve nenhuma discussão sobre o foco da Comissão, porque, como lembrou o Paulo Sergio Pinheiro em entrevista ao Estadão de hoje, seu papel está definido na lei que a criou: “investigar as violações de direitos humanos esclarecendo as circunstâncias em que ocorreram, bem como os casos de tortura, morte, desaparecimento forçado, ocultação de cadáver e sua autoria, ainda que no exterior”.           

Teremos uma longa e penosa batalha pela frente...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

LIBERALISMO, DEMOCRACIA E DITADURA DOS MERCADOS


Norberto Bobbio
O filósofo político italiano Norberto Bobbio (1909-2004) dizia que liberalismo e democracia não são conceitos per se interdependentes, como se costuma pensar: um Estado liberal não é necessariamente democrático e um governo democrático não gera, obrigatoriamente, um Estado liberal. Isso porque, ensinava Bobbio, enquanto o ideal fundamental do primeiro é limitar o poder, o do segundo é distribuir o poder. 


Até mesmo o objetivo liberal de um “Estado limitado” tem dois sentidos e duas fases distintas: primeiro, como limitação dos poderes políticos (o Estado de Direito) na luta contra o absolutismo; depois, como redução das funções estatais, principalmente econômicas (o Estado mínimo). Neste último caso, busca-se à renúncia da intervenção do Estado na economia, deixando atuar a “mão invisível” do mercado. É aquilo que Bobbio chama de vertente “liberista” do liberalismo, também conhecido como “neoliberalismo”, cujos papas foram Hayek, Von Mises e Friedman e os executores Margaret Thatcher e Ronald Reagan.


Segundo Bobbio, se foi correta a luta liberal contra o Estado paternalista (seja ele monarquia absolutista, ditadura ou totalitarismo), esta já não o é contra o Estado do bem-estar social (o Welfare State), devido ao fato de que este tipo de Estado – que busca criar empregos e subordinar o capital às necessidades da sociedade – é criação dos governos democráticos e seu desenvolvimento está intimamente relacionado ao desenvolvimento da democracia. O Welfare State foi, ao mesmo tempo, uma resposta ao desafio representado do comunismo e pelo crescimento do movimento operário organizado – socialistas e comunistas – no Ocidente.


Thatcher e Pinochet: eles falavam a mesma língua
Com o colapso do comunismo, contudo, o liberalismo clássico deu lugar ao liberismo, que se concentrou na luta pela economia de mercado e pela liberdade econômica. Com isso, o liberalismo abandonou a doutrina do Estado de Direito para fazer a mera defesa da necessidade do “Estado mínimo”. E, a fim de alcançar este último, o Estado de Direito nem sempre é necessário; veja-se, por exemplo, o apoio dos neoliberais à ditadura de Pinochet no Chile.    


Então, depois de derrotar o Welfare State, com a social-democracia sucumbindo ao canto de sereia neoliberal, os liberistas entraram em choque frontal com a própria democracia. A solução neoliberal para a redução das tensões existentes entre mercado e democracia se dá “cortando as unhas da segunda e deixando o primeiro com todas as garras afiadas”, nas palavras de Bobbio. Chegamos, pois, à era da “ditadura dos mercados”. 


Isso está mais claro hoje na Europa. Na Itália e na Grécia, os “mercados” – leia-se FMI e o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia – impuseram governos “técnicos” para levar adiante pacotes de arrocho fiscal. Oito governos já caíram por causa da crise – tanto “socialistas” como José Luiz Zapatero (Espanha) e José Sócrates (Portugal) quanto conservadores como Nicolas Sarkozy (França). Mas os novos governantes eleitos continuaram insistindo – às vezes até aumentando a dose – na fórmula recessiva de seus antecessores. E agora, na Grécia, os dois grandes partidos que defendem a política de austeridade – Nova Democracia e Pasok – não conseguiram fazer maioria e o país está vivendo um impasse político.


Ninguém foi mais claro do que Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu: “O modelo social europeu está morto e quem tentar reverter a redução dos orçamentos sociais será imediatamente punido pelos mercados. O Pacto Orçamentário Europeu é um enorme avanço, porque graças a ele os Estados perdem um parte de sua soberania nacional”.    


É de se perguntar: para que serve a alternância de poder se não se pode mudar a política econômica? Se “não existe alternativa” ao Consenso de Washington, como martelam os herdeiros de Thatcher/Reagan, para quê se dar ao trabalho de escolher novos dirigentes? Quando os mercados têm sempre razão, a democracia é o empecilho. Nessas circunstâncias, o tal “déficit democrático” diagnosticado nas instâncias políticas da União Europeia hoje se disseminou pelas próprias instituições democráticas europeias.  

Slavoj Zizek: globalização x democracia
Podemos não gostar, mas somos obrigados a pensar na questão colocada pelo pensador Slavoj Zizek: “uma vez que a economia global está fora dos limites das políticas democráticas, qualquer tentativa de aproximá-la da democracia apressará o declínio desta. Então, o que podemos fazer? Engajar-nos no sistema político existente, o qual – conforme disse o próprio Washington Post por meio de sua porta-voz ultra-neoconservadora Anne Applebaum – não pode justamente cumprir essa tarefa”?      

PASQUIM DE EXTREMA DIREITA


Gramsci, "terrorista e assassino", segundo a Veja
A Veja está se superando, se é que isso é possível. Na edição deste fim de semana, tentando escapar das suspeitas de que foi conivente com o esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira, a revista atirou para todo lado e colocou-se na cômoda posição de quem está sendo perseguida por um governo que pretende “controlar a mídia” – na verdade, o tenta se discutir é o oligopólio dos meios de comunicação, não o seu conteúdo.

Nas suas diatribes contra a esquerda, o pasquim de extrema direita dos Civita chegou ao auge da hidrofobia udenista ao classificar o pensador e dirigente comunista italiano Antonio Gramsci (1891-1937) como um “terrorista e assassino” igual a Lênin e a Stálin. Fundador do Partido Comunista Italiano (PCI), Gramsci nunca esteve no poder e passou nove anos nas masmorras de Benito Mussolini, de onde saiu, debilitado, apenas para morrer aos 46 anos. Ah, mas segundo a Veja, Gramsci, por ser comunista, só poderia ser um “assassino de ideias”, já que ele defendia a necessidade de se construir uma hegemonia antes de se conquistar o poder político.  


E pensar que esse lixo editorial é distribuído nas escolas com dinheiro público...


O texto da Carta Capital abaixo reproduzido resume a ofensiva da “revista” contra a web.       

A Veja quer censurar a internet
da Carta Capital


A revista Veja tem medo do jogo da velha. O jogo da velha, no caso, são as hashtags, antecedidas pelo sinal #, para destacar vozes numa multidão de internautas – bobagens em alguns casos, mobilizações, em outros.

Para quem diz defender com a própria vida a liberdade de expressão, é preocupante. Nas 16 páginas desperdiçadas na edição do fim-de-semana em que tenta se defender, a semanal da editora Abril deixou claro: para ela, a liberdade de expressão não é um valor absoluto. Tem dono – ela e o reduzido grupo de meios de comunicação que se auto-qualificam de “imprensa livre”. Livre de quem? No caso da Veja, certamente eles não tratavam do bicheiro Carlos Cachoeira, espécie de sócio na elaboração de pautas da publicação.


Getúlio Vargas valia-se da expressão “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. A revista, em sua peça de realismo fantástico disfarçada de “reportagem”, a reformula: “aos amigos tudo (inclusive o direito de caluniar, manipular e distorcer), aos inimigos a censura. Ou não é isso, ao desferir um golpe contra as manifestações livres na rede e sugerir uma “governança” na internet, que os editores do semanário propõem? Eles tem urticária só de ouvir falar em um debate sobre a regulação dos meios de comunicação. Mas pimenta nos olhos dos outros…

Na própria peça de defesa, Veja distorce. Não foi a revista que derrubou Fernando Collor de Melo. É uma mistificação que só a ignorância permite perpetuar. A famosa entrevista do irmão do ex-presidente não teria resultado em nada. O que derrubou Collor foi o depoimento do motorista Eriberto França, personagem descoberto pela rival IstoÉ, na ocasião dirigida por Mino Carta.



Em termos de desonestidade intelectual, Veja se superou. Ao misturar aranhas, robôs e comunistas, a semanal de Roberto Civita produziu um conto de terror B. Nem se vivo fosse o falecido cineasta norte-americano Ed Wood, famoso por suas produções mambembes, toparia filmar um roteiro parecido. 
Além de tudo, a argumentação cheira a mofo, tem o tom dos anos da Guerra Fria. Quem tem medo de comunistas a esta altura? Nem na China.


PS: a lanterna na capa do semanário mostra outra coisa: calou fundo na editora o apelido Skuromatic, a lâmpada que provoca a escuridão ao meio-dia, dado a Roberto Civita por jornalistas da antiga redação de Veja.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A NÁUSEA E O ABSURDO

"Se me tivessem perguntado o que era a existência, teria respondido de boa fé que não era nada, apenas uma forma vazia que vinha se juntar às coisas exteriormente, sem modificar em nada sua natureza. E depois foi isto: de repente, ali estava, claro como o dia: a existência subitamente se revelara. Perdera seu aspecto inofensivo de categoria abstrata: era a própria massa das coisas, aquela raiz estava sovada de existência. Ou antes, a raiz, as grades do jardim, o banco, a relva rala do gramado, tudo se desvanecera; a diversidade das coisas, sua individualidade, eram apenas massas monstruosas e moles, em desordem - nuas, de uma nudez apavorante e obscena."
(Jean Paul Sartre, A Náusea)


"Os homens também destilam um tanto do inumano. Em certas horas de lucidez, o aspecto mecânico de seus gestos, sua pantomima destituída de sentido faz ficar estúpido tudo aquilo que os rodeia. Um homem fala no telefone por trás de uma divisória envidraçada; não é ouvido, mas se vê sua mímica inalcançável: e se pergunta por que ele vive. Esse desconforto diante da inumanidade do próprio homem, essa queda incalculável ante a imagem do que nós somos, essa 'náusea' como a denomina um autor de nossos dias, é também o absurdo. De igual modo o estranho que em determinados momentos vem ao nosso encontro num espelho, o irmão familiar e no entanto inquietante que reencontramos em nossas próprias fotografias, é ainda o
absurdo"
Albert Camus, O Mito de Sísifo)       

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O DIA DA VITÓRIA


Tropas soviéticas destroem estandartes nazistas
O dia 9 de maio é Dia da Vitória soviética (Soviet V-Day) ou a capitulação da Alemanha nazista para a União Soviética na Segunda Guerra Mundial – conhecida entre os russos como a Grande Guerra Patriótica. A data refere-se à assinatura do documento de rendição alemã, no final da noite de 8 de maio de 1945 (9 de maio no horário de Moscou). Isso aconteceu depois da capitulação original que a Alemanha anteriormente havia acordado com as forças conjuntas dos aliados na Frente Ocidental. O governo soviético anunciou a vitória em 9 de maio, após a cerimônia de assinatura em Berlim. Filmes da época (ver abaixo) mostram os desfiles militares na Praça Vermelha, os soldados soviéticos queimando estandartes nazistas, a grande festa popular e o marechal Gregori Jukov, comandante e principal herói militar da URSS, desfilando garbosamente na praça em seu cavalo branco. Ele foi muito aplaudido pela multidão. Dizem que o Pai dos Povos ficou enciumado; dois anos depois, Jukov caiu no ostracismo.      
O marechal Jukov desfila em seu cavalo branco em Moscou 
Sem a entrada da União Soviética, teria sido muito difícil aos aliados vencerem a Alemanha nazista. Em 1939, face à política do Ocidente de apaziguar o III Reich(o “espírito de Munique”, quando França e o Reino Unido entregaram a Tchecoslováquia à sanha nazista), Stálin assinou com Hitler um pacto de não-agressão. Embora infame, talvez não houvesse outra saída naquele momento para os soviéticos, cercados de inimigos por todos os lados. Para piorar, Stálin expurgara toda a cúpula do Exército Vermelho em 1938, decapitando a liderança militar do país. Em agosto de 1941, nada menos que 150 divisões de elite da Wehrmacht invadiram a União Soviética em três frentes. Foi uma das maiores operações militares da história. Os nazistas quase chegaram a Moscou, mas os soviéticos resistiram bravamente, chegando inclusive a transportar fábricas inteiras para o interior do país. Leningrado (atual São Petersburgo) ficou 900 dias sob cerco dos nazistas. A contra-ofensiva soviética começou em 1943 em Stalingrado, quando o Exército Vermelho finalmente furou o bloqueio e começou a empurrar as tropas alemãs até chegar a Berlim. Travaram inúmeras batalhas, como a de Kursk, a maior batalha de tanques da história. A guerra custou a vida de mais de 25 milhões de soviéticos, entre civis e militares, e grande parte do país foi destruída. Os Estados Unidos, por comparação, perderam 300 mil soldados.  


O Dia da Vitória em 1945 em Moscou 

PS.: O capitalismo venceu mesmo. Quando você abre este vídeo sobre o Exército Vermelho e a URSS, recebe "spams" de empresas ou sei lá do quê oferecendo "Pretty Women from Russia". É f...