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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A SEGUNDA VINDA


W. B. Yeats (1865-1939)
Voando cada vez mais longe,


O falcão não ouve mais seu falcoeiro.

Tudo se desmancha no ar. O centro não segura


A imensa anarquia solta sobre o mundo.


A terrível maré de sangue invade tudo e


A cerimônia da inocência é afogada.


Falta aos melhores a convicção, enquanto os piores


Estão cheios de ardor apaixonado.



Alguma revelação vem por aí;


Sem dúvida, é a Segunda Vinda.


Segunda Vinda! Mal eu digo tais palavras,

E uma ampla imagem, a deixar o Spiritus Mundi, 

Perturba-me a visão; nalgum lugar, nas areias do deserto,


Uma forma, de corpo de leão, cabeça de homem,


Com o olhar vazio e impiedoso como o sol,


Move-se lentamente, enquanto rondam as


Sombras de raivosos pássaros do deserto.



Voltou a escuridão; mas sei agora

Que vinte séculos de sono pétreo


Querem se vingar do pesadelo que lhes trouxe o berço de embalar;


E que animal violento, enfim chegada a sua hora,

Desejeitado arrasta-se a Belém para nascer?


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

GUERREIRAS DA PAZ

A Academia sueca acertou em cheio na premiação deste ano do Prêmio Nobel da Paz: três mulheres, todas africanas e ligadas à luta pacífica pela ampliação dos direitos humanos. São elas a presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, a ativista Leymah Gbowee, também liberiana, e a jornalista e ativista iemenita Tawakkul Karman. Segundo o comitê do Nobel, elas se destacaram por suas "lutas não-violentas pela segurança das mulheres e pelos direitos das mulheres de participar do trabalho de construção da paz". Como em muitas outras premiações, a deste ano sinaliza o apoio da Academia a algumas causas; no caso, o resgate de países devastados por guerras civis e o apoio à Primavera Árabe.

Ellen Johnson-Sirleaf, presidente da Libéria
 Economista formada nos EUA, a presidente da Libéria, Ellen Johnson-Sirleaf, foi a primeira mulher a se tornar chefe de Estado na África, em janeiro de 2006. Ela conquistou apoio principalmente entre as mulheres liberianas e a diminuta elite educada da Libéria, país acossado por violentas guerras civis, mutilações de jovens e crianças e miséria. Nascida em 1938, Ellen passou pela ONU e pelo Banco Mundial e foi ministra das Finanças do governo do presidente William Tolbert, nos anos 1970. No poder, ela adotou programas de educação para mulheres e criou um tribunal para casos de estupro, crime muito freqüente no país.

A ativista liberiana Leymah Gbowee
A também liberiana Leymah Gbowee esteve no centro de um movimento que levou ao fim da guerra civil na Libéria, em 2003, e à eleição de Ellen Johnson Sirleaf. Leymah percebeu que havia tensões entre cristãos e muçulmanos, e trabalhou com mulheres das duas religiões para construir consensos. Como uma Lisístrata moderna e africana, Leymah incentivou as mulheres a fazer "greves de sexo" para conquistar direitos com seus parceiros. Trabalhando com ex-crianças que lutaram como soldados nas milícias de Charles Taylor, senhor da guerra e depois presidente liberiano, ela concluiu que qualquer mudança dentro da sociedade teria de partir das mães. A mobilização foi importante para pressionar o regime de Charles Taylor a negociar a paz com rebeldes, nos esforços subsequentes de desmilitarização do país e na própria eleição de Ellen Johnson Sirleaf. Leymah foi a coordenadora da Comissão da Verdade e Reconciliação da Libéria. 

A jornalista iemenita Tawakkul Karman
A jornalista iemenista Tawakkul Karman é uma liderança importante do maior partido de oposição, Al-Islah, e diretora da organização Women Journalists Without Chain ("Mulheres Jornalistas sem Correntes"), fundada por ela em 2005. Em uma sociedade altamente marcada pelo domínio masculino, Tawakkul lidera desde 2007 manifestações pacíficas pedindo maior poder para as mulheres e mais atenção aos direitos humanos. Ela teve participação destacada na luta pelos direitos femininos no Iêmen durante a chamada Primavera Árabe.

A MISÉRIA DO PENSAMENTO DA NOVA DIREITA TUPINIQUIM


Roberto Campos,, pelo menos, tinha consistência
O fato de dois livrinhos de um sujeito chamado Leandro Narloch (quem?) - Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil e Guia Politicamente Incorreto da História da América Latina, este em parceria com Duda Teixeira (jornalista da Veja...) - terem virado best sellers revela o quanto a classe média brasileira é mal-informada e preconceituosa em relação à própria história. Esse tipo de postura reacionária é alimentada pela indigência teórica e política de uma certa esquerda latino-americana; um jornalista conservador brilhante como Andrés Oppennheimer desconstroi, em Chega de Histórias!, o culto ao passado e aos herois criado pelas elites da região e incensado por essa esquerda jurássica. Já os enfants gâtés da direita, ao contrário, conseguem apenas destilar seus preconceitos num trabalho mal-ajambrado, descontextualizado e cheio de clichês. A antiga direita brasileira - Lacerda, Campos e Bulhões, por exemplo - era golpista mas era sofisticada e tinha Weltanschauung (visão de mundo). A de hoje, filhote da ditadura e de Veja, é presunçosa, arrogante e ignorante.  

No texto abaixo, a jornalista Cynara Menezes revela as raízes dessa "contestação" politicamente incorreta.  

Alvaro Vargas Llosa: sem o gênio do pai
O perfeito imbecil politicamente incorreto

Cynara Menezes, na Carta Capital

No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião. Saiba como reconhecê-lo. Por Cynara Menezes.

Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.

Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:

1. O “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.

2. O comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.

3. O cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

ANWAR EL-SADAT - ESTADISTA OU TRAIDOR?

Passou em brancas nuvens o 30º aniversário do assassinato do presidente egípcio Anwar el-Sadat por fundamentalistas islâmicos. Militar ligado ao Grupo de Oficiais Livres que derrubaram o rei Farouk em 1952, Sadat assumiu o poder em 1970 depois da morte do carismático líder Gamal Abdel Nasser. Desconhecido mesmo no Egito, ele mostrou inicialmente uma disposição bélica contra Israel, que já havia imposto duas derrotas militares aos árabes – a Guerra da Independência de 1948 e a Guerra dos Seis Dias, em 1967. (A Guerra de Suez, de 1956, não conta, porque foi uma disputa inter-imperialista que marcou o canto de cisne do colonialismo britânico). A oportunidade surgiu em 1973, quando as forças egípcias atacaram Israel de surpresa durante as festividades de Yom Kippur (Dia do Perdão). No entanto, as vitórias militares iniciais dos egípcios foram neutralizadas tanto pela contra-ofensiva de Israel como pela ação das superpotências (EUA e URSS), que atuaram para manter o status quo – alguns diriam equilíbrio de poder - no Oriente Médio.

Sadat (esq.) com Begin e Carter: a finest hour
O novo fracasso militar convenceu Sadat que a única saída para o Egito seria a via diplomática. Então, ele decidiu atravessar o Rubicão: sacrificou a unidade árabe em favor da paz em separado com Israel. Em 1977, anunciou ao Parlamento egípcio que estava preparado para ir a qualquer lugar para negociar um acordo de paz com os israelenses – até mesmo a Israel, Estado que os países árabes não reconheciam e ao qual se referiam pejorativamente como “entidade sionista”.

Sadat foi a Jerusalém e iniciou um processo que culminaria com as negociações em Camp David, organizado pelo então presidente americano Jimmy Carter. Com esse acordo, o Egito reconheceu Israel e este devolveu ao Egito a Península do Sinai, ocupada desde a guerra dos Seis Dias. Esse acordo com o inimigo histórico rendeu a Sadat o Prêmio Nobel da Paz de 1978 – em conjunto com o premiê israelense Menachem Begin –, e, ao mesmo tempo, o ódio eterno dos radicais árabes e extremistas muçulmanos.

Para atenuar essa oposição, Sadat investiu pesadamente na melhoria das condições de vida dos miseráveis do país, especialmente no Cairo, a superpovoada capital egípcia. Nunca se investiu tanto em programas sociais quanto então. Sadat sabia que era entre as massas despossuídas que os fundamentalistas islâmicos faziam sua colheita. O tempo, contudo, não estava ao seu lado. Desafiando as advertências de sua segurança para não aparecer em público, Sadat foi assassinado a tiros no dia 6 de outubro de 1981, quando assistia ao desfile militar comemorativo da Guerra do Yom Kippur. Seus assassinos eram membros da Jihad Islâmica Egípcia infiltrados no Exército. Ele foi sucedido por outro militar, Hosni Mubarak, que ficaria quase 30 anos no poder, até ser apeado por uma rebelião popular.

Extremistas islâmicos metralham o palanque oficial
Três décadas depois, o legado de Anwar el-Sadat ainda desperta muita controvérsia no Oriente Médio. A região continua cada vez mais distante de um acordo de paz entre israelenses e palestinos, com o agravante de não existerem mais líderes do quilate de Sadat, Ben Gurion ou Yitzhak Rabin. Por isso mesmo, ainda é muito cedo para se ter um veredicto histórico sobre o legado de Anwar el-Sadat. Mas ele ousou ir contra a corrente – o que é absolutamente excepcional para um político do Oriente Médio.

MURDOCH E ASSANGE: FRONTEIRA TÊNUE?


As relações perigosas entre mídia e poder
 A mídia comandada pelos megaempresário australiano Rupert Murdoch foi justamente execrada por conta de seus métodos "heterodoxos" de obter informações. Mas  os mesmos métodos seriam lícitos quando usados para desmascarar os donos do poder? É a velha discussão sobre os fins que justificam os meios. Esse excelente artigo de Nicholas Lemann põe os pingos nos ii.

Neste artigo faltou apenas - apenas? - discutir a relação dos jornalistas com os donos da mídia. Sim, porque falar em "nós, jornalistas", assim no abstrato, sem mencionar as relações com quem controla o veículo, é algo que nem os norte-americanos têm condições de fazer...     



Uma imprensa ruim


Por Nicholas Lemann

The New Yorker, 1/8/2011

Jack Lemon (esq.) e Walter Ratthau em Primeira Página
Nós, jornalistas, devemos parecer criaturas estranhas para o resto do mundo. Adoramos The Front Page [A Primeira Página, livro de Hecht e McArthur, 1992] e Scoop! [Furo!, de Evelyn Waugh, 1938], que nos apresentam como preguiçosos, sem princípios e, irremediavelmente, escravos de informações fraudulentas. Hildy Johnson faz amizade com um suspeito de assassinato que fugiu da cadeia e esconde-o numa escrivaninha com tampa retrátil na redação, para que ninguém o possa entrevistar – excelente! William Boot consegue uma informação exclusiva durante um golpe de Estado na nação de Ishmelia porque o restante dos jornalistas deixou a cidade seguindo uma pista falsa e Boot era tão azarado que não conseguiu juntar-se a eles – adorável!

Mas se os jornalistas se divertem sendo pouco convencionais e autogozadores, o que explica nossa tendência igualmente forte (principalmente nos Estados Unidos) a reivindicar portentosamente os pais da nação, a Primeira Emenda [da Constituição], o quarto poder e o direito público à livre expressão? Seriam os jornalistas vigaristas adoráveis ou cruzados dos direitos humanos? Ou seriam pessoas que se concederam o direito de mudar para ambas essas identidades num pulo?



Furo!, e Evelyn Waugh
No caso da imprensa de Rupert Murdoch – agora sem um de seus jornais de grande circulação, mas afora isso mantendo-se firme – dá para perceber sua autocomiseração sobre o escândalo das escutas clandestinas, ainda que suas declarações públicas oscilem, alternadamente, entre remorso e desafio. A News Corporation pertence a uma região da imprensa que gosta de se imaginar confortável e despretensiosamente sentada na tradição de The Front Page/Scoop, num contato mais próximo com os gostos do público do que com os do establishment e resistente a um olhar próprio que define a cultura dos jornalões. Há uma suspeita palpável, na corporação, de que a indignação com o escândalo esconde inimizade ideológica e concorrência comercial.



Murdoch: o vilão
O anonimato e a informação não-pública
Existe alguma coisa que não esteja suficientemente clara nesta discussão? A resposta tem relação com duas questões que correspondem às duas metades da alma jornalística – a do vigarista e a do santo. A primeira é se o escândalo das escutas clandestinas representa um tipo particularmente atroz de má conduta da imprensa, e não sua indecência comum. A segunda é se a violação das fronteiras normais de comportamento decente em busca de grandes matérias tem, de fato, um aspecto redentor de interesse público.

A resposta à primeira pergunta é fácil: sim! O caso dos grampos que desencadeou o escândalo aconteceu dentro de uma cultura de redação (e, possivelmente, uma cultura da empresa) na qual as invasões tecnologicamente incentivadas da privacidade das pessoas se tornaram tão comuns quanto o bloco de anotações de um repórter. E também – desculpem-me se pareço afetado – não é aceitável subornar policiais e autoridades públicas para servirem como colaboradores informais. É igualmente repelente o ecossistema de tipo mafioso que apóia o estilo de jornalismo do News of the World, no qual mesmo os políticos de primeiro escalão acham que passarão por graves consequências pessoais se não alimentarem o monstro esfomeado.

O encanto dos jornalistas de The Front Page – vale a pena lembrar – tinha a ver com a sua atividade, com todo o seu cinismo ríspido como uma força do bem para a sociedade – revelando o suborno, e não envolvendo-se com ele, e ajudando a absolver os falsamente acusados, e não manchando os inocentes.

Mas aí as coisas ficam mais complicadas. Repórteres têm uma necessidade poderosa, tão irrefreável como o instinto de sobrevivência, de tornar público coisas que não o são. Quase todas as entrevistas contêm pelo menos algumas perguntas intrometidas. Toda a entrevista num escritório inclui um olhar furtivo aos papéis deixados em cima da mesa. O intercâmbio do anonimato em troca de uma informação não-pública é uma transação essencial: não é suborno financeiro, mas, definitivamente, é uma troca de itens de valor, principalmente quando o vazamento significa uma vantagem tática para quem vazou.


Quando os jornalistas não pressionam persistentemente pela revelação, são condenados a ficar à mercê dos poderosos, mas o processo de pressionar, em sua realidade cotidiana, é semelhante a qualquer outro existente no mercado – e não tão exaltado quanto o fazem parecer os discursos de depois do jantar.


Como a informação é obtida

Julian Assange: heroi?
É difícil argumentar que a imprensa (que, na era da internet, é uma entidade cada vez mais difícil de definir) tem um trunfo perpétuo quando se trata de decidir o que merece ser tornado público. É óbvio que o escândalo das escutas clandestinas demonstra o absurdo desse absolutismo. O pluralismo da informação é visto mais como análogo ao pluralismo político: assim como é saudável políticos exaltados brigarem de maneira feia no Congresso, é bom para a sociedade ter a imprensa e outras entidades, em especial governamentais, lutando por quanto deve ser tornado público.

O caso da imprensa em relação a si própria é sempre mais forte quando aplicado a questões de importância pública. O WikiLeaks (que o colunista Bret Stephens, do Wall Street Journal, teve dificuldade em distinguir do escândalo das escutas clandestinas), produziu informações importantes sobre o funcionamento de nossas instituições políticas, diplomáticas e militares – de maneiras que podem levar a uma democracia mais rica. As mensagens do correio de voz de Milly Dowler não produziram.


Portanto, a questão do assunto é fundamental ao se tratar do comportamento sobre fronteiras e violação por parte da imprensa. O escândalo das escutas clandestinas, como o próprio nome sugere, é essencialmente sobre como a informação é obtida e só depois, de forma secundária, sobre a natureza dessa informação. Será que nunca é aceitável interceptar chamadas telefônicas pessoais, mesmo em casos de nítida importância pública?


Privacidade não deveria ser indefensável
Aqui, nos Estados Unidos – pelo menos a parte mais estabelecida dela – tem um padrão que funciona como um guia cotidiano para o comportamento, mesmo quando parece desafiar a lógica. Uma pilha de técnicas de coleta de informação – o que inclui arrombar e entrar, roubar e grampos clandestinos – é imperdoável e jamais pode ser diretamente realizada por organizações jornalísticas; mas se outras pessoas derem a essas organizações jornalísticas o fruto desse trabalho, então está tudo bem em publicá-las.


Bradley Manning é um traidor, mas Nick Davies, do Guardian (que recebeu os “diários de guerra” de Manning e do WikiLeaks), é um patriota; e Julian Assange fica numa nebulosa zona intermediária. Promotores que se utilizam de mandados de busca antes de qualificarem qualquer acusação são sórdidos. Os jornalistas que publicam transcrições das mensagens de Eliot Spitzer a um serviço de prostituição são modelos de profissionalismo. Presume-se que a santificação ritual ocorre no momento em que informações obtidas de maneira questionável passam para as mãos de um repórter. (Grifos meus)


Isso não representa qualquer esforço. O caso das escutas clandestinas deveria inspirar mais do que o regozijo de ver Rupert Murdoch e sua escolta de assessores e parentes numa situação complicada; as questões que levanta não se limitam aos jornalistas de tabloides. O caso deveria tornar a despertar a consciência de todo mundo de que a privacidade pessoal não deveria ser indefensável contra as intromissões de instituições poderosas.


Os jornalistas estão numa posição indispensavelmente boa para expor abusos de poder, mas uma credencial de imprensa não é um passe para viagens moralmente ilimitadas. Se o escândalo levou os jornalistas a refletirem sobre seu próprio poder, e sua capacidade de abusar desse poder, isso seria algo de bom.


(*) Nicholas Lemann é professor de Jornalismo e decano da Universidade de Columbia, Nova York, EUA

A Primeira Página, de Billy Wilder

terça-feira, 4 de outubro de 2011

CHEGA DE BANCAR O AVESTRUZ

Trechos do post de Mauro Santayana, O DEVER E A CORAGEM, sobre a questão das drogas, um problema complexo geralmente tratado de maneira maniqueísta e com políticas repressivas - o que, em última instância, favorece apenas o crime organizado liderado pelos barões do narcotráfico e a banda podre da polícia. Quando vamos parar de bancar os avestruzes?   


Mauro Santayana
A Guerra do Ópio: os britânicos impuseram a droga aos chineses

"Não é necessário registrar o emprego dos narcóticos em rituais religiosos, para entender que as drogas fazem parte do humano viver. O que tornou grave o consumo foi a sua inclusão no circuito capitalista, ou seja, sua transformação em mercadoria. Isso ocorreu no século XIX, e trouxe, como primeira e gravíssima conseqüência, a Guerra do Ópio, quando a Inglaterra e outras potências europeias massacraram a China e transformaram o grande país em colônia, ao impor, manu militari, o consumo da droga, comercializada por empresas europeias, e produzida na Índia, da qual fazia parte o Paquistão, e no Afeganistão.

A cura pelos drops de cocaína
Nenhuma droga é mais consumida e mais danosa ao mundo contemporâneo do que a cocaína. Os povos andinos mastigam as folhas da coca há milênios, a fim de aliviar as penosas condições do altiplano, com a rarefação do ar. O alcalóide favorece a absorção do oxigênio e combate a fadiga. Foi a partir dessas qualidades medicinais que o químico alemão Albert Niemann conseguiu isolar o princípio ativo da planta, com o nome de cocaína, em 1859-60. Depois de ser usada como anestésico, a cocaína foi também empregada para combater o vício da heroína, tido como muito mais danoso. Mas foi a partir de 1883 que o consumo da droga entrou no circuito comercial.



Leão XIII consumia  vinho Mariani, que continha cocaína


O farmacêutico italiano Ângelo Mariani misturou cocaína ao vinho, a fim de produzir um tônico fortificante, indicado para a cura da tuberculose. O Vinho Mariani foi consumido e elogiado por grandes personalidades, mostrando que a Coca-Cola, que foi sua continuidade, teve precedentes de marketing em que se inspirar.

Entre outros consumidores, que aconselhavam seu uso, se encontrava o Papa Leão XIII, escritores como Robert Louis Stevenson e cientistas como o próprio Freud. A Coca Cola nasceu diretamente do Vinho Mariani, e, até hoje, como foi revelado sem desmentidos, em sua fórmula se emprega o extrato de coca. Relembre-se que a empresa mantinha, se ainda não mantém, uma plantação de coca na Bolívia, que foi preservada da erradicação dos cultivos, promovida pelos Estados Unidos há alguns anos.

A combinação entre o tráfico de drogas, o crime organizado e a corrupção assustadora dos meios policiais, está transformando o México em um pesadelo cotidiano e permanente. Antes que a situação em nosso país se torne tão grave, como a do grande vizinho do Norte, teremos que enfrentar o problema com decisão e coragem. É necessário legalizar o uso das drogas, por mais que essa decisão encontre a oposição das almas bem intencionadas. Seria bom que o Estado dispusesse do poder de exterminar o tráfico e eliminar o consumo de drogas, e evitar as conseqüências infernais de seu comércio clandestino. Como isso não ocorre, o melhor será legalizar a produção e comercialização de todas elas, sob a administração direta dos estados interessados.

O consumo da droga deve ser tratado como um problema de saúde pública, assim como são tratados os casos de psicopatia. Os viciados, sem prejuízo do tratamento de desintoxicação e de ajuda psicológica para que abandonem o hábito, devem ter o direito de comprar a droga e a consumirem sob assistência hospitalar. Com a legalização e transparência do consumo e comércio das drogas, não haverá mais o terror das chacinas de pequenos traficantes, nem a promiscuidade entre os chefes do tráfico, a polícia e as autoridades civis."

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

PORTA-VOZES DO FIM DO MUNDO... DELES


Como o mercado financeiro sacou que o BC vai continuar reduzindo a taxa Selic, está fazendo um verdadeiro terrorismo midiático em torno de um suposto aumento incontrolável da inflação para tentar manter elevada a taxa de juros mais alta do mundo. Eles quebram o país mas não querem perder nada. Mas o governo vai continuar reduzindo a Selic, pois está preocupado que a crise internacional atinja o Brasil e impacte seriamente a atividade econômica.
O artigo abaixo, de Amir Khair, da Carta Maior, faz uma análise profunda desse processo:
Guardiões da Inflação
A
mir Khair, da Carta Maior


Enquanto os Estados Unidos e a Europa se debatem para tentar escapar da estagnação, aqui a discussão sobre a economia põe de um lado os guardiões da inflação e de outro os desenvolvimentistas.



Gustave Doré, O Neófito.  
 São duas posições em debate. A dos guardiões da inflação, liderada pelo mercado financeiro, vê inflação crescente devido ao excesso da demanda em relação à oferta. Para combater a inflação advogam a redução do consumo via elevação da Selic. Se o Banco Central (BC) não manter a Selic em nível elevado, perde a credibilidade e não ancora as expectativas dos formadores de preços, etc.


Para essa corrente o país não pode crescer acima de 3,5%, pois fatalmente seria rompido o teto da meta de inflação de 6,5%, gerando o descontrole dos preços.

Os guardiões da inflação fazem uma verdadeira chantagem inflacionária, para pressionar o BC a manter a Selic elevada. É o seu lucro em jogo e desfilam argumentos para mostrar que há ameaça de inflação no horizonte, pois: a) os preços dos serviços caminham para crescer 8% a 9% neste ano; b) o reajuste salarial de algumas categorias de trabalhadores está sendo feito acima da inflação passada; c) o novo salário mínimo vai aumentar o consumo e; d) os preços das commodities não vão cair, pois a China continuará a ter crescimento forte, demandando produtos.


A outra posição defendida pelo governo é de que não há ameaça de inflação, pois a crise está derrubando os preços internacionais, o que acaba por manter os preços internos sob controle. Nessa situação, a Selic pode cair para um nível inferior ao atual, sem maiores problemas para a inflação. Essa corrente defende que é possível manter a inflação dentro do limite da meta, com um crescimento ao nível de 4,5% a 5,0% e defende estímulos à economia.

A razão parece estar com o governo quanto às perspectivas de inflação.


Em setembro as cotações das commodities tiveram o pior desempenho desde outubro de 2008, ápice da crise financeira com a quebra do Lehman Brothers. A crise na zona do euro pode se transformar em nova crise bancária e a ameaça de recessão na Europa e EUA pode pôr fim a um ciclo exuberante de demanda aquecida e preços estratosféricos. Tudo dependerá em grande parte da China, a grande consumidora, e uma ampla pesquisa feita entre investidores pela Bloomberg apontou que a economia chinesa vai desacelerar nos próximos anos e avançar a um ritmo de 5%.


De modo geral, os produtos agrícolas foram mais castigados que a média das commodities. Em setembro, o índice CRB, que acompanha também matérias-primas metálicas e energéticas, caiu 10,69%, o maior tombo desde outubro de 2008. Isso é importante, especialmente para os países emergentes onde o custo da alimentação prepondera no orçamento doméstico e a inflação depende mais da evolução dos preços dos alimentos. No Brasil alimentos e bebidas respondem por 23,4% do IPCA.


Apesar desta tendência declinante de preços, fato é que prever inflação está sujeito a erro que é tanto maior quanto maior o período que se quer prever. Tanto o mercado financeiro quanto o BC prevêem inflação acima da meta de 4,5% neste e no próximo ano. É puro chute.

Essas previsões falham mesmo para um mês à frente, como ocorreu no terceiro trimestre de 2010, quando o mercado financeiro previu inflação de 0,4% em cada mês e ela foi zero. Fato é que se a crise for da intensidade que está se manifestando, pode ocorrer até deflação surpreendendo os guardiões da inflação.


Gustave Doré, O Enigma.
 Nessa discussão cada lado tem seus argumentos, mas o que chama a atenção é que ambos os lados usam a Selic para defender sua posição e ela não tem nada a ver com o problema, pois não altera o preço dos serviços, não altera a oferta de crédito, nem o valor das prestações, não influi sobre os preços internacionais e pior, desestimula a oferta ao inibir os investimentos das empresas, sendo esse importante fator de equilíbrio entre oferta e demanda. Em vez de atenuar a inflação a Selic a agrava.


Assim, tem-se uma falsa discussão. A inflação pode subir ou cair? Pode. A crise pode reduzir os preços internacionais? Pode. E a Selic, o que tem a ver com isso? Nada, absolutamente nada.


Se não tem a ver com isso, porque é a mais alta do mundo há tanto tempo? É porque predomina no País o rentismo, que é o ganho fácil, sem risco, em cima do governo federal, que paga os juros de quem aplica em, seus títulos, que têm taxas de juros balizadas pela Selic.


Quer dizer que a inflação segue seu caminho próprio, independente da Selic e ainda independente do nível de crescimento? Sim. O crescimento se dá pelo estímulo ao consumo e, também, pelo estímulo ao investimento para aumentar a oferta interna de produtos e serviços. É essa oferta que irá atender junto com a oferta internacional o mercado, suprindo suas necessidades. Se os preços internacionais estiverem em queda, a inflação estará em queda. Se, ao contrário, estiverem em ascensão, teremos pressão inflacionária. Mas a pressão inflacionária não se combate com a redução da atividade econômica, mas sim com, a elevação da oferta. É esse o caminho virtuoso do crescimento.

A realidade é que a inflação está há vários anos conduzida pelos preços internacionais. Seu efeito sobre os mercados internos é marcante para as economias abertas, como é o nosso caso. Estamos sob a égide da globalização. Cada empresa compete com empresas de vários países. Não são as empresas domésticas que definem os preços, mas o mercado externo. Se uma empresa tenta vender seu produto acima do preço da concorrência fatalmente irá sofrer a perda de posição no mercado, sendo forçada a praticar o preço que possa concorrer com os produtos similares ou substitutos.


Segundo o relatório de inflação do Banco Central de setembro é provável que a inflação fique dentro da meta neste ano, com o risco de 45% (?) de probabilidade que possa ultrapassá-lo, dependendo da magnitude da crise internacional.

Face à crise o BC reduziu a previsão de crescimento deste ano de 4,0% para 3,5%, nível abaixo da média do crescimento mundial prevista em 4,0% pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e bem abaixo do crescimento dos países emergentes de 6,4%.


O governo ainda objetiva alcançar o crescimento entre 4,0% e 4,5% e prevê crescer 5,0% em 2012. Para isso vai precisar ativar a economia, pois a crise já começou a afetar todos os países.

Mas, como o mercado financeiro está percebendo que o BC vai continuar reduzindo a Selic, está fazendo um verdadeiro terrorismo inflacionário para manter a Selic elevada. Não vai adiantar. O governo vai reduzir a Selic. Com isso vão sobrar recursos fiscais para ampliar as ações de governo em áreas chaves como educação, saúde e investimentos em infraestrutura.

O governo tem outra preocupação, que é o impacto da crise afetando o nível da atividade econômica. Os principais indicadores da atividade apontam para forte desativação da economia com ampliação do desemprego e tensão social decorrente. Tem-se a nona queda seguida do índice de confiança da indústria, atingindo o menor patamar desde agosto de 2009 e as perspectivas do setor seguem em tendência de piora.


Diante disso, o governo pretende estimular a economia e reduzir a Selic que está inibindo os investimentos das empresas e danificando o desempenho fiscal.
Gustave Doré, Moisés quebrando as Tábuas da Lei

Creio que será possível ter uma inflação dentro da meta. Basta que a inflação média mensal no último quadrimestre fique em 0,49%. A possibilidade de isso ocorrer é grande. No segundo quadrimestre a inflação média mensal foi de 0,29%. Caso se mantenha nesse nível, a inflação neste ano poderá ficar em 5,6%. Caso vá para o nível ocorrido em agosto de 0,37%, a inflação atingiria 6,0%.

Vê-se que é possível ter uma inflação dentro do limite da meta e, mesmo que ultrapasse, está na hora de pisar no acelerador face aos impactos da crise que está crescendo e reduzir firmemente a Selic. Os guardiões da inflação que busquem novas fontes de lucro, pois a mamata da Selic vai acabar.