segunda-feira, 15 de abril de 2013

UM LEGADO NEFASTO

Margaret Thatcher

Margaret Thatcher deixa um legado dos mais nefastos da história contemporânea: a desconstrução do welfare state, o Estado de bem-estar penosamente erguido em toda a Europa ocidental, inclusive por governos conservadores, depois da devastação das duas guerras mundiais. Isso sem falar no apoio desavergonhado que a “dama de ferro” deu ao ditador chileno Augusto Pinochet – aliás, ele próprio um thatcherista avant la lettre.

Mas, acima de tudo, Thatcher – e o americano Ronald Reagan – quase fizeram o Estado voltar a ser o “comitê executivo da burguesia”, principalmente do setor financeiro, cuja hegemonia representa o capitalismo mais rapace e voraz, com o assalto permanente aos direitos sociais e trabalhistas. Essa ilusão com as virtudes da “mão invisível” do mercado – que faria Adam Smith corar – durou quase 30 anos e só começou a desmoronar com a crise de 2008. E, mesmo assim, essa crise não abalou a teimosia da troika – leia-se, Alemanha – em receitar doses cavalares de austeridade aos países da União Europeia que estão endividados até o pescoço. Pouco importa se a adoção desse receituário significa jogar 50% dos jovens no desemprego, como na Espanha – ou 70%, como na Grécia. No resto do mundo desenvolvido, dos EUA ao Japão, os dirigentes já se convenceram de que o neoliberalismo fracassou e seu arsenal é desastroso para enfrentar a crise econômica.

Thatcher e Augusto Pinochet
Já no Brasil, a maioria da grande mídia e de seus miquinhos amestrados – oops, quero dizer, comentaristas econômicos – vive no mundo da fantasia e do passado. Para eles, o Consenso de Washington segue firme e forte e quem não vê isso são apenas os “perfeitos idiotas latino-americanos”. Por isso batem forte no governo porque a presidente Dilma Rousseff  mostra disposição de se afastar cada dia mais da ortodoxia incensada pela banca e seus representantes. O catastrofismo das viúvas de Thatcher-Reagan – e de Roberto Campos, por que não? – teve início quando o governo começou a baixar os juros; continuou quando foram lançadas as bases de uma política industrial para o país e aumentou agora, quando o governo resolveu desonerar a folha de vários setores econômicos. O último round foi a grita generalizada contra a ameaça da inflação, um mero pretexto para que os juros voltem a ser aumentados e encham as burras do setor rentista.

Adam Smith
Deveriam ler mais Adam Smith. “É injusto que toda a sociedade contribua para custear despesas cujos benefícios vão apenas para uma parte desta sociedade”. 
      

quinta-feira, 4 de abril de 2013

HÁ MÉTODO NESSA LOUCURA


O ditador Kim Jon-un e a suposta namorada
A maioria das notícias sobre as tensões na península coreana está eivada de simplismos maniqueístas. Como se tudo não passasse de ações tresloucadas de um ditadorzinho inexperiente, herdeiro de uma dinastia cruel e desalmada. É evidente que a dinastia Kim (pai, filho e neto), que governa a Coréia do Norte desde 1945, não é o melhor exemplo de sanidade e compostura políticas, para dizer o mínimo. Mas é preciso entender as crises entre as Coreias de um ponto de vista geopolítico. Por trás de discursos grandiloqüentes e de ameaças guerreiras há muito mais cálculo político do que supõe nossa vã filosofia política.

Incrustada entre potências como a China, Japão e Rússia, a península coreana sempre serviu como campo de batalha desses países. Os coreanos sobreviveram tentando jogar um país contra o outro e, ao mesmo tempo, manifestando subserviência, principalmente em relação aos soberanos chineses. Mas, depois de vencer a China e a Rússia, entre o final do século XIX e o início do XX, o Japão transformou a Coréia num protetorado, entre 1910 e 1945. Durante a Segunda Guerra, os coreanos foram usados pelo Japão como força de trabalho semiescrava. Na Conferência de Yalta, em fevereiro de 1945, os aliados concordaram que a Coréia integraria a futura “zona de influência” soviética, em troca do apoio de Stálin aos EUA na guerra contra o Japão. Com a derrota dos japoneses, os soviéticos ocuparam o norte da península, enquanto que o Exército dos EUA ocupou o sul. Mas os americanos decidiram, unilateralmente e sem consultar sequer os coreanos, dividir a país em torno do Paralelo 38º: a Coréia do Norte, comunista; e a Coréia do Sul, pró-americana. Esse fato, mais o advento da bipolaridade EUA-URSS e da Guerra Fria, adiariam ad infinitum a realização das eleições gerais no país, previstas para 1950.

O regime norte-coreano cultiva o mito da autossuficiência
Em 1950, o ditador norte-coreano Kim Il-Sung – que havia sido colocado no poder pelos soviéticos – mandou suas tropas invadirem a Coréia do Sul, numa tentativa de unificar o país manu militari. Então os EUA, aproveitando o boicote temporário da URSS ao Conselho de Segurança da ONU, fizeram a organização aprovar uma resolução autorizando o envio de tropas para defender a Coréia do Sul. Sob a bandeira da ONU, os EUA enviaram soldados para a península, enquanto que a China comunista engajava seus exércitos para ajudar a Coréia do Norte. A guerra terminou em 1953 em um impasse, com um armistício e a divisão do país, que sobreviveu ao colapso do bloco soviético e permanece até hoje.

A Guerra da Coréia terminou em 1953 e ficou inconclusa
Como explicar a permanência dessa divisão aparentemente anacrônica? Segundo o professor Ian Buruma, do Bard College, “a dinastia Kim se arroga o direito à legitimidade com base no Juche, a ideologia oficial do regime que enfatiza a determinação do país a se tornar autossuficiente”. Com isso, durante a Guerra Fria, Kim Il-sung tentou jogar a China contra a URSS para garantir a proteção de ambos. “Para a dinastia Kim sobreviver, a ameaça de inimigos externos é fundamental”, diz Buruma. Esse jogo acabou com o fim da URSS, em 1991. Como restou apenas a China, o regime norte-coreano ficou totalmente dependente dos humores dos governantes de Pequim.

Treinamento militar na Coréia do Sul: jogos de guerra
Assim, ainda segundo a análise de Buruma, há somente uma maneira de desviar a atenção dessa situação humilhante: “fazer propaganda da autoconfiança do país e transformar num discurso histérico uma iminente ameaça dos imperialistas americanos e seus lacaios sul-coreanos”. Os ziguezagues em relação à questão nuclear fazem parte desse jogo.

O drama, no entanto, é que uma mudança do status quo da região não interessa a nenhum dos players da região. “A China quer manter o país como um Estado-tampão e teme que milhões de refugiados fujam para o território chinês no caso de um colapso norte-coreano; os sul-coreanos jamais poderiam se permitir absorver a Coréia do Norte da mesma maneira como a Alemanha Ocidental incorporou a República Democrática da Alemanha; e nem o Japão, nem os Estados Unidos mostram-se dispostos a pagar pela limpeza depois de uma implosão norte-coreana”, diz o professor Buruma. 
           

VOVÔ NÃO IRIA GOSTAR...

Aécio Neves, muito menor que o avô 

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), provável candidato tucano à Presidência da República em 2014, tropeçou na língua e chamou o golpe cívico-militar de 1964 de “revolução”, como os militares e seus acólitos costumavam se referir à ruptura da legalidade e instalação da ditadura. A expressão foi usada em um encontro do senador mineiro com prefeitos na cidade de Santos. Defendendo as reivindicações dos prefeitos, Aécio fez um relato de episódios históricos que teriam levado à centralização do Estado brasileiro. Em determinado momento, o senador disse que esse fenômeno advém da proclamação da República. “Veio a revolução de 64, novo período de grande concentração de poder nas mãos da União, apesar de ter sido um período em que foram criadas políticas compensatórias para determinadas regiões menos desenvolvidas”, disse o tucano. Indagado por jornalistas sobre a razão de ter usado tal expressão, Aécio tergiversou: “ditadura, revolução, como quiserem”. Depois, talvez arrependido, arrematou: “ditadura, regime autoritário, que todos nós lutamos para que fosse vencido”. Então, tá...

A linguagem, todos sabemos, não é inocente. Aécio deve ter sido traído pelas práticas de seu partido, cada vez mais uma caricatura da velha UDN. Vide o que aconteceu com o secretário particular de Alckmin, esse janotinha direitista chamado Ricardo Salles. As bobagens reacionárias que ele disse (questionou, por exemplo, a existência de crimes cometidos pelos militares durante a ditadura) provocaram reações de antigos militantes esquerdistas que hoje estão no ninho tucano, como o senador Aloysio Nunes Ferreira (ex-ALN) e o ex-vice-governador Alberto Goldman (ex-PCB).

Tancredo não votou em Castello, mas Ulysses sim
Quem deve estar se revirando no túmulo é o avô de Aécio, Tancredo Neves, que morreu presidente sem ter conseguido tomar posse. Tido como uma das raposas conservadoras do velho PSD, Tancredo, no entanto, jamais traiu suas origens e convicções. Era ministro da Justiça de Getúlio Vargas em 1954 quando os brigadeiros se amotinaram na “República do Galeão”, no episódio do atentado ao jornalista Carlos Lacerda que resultou na morte do major da Aeronáutica Rubens Vaz. Tancredo foi o único do gabinete a sugerir que Getúlio prendesse os revoltosos. Quando Jango foi deposto, Tancredo o acompanhou até o aeroporto para o voo que o levaria ao exílio. E quando os militares reabriram o Congresso mutilado pelas cassações para que fosse encenada a farsa da “eleição” do marechal Castello Branco à Presidência, Tancredo foi o único parlamentar do PSD a votar contra. O ex-presidente Juscelino Kubitschek e o deputado Ulysses Guimarães - futuro "Senhor Diretas" - votaram em Castello. Tancredo era um conservador esclarecido, ao contrário do neto.           

terça-feira, 2 de abril de 2013

NASCIMENTO E MORTE DO SOCIALISMO

Revoluções de 1848 na Europa, o berço do socialismo 

O socialismo, como força política significativa, surgiu na Europa em meados do século XIX, depois da grande vaga revolucionária de 1848 e da Comuna de Paris de 1871. O movimento se armou com as teorias comunistas elaboradas por Karl Marx e Friedrich Engels, organizando-se em sindicatos e partidos operários, principalmente na Alemanha e na França, onde se forjaram atuando a duras penas, sob a repressão implacável de Otto von Bismarck e Napoleão III, respectivamente. O programa original dos socialistas europeus – já então conhecidos como social-democratas – era revolucionário: na esteira de Marx e Engels, previa que as contradições internas do capitalismo abririam o caminho para uma revolução do proletariado e a implantação do socialismo. Para a social-democracia nascente, a democracia representativa era apenas um meio de se fortalecer para denunciar o capitalismo.

Karl Marx e Friedrich Engels
Mas no final do século XIX, ao perceber que a crise final do capitalismo não acontecia e que as condições materiais da classe operária melhoravam, principalmente por causa da ação dos socialistas, teóricos e políticos como Edward Bernstein (Alemanha) e Alexandre Millerand (França) começaram a pensar que a revolução se tornara impossível e que agora a tarefa dos socialistas era lutar para reformar o capitalismo, tornando-o mais humano. Essas teses, chamadas de “revisionistas” e “possibilistas” foram atacadas pela nata da II Internacional, de Karl Kautsky a Rosa Luxemburgo, passando por Georg Plekânov e August Bebel. Mas a II Internacional só racharia mesmo com a Primeira Guerra Mundial, quando seus principais dirigentes decidiram apoiar seus governos nacionais. Líderes como Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Vladimir Lênin denunciaram o “chauvinismo” das lideranças da organização e romperam com ela.

A Revolução Bolchevique de Outubro de 1917
O racha se tornaria definitivo em 1917, quando Lênin e Trotsky lideraram a revolução bolcheviue (comunista) na Rússia czarista. A partir de então, o movimento operário se dividiu em duas alas inconciliáveis: de um lado os social-democratas ou socialistas, que acabaram adotando as teorias de Bernstein/Millerand, embora, num primeiro momento, sem abandonar o discurso marxista; de outro, os comunistas, que diziam que apenas resgatavam a tradição revolucionária abandonada pela II Internacional. A III Internacional (ou Komintern), com sede em Moscou, surgia como a sede da revolução socialista internacional, esperando pelo despertar do proletariado ocidental.

Stálin na Praça Vermelha
Mas a revolução mundial faltou ao encontro. Fracassou na Alemanha, na Hungria, na Polônia e na Itália. Os soviéticos então recuaram a adotaram a ideia – até então estranha ao marxismo – de “socialismo num só país”. A partir de então, o experimento comunista na União Soviética, com a perenização de uma ditadura de partido único, parecia indicar o único caminho possível à esquerda revolucionária mundial – dissidências como o trotskismo eram marginais. Mesmo com a coletivização forçada entre 1929-1934, a derrota dos republicanos na guerra civil espanhola de 1936; os sangrentos expurgos de 1936-1938 no PC soviético e o colossal erro de avaliação da III Internacional, cuja subestimação do perigo nazista na Alemanha impediu a formação de uma aliança entre comunistas e socialistas. Mas o decisivo envolvimento do Exército Vermelho na II Guerra na derrota do nazi-fascismo, bem como a formação de inúmeras guerrilhas comunistas contra os alemães em vários países europeus (Itália, França, Iugoslávia) levou o prestígio da URSS aos píncaros.

Willy Brandt no Congresso de Bad Godsberg (1959)
O fim do conflito mundial trouxe a bipolaridade EUA/URSS e a Guerra Fria. Regimes pró-soviéticos dominaram o Leste Europeu. E a social-democracia finalmente deu adeus ao marxismo em 1959, quando o Partido Social Democrata Alemão, no Congresso de Bad Godsberg, abandonou a referência à luta de classes, ao proletariado e à revolução socialista. Por outro lado, o congresso mudou a relação do partido com a democracia representativa: de tática para tomar o poder ela virou “valor universal”.

O período de 1950 a 1979 foram os “anos dourados” da social-democracia europeia. Com ajuda do Plano Marshall, do keynesianismo e, às vezes, até dos partidos conservadores, a social-democracia construiu o welfare state na Europa, com pleno emprego, ampla rede de proteção social e garantias individuais. O preço foi se alinhar aos Estados Unidos e à OTAN (aliança militar ocidental) contra a União Soviética. Já esta última, apesar de experimentar grande desenvolvimento econômico e tecnológico, enfrentou muitas rebeliões em seus satélites do Leste: Belgrado (1947); Berlim (1953); Budapeste e Varsóvia (1956) e Praga (1968) – todas, à exceção de Belgrado e Varsóvia, sufocadas com tanques do Pacto de Varsóvia. Mesmo a vitória dos comunistas na China, em 1949, se revelaria fonte de permanentes dores de cabeça para Moscou, até o rompimento, em 1961.

Berlinguer, Carrillo e Marchais, os pais do Eurocomunismo
Os anos 1970 e 1980 trouxeram mudanças significativas para os grandes partidos comunistas e socialistas da Europa ocidental. Em primeiro lugar, os maiores PCs do Ocidente (Itália, França e Espanha) romperam com a tutela de Moscou e fundaram o “Eurocomunismo”, uma tendência que, de certa maneira, fez o caminho de volta e abraçou as teses reformistas que o SPD adotara em Bad Godsberb. Entre as mudanças, a mais decisiva para os comunistas foi a admissão de que a democracia deixara de ser expediente tático para se tornar “valor universal”, como para os social-democratas.

Estátua de Lênin retirada
Estes, por sua vez, viveriam uma espécie de “reação termidoriana”. Acossados pelos conservadores, que adotaram o receituário neoliberal para desmantelar o welfare state, os social-democratas capitularam, copiando a fórmula de seus inimigos. Começaram na Espanha, com Felipe González; depois na França, com François Mitterrand; no Reino Unido, com Tony Blair; e finalmente na Alemanha, com Gerhard Schröder. Ao aplicarem as mesmas políticas de austeridade, arrocho, corte de impostos e aumento do desemprego de Thatcher e Ronald Reagan, os social-democratas jogaram a última pá de cal no welfare state, talvez o melhor experimento social da humanidade. A queda do Muro de Berlim (1989) e a implosão da União Soviética (1991) acabaram por completar esse desmonte. O resultado é que hoje não apenas a utopia comunista foi derrotada; também a ideia do capitalismo com face humana morreu. Ficamos à mercê das teorias liberticidas de Milton Friedman e Friedrich Hayek, irremediavelmente fadados a viver no mundo hobbesiano do homem como lobo do homem.    

segunda-feira, 1 de abril de 2013

1º DE ABRIL DE 1964: O DIA DA INFÂMIA


 
João Goulart (ao lado da mulher, Maria Thereza):  opção pela não-resistência 
Há 49 anos, no dia da mentira, as mesmas forças econômicas e políticas que hoje fazem feroz oposição ao governo de Dilma Rousseff e ao ex-presidente Lula se articularam com a grande mídia (como hoje...), setores de direita das Forças Armadas e a cúpula da Igreja Católica para desfechar um golpe de Estado contra o presidente João Goulart. Esses setores estavam inconformados com as “reformas de base”, prometidas por Jango, e com a ascensão ao primeiro plano da vida política do país dos segmentos historicamente excluídos: operários, camponeses e soldados. Para ganhar a classe média, os conservadores manipularam habilmente o temor do “perigo comunista” e da instalação de uma “república sindical” no país.

General Olympio Mourão, a "vaca fardada" 
Mas, articulado desde 1954 contra Getúlio Vargas, o golpe só saiu porque um general de três estrelas tresloucado, Olympio Mourão Filho – que mais tarde se autodenominaria uma “vaca fardada” – se precipitaria fazendo seus recrutas, sediados em Minas Gerais, marcharem contra o Rio de Janeiro, então a sede do poder central. Dois ou três caças da FAB teriam resolvido o problema, se o presidente Goulart estivesse disposto a resistir, como fizera Leonel Brizola em 1961, quando os comandantes militares tentaram impedir a posse de Jango depois da renúncia de Jânio Quadros. Mas Jango preferiu deixar o poder para evitar uma guerra civil, que provocaria, segundo ele, “derramamento de sangue de brasileiros”. No entanto, é certo que, se houvesse resistência, o golpe seria apenas adiado, já que a ruptura entre Jango e a cúpula militar se tornara irreversível desde que o presidente prestou sua solidariedade aos marinheiros amotinados e aos sargentos reunidos no Automóvel Clube às vésperas da quartelada. De qualquer forma, a resistência tornaria as coisas bem mais difíceis para os golpistas.

A ausência de resistência teve conseqüências trágicas. Em primeiro lugar, levou parte da esquerda que antes orbitava em torno do Partido Comunista Brasileiro (PCB) a optar pela luta armada contra o regime, num momento de ampla desmobilização e desorganização dos trabalhadores e dos camponeses. O resultado foi uma repressão brutal e feroz, particularmente depois do AI-5, que transformou a tortura em instrumento de Estado e provocou centenas de mortos e “desaparecidos” políticos. Em segundo lugar, a ausência de resistência ao golpe permitiu que, quando o regime finalmente se exauriu, tivesse condições de promover a transição controlada – a tal “abertura lenta, segura e gradual” – na qual os militares bloquearam toda possibilidade de investigação dos crimes da ditadura.

Os chefes da ditadura e da repressão: Castello, Costa e Silva e Geisel 
Agora, com a Comissão da Verdade, teremos condições de começar a escrever essa história, apesar do pessimismo de muito na esquerda. Estão vindo à tona as circunstâncias da prisão e morte de Rubens Paiva e Vladimir Herzog, entre outros, bem como as ligações perigosas entre os empresários e os porões da ditadura, e entre os diplomatas americanos e os generais brasileiros. Essa discussão está se tornando pública. É o primeiro passo para incriminar os responsáveis pelos crimes da ditadura, apesar da decisão do STF contra a punição aos repressores. Temos que criar condições para responsabilizar os chefões, e não apenas a parte inferior da cadeia de comando. Brilhante Ustra; Carlinhos Metralha; o capitão Albernaz; Fleury; o brigadeiro Burnier, mas também Médici, Costa e Silva, Geisel, Castello e Figueiredo. Que sejam postumamente expulsos do Exército e desonrados, como aconteceu com Jorge Videla ainda em vida.
    

quarta-feira, 27 de março de 2013

CÁMPORA, O BREVE



Héctor Cámpora toma posse como presidente em 1973
Continuo meu trabalho de resgate de personagens históricos esquecidos ou mais ou menos esquecidos. Hoje é a vez de Héctor Cámpora que, há exatos 40 anos, foi eleito presidente da Argentina, tendo governado por menos de dois meses. Cámpora se candidatou por uma frente peronista, a Frente Justicialista de Libertação (FreJuLi) porque a ditadura do general Alejandro Augustín Lanusse proibira o general Juan Domingo Perón, exilado na Espanha desde 1955, de concorrer à Casa Rosada.
Perón preparava sua volta triunfal. O slogan da campanha era: “Cámpora no governo; Perón no poder”. Perón o escolhera por sua lealdade, a qual vários companheiros ridicularizavam. Na época circulava em Buenos Aires uma piada; Perón se dirige a Cámpora: “Que horas são?”, pergunta. “A hora que o senhor quiser, meu general”, responde Cámpora.    
Tudo correu bem até que Cámpora vestiu a faixa presidencial, em 25 de maio de 1973. Os problemas com Perón começaram na mesma noite, quando manifestantes Montoneros – a esquerda peronista – abriram as prisões e libertaram presos políticos que estavam condenados ou sendo julgados por tribunais militares. A iniciativa atropelou inclusive a anistia política que tinha sido acordada por Cámpora com as forças políticas argentinas, mas precisava de 48 horas para ser transformada em lei.    
Cámpora (esq.) e Perón
A incapacidade de Cámpora em controlar a situação irritou o velho caudilho, que do exílio madrilenho pôde ver os montoneros ocuparem edifícios públicos e privados. O general antecipou seu regresso e forçou Cámpora a renunciar 49 dias depois de ter assumido. O flerte de Cámpora com a esquerda fez com que ele caísse definitivamente em desgraça com Perón. Ele ficou completamente isolado dentro do peronismo.   
Nas novas eleições, em 23 de setembro de 1973, Juan Perón e sua mulher Isabelita, candidata a vice, tiveram 61% dos votos. Aquelas eleições não seriam da Juventude Peronista e dos Montoneros, mas de seus rivais, a direita peronista e os sindicatos. O tempo daqueles jovens e o do próprio Cámpora tinha passado. O rompimento final se deu no dia 1º de maio de 1974, quando, num comício no balcão da Casa Rosada, Perón chamou os militantes esquerdistas de “imberbes e estúpidos” e os expulsou da Praça de Mayo. Dois meses depois, o próprio Perón estava morto. E a Argentina, sob Isabelita e López Rega, iniciava a descida aos infernos.
Hoje, a esquerda peronista identificada com o governo Kirchner formou uma organização denominada La Cámpora, em homenagem ao velho líder falecido em 1980. A organização é chefiada pelo filho de Nestor e Cristina, Máximo Kirchner.

terça-feira, 26 de março de 2013

UMA EPOPÉIA SOVIÉTICA

Guerrilheiras soviéticas

Há 70 anos ocorreu na Ucrânia uma das maiores expedições punitivas realizadas pelos nazistas durante a II Guerra Mundial. O episódio, estranhamente esquecido, ficaria conhecido como Massacre de Koriukivka, vilarejo da Ucrânia onde as tropas SS assassinaram 6.700 habitantes e queimaram suas casas, em represália às ações dos partisans soviéticos liderados por Oleksiy Federovych Fedorov (1901-1989). A ironia é que os invasores alemães tinham sido inicialmente bem recebidos por parte dos ucranianos oprimidos pelo stalinismo, mas a política de terra arrasada dos nazistas fez crescer rapidamente o apoio à resistência. O vilarejo de Koriukivka foi libertado pelo Exército Vermelho dias depois, em 19 de março. Para se ter uma ideia da tragédia em Koriukivka, o massacre da cidade de Lídice (Tchecoslováquia) no ano anterior, em represália ao assassinato do general SS Reinhard Heydrich, custou a vida de 340 pessoas (1.500 em toda a Tchecoslováquia). Já no episódio das Fossas Ardeatinas, que teve lugar em 24 de março de 1944 em Roma, 335 italianos foram mortos pelos nazistas em represália ao assassinato 33 soldados alemães pelos partigiani.

Oleksiy Fedorov
Já Oleksiy Fedorov se tornaria um dos maiores ícones da resistência soviética. Ele havia lutado em 1920 na Guerra Civil russa nas fileiras do Exército Vermelho e entrado para o Partido Comunista em 1927. Quando a Alemanha Nazista invadiu a União Soviética, ele se tornou um dos principais organizadores da resistência armada. Entre 1941-1942 Fedorov comandou unidades guerrilheiras que mataram cerca de mil soldados alemães. Suas unidades guerrilheiras ainda participaram da libertação de outras regiões da União Soviética. Durante a operação na Central Ferroviária de Kovel, em 1943, seus partisans destruíram cerca de 500 vagões de suprimentos alemães, com munição, combustível e equipamentos. Por sua atuação na resistência antinazista, Fedorov recebeu o título de Heroi da União Soviética e a Ordem de Lênin.