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domingo, 7 de março de 2010

O "BOM BURGUÊS"

José Mindlin (1914-2010) não foi apenas o maior bibliófilo do Brasil; foi um empresário representante do que antigamente se chamava “burguesia nacional” e um dos únicos da plutocracia paulista – o outro foi Antônio Ermírio de Moraes – que se recusou a colaborar com a caixinha montada por Henning Boilesen para financiar a repressão através da Operação Bandeirante, embrião do famigerado DOI-CODI. A convite do governador Paulo Egydio Martins, Mindlin aceitou ocupar o cargo de secretário da Cultura, Ciência e Tecnologia por acreditar que havia chances reais de uma abertura política além da distensão proclamada pela dupla Geisel-Golbery. Em 1975 ele nomeou o jornalista Vladimir Herzog para dirigir a TV Cultura, que inovou totalmente o noticiário, atraindo a atenção da sicários da direita militar, como o jornalista Cláudio Marques, que escrevia artigos raivosos contra a “TV-Viet Cultura” (referência aos guerrilheiros vietcongues que lutavam contra os americanos no Vietnã). Mindlin resistiu às pressões dos militares para demitir Vlado e só não deixou o cargo logo depois de seu assassinato nas dependências do II Exército porque o governador o convenceu que isso fortaleceria a linha-dura militar.
De Mindlin também é uma frase lapidar – e definitiva – sobre Paulo Coelho, a mais inacreditável unanimidade nacional: “não encontro explicação para o fenômeno Paulo Coelho. Eu considero que ele está para a literatura como o bispo Macedo está para a religião”

sábado, 6 de março de 2010

INTERREGNO


Leo Delibes (1836-1891)
Viens, Malliká (dueto das flores)
http://www.youtube.com/watch?v=CX-6Ej2lnwg

sexta-feira, 5 de março de 2010

NON DUCOR, DUCO, BY AÉCIO NEVES

Editorial de O Estado de Minas (3/2/2010), tido como porta-voz oficioso do governador mineiro
Minas a reboque, não!
"Indignação. É com esse sentimento que os mineiros repelem a arrogância de lideranças políticas que, temerosas do fracasso a que foram levados por seus próprios erros de avaliação, pretendem dispor do sucesso e do reconhecimento nacional construído pelo governador Aécio Neves.
Pior. Fazem parecer obrigação do líder mineiro, a quem há pouco negaram espaço e voz, cumprir papel secundário, apenas para injetar ânimo e simpatia à chapa que insistem ser liderada pelo governador de São Paulo, José Serra, competente e líder das pesquisas de intenção de votos até então.
Atarantados com o crescimento da candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, percebem agora os comandantes do PSDB, maior partido de oposição, pelo menos dois erros que a experiência dos mineiros pretendeu evitar.
Deveriam ter mantido acesa, embora educada e democrática, a disputa interna, como proposto por Aécio. Já que essa estratégia foi rejeitada, que pelo menos colocassem na rua a candidatura de Serra e dessem a ela capacidade de aglutinar outras forças políticas, como fez o Palácio do Planalto com a sua escolhida, muito antes de o PT confirmar a opção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na política, a hesitação cobra caro, mais ainda numa disputa que promete ser das mais difíceis. Não há como negar que a postura vacilante do próprio candidato, até hoje não lançado, de atrair aliados tem adubado a ascensão da pouco conhecida candidata oficial.
O que é inaceitável é que o comando tucano e outras lideranças da oposição queiram pagar esse preço com o sacrifício da trajetória de Aécio Neves.
Assim como não será justo tributar-lhe culpa em caso de derrota de uma chapa em que terá sido apenas vice, também incomoda os mineiros uma pergunta à arrogância:
se o mais bem avaliado entre os governadores da última safra de gestores públicos é capaz de vitaminar uma chapa insossa e em queda livre, por que Aécio não é o candidato a presidente?
Perplexos ante mais essa demonstração de arrogância, que esconde amadorismo e inabilidade, os mineiros estão, porém, seguros de que o governador 'político de alta linhagem de Minas' vai rejeitar papel subalterno que lhe oferecem.
Ele sabe que, a reboque das composições que a mantiveram fora do poder central nos últimos 16 anos, Minas desta vez precisa dizer não."

quinta-feira, 4 de março de 2010

UNIVERSOS KAFKIANOS

“Alguém certamente havia caluniado Joseph K., pois numa manhã ele foi detido
sem ter feito mal algum”
[...]
“– Não é preciso considerar tudo como verdade; é
preciso apenas considerá-lo necessário.
– Opinião desoladora – disse K. – A mentira se converte em ordem
universal”.
Franz Kafka, O Processo


O cineasta iraniano Jafar Panahi, diretor dos premiados O Balão Branco; O Círculo; O Espelho e Fora do Jogo, foi sequestrado no dia 1o. de março por policiais iranianos à paisana e levado para local incerto e não sabido. Os policiais também levaram a mulher e a filha do cineasta. A prisão dele foi confirmada pelo procurador Abbas Jafari Dolatabadi, que disse, kafkianamente, que a detenção "não teve motivação política". Aliás, a trajetória de Panahi daria um romance kafkiano. O Círculo, que discute a situação de opressão vivida pelas mulheres iranianas, recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2000. Evidentemente, o filme foi impedido de ser exibido no Irã. Convidado a fazê-lo nos Estados Unidos, Panahi teve seu visto de entrada negado pelos americanos por conta da paranóica "guerra ao terror" (o Irã, lembrem-se, faz parte do "eixo do mal" e como o direitor é iraniano...). Em fevereiro último, Panahi foi convidado a ir ao Festival de Berlim para receber a premiação por Fora do Jogo mas foi impedido de sair do país pelas autoridades iranianas.
Se sua prisão não teve motivação política, talvez ela tenha ocorrido por razões estéticas: numa ditadura, a opinião do censor pode não ser verdadeira, mas é necessária...


Em Cuba, o jornalista dissidente Guillermo Fariñas, 43, em greve de fome há dez dias, foi hospitalizado depois de ter perdido a consciência. Ele exige que o governo liberte entre 25 e 30 prisioneiros de consciência que estariam debilitados. Há cerca de 200 prisioneiros políticos em Cuba e o governo não permite a visita de entidades como a Cruz Vermelha. Há o temor de que este caso possa ter o mesmo desfecho que o de Orlando Zapata Tamayo, dissidente morto em 23 de fevereiro em consequência da greve de fome por melhores condições carcerárias. Para a ditadura castrista, Fariñas é um "criminoso comum". Se ele vier a morrer, Havana vai culpar novamente o imperialismo americano, como fez no caso de Zapata.

quarta-feira, 3 de março de 2010

QUANDO CAETANO VELOSO ERA BOM...


Maria Bethânia (1971)

If you hold a stone (1971)
http://www.youtube.com/watch?v=B33vXxUpMz8

O POETA CARNICEIRO

Diante do Tribunal Penal Internacional da ex-Iugoslávia em Haia, onde está sendo julgado, o ex-dirigente sérvio-bósnio Radovan Karadzic negou os crimes que lhe são atribuídos e disse que a causa que ele defendeu na guerra civil da Bósnia nos anos 1990 é “justa e sagrada”. Eis aqui um caso típico em que a definição de Samuel Jonhson sobre o patriotismo como “último refúgio dos canalhas” se encaixa perfeitamente. Sobre Karadzic, psiquiatra e poeta de 64 anos, pesam 11 acusações de crimes de guerra, entre elas duas de genocídio, cometidos entre 1992 e 1995 na Bósnia: o massacre de sete mil bósnios da cidade de Srebrenica, em 1995, e o cerco de 43 meses a Sarajevo, capital da Bósnia, responsável pela morte de 10 mil pessoas. As cenas de civis inocentes de Sarajevo sendo massacrados por bombardeios ou alvejados por franco-atiradores ainda estão frescas na memória coletiva.
A guerra da Bósnia foi o maior conflito armado na Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Ela nasceu das investidas nacionalistas de sérvios, mas também de croatas, contra a república federal multinacional construída por Josip Broz Tito. Essas investidas mergulharam a federação iugoslava num torvelinho de sangue e fogo. Os sérvios, liderados por Slobodan Milosevic, Radovan Karadzic e seu lugar-tenente, o general Ratko Mladic (na foto acima, à esq.), foram os principais vilões, mas os croatas também cometeram crimes de guerra e campanhas de “limpeza étnica”. Campos de concentração voltaram a povoar o solo europeu. A carnificina correu célere durante quatro anos e só parou com a intervenção da Otan, quando se constatou a impotência da Europa para acabar com o conflito em seu quintal.
Sobre a cumplicidade da União Européia e da ONU com o esfacelamento da Iugoslávia, o escritor espanhol Juan Goytisolo, autor de Cadernos de Sarajevo e El Sitio de los Sitios, escreveu: "Todos estavam cientes do genocídio, da limpeza étnica e de horrores impensáveis na Europa depois do nazismo. Em lugar de apoiar uma Bósnia multiétnica, multicultural e plurirreligiosa, colocaram-se ao lado dos que defendiam a tribo, o sangue e os valores primitivos e brutais"

terça-feira, 2 de março de 2010

O CENTENÁRIO DE DOIS GÊNIOS DA MPB

Noel Rosa (1910-1937)
Com que roupa? (Noel Rosa, 1929)
http://www.youtube.com/watch?v=rETSGoLBjjk


Noel e o Bando de Tangarás (única imagem em vídeo de Noel Rosa (à esq. ao violão), com Almirante no vocal e Braguinha também ao violão (à dir., sentado), entre outros; 1929?)
http://www.youtube.com/watch?v=26GAxh6_aKI&feature=related

Adoniran Barbosa (1910-1982)
Torresmo à milanesa (Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro, 1980)
http://www.youtube.com/watch?v=RF480dVk_Qw

Tiro ao Álvaro (Adoniran Barbosa, 1960)
http://www.youtube.com/watch?v=ACg4OxVDr_w