quinta-feira, 4 de abril de 2013

HÁ MÉTODO NESSA LOUCURA


O ditador Kim Jon-un e a suposta namorada
A maioria das notícias sobre as tensões na península coreana está eivada de simplismos maniqueístas. Como se tudo não passasse de ações tresloucadas de um ditadorzinho inexperiente, herdeiro de uma dinastia cruel e desalmada. É evidente que a dinastia Kim (pai, filho e neto), que governa a Coréia do Norte desde 1945, não é o melhor exemplo de sanidade e compostura políticas, para dizer o mínimo. Mas é preciso entender as crises entre as Coreias de um ponto de vista geopolítico. Por trás de discursos grandiloqüentes e de ameaças guerreiras há muito mais cálculo político do que supõe nossa vã filosofia política.

Incrustada entre potências como a China, Japão e Rússia, a península coreana sempre serviu como campo de batalha desses países. Os coreanos sobreviveram tentando jogar um país contra o outro e, ao mesmo tempo, manifestando subserviência, principalmente em relação aos soberanos chineses. Mas, depois de vencer a China e a Rússia, entre o final do século XIX e o início do XX, o Japão transformou a Coréia num protetorado, entre 1910 e 1945. Durante a Segunda Guerra, os coreanos foram usados pelo Japão como força de trabalho semiescrava. Na Conferência de Yalta, em fevereiro de 1945, os aliados concordaram que a Coréia integraria a futura “zona de influência” soviética, em troca do apoio de Stálin aos EUA na guerra contra o Japão. Com a derrota dos japoneses, os soviéticos ocuparam o norte da península, enquanto que o Exército dos EUA ocupou o sul. Mas os americanos decidiram, unilateralmente e sem consultar sequer os coreanos, dividir a país em torno do Paralelo 38º: a Coréia do Norte, comunista; e a Coréia do Sul, pró-americana. Esse fato, mais o advento da bipolaridade EUA-URSS e da Guerra Fria, adiariam ad infinitum a realização das eleições gerais no país, previstas para 1950.

O regime norte-coreano cultiva o mito da autossuficiência
Em 1950, o ditador norte-coreano Kim Il-Sung – que havia sido colocado no poder pelos soviéticos – mandou suas tropas invadirem a Coréia do Sul, numa tentativa de unificar o país manu militari. Então os EUA, aproveitando o boicote temporário da URSS ao Conselho de Segurança da ONU, fizeram a organização aprovar uma resolução autorizando o envio de tropas para defender a Coréia do Sul. Sob a bandeira da ONU, os EUA enviaram soldados para a península, enquanto que a China comunista engajava seus exércitos para ajudar a Coréia do Norte. A guerra terminou em 1953 em um impasse, com um armistício e a divisão do país, que sobreviveu ao colapso do bloco soviético e permanece até hoje.

A Guerra da Coréia terminou em 1953 e ficou inconclusa
Como explicar a permanência dessa divisão aparentemente anacrônica? Segundo o professor Ian Buruma, do Bard College, “a dinastia Kim se arroga o direito à legitimidade com base no Juche, a ideologia oficial do regime que enfatiza a determinação do país a se tornar autossuficiente”. Com isso, durante a Guerra Fria, Kim Il-sung tentou jogar a China contra a URSS para garantir a proteção de ambos. “Para a dinastia Kim sobreviver, a ameaça de inimigos externos é fundamental”, diz Buruma. Esse jogo acabou com o fim da URSS, em 1991. Como restou apenas a China, o regime norte-coreano ficou totalmente dependente dos humores dos governantes de Pequim.

Treinamento militar na Coréia do Sul: jogos de guerra
Assim, ainda segundo a análise de Buruma, há somente uma maneira de desviar a atenção dessa situação humilhante: “fazer propaganda da autoconfiança do país e transformar num discurso histérico uma iminente ameaça dos imperialistas americanos e seus lacaios sul-coreanos”. Os ziguezagues em relação à questão nuclear fazem parte desse jogo.

O drama, no entanto, é que uma mudança do status quo da região não interessa a nenhum dos players da região. “A China quer manter o país como um Estado-tampão e teme que milhões de refugiados fujam para o território chinês no caso de um colapso norte-coreano; os sul-coreanos jamais poderiam se permitir absorver a Coréia do Norte da mesma maneira como a Alemanha Ocidental incorporou a República Democrática da Alemanha; e nem o Japão, nem os Estados Unidos mostram-se dispostos a pagar pela limpeza depois de uma implosão norte-coreana”, diz o professor Buruma. 
           

VOVÔ NÃO IRIA GOSTAR...

Aécio Neves, muito menor que o avô 

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), provável candidato tucano à Presidência da República em 2014, tropeçou na língua e chamou o golpe cívico-militar de 1964 de “revolução”, como os militares e seus acólitos costumavam se referir à ruptura da legalidade e instalação da ditadura. A expressão foi usada em um encontro do senador mineiro com prefeitos na cidade de Santos. Defendendo as reivindicações dos prefeitos, Aécio fez um relato de episódios históricos que teriam levado à centralização do Estado brasileiro. Em determinado momento, o senador disse que esse fenômeno advém da proclamação da República. “Veio a revolução de 64, novo período de grande concentração de poder nas mãos da União, apesar de ter sido um período em que foram criadas políticas compensatórias para determinadas regiões menos desenvolvidas”, disse o tucano. Indagado por jornalistas sobre a razão de ter usado tal expressão, Aécio tergiversou: “ditadura, revolução, como quiserem”. Depois, talvez arrependido, arrematou: “ditadura, regime autoritário, que todos nós lutamos para que fosse vencido”. Então, tá...

A linguagem, todos sabemos, não é inocente. Aécio deve ter sido traído pelas práticas de seu partido, cada vez mais uma caricatura da velha UDN. Vide o que aconteceu com o secretário particular de Alckmin, esse janotinha direitista chamado Ricardo Salles. As bobagens reacionárias que ele disse (questionou, por exemplo, a existência de crimes cometidos pelos militares durante a ditadura) provocaram reações de antigos militantes esquerdistas que hoje estão no ninho tucano, como o senador Aloysio Nunes Ferreira (ex-ALN) e o ex-vice-governador Alberto Goldman (ex-PCB).

Tancredo não votou em Castello, mas Ulysses sim
Quem deve estar se revirando no túmulo é o avô de Aécio, Tancredo Neves, que morreu presidente sem ter conseguido tomar posse. Tido como uma das raposas conservadoras do velho PSD, Tancredo, no entanto, jamais traiu suas origens e convicções. Era ministro da Justiça de Getúlio Vargas em 1954 quando os brigadeiros se amotinaram na “República do Galeão”, no episódio do atentado ao jornalista Carlos Lacerda que resultou na morte do major da Aeronáutica Rubens Vaz. Tancredo foi o único do gabinete a sugerir que Getúlio prendesse os revoltosos. Quando Jango foi deposto, Tancredo o acompanhou até o aeroporto para o voo que o levaria ao exílio. E quando os militares reabriram o Congresso mutilado pelas cassações para que fosse encenada a farsa da “eleição” do marechal Castello Branco à Presidência, Tancredo foi o único parlamentar do PSD a votar contra. O ex-presidente Juscelino Kubitschek e o deputado Ulysses Guimarães - futuro "Senhor Diretas" - votaram em Castello. Tancredo era um conservador esclarecido, ao contrário do neto.           

terça-feira, 2 de abril de 2013

NASCIMENTO E MORTE DO SOCIALISMO

Revoluções de 1848 na Europa, o berço do socialismo 

O socialismo, como força política significativa, surgiu na Europa em meados do século XIX, depois da grande vaga revolucionária de 1848 e da Comuna de Paris de 1871. O movimento se armou com as teorias comunistas elaboradas por Karl Marx e Friedrich Engels, organizando-se em sindicatos e partidos operários, principalmente na Alemanha e na França, onde se forjaram atuando a duras penas, sob a repressão implacável de Otto von Bismarck e Napoleão III, respectivamente. O programa original dos socialistas europeus – já então conhecidos como social-democratas – era revolucionário: na esteira de Marx e Engels, previa que as contradições internas do capitalismo abririam o caminho para uma revolução do proletariado e a implantação do socialismo. Para a social-democracia nascente, a democracia representativa era apenas um meio de se fortalecer para denunciar o capitalismo.

Karl Marx e Friedrich Engels
Mas no final do século XIX, ao perceber que a crise final do capitalismo não acontecia e que as condições materiais da classe operária melhoravam, principalmente por causa da ação dos socialistas, teóricos e políticos como Edward Bernstein (Alemanha) e Alexandre Millerand (França) começaram a pensar que a revolução se tornara impossível e que agora a tarefa dos socialistas era lutar para reformar o capitalismo, tornando-o mais humano. Essas teses, chamadas de “revisionistas” e “possibilistas” foram atacadas pela nata da II Internacional, de Karl Kautsky a Rosa Luxemburgo, passando por Georg Plekânov e August Bebel. Mas a II Internacional só racharia mesmo com a Primeira Guerra Mundial, quando seus principais dirigentes decidiram apoiar seus governos nacionais. Líderes como Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Vladimir Lênin denunciaram o “chauvinismo” das lideranças da organização e romperam com ela.

A Revolução Bolchevique de Outubro de 1917
O racha se tornaria definitivo em 1917, quando Lênin e Trotsky lideraram a revolução bolcheviue (comunista) na Rússia czarista. A partir de então, o movimento operário se dividiu em duas alas inconciliáveis: de um lado os social-democratas ou socialistas, que acabaram adotando as teorias de Bernstein/Millerand, embora, num primeiro momento, sem abandonar o discurso marxista; de outro, os comunistas, que diziam que apenas resgatavam a tradição revolucionária abandonada pela II Internacional. A III Internacional (ou Komintern), com sede em Moscou, surgia como a sede da revolução socialista internacional, esperando pelo despertar do proletariado ocidental.

Stálin na Praça Vermelha
Mas a revolução mundial faltou ao encontro. Fracassou na Alemanha, na Hungria, na Polônia e na Itália. Os soviéticos então recuaram a adotaram a ideia – até então estranha ao marxismo – de “socialismo num só país”. A partir de então, o experimento comunista na União Soviética, com a perenização de uma ditadura de partido único, parecia indicar o único caminho possível à esquerda revolucionária mundial – dissidências como o trotskismo eram marginais. Mesmo com a coletivização forçada entre 1929-1934, a derrota dos republicanos na guerra civil espanhola de 1936; os sangrentos expurgos de 1936-1938 no PC soviético e o colossal erro de avaliação da III Internacional, cuja subestimação do perigo nazista na Alemanha impediu a formação de uma aliança entre comunistas e socialistas. Mas o decisivo envolvimento do Exército Vermelho na II Guerra na derrota do nazi-fascismo, bem como a formação de inúmeras guerrilhas comunistas contra os alemães em vários países europeus (Itália, França, Iugoslávia) levou o prestígio da URSS aos píncaros.

Willy Brandt no Congresso de Bad Godsberg (1959)
O fim do conflito mundial trouxe a bipolaridade EUA/URSS e a Guerra Fria. Regimes pró-soviéticos dominaram o Leste Europeu. E a social-democracia finalmente deu adeus ao marxismo em 1959, quando o Partido Social Democrata Alemão, no Congresso de Bad Godsberg, abandonou a referência à luta de classes, ao proletariado e à revolução socialista. Por outro lado, o congresso mudou a relação do partido com a democracia representativa: de tática para tomar o poder ela virou “valor universal”.

O período de 1950 a 1979 foram os “anos dourados” da social-democracia europeia. Com ajuda do Plano Marshall, do keynesianismo e, às vezes, até dos partidos conservadores, a social-democracia construiu o welfare state na Europa, com pleno emprego, ampla rede de proteção social e garantias individuais. O preço foi se alinhar aos Estados Unidos e à OTAN (aliança militar ocidental) contra a União Soviética. Já esta última, apesar de experimentar grande desenvolvimento econômico e tecnológico, enfrentou muitas rebeliões em seus satélites do Leste: Belgrado (1947); Berlim (1953); Budapeste e Varsóvia (1956) e Praga (1968) – todas, à exceção de Belgrado e Varsóvia, sufocadas com tanques do Pacto de Varsóvia. Mesmo a vitória dos comunistas na China, em 1949, se revelaria fonte de permanentes dores de cabeça para Moscou, até o rompimento, em 1961.

Berlinguer, Carrillo e Marchais, os pais do Eurocomunismo
Os anos 1970 e 1980 trouxeram mudanças significativas para os grandes partidos comunistas e socialistas da Europa ocidental. Em primeiro lugar, os maiores PCs do Ocidente (Itália, França e Espanha) romperam com a tutela de Moscou e fundaram o “Eurocomunismo”, uma tendência que, de certa maneira, fez o caminho de volta e abraçou as teses reformistas que o SPD adotara em Bad Godsberb. Entre as mudanças, a mais decisiva para os comunistas foi a admissão de que a democracia deixara de ser expediente tático para se tornar “valor universal”, como para os social-democratas.

Estátua de Lênin retirada
Estes, por sua vez, viveriam uma espécie de “reação termidoriana”. Acossados pelos conservadores, que adotaram o receituário neoliberal para desmantelar o welfare state, os social-democratas capitularam, copiando a fórmula de seus inimigos. Começaram na Espanha, com Felipe González; depois na França, com François Mitterrand; no Reino Unido, com Tony Blair; e finalmente na Alemanha, com Gerhard Schröder. Ao aplicarem as mesmas políticas de austeridade, arrocho, corte de impostos e aumento do desemprego de Thatcher e Ronald Reagan, os social-democratas jogaram a última pá de cal no welfare state, talvez o melhor experimento social da humanidade. A queda do Muro de Berlim (1989) e a implosão da União Soviética (1991) acabaram por completar esse desmonte. O resultado é que hoje não apenas a utopia comunista foi derrotada; também a ideia do capitalismo com face humana morreu. Ficamos à mercê das teorias liberticidas de Milton Friedman e Friedrich Hayek, irremediavelmente fadados a viver no mundo hobbesiano do homem como lobo do homem.    

segunda-feira, 1 de abril de 2013

1º DE ABRIL DE 1964: O DIA DA INFÂMIA


 
João Goulart (ao lado da mulher, Maria Thereza):  opção pela não-resistência 
Há 49 anos, no dia da mentira, as mesmas forças econômicas e políticas que hoje fazem feroz oposição ao governo de Dilma Rousseff e ao ex-presidente Lula se articularam com a grande mídia (como hoje...), setores de direita das Forças Armadas e a cúpula da Igreja Católica para desfechar um golpe de Estado contra o presidente João Goulart. Esses setores estavam inconformados com as “reformas de base”, prometidas por Jango, e com a ascensão ao primeiro plano da vida política do país dos segmentos historicamente excluídos: operários, camponeses e soldados. Para ganhar a classe média, os conservadores manipularam habilmente o temor do “perigo comunista” e da instalação de uma “república sindical” no país.

General Olympio Mourão, a "vaca fardada" 
Mas, articulado desde 1954 contra Getúlio Vargas, o golpe só saiu porque um general de três estrelas tresloucado, Olympio Mourão Filho – que mais tarde se autodenominaria uma “vaca fardada” – se precipitaria fazendo seus recrutas, sediados em Minas Gerais, marcharem contra o Rio de Janeiro, então a sede do poder central. Dois ou três caças da FAB teriam resolvido o problema, se o presidente Goulart estivesse disposto a resistir, como fizera Leonel Brizola em 1961, quando os comandantes militares tentaram impedir a posse de Jango depois da renúncia de Jânio Quadros. Mas Jango preferiu deixar o poder para evitar uma guerra civil, que provocaria, segundo ele, “derramamento de sangue de brasileiros”. No entanto, é certo que, se houvesse resistência, o golpe seria apenas adiado, já que a ruptura entre Jango e a cúpula militar se tornara irreversível desde que o presidente prestou sua solidariedade aos marinheiros amotinados e aos sargentos reunidos no Automóvel Clube às vésperas da quartelada. De qualquer forma, a resistência tornaria as coisas bem mais difíceis para os golpistas.

A ausência de resistência teve conseqüências trágicas. Em primeiro lugar, levou parte da esquerda que antes orbitava em torno do Partido Comunista Brasileiro (PCB) a optar pela luta armada contra o regime, num momento de ampla desmobilização e desorganização dos trabalhadores e dos camponeses. O resultado foi uma repressão brutal e feroz, particularmente depois do AI-5, que transformou a tortura em instrumento de Estado e provocou centenas de mortos e “desaparecidos” políticos. Em segundo lugar, a ausência de resistência ao golpe permitiu que, quando o regime finalmente se exauriu, tivesse condições de promover a transição controlada – a tal “abertura lenta, segura e gradual” – na qual os militares bloquearam toda possibilidade de investigação dos crimes da ditadura.

Os chefes da ditadura e da repressão: Castello, Costa e Silva e Geisel 
Agora, com a Comissão da Verdade, teremos condições de começar a escrever essa história, apesar do pessimismo de muito na esquerda. Estão vindo à tona as circunstâncias da prisão e morte de Rubens Paiva e Vladimir Herzog, entre outros, bem como as ligações perigosas entre os empresários e os porões da ditadura, e entre os diplomatas americanos e os generais brasileiros. Essa discussão está se tornando pública. É o primeiro passo para incriminar os responsáveis pelos crimes da ditadura, apesar da decisão do STF contra a punição aos repressores. Temos que criar condições para responsabilizar os chefões, e não apenas a parte inferior da cadeia de comando. Brilhante Ustra; Carlinhos Metralha; o capitão Albernaz; Fleury; o brigadeiro Burnier, mas também Médici, Costa e Silva, Geisel, Castello e Figueiredo. Que sejam postumamente expulsos do Exército e desonrados, como aconteceu com Jorge Videla ainda em vida.
    

quarta-feira, 27 de março de 2013

CÁMPORA, O BREVE



Héctor Cámpora toma posse como presidente em 1973
Continuo meu trabalho de resgate de personagens históricos esquecidos ou mais ou menos esquecidos. Hoje é a vez de Héctor Cámpora que, há exatos 40 anos, foi eleito presidente da Argentina, tendo governado por menos de dois meses. Cámpora se candidatou por uma frente peronista, a Frente Justicialista de Libertação (FreJuLi) porque a ditadura do general Alejandro Augustín Lanusse proibira o general Juan Domingo Perón, exilado na Espanha desde 1955, de concorrer à Casa Rosada.
Perón preparava sua volta triunfal. O slogan da campanha era: “Cámpora no governo; Perón no poder”. Perón o escolhera por sua lealdade, a qual vários companheiros ridicularizavam. Na época circulava em Buenos Aires uma piada; Perón se dirige a Cámpora: “Que horas são?”, pergunta. “A hora que o senhor quiser, meu general”, responde Cámpora.    
Tudo correu bem até que Cámpora vestiu a faixa presidencial, em 25 de maio de 1973. Os problemas com Perón começaram na mesma noite, quando manifestantes Montoneros – a esquerda peronista – abriram as prisões e libertaram presos políticos que estavam condenados ou sendo julgados por tribunais militares. A iniciativa atropelou inclusive a anistia política que tinha sido acordada por Cámpora com as forças políticas argentinas, mas precisava de 48 horas para ser transformada em lei.    
Cámpora (esq.) e Perón
A incapacidade de Cámpora em controlar a situação irritou o velho caudilho, que do exílio madrilenho pôde ver os montoneros ocuparem edifícios públicos e privados. O general antecipou seu regresso e forçou Cámpora a renunciar 49 dias depois de ter assumido. O flerte de Cámpora com a esquerda fez com que ele caísse definitivamente em desgraça com Perón. Ele ficou completamente isolado dentro do peronismo.   
Nas novas eleições, em 23 de setembro de 1973, Juan Perón e sua mulher Isabelita, candidata a vice, tiveram 61% dos votos. Aquelas eleições não seriam da Juventude Peronista e dos Montoneros, mas de seus rivais, a direita peronista e os sindicatos. O tempo daqueles jovens e o do próprio Cámpora tinha passado. O rompimento final se deu no dia 1º de maio de 1974, quando, num comício no balcão da Casa Rosada, Perón chamou os militantes esquerdistas de “imberbes e estúpidos” e os expulsou da Praça de Mayo. Dois meses depois, o próprio Perón estava morto. E a Argentina, sob Isabelita e López Rega, iniciava a descida aos infernos.
Hoje, a esquerda peronista identificada com o governo Kirchner formou uma organização denominada La Cámpora, em homenagem ao velho líder falecido em 1980. A organização é chefiada pelo filho de Nestor e Cristina, Máximo Kirchner.

terça-feira, 26 de março de 2013

UMA EPOPÉIA SOVIÉTICA

Guerrilheiras soviéticas

Há 70 anos ocorreu na Ucrânia uma das maiores expedições punitivas realizadas pelos nazistas durante a II Guerra Mundial. O episódio, estranhamente esquecido, ficaria conhecido como Massacre de Koriukivka, vilarejo da Ucrânia onde as tropas SS assassinaram 6.700 habitantes e queimaram suas casas, em represália às ações dos partisans soviéticos liderados por Oleksiy Federovych Fedorov (1901-1989). A ironia é que os invasores alemães tinham sido inicialmente bem recebidos por parte dos ucranianos oprimidos pelo stalinismo, mas a política de terra arrasada dos nazistas fez crescer rapidamente o apoio à resistência. O vilarejo de Koriukivka foi libertado pelo Exército Vermelho dias depois, em 19 de março. Para se ter uma ideia da tragédia em Koriukivka, o massacre da cidade de Lídice (Tchecoslováquia) no ano anterior, em represália ao assassinato do general SS Reinhard Heydrich, custou a vida de 340 pessoas (1.500 em toda a Tchecoslováquia). Já no episódio das Fossas Ardeatinas, que teve lugar em 24 de março de 1944 em Roma, 335 italianos foram mortos pelos nazistas em represália ao assassinato 33 soldados alemães pelos partigiani.

Oleksiy Fedorov
Já Oleksiy Fedorov se tornaria um dos maiores ícones da resistência soviética. Ele havia lutado em 1920 na Guerra Civil russa nas fileiras do Exército Vermelho e entrado para o Partido Comunista em 1927. Quando a Alemanha Nazista invadiu a União Soviética, ele se tornou um dos principais organizadores da resistência armada. Entre 1941-1942 Fedorov comandou unidades guerrilheiras que mataram cerca de mil soldados alemães. Suas unidades guerrilheiras ainda participaram da libertação de outras regiões da União Soviética. Durante a operação na Central Ferroviária de Kovel, em 1943, seus partisans destruíram cerca de 500 vagões de suprimentos alemães, com munição, combustível e equipamentos. Por sua atuação na resistência antinazista, Fedorov recebeu o título de Heroi da União Soviética e a Ordem de Lênin.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O CERCO RELIGIOSO AO ESTADO LAICO



"Quando se legisla sob bases religiosas, abre-se o caminho para todo tipo de intolerância e perseguição religiosa" (W.B Yeats)

“Perseguição não é uma característica original em nenhuma religião, mas é sempre a característica marcante de toda lei baseada em religião, ou religião estabelecida pela lei” (Thomas Paine)

Desde que se tornou República, há 123 anos, o Brasil é um Estado laico ou secular, o que significa que é um Estado que não adota uma religião oficial, nem se confunde com nenhuma confissão religiosa, permite a ampla liberdade de crença e descrença, com igualdade de direitos entre as diversas crenças e “descrenças”. E, acima de tudo, não aceita fundamentações religiosas para definir os rumos políticos e jurídicos do país.

Diferimos, pois, de Estados confessionais, que são aqueles que, embora não se confundam com a religião da maioria, adotam-na como religião oficial, permitindo que ela influa nos rumos do país, além de lhe concederem privilégios. Foi o que aconteceu com o Brasil Imperial e é o que acontece ainda hoje com países como a Argentina, o Paraguai e a Costa Rica, entre outros. E ainda existem as teocracias, nas quais o Estado se confunde com a religião e esta decide os rumos da nação e de seus cidadãos, com os dogmas religiosos pautando as políticas estatais e as relações privadas. É o caso da maioria dos Estados islâmicos, como a Arábia Saudita e o Irã.          

Mas, apesar disso, o laicismo ainda não criou raízes no Brasil. A presença de crucifixos em repartições públicas e instituições escolares, os feriados religiosos, a assinatura, há alguns anos, de uma concordata entre o Brasil e o Estado do Vaticano, na qual se concede privilégios à Igreja Católica  e, mais recentemente, a aprovação, no Rio de Janeiro, de uma lei que estabelece o ensino religioso na grade curricular obrigatória das escolas de ensino fundamental da rede municipal são exemplos disso.

Agora, segundo matéria do jornal O Globo de domingo, mais da metade das escolas públicas brasileiras subvertem a Constituição ao obrigar os alunos a assistir aulas de religião e mesmo a fazer orações. Segundo levantamento feito pelo portal Qedu.org.br, a partir dos dados do questionário da Prova Brasil 2011, em 51% dos colégios há o costume de se fazer orações ou cantar músicas religiosas. De acordo com a reportagem, nas escolas públicas de ensino fundamental que oferecem aulas de ensino religioso (dois terços do total), 49% dos diretores admitiram que a presença nessas aulas é obrigatória. A maior incidência dessas práticas ocorre no Tocantins, onde 73,9% dos diretores admitiram ser comum a prática de cânticos e orações nas escolas. Na sequência, estão os estados de Goiás (67,4%) e Espírito Santo (65,8). Os estados de menor ocorrência são Amapá (35,4%); Rio Grande do Sul (35,1%) e Santa Catarina (34,5%). 

A prática contraria frontalmente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), segundo a qual a religião é uma disciplina facultativa. Como se não bastasse, em 80% dessas escolas não há atividades alternativas para estudantes que não queiram assistir aulas de religião. E a reportagem relata ainda casos de bullying contra alunos praticantes do candomblé ou sem confissão religiosa, levados a cabo inclusive por professores.

Cristina Kirchner e o papa Francisco
Por essas e por outras é que podemos considerar “uma benção” para o Brasil o fato de o Conclave não ter elegido um papa brasileiro. Vocês já imaginaram a pressão que a santa madre igreja católica iria fazer sobre o governo federal para tentar impor sua agenda medieval – combate ao aborto, veto à pesquisa de células-tronco, à camisinha, aos direitos das mulheres, dos homossexuais e de outros “desviantes” – caso isso acontecesse? Para quem duvida, convém prestar atenção nos movimentos da Santa Sé em relação à Argentina. Principalmente agora que Cristina Kirchner disse que o papa Francisco é peronista...
  

sexta-feira, 22 de março de 2013

E POR FALAR EM FELICIANO...


Amina, protesto de peito aberto
Um clérigo muçulmano da Tunísia condenou à morte por lapidação (pedradas) uma jovem de 19 anos que difundiu nas redes sociais uma foto sua fazendo topless com a frase em árabe: “Meu corpo me pertence e não representa a honra de ninguém”. Amina – cujo sobrenome não foi divulgado – é integrante das Femen, organização feminista que se celebrizou pelas táticas provocativas, com mulheres seminuas protestando contra diversas formas de machismo e autoritarismo em vários países.

Adel Almi, o clérigo que emitiu a fatwa – sentença islâmica – disse que a jovem deveria receber entre 80 e 100 chibatadas e depois ser apedrejada até a morte. O pior é que a própria família de Amina concordou com a sentença. “Nossa filha é vítima de manipulação mental, de lavagem cerebral. Devemos lutar contra este flagelo para salvar nossas meninas”, disse a mãe da jovem, sem se importar com o fato de que, para “salvar” a filha, era preciso matá-la. Além dela, o pai, tios e primos da jovem apoiaram a fatwa.

Blaise Pascal
A estupidez religiosa realmente não tem limites. E não venham me falar que isso é coisa de muçulmanos. O “pastor” Marco Feliciano, a bancada evangélica, os neopentecostais, os carismáticos  e a direita religiosa americana estão aí para desmentir essa asneira. 

O Tempora, O Mores! Tomás de Aquino, o maior teólogo do catolicismo, dizia ter medo dos homens de um livro só. O filósofo Blaise Pascal (século XVII), que era jansenista, afirmava que os homens nunca fazem o mal de maneira tão completa quando o fazem por convicção religiosa. Já o doutor Sigmund Freud sabia que nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.   

UMA PROPOSTA FASCISTA... E BURRA!


O coronel (hoje vereador) Paulo Telhada, do PSDB
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal de São Paulo teve o desplante de aprovar a concessão da Salva de Prata – homenagem da Casa por relevantes serviços prestados à sociedade – ao Batalhão das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, mais conhecido como “Rota”. O projeto, de autoria do coronel PM Paulo Telhada (PSDB), ex-comandante do batalhão, justifica a homenagem, entre outras coisas, pelas “campanhas de guerra” realizadas pela PM durante a ditadura militar, nas quais a Rota participou da caçada de guerrilheiros de esquerda. Na justificativa, Telhada destacou a repressão, em 1970, ao foco guerrilheiro instalado no Vale do Ribeira, sob o comando do ex-capitão do Exército Carlos Lamarca.

Seria cômico se não fosse trágico. Homenagear a Rota – unidade notória por realizar execuções extrajudiciais de suspeitos – pelo seu papel na repressão política quando o país discute o que aconteceu com os mortos e desaparecidos é um achincalhe. Não surpreende que o coronel Telhada tenha feito essa proposta; a PM nunca negou suas origens. O brasão de armas da corporação é composto por um escudo com 18 estrelas prateadas que representam “marcos históricos” da PM. Um deles homenageia o golpe de 1964 e a repressão de manifestações populares. O que me causa espécie é esse projeto ter sido aprovado na CCJ da Câmara Municipal.  

O ex-capitão Carlos Lamarca
Além disso, a referência à repressão à guerrilha do Vale do Ribeira é estúpida. As forças de segurança mobilizaram cerca de dois mil homens, sob o comando do famigerado coronel Erasmo Dias, para cercar pouco mais de 30 guerrilheiros. Lamarca os fez de bobos, conseguindo romper o cerco e fugir para São Paulo com mais quatro companheiros. O que esses fascistas saudosistas da ditadura têm a comemorar neste episódio?   

quinta-feira, 21 de março de 2013

SHARPEVILLE REVELOU O APARTHEID



Hoje se comemora o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. A data foi instituída pela ONU em 1969 para lembrar o Massacre de Sharpeville, ocorrido em 21 de março de 1960 nas proximidades de Johannesburgo, na África do Sul. Naquele dia, cerca de cinco mil estudantes e trabalhadores sul-africanos realizaram uma passeata para protestar contra a “Lei do Passe”, que obrigava os negros a portar uma caderneta, uma espécie de passaporte interno, que indicava os locais onde eles poderiam se deslocar. A polícia abriu fogo contra os manifestantes com metralhadoras, matando 69 pessoas – inclusive dez crianças – e deixando 180 feridos. 

O episódio foi um turning point na história da África do Sul, pois chamou a atenção mundial para o apartheid, o regime racista da minoria branca que vigorava há décadas no país; levou o governo sul-africano a decretar a lei marcial e a prender quase 20 mil pessoas e fez com que grupos oposicionistas, com o Congresso Nacional Africano (CNA) à frente, abandonassem a tática de resistência pacífica e partissem para a luta armada contra a opressão.



O apartheid, na verdade, existia há muito tempo na África do Sul. A Lei da Terra, de 1913, por exemplo, destinava aos negros – que representavam 2/3 da população – 7,5% do território, enquanto os brancos, que eram um quinto dos sul-africanos, ficaram com 92,5% das terras. A vitória do Partido Nacional, em 1948, acelerou as leis discriminatórias, entre elas a de registro populacional, que obrigava a população a se definir como branca, negra ou mestiça. O objetivo da minoria branca era separá-las espacialmente e restringir ainda mais direitos aos negros. E o mais incrível de tudo é que os bôers – os sul-africanos descendentes de holandeses que dominavam o país – justificam o apartheid pela leitura da Bíblia feita pela Igreja Reformada Holandesa.   

Nelson Mandela, líder do Congresso Nacional Africano, foi preso em 1963 e condenado à prisão perpétua em 1964. Ficaria 27 anos no cárcere, mas se tornaria o maior símbolo da luta contra o apartheid. Nos anos 1970, uma nova onda de manifestações abalou o regime. Em 1974, o governo decretou outra lei segregacionista contra a população negra, tornando obrigatório o idioma africâner em todas as escolas do país. Em 30 de abril de 1976, crianças das escolas primárias de Orlando West, em Soweto, entraram em greve, se recusando ir às aulas. A medida teve o apoio da maioria da população negra de Soweto, incluindo professores e trabalhadores.

Os estudantes organizaram um protesto em 16 de junho de 1976, marchando aos milhares pelas ruas de Johanesburgo. O protesto foi duramente reprimido pela polícia sul-africana, que mais uma vez recebeu manifestantes à bala. Calcula-se, desta vez, que mais de 700 pessoas tenham sido assassinadas.


Revoltados com a repressão, os negros intensificaram protestos em todo o país. O regime prendeu, exilou, torturou e matou milhares de pessoas. Em 1977, o militante Steve Biko, do Movimento de Consciência Negra, morreu em consequência das torturas infringidas pela polícia, provocando nova onda de manifestações.

Muito sangue correria ainda até o fim do apartheid, em 1994, quando Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul e conduziu, sem sectarismos, a difícil transição para um regime multirracial.     




quarta-feira, 20 de março de 2013

SE A MODA PEGA...


Depois da pequena Islândia, agora foi a vez da ilha de Chipre recusar a tunga que a troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI) queria impor ao povo para salvar os bancos. No sábado passado, com o país quebrado, o “Politburo” da banca europeia propôs emprestar € 10 bilhões para dar início a um processo de resgate financeiro dos bancos cipriotas. Em troca, exigiu que o governo cobrasse um imposto compulsório de todos os correntistas do país – 6,75% em todos os depósitos entre € 10 mil e € 100 mil e 9,99% acima de € 100 mil. Com isso, havia a expectativa de se captar € 6 bilhões. O senador Collor de Melo deve estar exultante, pois além de ter sido pioneiro na arte de tungar correntistas, seu confisco foi muito mais radical do que o proposto pela troika ao Chipre...

O presidente Nicos Anastasiades, como bom conservador, foi à TV dizer que lamentava, mas que não havia outra saída. Mas ontem o Parlamento reagiu à altura, mostrando que a soberania popular está acima das pressões do mundo das finanças: por 39 votos, os deputados rejeitaram o pacote fiscal da União Europeia. Outros 19, todos governistas, se abstiveram. O Parlamento disse que a UE estava chantageando o país. Com isso, cresceram os temores de falência do sistema bancário local e até de uma saída do Chipre da União Europeia. Mas o Parlamento lavou a alma do povo cipriota.    

Mesmo assim, o FMI permanece inflexível. Para a diretora-gerente Christine Lagarde, “as autoridades do Chipre têm que cumprir os compromissos adquiridos”. Em seu discurso em uma conferência sobre o futuro da União Monetária Europeia em Frankfurt, Lagarde afirmou que o setor bancário do Chipre deve realizar uma “reestruturação apropriada”. Já o novo chefe do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, teve que negar que haverá taxação de poupanças em outros países da União Europeia.

Nicósia, com a estátua de Makarios III
O Chipre é um país fragmentado. Nos anos 1970, conflitos entre as comunidades Greco-cipriota (cristã ortodoxa) e turco-cipriota (muçulmana) levaram à divisão do país em uma área grega, ao sul, e outra turca, ao norte. O norte – 40% do território – foi ocupado pela Turquia e a ONU enviou tropas para patrulhar a linha divisória, conhecida como Linha Verde.
A parte grega da ilha ingressou na União Europeia em 2004 e adotou o euro em 2008. Desde então, o país, de um milhão de habitantes, tornou-se um paraíso de lavagem de dinheiro. Estima-se que estão depositados cerca de € 70 bilhões no Chipre e que mais da metade desse valor venha do exterior, principalmente da Rússia e da Ucrânia. Para se ter uma ideia do que está em jogo, o setor bancário representa cerca 700% do PIB do país.   

GUATEMALA: UM MASSACRE ESQUECIDO

O ex-ditador guatemalteco Efraín Ríos Montt

Começou ontem o julgamento do ex-ditador da Guatemala, general Efraín Ríos Montt, de 86 anos, que governou o país entre 1982 e 1983. Ele é acusado pela morte de 1.771 indígenas no momento mais tenebroso da guerra civil que durou 36 anos – de 1960 a 1996 – e deixou entre 200 mil e 250 mil mortos. Outro general, José Rodríguez, de 68 anos, também está sendo julgado. Vejam só: nós nos chocamos – com justa razão – com as ditaduras da Argentina e do Chile, que mataram, respectivamente, 30 mil e três mil pessoas. Mas na Guatemala – um país hoje com 15 milhões de habitantes – foram mais de 200 mil mortos ou desaparecidos pela repressão e poucos se indignam. Talvez porque as vítimas sejam indígenas.   

Vala onde foram enterrados vários índios massacrados pelos militares e esquadrões da morte
Não por acaso, a Guatemala foi o primeiro país latino-americano em que a CIA patrocinou um golpe de Estado: em 1954, os militares derrubaram o coronel reformista Jacobo Árbenz, eleito democraticamente. Os americanos atribuíram aos comunistas o fato de Árbenz ter expropriado as propriedades da norte-americana United Fruit para realizar uma ampla reforma agrária. Depois do golpe, a Guatemala foi palco de sucessivos governos militares e serviu de base para o treinamento de cinco mil cubanos anticastristas, muitos dos quais participariam da frustrada invasão da Baia dos Porcos, em 1961. Começaram a surgir manifestações estudantis e, a seguir, grupos guerrilheiros de esquerda. Enquanto os “Boinas verdes” norte-americanos treinavam o Exército guatemalteco na arte da contrainsurgência, a extrema direita formava esquadrões da morte como o Mão Branca e o Exército Secreto Anticomunista para aterrorizar os camponeses. O genocídio foi tão explícito que em 1979 os EUA suspenderam toda ajuda militar ao país.

Ríos Montt e Rodríguez são apenas os primeiros militares da Guatemala a serem julgados por crime de lesa humanidade. Melhor que nada, mas ainda faltam muitos militares, políticos e empresários nos bancos dos réus.

terça-feira, 19 de março de 2013

UMA LIÇÃO À ESQUERDA 'PAPA HÓSTIA'

José "Pepe" Mujica e sua mulher, a senadora Lucia Topolansky

No meio de tanta badalação midiática - até em alguns setores progressistas - em torno da escolha do novo papa, o presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, voltou a destoar do coro dos contentes e se recusou a ir a Roma para beijar a mão do novo pontífice em razão de suas convicções pessoais – ele é ateu – e também por respeitar a laicidade do Estado. Um gesto raro em nuestra mui católica Latinoamerica.    

A primeira dama e senadora do Uruguai, Lucia Topolansky, foi quem esclareceu as razões do marido: “O Uruguai é um país laico desde o século passado. Nesse particular, nós diferimos do resto da América Latina. Temos um grande respeito pela religião; aqui há liberdade de culto, mas nós (ela e o marido) não somos religiosos. Como o vice-presidente Danilo Astori é, o presidente achou mais oportuno que ele viajasse a Roma”.    

Apesar disso, a senadora Topolansky reconheceu a importância do acontecimento – a eleição do papa – e disse que ficou surpresa que o herdeiro de Bento XVI tenha sido um argentino. “É bom que o papa seja rioplatense e que tome mate”, disse. “Como as coisas têm sempre uma leitura política, é uma novidade que o papa seja um latino-americano”, arrematou Topolanksy.

Depois da eleição de Bergoglio como papa, a BBC chegou a compará-lo ao presidente uruguaio: “Francisco é o Pepe Mujica do Vaticano”, disse a emissora britânica em referência aos hábitos franciscanos de ambos. Mas o velho tupamaro não caiu na tentação fácil de ser comparado ao papa jesuíta e fez questão de manter distância do pontífice. “A única coisa que temos em comum é que gostamos de mate e de tango”, despistou Mujica.

Nestes tempos sombrios de espetacularização da política, Mujica representa a lucidez da velha esquerda anticlerical, radical (no sentido marxiano de tomar as coisas pela raiz) e democrática. Nenhum outro líder da esquerda mundial atual disputa com ele a herança das tradições libertárias de Jean Jaurès; Leon Blum, Pietro Nenni e Enrico Berlinguer.   

segunda-feira, 18 de março de 2013

DACHAU: O INÍCIO DA BARBÁRIE

Dachau hoje: memorial

Há 70 anos, em 18 de março de 1933, os nazistas construíram nas dependências de uma antiga fábrica de munição em Dachau, nas proximidades e Munique, o primeiro campo de concentração regular para prisioneiros políticos. Para lá, foram enviados militantes social-democratas, comunistas e sindicalistas. Tempos depois, foram encarcerados ciganos, Testemunhas de Jeová e homossexuais. Durante os primeiros anos poucos judeus foram enviados para Dachau; mas o número de judeus no campo cresceu exponencialmente depois da Kristallnacht (noite dos cristais) em 1938.      

Em 1942, foi construída a área do crematório ao lado do campo principal, bem como uma câmara de gás que não chegou a ser utilizada porque Dachau não era um campo de extermínio, como Auschwitz-Birkenau, Treblinka, Sobibor e Chelmno. Dachau também era um centro de treinamento para os guardas SS de outros campos; sua organização e rotina tornaram-se modelo para os demais. Dachau era dividido em duas seções – a área do campo e a área do crematório. Um dos 32 quartéis era reservado para experiências médicas com seres humanos.

Em Dachau, como em outros campos nazistas, os médicos realizavam experiências nos prisioneiros, como testes de alta altitude usando câmaras de descompressão; experimentos com malária e tuberculose; hipotermia, e testes experimentais para novos remédios. Os prisioneiros também eram forçados a serem cobaias em testes de métodos de dessalinização da água e de estancamento de perda de sangue excessivo. Centenas de prisioneiros morreram ou ficaram incapacitados como resultado destas “experiências”.

Abril de 1945: os americanos chegam a Dachau
Em abril de 1945 havia mais de 67 mil prisioneiros em Dachau. Destes, 43 mil eram prisioneiros políticos, 22 mil judeus e o restante era dividido entre outras categorias. Em 29 de abril de 1945, ao libertarem Dachau, as forças norte-americanas encontraram mais de 30 vagões lotados com corpos em estado de decomposição avançado que haviam sido levados para Dachau. Calcula-se que, de 1933 a 1945, cerca de 200 mil pessoas passaram por Dachau e, destas, mais de 30 mil morreram.

Visitar Dachau ou qualquer outro campo nazista é uma experiência única de testemunhar o lado mais sombrio e tenebroso do ser humano.
    

quinta-feira, 14 de março de 2013

ALEXANDRE VANUCCHI LEME, 40 ANOS

Alexandre Vanucchi Leme era estudante de Geologia da USP nos anos 1970 e militava no grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo. Em 16 de março de 1973, aos 22 anos, ele foi preso pela Operação Bandeirante (Oban) e levado para o quartel da Rua Tutóia, em São Paulo. Foi torturado durante dois dias e acabou morrendo. Temendo a repercussão do fato, os agentes da repressão divulgaram a versão de que ele se suicidara. Posteriormente, mudaram a versão para tentativa de fuga seguida de atropelamento.

Foi então que, pela primeira vez desde 1968, os estudantes resolveram reagir. Consegueriam o apoio do recém-nomeado arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, que celebrou, ao lado de Dom Angélico Sandalo Bernardino, uma missa em memória do estudante assassinado. Durante a cerimônia, o compositor Sérgio Ricardo canta sua música “Calabouço”, composta em homenagem ao estudante Edson Luís, assassinado pela polícia durante manifestação no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, em 28 de março de 1968. A morte de Edson Luis foi o estopim para as grandes manifestações estudantis daquele ano.

Cerca de três mil pessoas compareceram à missa na Catedral da Sé, que foi cercada por todos os lados por agentes da repressão armados até os dentes. A cena se repetiria com mais intensidade dois anos depois, em outubro de 1975, quando D. Paulo, o pastor presbiteriano James Wright e o rabino Henry I. Sobel realizaram um culto ecumênico na mesma Catedral em memória do jornalista Vladimir Herzog, igualmente preso e morto nas dependências do quartel da Tutóia – então já DOI-Codi – e, para o qual a repressão deu a mesma versão mentirosa de suicídio. Lentamente, renascia a resistência contra as trevas da ditadura instalada em 1964.

FAZ ESCURO MAS EU CANTO: SÉRGIO RICARDO CANTA ‘CALABOUÇO’



quarta-feira, 13 de março de 2013

UM ANTIPAPA?

Cardeal Bergoglio, agora papa Francisco I
O conclave elegeu o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como novo papa da Igreja Católica. Ele será o primeiro pontífice não-europeu em 1.300 anos, o primeiro oriundo das Américas e, embora também seja o primeiro papa jesuíta, adotou o nome de Francisco I. Não sei – e creio que poucos sabem – o que passou pela cabeça dos cardeais que o elegeram. O fato é que, mais uma vez, nenhum vaticanista conhecido acertou as previsões, já que Bergoglio nem circulava na lista dos principais papabili. Falaram tanto em renovação e elegeram um cardeal oriundo de uma das igrejas mais reacionárias do planeta. E, como se não bastasse, contra Bergoglio pesam, há tempos, suspeitas de ter colaborado com a ditadura militar argentina (1976-1983).

Em 2005, por exemplo, Bergoglio foi denunciado na Justiça por supostas ligações com o sequestro de dois missionários jesuítas em 23 de maio de 1976, realizado por um comando da Marinha. As vítimas eram Orlando Virgilio Yorio e Francisco Jalics, companheiros de Bergoglio na Companhia de Jesus, cuja congregação fazia trabalhos de ajuda social numa localidade do bairro de Bajo Flores. O advogado e ativista dos direitos humanos Marcelo Parrilli, que fez a denúncia, se baseou em artigos de jornal e no livro Igreja e Ditadura, de Emilio Mignone, fundador do Centro de Estudos Legais e Sociais.


O cardeal sempre se orgulhou das boas relações que mantinha com os comandantes militares, particularmente com Emilio Massera, da Marinha. Num documento datado de 1976 Bergoglio justifica o apoio da Igreja Católica à ditadura: “de nenhuma maneira pretendemos formular uma posição de crítica ao governo”, pois um fracasso do Processo “levaria, com muita probabilidade, ao marxismo”.

Em 2011, veio à tona a possível participação de Bergoglio em um caso de sequestro de bebês, prática comum da ditadura, que assassinou várias mulheres grávidas ou com filhos pequenos. O Tribunal Oral Federal nº6 convocou o cardeal a depor no processo de Estela de la Cuadra, uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio. Segundo Estela, o cardeal papa tem relevantes informações sobre o desaparecimento de sua sobrinha, Ana, roubada dos braços da mãe em uma delegacia de La Plata.

Também em 2011 a Justiça da França solicitou que a Justiça argentina tomasse o depoimento de Bergoglio pela suspeita de participação no desaparecimento de um padre francês que morou na Companhia de Jesus. O testemunho de uma monja em 1984 já indicava a relação do então chefe da congregação com o sequestro que resultou nas mortes de Gabriel Longueville e do sacerdote Carlos de Dios Murias.

Monsenhor Bergoglio e o ditador Jorge Rafael Videla
O mínimo é que se pode dizer é que Bergoglio, que foi bispo primaz da Argentina, nunca abriu a boca para denunciar os crimes da ditadura, ao contrário do que fizeram vários de seus pares no Brasil, como D. Paulo Evaristo Arns, D. Helder Câmara e D. Tomás Balduíno, entre outros, e que por isso viraram personae non gratae da ditadura militar. E a TV Globo, com sua sabujice, já saiu dizendo que o novo papa “se afastou” dos militares. Ora, se ele se afastou é porque antes estava próximo, não?     

PLEBISCITO PARA INGLÊS VER


O plebiscito armado pelo Reino Unido nas Malvinas – ou Falklands, como querem os britânicos – trouxe o resultado óbvio: mais de 90% dos kelpers, os habitantes nativos das ilhas, votaram por permanecer sendo súditos de Sua Majestade Britânica.

O que me impressionou na cobertura jornalístico desse evento foram são as “análises” ancoradas no mais primário tipo de maniqueísmo: de um lado, matérias à “esquerda”, denunciando o neocolonialismo britânico e ignorando o direito de autodeterminação dos povos; de outro, a direita colonizada falando em autodeterminação como se nunca tivessem existido fenômenos como o colonialismo e o imperialismo.

O fato é que, com o Reino Unido afundando na recessão e o governo conservador amargando altas taxas de impopularidade, o premiê David Cameron inventou este plebiscito para desviar a atenção dos britânicos e lhes insuflar o sentimento nacionalista. É o velho Panis et Circensis da Roma antiga. Cameron, aliás, nem precisaria conhecer a história antiga (tenho dúvidas de que ele conheça), pois ele está repetindo a tática usada em 1982 por sua antecessora em Downing Street, 10, Margaret Thatcher. Na época, os facínoras que ocupavam a Casa Rosada tiveram a brilhante ideia de invadir as Ilhas Malvinas para unir o país em torno deles e dar sobrevida à ditadura, já que a Argentina amargava uma grave crise econômica e social. Apostaram na aliança com os EUA e no fait accompli, mas quebraram a cara. O pior é que grande parte da esquerda mundial apoiou os gorilas argentinos, em nome do anti-imperialismo. 

Desgastada politicamente no front doméstico, a Dama de Ferro viu na desastrada iniciativa dos militares argentinos uma oportunidade para resgatar a popularidade. Despachou uma esquadra para o Atlântico Sul e retomou sem dificuldade o controle das ilhas, granjeando apoio popular em casa. Com isso, mesmo com a insatisfação dos britânicos com a recessão e o desemprego, ela ganhou facilmente as eleições daquele ano. Ironicamente, Thatcher, que tanto admirava tiranias latino-americanas como a de seu amigo Pinochet, ajudou a pregar o último prego no caixão da ditadura argentina.