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terça-feira, 16 de março de 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

REMINISCÊNCIA DAS ARENAS ROMANAS

"De todas as espécies, a humana é a mais detestável, pois o homem é o único ser que inflige dor por esporte, sabendo que está causando dor" [ Mark Twain ]

Ernest Hemingway e Pablo Picasso que me perdoem, mas as touradas não passam de uma reminiscência bárbara e sangrenta das arenas do Império Romano. Não podendo mais assistir a sacrifícios de gladiadores, a plebe ignara se contenta em satisfazer suas perversões sádicas com o espetáculo macabro de tortura e morte de animais. Criticar essa prática não é corretismo político; é, ao contrário, dar pouca importância às "tradições populares". Como dizia Jeremy Bentham, pai do utilitarismo, "não importa se os animais são incapazes ou não de pensar; o que importa é que são capazes de sofrer". Não é à toa que crescem na Europa as manifestações pela abolição desse esporte cretino, como o que ocorreu nesta segunda-feira em Bruxelas (acima, à esq.)


Uma das melhores antipropagandas de touradas eu vi há muitos anos numa cena do filme O Assassinato de Trotsky (1972), de Joseph Losey. A bela Romy Schneider, namorada de Ramón Mercader (futuro assassino do revolucionário, vivido por Alain Delon), vai com ele assistir a uma corrida de touros na Cidade do México. A agonia do animal, ferido e se esvaindo em sangue, é mostrada em câmera lenta, contrapondo-se ao furor extático da multidão. Chocada e indignada, Romy abandona o espetáculo no meio. A associação com o que Mercader faria depois - o assassinato de Leon Trotsky com um quebra-gelo - é inevitável.

Para mim, já era suficiente; mesmo assim, anos mais tarde, por insistência de um amigo de origem espanhola, acabei assistindo a uma tourada em Bogotá. Foi uma experiência dantesca; entendi perfeitamente o sentimento da personagem de Romy Schneider.




Para quem tem estômago e é contrário a essas práticas bárbaras, é didático ver o vídeo
http://www.youtube.com/watch?v=MRugqxQD_rQw.youtube.com/watch?v=MRugqxQD_rQ

País cordial, o Brasil não tem touradas, mas espetáculos igualmente deprimentes, como os rodeios, que torturam animais. Então, todo apoio à campanha Eu odeio rodeio! da Rita Lee

domingo, 14 de março de 2010

TANCREDO NEVES: MESTRE DA RETÓRICA E DA LIBERDADE

O Brasil contemporâneo teve dois herois trágicos, no sentido grego da palavra: Getúlio Vargas, que se suicidou em 1954 para não ser deposto e deixou uma carta-testamento na qual denunciava os interesses antinacionais de seus adversários políticos, e Tancredo Neves, cuja eleição indireta pelo Colégio Eleitoral, há 25 anos, pôs fim à ditadura civil-militar estabelecida em 1964. Tancredo adoeceu na véspera da posse, em 14 de março de 1985, e morreria em 21 de abril, depois de dramática agonia, vítima de inépcia médica. Sua doença, um tumor benigno, se agravou porque ele se recusou a receber tratamento antes de assumir por temer um veto militar à posse do vice, José Sarney, dissidente do PDS, então partido da ditadura. Sacrificou a vida pelo restabelecimento da democracia no Brasil.

Ele ficou conhecido como político hábil, moderado e conciliador, uma das "raposas" do velho PSD mineiro. Essa ideia é uma meia-verdade: sua firmeza política algumas vezes beirava à temeridade, como em 1954, quando a Aeronáutica estabeleceu a "República do Galeão", um poder parelelo para investigar o assassinato do major Rubens Vaz no atentado contra Carlos Lacerda. Tancredo, então ministro da Justiça de Vargas, defendeu o afastamento e a prisão dos militares insubordinados. Em 1964, foi um dos únicos políticos a ir ao aeroporto se despedir do presidente deposto, Jango Goulart. Em abril daquele ano, quando um Congresso manietado por cassações se reuniu para referendar o marechal Castello Branco como presidente da República, Tancredo foi um dos poucos parlamentares a votar contra. Juscelino Kubitschek e Ulysses Guimarães, por exemplo, acreditando na conciliação mais do que ele, votaram a favor do marechal. Na articulação para a eleição no Colégio Eleitoral, Tancredo realizou uma das maiores obras de engenharia política do país ao se articular com a dissidência do regime militar para derrotar o candidato da linha-dura, o nefasto Paulo Salim Maluf. Ele foi, acima de tudo, um político coerentemente democrata.

Mestre da oratória, era uma espécie de Cícero tupiniquim:
"Ainda que o movimento de 1964 tivesse transformado nossa pátria num paraíso, eu não me arrependo de ter feito oposição. Para meu ideário político, o valor supremo da vida é a liberdade. O paraíso, se estiver cercado, será sempre o infermo";
" O processo ditatorial, o processo autoritário traz consigo o germe da corrupção. O que existe de ruim no processo autoritário é que ele começa a desfiguar as instituições e acaba desfigurando o caráter do cidadão";
"Não se tira o sapato antes de chegar ao rio. Mas também ninguém chega ao Rubicão para pescar".
Seu discurso depois da vitória é uma peça tão poderosa quanto a carta-testamento de Vargas: "Com o êxtase e o terror de ter haver sido o escolhido, como diria Verlaine, entrego-me hoje ao serviço da Nação [...] Se todos quisermos, dizia-nos há quase 200 anos, Tiradentes, aquele heroi enlouquecido de esperança, poderemos fazer desse país uma grande nação. Vamos fazê-la".

sexta-feira, 12 de março de 2010

VIOLÊNCIA INDIVIDUAL E VIOLÊNCIA DO ESTADO


"O poder está em toda parte, não porque engloba tudo e sim porque provém de todos os lugares (...) O poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada." (Michel Foucault, Microfísica do Poder)

Laranja Mecânica (Clockwork Orange, 1971), de Stanley Kubrick

http://www.youtube.com/watch?v=40Xc-9YeWE4&feature=related

quinta-feira, 11 de março de 2010

THE MAN WITH THE BLUE GUITAR

The man bent over his guitar,
A shearsman of sorts. The day was green.

They said, "You have a blue guitar,
You do not play things as they are."


The man replied, "Things as they are
Are changed upon the blue guitar."

And they said then, "But play, you must,
A tune beyond us, yet ourselves,

A tune upon the blue guitar
Of things exactly as they are."

(Wallace Stevens)

Jimi Hendrix (1942-1970), Hey Joe
http://www.youtube.com/watch?v=909EYSlwYKM&feature=related

quarta-feira, 10 de março de 2010

OS NOVOS SENHORES DE ENGENHO

Os opositores da ação afirmativa estão enfiando os pés pelas mãos. Em vez de discutir politicamente um tema que é polêmico, vêm apelando para argumentos ideológicos dignos de senhores de engenho. No afã de criticar a adoção do sistema de cotas por 68 universidades públicas no país e caracterizá-lo como "racista", o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), em audiência pública do STF, responsabilizou os africanos pela escravidão no Brasil - em função do sistema de tráfico de escravos que existia em alguns países da África. Qualquer livro de História sério ensina que o sistema colonial mercantilista das metrópoles europeias foi quem introduziu o trabalho compulsório nas plantations de colônias como o Brasil. Criou-se o que os sociólogos chamam de "sociedade estratificadas racialmente". Mais absurdo ainda foi a afimação de Demóstenes que as relações sexuais entre os fazendeiros brancos e as escravas negras ocorreram por "consenso", valendo-se de Gilberto Freyre. Ora, o autor de Casa Grande e Senzala pode ter romantizado a escravidão diluindo-lhes os conflitos, mas jamais negou a violência das relações entre senhores e escravos: "Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime"; "Não eram as negras que iam esfregar-se pelas pernas dos adolescentes louros: estes é que no sul dos Estados Unidos, como nos engenhos de cana do Brasil, os filhos dos senhores, criavam-se desde pequenos para garanhões".

Independentemente de qualquer coisa, os opositores das ações afirmativas deveriam refletir sobre esses dados, vergonhosos para uma nação que aboliu a escravidão há 120 anos:
Dos pobres no Brasil, 33% são negros e 14% são brancos;
Dos 10% mais pobres, 70% são negros e mestiços;
Negros e mestiços recebem metade do salário dos brancos;
Entre as idades de 15 e 18 anos, dois terços dos assassinados são negros;
Na USP, a maior universidade do Brasil, apenas 2% dos alunos são negros.

Como afirmou Joaquim Nabuco, "é preciso não apenas acabar com a escravidão, mas também com a obra da escravidão"

segunda-feira, 8 de março de 2010

INOCENTES ÚTEIS

Recebo de alguns amigos um e-mail meio antigo que mostra cenas terríveis do Holocausto, lembrando que quando os americanos libertaram campos de extermínio nazistas, o general Eisenhower pediu a seus soldados que fotografassem os mortos e sobreviventes para evitar que, no futuro, alguém viesse a negar aquelas barbaridades. Ato contínuo, a mensagem informa que o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, nega o Holocausto, quer destruir Israel e preside um regime ditatorial. Por ser meio velho, o e-mail não menciona, mas poderia ter acrescentado que, ainda por cima, o maluco de Teerã quer ter a bomba atômica. Na sequência, pede-se enviar a mensagem para outras pessoas - a maldita corrente -, para que repudiem a visita de Ahmadinejad - ocorrida no ano passado - ao Brasil. Pretexto para criticar a política externa do governo Lula, exercício caro à direita tupiniquim. Mas meus amigos não percebem que, sob a máscara da defesa dos direitos humanos, da denúncia do negacionismo e do antissemitismo, a mensagem reflete os interesses dos Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio. É verdade que Ahmadinejad é um déspota pouco esclarecido, para dizer o mínimo; mas não sejamos ingênuos: o que está em jogo não é uma reedição do nazismo em versão xiita: é a ameaça geopolítica que Teerã representa a esses interesses no tabuleiro da região. Senão, porque denunciar violações de direitos humanos e o antissemitismo no Irã e fazer ouvidos de mercador a essas práticas em países como a Arábia Saudita ou o Paquistão? Será porque eles são aliados estratégicos de Washington? E o que nós brasileiros temos a ganhar embarcando nessa política?

A Arábia Saudita é uma das mais opressivas ditaduras da face da terra. Naquela teocracia islâmica não existe liberdade política nem religiosa. A "sh'aria" (lei islâmica") é aplicada com extremo rigor: condenados recebem chibatadas em praça pública; ladrões têm as mãos decepadas e mulheres são executadas por lapidação (apedrejamento). "Delitos" como blasfêmia, adultério, homossexualismo, apostasia e prostituição são considerados crimes tão graves quanto assassinato, sequestro, tráfico de drogas e sedição e são igualmente punidos com a pena de morte por decapitação com espada. As mulheres são cidadãs de segunda classe. E, em nome do combate a Israel, a imprensa oficial saudita estimula o antissemitismo e a negação do Holocausto. Até pouco tempo atrás, a realeza saudita financiava grupos terroristas palestinos e islâmicos, entre eles a Al Qaeda. O regime saudita é muito mais opressivo do que o do Irã; no entanto, nossos democratas não ficam ultrajados com o fato de países democráticos manterem boas relações com os príncipes de Riad. O fato de a Arábia Saudita ser o maior exportador de petróleo do mundo explica em parte essa condescendência, mas só em parte, já que o Irã também é um grande produtor, mas - aí é que está o problema - não se alinha aos interesses de Washington.

Embora tenha armas nucleares, o Paquistão não sofre restrições dos países ocidentais por isso. É porque Islamabad sempre representou um contraponto geopolítico à Índia e à Rússia. Mas isso também fez do Paquistão o berço e o foco de expansão do radicalismo islâmico no Oriente. Suas madrassas - escolas religiosas muçulmanas - formam todos os anos milhares de jihadistas dispostos a matar civis "judeus e cristãos" para a maior glória de Alá. E o serviço secreto paquistanês, o ISI, com a ajuda da CIA, foi o principal responsável pela formação de grupos fundamentalistas para combater os soviéticos no Afeganistão nos anos 80. Um deles, o Talibã, foi a milícia que levou o Afeganistão de volta ao século IX até ser derrubada por tropas da Otan em 2001. Seria o Paquistão, com bombas atômicas e veículos para lançá-las e difusor do extremismo islâmico, melhor do que o regime dos aiatolás? Parece que sim, porque o Paquistão é fiel aliado de Washington. E nós com isso?

Por fim, gostaria que esses amantes da paz me explicassem por que o fato de o Irã tentar fabricar artefatos nucleares representa uma ameaça à estabilidade mundial maior do que o arsenal atômico israelense ou paquistanês.