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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

MEU ÓDIO SERÁ TUA HERANÇA

O ex-ditador líbio Muammar Gaddafi foi preso e executado por rebeldes em Sirte, último bastião de sua resistência. Ele não teve a mesma sorte que Slobodan Milosevic, o dirigente sérvio responsável pelas guerras civis nos Bálcãs dos anos 1990, preso em seu país e entregue ao Tribunal Penal Internacional de Haia (Holanda), onde morreu de enfarte na prisão. Como entre os rebeldes estão muitos trânsfugas do regime de Gaddafi, sua eliminação parece mais queima de arquivo do que vingança.





Outros ditadores que tiveram a má sorte de ser capturados vivos:

Benito Mussolini, ditador fascista da Itália (1922-1943)
Depois de deposto em 1943, Mussolini foi preso pelos italianos e resgatado pelos nazistas. Sob a proteção da Wehrmacht, fundou a "República de Salò" até ser preso pelos partisans (guerrilheiros da Resistência Italiana ao nazi-fascismo)em 28 de abril de 1945 numa vila nas proximidades de Bonzanigo-Giulino di Mezzegra, ao norte de Azzano, às margens do Lago de Como. Foi fuzilado no dia seguinte, junto com sua amante, Clara Petacci. Seus corpos foram expostos à execração pública, pendurados de ponta cabeça na Praça Loreto, em Milão.



Rafael Leônidas Trujillo, ditador da República Dominicana (1939-1961)
Foi assassinado em 30 de maio de 1961 quando seu carro foi metralhado por um grupo numa rua deserta na periferia da capital, Santo Domingo. O atentado teve o apoio da CIA, que temia que o sanguinário Trujillo fosse derrubado por uma revolução comunista, como Batista fora em Cuba em 1959. O filho de Trujillo, Ramfis, assumiu o comando do país e, recrudesceu a repressão e mandou matar todos os que participaram do assassinato do pai.




Ngo Dinh Diem, presidente do Vietnã do Sul (1955-1963)
Primeiro presidente do Vietnã do Sul, Diem era um católico fanático que liderava um governo ditatorial, nepotista e corrupto e que encontrou forte oposição dos monges budistas. Ao ser informado que os militares dariam um golpe de Estado, o governo americano deu carta branca. O golpe ocorreu a 1º de novembro e Diem fugiu, recusando a oferta de asilo. Foi preso e executado a tiros dentro do próprio blindado que o transportava.

Nicolae Ceaucescu, ditador comunista da Romênia (1965-1989)
O veterano ditador stalinista foi deposto na última das revoluções que varreram o bloco soviético do Leste europeu em 1989. Uma guerra civil eclodiu às vésperas do Natal daquele ano, com o Exército lutando contra a Securitate (a polícia política). Preso quando fugia de helicóptero com sua mulher Elena, Ceaucescu foi submetido a um “julgamento” sumário por seus pares do PC e do Exército e fuzilado em 25 de dezembro daquele ano.

Saddam Hussein, ditador do Iraque (1979-2003)
Todo poderoso ditador do Iraque, foi incensado pelo Ocidente quando entrou em guerra com o Irã dos aiatolás em 1980. A Europa e os EUA fecharam os olhos ao uso de armas químicas por Saddam. Mas quando ele invadiu o Kuait, em 1990, os EUA despacharam uma coalizão para tirá-lo de lá. Em 2003, Bush júnior inventou a história das “armas de destruição em massa” para invadir o Iraque e depor Saddam. Encontrado no mesmo ano pelas forças americanos, foi entregue aos iraquianos, “julgado” sumariamente e executado na forca em 2006.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

HISTÓRIA PARTICULAR DA INFÂMIA


Dante e Virgílio no 9º círculo do Inferno (Gustave Doré)

A delação é o mais baixo grau da infâmia e da canalhice humana, como já ensinava Dante Alighieri em A Divina Comédia, ao colocar a traição no 9ºcírculo do Inferno, no mesmo lugar habitado por Lúcifer, o Príncipe das Trevas. Ontem, o Roda Viva reestreou em novo formato entrevistando o “cabo” Anselmo, o marinheiro agitador de 1964 que entrou para a luta armada contra a ditadura militar e depois virou “cachorro”, colaborador ativo da repressão, entregando companheiros e ajudando a armar ciladas para capturá-los, inclusive sua companheira, a paraguaia Soledad Viedma, que estava grávida dele. Sua “justificativa” para tê-la denunciado (“Soledad era filha de dirigentes comunistas paraguaios. Ela foi para Cuba treinar para ser agente comunista em qualquer parte do mundo. Quem escolheu esse risco? Quem escolheu pegar em armas?”) é um dos mais acabados exemplos de torpeza e sordidez humana que eu já vi. E a entrevista, uma das mais asquerosas a que já assisti na vida.

O "cabo" Anselmo como agitador dos marinheiros

Mas o programa trouxe à tona três revelações importantes de Anselmo: a primeira, na verdade um “segredo de polichinelo”, a de que o ex-delegado Romeu Tuma, o “superxerife" da classe média, sabia perfeitamente o que se passava nos porões – ao contrário do que ele sempre propalou –, já que ele era uma de principais engrenagens da polícia política do regime. “Ele tinha mais poder que o Fleury”, assegurou Anselmo. A segunda, pouco conhecida, é que muitos ex-agentes do DEOPS ainda estão na polícia de São Paulo, como seu mentor e amigo, o delegado Carlos Alberto Augusto, conhecido como Carlinhos Metralha. Esse pulha, que trabalha ou trabalhou no 12º DP de São Paulo, atuou na equipe de Fleury no DEOPS entre 1970 e 1977 e foi reconhecido como torturador por Ivan Seixas, do Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo. E, finalmente, a mais saborosa das revelações: a declaração de Anselmo de que, se pudesse votar (ele não tem documentos) teria votado no Serra em 2010!

O chefe dos torturadores, Sérgio Paranhos Fleury

A trajetória do cabo Anselmo continua misteriosa. Acredita-se que sua ação junto ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, o sinistro chefão do DEOPS, tenha colaborado para a morte de entre cem a 200 militantes. Mas não se sabe até hoje se em 1964 Anselmo já era infiltrado no movimento dos marinheiros e fuzileiros navais ou se passou para o outro lado em 1970, quando foi preso ao voltar clandestino ao Brasil. Janio de Freitas, em sua coluna de 4 de agosto de 2009, nos dá uma pista: “o compreensível ódio da oficialidade desacatada pelos marinheiros, logo na mais classista das forças militares, transmudou-se em represália feroz quando o golpe possibilitou a prisão da marujada rebelde. Masmorras e prisão nas piores condições em navios foram o destino comum dos apanhados. Não, porém, para o maior incitador da rebelião e das ameaças à oficialidade: Anselmo foi posto em um pequeno e pacato distrito policial na orla da floresta do Alto da Tijuca, sem vigilância especial, e disponível para seus visitantes. Em poucos dias, não precisou de mais do que sair pela porta para a liberdade. Os visitantes perderam a sua nos dias seguintes”. [...] “Também por aquelas alturas, um cartunista jovem e já famoso foi solicitado a ajudar ‘o caçado’ Anselmo, arranjando-lhe um abrigo por alguns dias. O rapaz deu-lhe a chave de um apartamento. Em troca, recebeu os efeitos habituais da repressão, e mais tarde viveu anos de exílio na Suíça”. Em seu livro A Ditadura Envergonhada, Elio Gaspari conta: “Com as regalias ampliadas, era-lhe permitido ir à cidade. Numa ocasião surpreendeu o ministro-conselheiro da embaixada do Chile, visitando-o no escritório e pedindo-lhe asilo. Quando o diplomata lhe perguntou o que fazia em liberdade, respondeu que tinha licença dos carcereiros. O chileno, estupefato, recusou-lhe o pedido”.

Soledad Viedma, morta grávida do filho de Anselmo

Em outro livro (A Ditadura Escancarada) Gaspari relata: “A última operação de Anselmo, na primeira semana de janeiro de 1973, (...) resultou numa das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura. Um combinado de oficiais do GTE e do DOPS paulista matou, no Recife, seis quadros da VPR. Capturados em pelo menos quatro lugares diferentes, apareceram numa pobre chácara da periferia. Lá, segundo a versão oficial, deu-se um tiroteio (...). Os mortos da VPR teriam disparado dezoito tiros, sem acertar um só. Receberam 26, catorze na cabeça. (...) A advogada Mércia de Albuquerque Ferreira viu os cadáveres no necrotério. Estavam brutalmente desfigurados.”

Este ser rastejante agora pede “reparação”, ou seja, ele quer receber pelo tempo em que estaria na Marinha, caso não tivesse sido expulso em 1964. Anselmo também reivindica uma pensão, pois alega que estaria vivendo com dificuldades financeiras – embora, contraditoriamente, admita que seja sustentado por três “amigos” empresários. Na mesma coluna de 2009, Janio de Freitas diz que “Anselmo diz ter dificuldades financeiras (...). Tais dificuldades, supondo-se que existam, não eliminam a questão de como se manteve nos últimos 45 anos. E, ainda, o fato de que os serviços secretos e as correntes militares da ditadura, ou delas originárias, nunca abandonaram um dos seus que se mantivesse fiel, como Anselmo. Os anos desde o fim da ditadura estão repletos de nomes e histórias assim. E, por gratidão ou dever funcional, a Marinha e a ditadura deixaram provas do tratamento especial ao dito cabo Anselmo".

Sua reaparição, no momento em que se discute a criação da Comissão da Verdade, certamente é cortina de fumaça. Suas motivações, como diz Janio de Freitas, vão muito além da compensação financeira. É possível que ele esteja, como sugeriu Celso Lungaretti, “cumprindo uma nova missão de agente provocador: a de fornecer um trunfo propagandístico contra o programa de anistia federal, caso este indefira o seu pedido”.

“É tudo de que precisa a extrema-direita para infestar a internet com acusações de que estariam sendo adotados dois pesos e duas medidas. Alvejar as reparações que o Brasil concede seguindo recomendações da ONU está entre os carro-chefes da propaganda enganosa dos Ternumas da vida”, diz Lungaretti.

Parafraseando Oscar Wilde em De Profundis, o cabo Anselmo passou não da obscuridade à momentânea notoriedade do crime, mas de um tipo de fama para um tipo de eternidade de infâmia. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

RELEMBRAR FOUCAULT - EM TODOS OS SENTIDOS

Michel Foucault
Michel Foucault (1926-1984) inovou ao escrever que era preciso parar de descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele “exclui”, “reprime”, “recalca”, “censura”, “mascara”. Para o filósofo francês, o poder produz; produz domínios de objetos e rituais de verdade. O poder possui uma eficácia produtiva, uma riqueza estratégica, uma positividade. E é esse aspecto que explica o fato de que o poder tem como alvo o corpo humano, não para suplicá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestrá-lo. Portanto, o poder não poderia ser reduzido ao poder de Estado.

Em suas palavras,
“O que aparece como evidente é a existência de formas de exercício do poder diferentes do Estado, a ele articuladas de maneiras variadas e que são indispensáveis inclusive a sua sustentação e atuação eficaz. (...) é preciso distinguir as grandes transformações do sistema estatal, as mudanças de regime político ao nível dos mecanismos gerais e dos efeitos de conjunto e a mecânica de poder que se expande por toda a sociedade, assumindo as formas mais regionais e concretas, investindo em instituições, tomando corpo em técnicas de dominação. Poder este que intervém materialmente, atingindo a realidade mais concreta dos indivíduos – o seu corpo – e que se situa ao nível do próprio corpo social, e não acima dele, penetrando na vida cotidiana e por isso podendo ser caracterizado como micro-poder ou sub-poder."

Em resumo, ele diz o seguinte em Microfísica do Poder:
O poder deve ser analisado como algo que circula, que funciona em cadeia, nunca está apenas nas mãos de alguns. O poder funciona e se exerce em rede. Os indivíduos, em suas malhas, exercem o poder e também sofrem sua ação. Cada um de nós é titular de um certo poder e, por isso, veicula o poder ao mesmo tempo em que sofre seus efeitos.


Os poderes periféricos e moleculares (extra-estatais) não são necessariamente criados pelo Estado nem confiscados e absorvidos por este. Os poderes se exercem em níveis variados e em pontos diferentes da rede social e neste complexo os micro-poderes existem, sejam integrados ou não ao Estado.


É preciso dar conta deste nível molecular de exercício do poder sem partir do centro para a periferia, do macro para o micro.

Estrutura centrífuga
Os poderes não estão localizados em nenhum ponto específico da estrutura social. Funcionam como uma rede de dispositivos ou mecanismos (tecnologia do corpo, olhar, disciplina) que nada ou ninguém escapa. O poder não é algo que se detém como uma coisa, como uma propriedade. Não existe de um lado os que têm o poder e de outro aqueles que se encontram dele apartados. Rigorosamente falando, o poder não existe; existem sim práticas ou relações de poder. O poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona.


O poder não é substancialmente identificado com um indivíduo que o possuiria; ele torna-se uma maquinaria de que ninguém é titular. Nesta máquina ninguém ocupa o mesmo lugar; alguns lugares são preponderantes e permitem produzir efeitos de supremacia. De modo que eles podem assegurar uma dominação de classe, na medida em que dissociam o poder do domínio individual.


Poder e resistência: pontos móveis
Onde há poder há resistência, não existe propriamente o lugar de resistência, mas pontos móveis e transitórios que também se distribuem por toda a estrutura social. A guerra é luta, confronto, relação de força; não é um lugar estático que se ocupa, nem um objeto que se possui. Ele se exerce, se disputa. Nessa disputa ou se ganha ou se perde.

Objeto do poder: o corpo
O poder atinge a realidade concreta dos indivíduos: o corpo. Ele se exerce por meio de procedimentos técnicos sobre o corpo são, como controle detalhado e minucioso de gestos, atitudes, comportamentos, hábitos e discursos.

É preciso parar de descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele exclui, ele reprime, ele recalca, ele censura, etc. O poder, em sua positividade, tem como alvo o corpo humano não para supliciá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestrá-lo. O corpo só se torna força de trabalho quando trabalhado pelo sistema político de dominação característico do poder disciplinar.

A disciplina
A disciplina visa gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades.


Objetivo ao mesmo tempo econômico e político: aumento do efeito do seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho dando-lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efeitos do contra-poder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente. Portanto, aumentar a utilidade econômica e diminuir os inconvenientes, os perigos políticos, aumentar a força econômica e diminuir a força política. É o diagrama de um poder que não atua no exterior, mas trabalha o corpo dos homens, manipula seus elementos, produz seu comportamento, enfim, fabrica o tipo de homem necessário ao
funcionamento e manutenção da sociedade capitalista.
Aiatolá Khomeini



Pena que, com toda essa capacidade analítica, Foucault tenha subestimado o poder da religião e dos aiatolás na Revolução Iraniana de 1979, saudando-a como “libertadora” só pelo fato de ela procolar um antiocidentalismo militante...


sábado, 15 de outubro de 2011

RECUERDOS


O cadáver de Che em Vallegrande, Bolívia, 1967
Em 1997, quando fui cobrir pela ISTOÉ a descoberta dos restos mortais de Che Guevara e os 30 anos de sua morte na Bolívia, entrevistei várias pessoas envolvidas naqueles trágicos eventos de 1967. Dois deles pareciam ter saído das páginas de um romance de García Márquez, de John le Carré ou mesmo de Edgar Allan Poe: o general Gary Prado Salmón, responsável pela captura de Guevara e que depois se tornaria deputado pelo Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR); e Antonio Arguedas, ministro do Interior do general René Barrientos, que teve relações tanto com a CIA quanto com as esquerdas e que seria o responsável pela entrega dos diários e as mãos – sim, as mãos! – do Che a Fidel Castro.

O agente da CIA Félix Rodríguez  (esq.) e o Che preso 
Como capitão, Gary Prado foi o comandante do destacamento de “rangers” do Exército boliviano que prendeu Guevara na quebrada do Yuro, nas proximidades de La Higuera, interior da Bolívia, em 8 de outubro de 1967. Prado não foi o responsável pelo assassinato do dirigente argentino-cubano; a execução do Che, determinada pelo alto comando militar boliviano, foi levada a cabo pelo sargento Mario Terán. Em 1968, Gary Prado esteve no Brasil para fazer um curso na Escola do Estado-Maior do Exército no Rio e escapou de ser morto numa ação do grupo guerrilheiro Colina, que o confundiu com o major alemão Edward Ernest Tito Otto Maximilian von Westernhagen. Prado teve sorte, mas não se livraria da “maldição do Che”.

O general Gary Prado
Quando lhe perguntei se não era uma contradição ele ter sido o responsável pela prisão do Che e depois virar deputado por um partido de esquerda, Prado me disse, em português fluente, que não, muito pelo contrário. Ele não considerava Che o líder de uma revolução socialista, mas o comandante de um “exército de ocupação estrangeiro”. Guevara não conseguiu a adesão de um único camponês boliviano para sua causa, argumentava. “E você sabe por quê? Por que, durante a Revolução Boliviana de 1952, nós fizemos a reforma agrária”, dizia ele. Para o ex-militar, o Exército boliviano que ele serviu não era um exército da oligarquia, como tantos outros na América Latina, mas um exército popular nascido da Revolução de 1952, nacionalista e comprometido com os trabalhadores. Não me convenci...Na minha cabeça, vinha a lembrança dos cento e tantos golpes militares bolivianos, mas o discurso de Gary Prado tinha alguma coerência. Havia método naquele nonsense: os generais Alfredo Ovando Candia e Juan José Torres, que chegaram ao poder na Bolívia via quarteladas no final dos anos 1960 e início dos 1970, realizaram governos “à esquerda”, com nacionalizações e, no caso do último, até com a formação de conselhos operários e de soldados, à moda dos sovietes.

Em 1981, Gary Prado foi atingido por uma bala nas costas durante uma manifestação e ficou paraplégico. Nunca ficou claro se foi um acidente um ou um atentado. Para alguns, a “maldição do Che”, que atingiu quase todos os envolvidos na sua captura e assassinato, tardara, mas não falhara. Transformado em político, Prado seria embaixador da Bolívia no México. Em abril deste ano, ele foi preso sob a acusação de ter participado de uma ação terrorista contra o governo do presidente Evo Morales em 2009.

As mãos cortadas de Che Guevara
Personagem muito mais misterioso e sinistro foi, sem dúvida, Antonio Arguedas. Nunca se soube exatamente quantos senhores esse personagem serviu; a quem ele foi leal ou quem ele traiu. Arguedas morreu de maneira insólita em fevereiro de 2000, aos 72 anos, vítima da explosão acidental de uma bomba que ele carregava ao corpo, segundo a polícia. Sua família diz que ele foi assassinado. De qualquer forma, durante a inusitada entrevista em “off” que me concedeu em La Paz em 1997, Arguedas revelou os detalhes da operação para enviar às autoridades cubanas o diário que o Che escrevera nas selvas da Bolívia, mas principalmente as mãos do líder guerrilheiro, que foram cortadas para serem identificadas como prova de sua morte, já que os militares pretendiam dar sumiço ao corpo. Arguedas contou que as mãos de Guevara - bem como sua máscara mortuária - foram guardadas por dois anos num vidro com formol no Ministério do Interior boliviano. Depois, elas foram levadas por um ex-companheiro de Arguedas dos tempos do PC, Juan Coronel Quiroga, que guardou o sinistro pote embaixo de sua cama por meses. Para chegar a Cuba, as mãos tiveram que cumprir um trajeto tortuoso, para despistar as autoridades. Foram de La Paz para Lima, Guayaquil, Caracas, Madri, Paris, Moscou e, finalmente, Havana. Juntaram-se aos restos mortais de Che quando eles foram finalmente encontrados, no aeroporto de Vallegrande, em outubro de 1997.

Antonio Arguedas
Militante do Juventude de Esquerda Revolucionária e do Partido Comunista Boliviano nos anos 1940 e 1950, Antonio Arguedas entrou para a Escola da Força Aérea, de onde saiu como capitão-aviador. Foi um dos que trouxeram de volta do exílio Victor Paz Estenssoro, líder da Revolução de 1952 e do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Estenssoro seria presidente da Bolívia entre 1960 e 1964, quando seria deposto por um golpe militar de seu vice, o general René Barrientos, colega de Arguedas na Aeronáutica. Alçado ao Ministério do Interior, responsável pela polícia nacional, Arguedas teve papel fundamental na repressão ao movimento guerrilheiro do Che – embora negasse e muitos assegurassem que ele fazia jogo duplo, ajudando vários perseguidos políticos. Há indicações de que, nessa época, Arguedas tenha começado a trabalhar para a CIA. Há histórias não comprovadas de que ele teria tido contatos com Haydée Tamara Bunke, a guerrilheira Tânia, que esteve no grupo de Guevara. Depois da morte do Che, Arguedas entregou os diários a Fidel por meio de seu amigo Victor Zannier. Barrientos ficou furioso, pois pretendia vender os diários a peso de ouro. Arguedas foi para o Chile e depois para Londres. De volta à Bolívia, foi processado; vítima de um atentado a bala, buscou asilo no México e depois em Cuba, onde viveu até 1976.

E a história não termina aí. De volta à Bolívia em 1979, com o fim da ditadura do general Hugo Bánzer, Arguedas começou a juntar informações sobre o narcotráfico. Não se sabe se estava a serviço da CIA, mas é provável. O fato é que ele montou um arquivo formidável sobre as máfias e participou do Conselho Nacional de Luta contra o Narcotráfico. Descobriu o envolvimento de figurões da política com o tráfico e passou a organizar seqüestros de empresários ligados à máfia. Por causa de um desses sequestros, acabou preso por três anos. Acusado de outros seqüestros, Arguedas caiu na clandestinidade por algum tempo. Foi acusado de organizar seqüestros para arrecadar dinheiro – não se sabe se para si próprio ou para uma nova organização de extrema direita. O fato é que, quando da sua morte misteriosa, a polícia boliviana encontrou em sua casa um grande arsenal de armas.

Dificilmente uma obra de ficção, mesmo de literatura fantástica, conseguira criar um personagem tão improvável.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

AS ANTINOMIAS DE PAUL VALÉRY


Segundo Augusto de Campos, Paul Valéry (1871-1945) acreditava que o Universo “não é mais do que um defeito na pureza do Não-Ser. Ele odeia o homem e o perverte, insinuando-lhe o Orgulho, para vingar-se do Criador. Com júbilo amargo, rememora como seduziu Eva. E desafia a Árvore do Conhecimento a dar outra coisa que não sejam frutos de morte”.


Alguns aforismos do genial poeta/filósofo francês:


“O problema do nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser.”


“O mundo só vale pelos radicais e só dura graças aos moderados.”


“Convicção – palavra que permite pôr, com a consciência tranquila, o tom da força ao serviço da incerteza.”


“A política foi, primeiro, a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem.”


“A revolução faz em dois dias a obra de cem anos e perde em dois anos a obra de cinco séculos.”


“A tática arruína a estratégia; a batalha que se ganhara harmoniosamente no papel perde-se em pequenas coisas no terreno.”


“O nosso espírito é feito de desordem, acrescido de um desejo de ordenar as coisas.”


“Os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a umidade, os bichos, o tempo e o próprio conteúdo.”


Paul Valéry




terça-feira, 11 de outubro de 2011

...OU O CAPITALISMO CONTRA A DEMOCRACIA?

Texto ótimo do genial e provocativo filósofo esloveno Slavoj Zizek, o enfant terrible da intelligentsia europeia. Trata-se, na verdade, de um discurso que ele fez diante dos manifestantes do movimento Occupy Wall Street em Nova York. Apenas uma ressalva: está certo que ele se dirigia ao público americano, mas não precisava enfiar essa história de Espírito Santo no meio...


Acabou o casamento entre democracia e capitalismo 

Zizek fala aos manifestantes em Nova York
 Slavoj Zizek



"Durante o crash financeiro de 2008, foi destruída mais propriedade privada, ganha com dificuldades, do que se todos nós aqui estivéssemos a destruí-la dia e noite durante semanas. Dizem que somos sonhadores, mas os verdadeiros sonhadores são aqueles que pensam que as coisas podem continuar indefinidamente da mesma forma.

Não somos sonhadores. Somos o despertar de um sonho que está se transformando num pesadelo. Não estamos destruindo coisa alguma. Estamos apenas testemunhando como o sistema está se autodestruindo.

Todos conhecemos a cena clássica do desenho animado: o coiote chega à beira do precipício, e continua a andar, ignorando o fato de que não há nada por baixo dele. Somente quando olha para baixo e toma consciência de que não há nada, cai. É isto que estamos fazendo aqui.

Estamos a dizer aos rapazes de Wall Street: “ei, olhem para baixo!”

Em abril de 2011, o governo chinês proibiu, na TV, nos filmes e em romances, todas as histórias que falassem em realidade alternativa ou viagens no tempo. É um bom sinal para a China. Significa que as pessoas ainda sonham com alternativas, e por isso é preciso proibir este sonho. Aqui, não pensamos em proibições. Porque o sistema dominante tem oprimido até a nossa capacidade de sonhar.

Vejam os filmes a que assistimos o tempo todo. É fácil imaginar o fim do mundo, um asteróide destruir toda a vida e assim por diante. Mas não se pode imaginar o fim do capitalismo. O que estamos, então, a fazer aqui?

Deixem-me contar uma piada maravilhosa dos velhos tempos comunistas. Um fulano da Alemanha Oriental foi mandado para trabalhar na Sibéria. Ele sabia que o seu correio seria lido pelos censores, por isso disse aos amigos: “Vamos estabelecer um código. Se receberem uma carta minha escrita em tinta azul, será verdade o que estiver escrito; se estiver escrita em tinta vermelha, será falso”. Passado um mês, os amigos recebem uma primeira carta toda escrita em tinta azul. Dizia: “Tudo é maravilhoso aqui, as lojas estão cheias de boa comida, os cinemas exibem bons filmes do ocidente, os apartamentos são grandes e luxuosos, a única coisa que não se consegue comprar é tinta vermelha.”

É assim que vivemos – temos todas as liberdades que queremos, mas falta-nos a tinta vermelha, a linguagem para articular a nossa ausência de liberdade. A forma como nos ensinam a falar sobre a guerra, a liberdade, o terrorismo e assim por diante, falsifica a liberdade. E é isso que estamos a fazer aqui: dando tinta vermelha a todos nós.

Existe um perigo. Não nos apaixonemos por nós mesmos. É bom estar aqui, mas lembrem-se, os carnavais são baratos. O que importa é o dia seguinte, quando voltamos à vida normal. Haverá então novas oportunidades? Não quero que se lembrem destes dias assim: “Meu deus, como éramos jovens e foi lindo”.

Lembrem-se que a nossa mensagem principal é: temos de pensar em alternativas. A regra quebrou-se. Não vivemos no melhor mundo possível, mas há um longo caminho pela frente – estamos confrontados com questões realmente difíceis. Sabemos o que não queremos. Mas o que queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes queremos?

Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema. Tenham cuidado, não só com os inimigos, mas também com os falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo, do mesmo modo que quando se toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura.

Vão tentar transformar isso num protesto moral sem coração, um processo descafeinado. Mas o motivo de estarmos aqui é que já estamos fartos de um mundo onde se reciclam latas de coca-cola ou se toma um cappuccino italiano no Starbucks, para depois dar 1% às crianças que passam fome e fazer-nos sentir bem com isso. Depois de fazer outsourcing ao trabalho e à tortura, depois de as agências matrimoniais fazerem outsourcing da nossa vida amorosa, permitimos que até o nosso envolvimento político seja alvo de outsourcing. Queremos ele de volta.

Não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que entrou em colapso em 1990. Lembrem-se que hoje os comunistas são os capitalistas mais eficientes e implacáveis. Na China de hoje, temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico do que o vosso capitalismo americano. Mas ele não precisa de democracia. O que significa que, quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou.

A mudança é possível. O que é que consideramos possível hoje? Basta seguir os meios de comunicação. Por um lado, na tecnologia e na sexualidade tudo parece ser possível. É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética. Pode-se ter sexo com animais ou qualquer outra coisa. Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde.

Talvez devêssemos definir as nossas prioridades nesta questão. Não queremos um padrão de vida mais alto – queremos um melhor padrão de vida. O único sentido em que somos comunistas é que nos preocupamos com os bens comuns. Os bens comuns da natureza, os bens comuns do que é privatizado pela propriedade intelectual, os bens comuns da biogenética. Por isto e só por isto devemos lutar.

O comunismo falhou totalmente, mas o problema dos bens comuns permanece. Eles dizem-nos que não somos americanos, mas temos de lembrar uma coisa aos fundamentalistas conservadores, que afirmam que eles é que são realmente americanos. O que é o cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes que estão ligados pelo amor um pelo outro, e que só têm a sua própria liberdade e responsabilidade para este amor. Neste sentido, o Espírito Santo está aqui, agora, e lá em Wall Street estão os pagãos que adoram ídolos blasfemos.

Por isso, do que precisamos é de paciência. A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim. Sabem que muitas vezes as pessoas desejam uma coisa, mas realmente não a querem. Não tenham medo de realmente querer o que desejam. Muito obrigado."



WALL STREET CONTRA A DEMOCRACIA

Neste artigo, o Nobel de Economia de 2008 Paul Krugman diz que os verdadeiros arruaceiros não são os manifestantes de Wall Street, mas os super ricos, os políticos ultraconservadores e os especialistas a serviço da especulação financeira que domina a vida econômica americana nos últimos anos.    

Paul Krugman
The New York Times

Ninguém sabe ao certo se as manifestações de protesto do movimento Occupy Wall Street (Ocupar Wall Street) mudaram o rumo dos Estados Unidos. Mas os protestos já provocaram uma reação notavelmente histérica de Wall Street, dos super ricos em geral e de políticos e especialistas que são confiáveis no que se refere a atender aos interesses daquela parcela de 1% da população composta pelos indivíduos mais ricos do país.


E essa reação nos diz algo importante: que os extremistas que estão ameaçando os valores estadunidenses são aqueles que Franklin Delano Roosevelt apelidou de “monarquistas econômicos”, e não o povo que está acampando no Parque Zuccotti.

Vejamos primeiro como foi que os políticos republicanos retrataram o tamanho modesto, apesar de crescente, das manifestações, que envolveram alguns confrontos com a polícia – confrontos que parecem ter envolvido uma grande dose de reação policial exagerada –, mas nada que pudesse ser classificado como uma rebelião violenta. E, na verdade, ainda não houve até o momento nada que se comparasse ao comportamento das multidões do Tea Party no verão de 2009.

Apesar disso, Eric Cantor, o líder da maioria na Câmara dos Deputados, denunciou as “multidões de agitadores” e “o ato de promover o confronto entre cidadãos norte-americanos”. Os candidatos presidenciais do Partido Republicano se manifestaram quanto à questão, e Mitt Romney acusou os manifestantes de fazer uma “guerra de classes”, enquanto que Herman Cain chamou-os de “antiamericanos”. Entretanto, o meu comentário favorito foi o do senador Rand Paul, que por algum motivo teme que os manifestantes comecem a confiscar iPads, por acreditarem que os ricos não merecem ter esses aparelhos.
Michael Bloomberg, prefeito de Nova York e um titã industrial e financeiro, foi um pouco mais moderado, mas ainda assim acusou os manifestantes de tentarem “retirar o emprego de pessoas que trabalham nesta cidade”, em uma declaração que não tem nada a ver com as metas reais do movimento.


E quem ouviu os comentaristas da CNBC ficou sabendo que os manifestantes “hastearam as suas bandeiras malucas” e “são seguidores de Lenin”.


Para entender tudo isso é necessário perceber que esse fenômeno faz parte de uma síndrome mais ampla, segundo a qual os norte-americanos ricos que se beneficiam imensamente de um sistema viciado para favorecê-los reagem histericamente a toda pessoa que mostre como esse sistema é corrupto.


No ano passado, conforme nos lembramos, vários magnatas do setor bancário ficaram histéricos diante de uma crítica muito leve do presidente Barack Obama. Eles acusaram Obama de ser quase um quase socialista por ter endossado a legislação Volcker, que simplesmente proíbe os bancos apoiados por garantias federais de praticarem operações especulativas arriscadas. E, quanto à reação deles às propostas no sentido de acabar com uma brecha legal que permite que alguns deles paguem impostos notavelmente baixos – bem, Stephen Schwarzman, presidente do Blackstone Group, comparou essa iniciativa à invasão da Polônia por Hitler.

Elizabeth Warren
Além disso há a campanha de destruição de imagem pessoal lançada contra Elizabeth Warren, a reformista financeira que atualmente disputa o Senado por Massachusetts. Não faz muito tempo que um vídeo do YouTube mostrando Warren fazendo uma defesa eloquente e lúcida da cobrança de impostos dos ricos se tornou um enorme sucesso. Nada do que ela falou foi radical – a argumentação dela lembrava mais uma versão moderna do famoso ditado de Oliver Wendell Holmes: “Impostos são o preço que nós pagamos pela sociedade civilizada”.

Mas quem ouviu os defensores aguerridos dos ricos pode ter pensado que Warren é a reencarnação de Leon Trotsky. George Will declarou que ela possui uma “agenda coletivista”, e que acredita que “o individualismo é uma quimera”. E Rush Limbaugh a chamou de “uma parasita que odeia o seu hospedeiro, e que deseja destruí-lo enquanto suga a vida dele”.


O que está acontecendo? A resposta, sem dúvida, é que os Senhores de Universo de Wall Street percebem, no fundo, como a posição que assumem é moralmente indefensável. Eles não estão à altura de um John Galt ou de um Steve Jobs. Estamos falando de indivíduos que enriqueceram por meio de negociatas envolvendo esquemas financeiros complexos que, longe de gerar benefícios nítidos para o povo norte-americano, ajudaram a nos empurrar para uma crise cujos efeitos continuam a atormentar a vida de dezenas de milhões de cidadãos.


Mas eles não pagaram nenhum preço por isso. As suas instituições foram socorridas pelos contribuintes, com poucas exigências ou condições. Eles continuam a se beneficiar das garantias federais explícitas e implícitas – basicamente, eles ainda estão em um jogo peculiar de cara ou cora: cara, eles vencem, coroa, os contribuintes perdem. E eles se beneficiam de brechas fiscais que, em muitos casos, permitem que pessoas dotadas de milhões de dólares paguem menos impostos do que as famílias de classe média.


Esse tratamento especial não resiste a um escrutínio detalhado – e, portanto, na opinião deles, não pode haver nenhum escrutínio detalhado. Quem quer que aponte o óbvio, ainda que de forma calma e moderada, tem que ser demonizado e expulso do palco. De fato, quanto mais razoável e moderada for a crítica, mais urgentemente o indivíduo que a fez precisa ser demonizado, e isso explica as acusações frenéticas contra Elizabeth Warren.


Portanto, quem está sendo de fato antiamericano nesse cenário? Não são os manifestantes, que estão simplesmente tentando fazer com que as suas vozes sejam ouvidas. Não, os verdadeiros extremistas são os oligarcas norte-americanos, que desejam suprimir qualquer crítica dirigida contra as fontes das suas riquezas.