quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

GENEALOGIA DOS "MILAGRES"


Análise do professor José Luís Fiori publicado no blog Outras Palavras sobre as origens, desenvolvimento e desaparecimento dos “milagres econômicos” que embalaram sonhos do Terceiro Mundo até os anos 1980.

Os “milagres econômicos” da Guerra Fria  

Por que Washington “convidou” Alemanha, Japão, Coreia e Brasil a se desenvolverem. Como estratégia pode ser retomada, agora contra China

Por José Luís Fiori (*)
O presidente Richard Nixon indica ao ditador Garrastazu Médici o lugar do Brasil no concerto das nações 
Salvo engano, foi o jornal The Times que falou pela primeira vez – em 1950 – de “milagres econômicos”, referindo-se a países com prolongados períodos de altas taxas de crescimento econômico sustentado. Depois, essa expressão foi utilizada para caracterizar o crescimento da Alemanha, Itália, Japão, Coreia e Brasil, entre as décadas de 50 e 80, período áureo da Guerra Fria. Entre 1950 e 1973, o produto nacional da República Federal Alemã cresceu a uma taxa média anual de 5,05%; no mesmo período, a Itália cresceu 5,68%; o Japão, 9,29%; e a Coreia do Sul, 9,85%. No Brasil, as taxas foram mais altas e descontínuas, com uma média de 8%, entre 1955 e 1960, 11%, entre 67 e 73, e 6,4% entre 74 e 80, mas com uma queda significativa no período 61/67. Assim mesmo, depois de 1980, a taxa de crescimento de todos estes países caiu de forma desigual, mas permanente.

Agora bem, a despeito de suas grandes diferenças históricas e políticas, Alemanha, Japão, Itália e Coreia foram derrotados e destruídos – na II Guerra Mundial ou na Guerra da Coreia – e depois foram ocupados e transformados em “protetorados militares” dos EUA. Logo depois da guerra, a ideia americana era desmontar as antigas estruturas econômicas destes países. Mas depois do começo da Guerra Fria e do fim da Guerra da Coreia, este projeto inicial foi substituído por uma política diametralmente oposta de estimulo ao crescimento econômico, com forte participação dos governos locais, e dos próprios agentes econômicos e instituições privadas do pré-guerra. Por isto, pode-se dizer com toda certeza que a lógica da Guerra Fria pesou decisivamente na origem dos “milagres econômicos”, e na transformação posterior daqueles países em peças centrais da engrenagem econômica do poder global dos Estados Unidos, pelo menos até a década de 70.
No caso do Brasil – que foi aliado dos EUA na II Guerra – o caminho foi diferente, mas também se pode falar de um “convite” que foi aceito depois do Acordo Militar Brasil-EUA, de 1952 e que transformou o Brasil no pivô central da estratégia desenvolvimentista norte-americana para a América Sul. A nova política foi experimentada primeiro com o governo JK – inteiramente alinhado com os EUA e com o colonialismo europeu – e só depois, a partir de 1964, sob comando direto do regime militar.
Depois de quase três décadas de “milagre econômico”, entretanto, este processo foi interrompido pela “crise americana” da década de 70, e pela nova mudança da política internacional dos EUA. Tudo começou com a reaproximação da China, no início da década de 70, que levou à derrota/saída americana do Vietnã, e ao redesenho do equilíbrio do poder, no sudeste asiático. Foi neste mesmo contexto que os EUA decidiram abandonar Bretton Woods, liberando sua moeda e iniciando a desregulação do seu mercado financeiro, com a lenta construção de um novo sistema monetário internacional, baseado no dólar, mas sem base metálica. A nova estratégia permitiu o cerco e desconstrução final da União Soviética e o fim da Guerra Fria. Mas ao mesmo tempo ela desativou ou esvaziou o papel econômico que fora ocupado pela Alemanha e pelo Japão, e secundariamente, pelo Brasil, durante as primeiras décadas da Guerra Fria.
O crescimento econômico médio anual da Alemanha caiu para 2,1%, entre 1973 e 1990; o do Japão, para 2,97%; o da Itália, para 1,76; o da Coreia, para 6,77; enquanto o Brasil entrava num longo período de estagnação. No mesmo tempo em que a China se transformou no novo “milagre econômico” do sistema capitalista mundial, enquanto a Alemanha e o Japão seguiam na sua condição de gigantes industriais e tecnológicos, mas com “pés de barro”: ainda na condição de protetorados militares dos EUA e sem dispor de recursos naturais essenciais, além de serem igualmente dependentes do ponto de vista alimentar e energético.
Assim mesmo, no início da segunda década do século XXI, pode ser que o Japão e a Alemanha venham a ser resgatados uma vez mais, como caminho de saída da crise, para os EUA, e como instrumentos da nova doutrina Obama, que se propõe fazer – desta vez – o cerco econômico e militar da China. O Japão e a Coreia estão sendo pressionados para participar da Trans-Pacific Partenership (TPP), que é hoje a pedra angular da política comercial de Obama, e que se propõe reunir dos dois lados do Pacífico, numa grande zona de livre comércio.
Ao mesmo tempo em que a Alemanha vem sendo estimulada a liderar um grande pacto comercial transatlântico, entre a UE e os EUA, e há quem proponha que o Brasil se junte à “aliança do pacífico”. Neste novo xadrez, entretanto, o Brasil é muito menos desenvolvido que a Alemanha e o Japão; mas dispõe de recursos naturais e é auto-suficiente, do ponto de vista alimentar e energético. Por isto, talvez, só o Brasil tenha hoje condições reais de escolher um caminho que lhe dê maior grau de autonomia estratégica, e maior capacidade de projetar seus interesses e sua influencia, numa escala global.
(*) Professor titular de Economia Política Internacional da UFRJ, é Coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPQ/UFRJ. 

DECIFRANDO O ENIGMA DO LULISMO


O blog do Azenha comenta e publica parte de um ensaio do intelectual marxista Perry Anderson sobre o fenômeno do "lulismo". Para reflexão e debate: 


Perry Anderson e o balanço do lulismo: mais duradouro que o New Deal?

Obama sobre Lula: "ele é o cara"
Por Luiz Carlos Azenha

No ano passado o historiador Perry Anderson publicou um ensaio sobre Lula na London Review of Books (íntegra em inglês, aqui). Tirando um ou outro erro factual (por exemplo, quando diz que Dilma implantaria um sistema nacional de saúde), o artigo trouxe à tona, lá fora, um debate recorrente dentro da esquerda brasileira, aquele sobre o lulismo.

Um debate sempre atual, especialmente quando a persistente crise financeira internacional e suas consequências no Brasil colocam em jogo a sobrevivência de longo prazo do projeto iniciado pelo ex-presidente Lula. Ou não?

O debate, aliás, desperta várias questões.

O lulismo no poder, representado agora por Dilma, dispõe dos instrumentos necessários para a retomada do crescimento econômico nos níveis que garantam sua sustentabilidade de longo prazo, independentemente do que aconteça lá fora? Ainda que disponha destes intrumentos, não está amarrado ao mínimo denominador comum exigido pela famosa governabilidade? O PT vai entregar aos parceiros mais conservadores, que buscam retomar os níveis de lucratividade pré-crise e estão plenamente representados dentro do governo, a “flexibilização” das leis trabalhistas, ou seja, a precarização ainda maior das condições de trabalho? É isso o que explica a busca de Dilma pela classe média, que reunida ao sub-proletariado lulista poderia facilitar o descarte dos movimentos sociais organizados que insistem na integralidade da CLT?

Há outras considerações a fazer, não relacionadas ao texto, quando falamos do futuro papel do Brasil na dinâmica do capitalismo globalizado: o que o país fará quando amadurecerem os projetos já em andamento em vários países da África (por exemplo, na Etiópia e em Moçambique) para incorporar grandes extensões de terra, muito mais próximas da China, ao agronegócio? E quando o minério de ferro de Carajás estiver próximo de se exaurir (segundo o jornalista Lúcio Flávio Pinto, no ritmo atual das exportações vai acontecer antes que o previsto)?

Para contribuir com este debate sobre o passado, o presente e o futuro da força política dominante no Brasil, o lulismo, destacamos para tradução um pequeno trecho do ensaio de Anderson, que nos pareceu mais relevante para a discussão. Neste trecho, ele contrapõe três visões do lulismo. A primeira, de Fernando Henrique Cardoso, resumimos: “sub-peronismo”. Em seguida, trata do lulismo na visão dos sociólogos André Singer e Francisco de Oliveira.

O Brasil de Lula
[...]

Franklin Delano Roosevelt
Lula não se tornou o Roosevelt brasileiro? O gênio de Franklin Delano Roosevelt [FDR, presidente dos Estados Unidos 1933-1945] foi transformar o cenário político com um pacote de reformas que eventualmente levantou para a classe média dos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra, milhões de trabalhadores e empregados sob pressão, para não falar daqueles que ficaram desempregados na Depressão. Qualquer partido que coloca em andamento a mobilidade social em tal escala vai dominar a cena por um longo tempo, como os democratas fizeram depois que o New Deal começou, embora a oposição eventualmente se ajuste às mudanças para competir no mesmo campo, como [o republicano Dwight] Eisenhower fez em 1952.

Presidindo sob mudanças comparáveis, as vitórias de Lula em 2002 e 2006 [Nota do Viomundo: Aqui um erro óbvio de Anderson, já que a vitória de Lula em 2002 não pode ser creditada a mudanças que ele fez] podem ser mapeadas com estranha proximidade às de Roosevelt em 1932 e 1936: primeiro uma grande maioria, depois uma avalanche, as classes populares se derramando nas urnas em defesa do presidente enquanto as classes “respeitáveis” se voltaram contra ele. Em perspectiva, poderemos ter um ciclo político no Brasil tão longo quanto o de FDR, dirigido pela mesma dinâmica de ascensão social.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

FREI CANECA, O FRADE REVOLUCIONÁRIO


Joaquim da Silva Rabelo (1779-1825), mais conhecido como Frei Caneca, foi um dos grandes revolucionários brasileiros do século XIX. Personagem esquecido da história oficial, ele esteve envolvido na Revolução Pernambucana de 1817 e na Confederação do Equador (1824), movimentos que queriam romper definitivamente com as elites portuguesas e implantar uma república democrática no país. Como jornalista editou o Typhis Pernambucano, porta-voz da Confederação e referência a Typhis da mitologia grega, piloto do navio Argo. A epígrafe do jornal eram estes versos de Camões de Os Lusíadas:

"Uma nuvem que os ares escurece
sobre nossas cabeças aparece"


Com a derrota da Confederação do Equador, Frei Caneca foi condenado à morte e fuzilado em 13 de janeiro de 1825.

Abaixo, trechos da peça O Auto do Frade (1984), de João Cabral de Melo Neto.    


Ele jamais fez por onde,
sequer desejou, ser mártir.
Assim, morto, e aqui esquecido
não é coisa que o agrave.
Talvez sentisse que o mártir
tem sempre um lado podrido
e que ser mártir
vem com a mania ou o vício,
enfim, com o gosto de crer-se
já um além mártir, messias:
neurose que não sofreu,
crioulo e enciclopedista
(o que não o salvou do martírio,
salvou-o de ver-se mártir
e trouxe-lhe a honra de ter
nome na rua de um cárcere).

[...]


Esse bosque de espingardas
Mudas, mas logo assassinas,
Sempre à espera dessa voz
Que autorize o que é sua sina,
Esses padres que as invejam
por serem mais efetivas
que os sermões que passam largo
dos infernos que anunciam.

[...]

– Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.

[...]

Nunca pensei que tal mundo
com sermões o implantaria
Sei que traçar no papel
é mais fácil que na vida.
Sei que o mundo jamais é
a página pura e passiva.

QUE TAL ELEGER OUTRO POVO?


Matéria publicada no portal 247 sobre o fracasso da manifestação convocada pela direita contra o ex-presidente Lula. Com o desaparecimento do fantasma do comunismo, parece que os reacionários perderam a capacidade de mobilizar a classes médias como fizeram em 1964, na época das Marchas da Família com Deus pela Liberdade.  

Povo sabe protestar, mas com motivo justo

História recente do País prova que população não teme sair às ruas para fazer pressão; em plena ditadura de Geisel, enterro do metalúrgico Santo Dias da Silva teve multidão de mais de 100 mil pessoas; sob Figueiredo, comícios das Diretas Já marcaram a história; contra Collor, caraspintadas conseguiram objetivo; mas frente a Lula, primeiro ato fracassou
Do portal 247

Manifestação pelas Diretas no Rio, em 1984 
O fracasso da manifestação convocada no domingo 13, em São Paulo, para protestar contra o ex-presidente Lula despertou comentários de que o povo brasileiro não é afeito a protestar. Nada mais falso. A história do País está repleta de exemplos de manifestações de massa, em praças públicas, com objetivos claros e definidos.

Para não ir tão longe, vale lembrar que, debaixo da severa ditadura do general Ernesto Geisel, em 1976, praticamente todos os 100 mil metalúrgicos da cidade de São Paulo acompanharam, em protesto, o enterro do colega Santo Dias da Silva, morto durante uma greve por uma bala disparada pela Polícia Militar. Feita na surdina, a convocação para o ato foi, de per si, um registro de confronto ao regime – e sua realização abriu as portas para os movimentos que surgiram nos anos seguintes, em favor da anistia aos presos e exilados políticos, em 1978, e, até mesmo, a campanha das Diretas Já, em 1984.
Os comícios pelas Diretas Já foram, nos tempos recentes, os maiores exemplos de mobilização popular que se têm notícia nos últimos 30 anos. Atos com nunca menos que 50 mil pessoas e até 300 mil pessoas, como no caso da Candelária, no Rio de Janeiro, se espalharam, sequencialmente, pelas capitais brasileiras. A classe média, que até ali ficara em casa, resolveu participar e o que se viu foi um sucesso que entrou para a história. O movimento não alcançou, por conta de manobras dos políticos no Congresso, o seu objetivo, mas resultou na eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, batendo o retrocesso representado pela candidatura de Paulo Maluf. Dali, com José Sarney, eleito vice-presidente, no governo, conseguiu-se, finalmente, cinco anos depois, a primeira eleição para presidente em 28 anos.
A classe média outra vez foi preponderante no jogo de pressão das ruas para encurtar o mandato do então presidente Fernando Collor, eleito em 1989. Apenas dois anos depois, cercado por denúncias de corrupção, ele viu jovens estudantes do segundo grau e de cursos superiores saírem a praça pública, outra vez por todo o País, com as faces pintadas de verde e amarelo, e sempre vestidos de preto. Eram os caras-pintadas que estavam dando, com suas numerosas manifestações, o motivo que faltava para o Congresso votar o impeachment de Collor.
Na semana passada, agora sob a bandeira de protestar contra o ex-presidente Lula, uma manifestação convocada para ser feita em São Paulo fracassou. Apareceram cerca de 20 pessoas com seus cartazes chamando Lula de corrupto. Já é certo que nova manifestação será convocada, desta vez com mais apoio dos partidos políticos que fazem oposição ao governo federal. Como prova a história, se a população considerar a bandeira justa, vai estar junto. Mas pelo jeito, a julgar pelo primeiro ensaio dessa batalha, não há tanta clareza assim de que perseguir Lula em praça pública seja mesmo uma ordem que galvanize a opinião pública.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O NEO "VIVANDEIRISMO"

Carlos Lacerda, a "mãe de todas as vivandeiras"

Derrotados em sucessivas eleições entre 1946 e 1964, vários líderes conservadores, notoriamente da UDN, tinham o vezo de bater à porta dos quartéis na tentativa de virar o jogo. Alegavam que as Forças Armadas, “reserva moral” da nação, era a única instituição capaz de deter corrupção, o populismo e o comunismo. Foi assim em 1951, quando tentaram impedir a posse de Vargas; em 1954, ao alimentar uma grave crise que levaria ao suicídio do presidente; em 1955, na tentativa de impedir a posse de JK; e em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, nas manobras para barrar a posse do presidente constitucional, João Goulart. Tiveram êxito em 1964, quando os generais atenderam ao “clamor popular” e depuseram Jango, instalando uma ditadura militar. Mas aí eles quebraram a cara, pois imaginavam que os milicos fariam o serviço sujo e lhes entregariam o poder de bandeja. O próprio marechal Castello Branco, o primeiro “general-presidente”, fartamente cevado pelos golpistas, tinha deles uma opinião pouco lisonjeira: “Eu os identifico a todos. E são muitos deles, os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar.”

Essa prática golpista – fruto de uma democracia ainda imatura – desapareceu com a experiência da ditadura; não reapareceu com a redemocratização devido ao paulatino enfraquecimento do poder militar. O “vivanderismo”, contudo, persiste em países com regimes democráticos poucos consolidados. Recentemente, na Venezuela, os líderes da oposição cogitaram de apelar para as Forças Armadas no sentido de que interferissem no cronograma de posse de Chávez, ameaçando transferir para a caserna uma decisão que, numa democracia, deveria ser decidida unicamente na arena política. Hoje assistimos no Brasil o renascimento do “vivandeirismo”, mas só que agora, em vez de bater nos quartéis, os conservadores recorrem ao Poder Judiciário. Como o Parlamento vem se mostrando pouco propício a legislar eficazmente e a fazer reformas clamadas por amplos setores da sociedade, os magistrados tomam a si a tarefa de fazer as leis, instados muitas vezes pelos próprios parlamentares. Essa é a brecha que os neoudenistas vêm se aproveitando para tentar reverter resultados políticos e até eleitorais desfavoráveis. É o que sociólogos chamam de “judicialização da política”, o que acaba resultando numa “politização do Judiciário” – com o perdão do trocadilho. Trata-se de um caminho minado para a democracia. Como mostrou o julgamento da Ação Penal 470 – o chamado “mensalão” –, um Judiciário tomado de “ira cívica” chegou a ponto de condenar a busca de apoios e coalizões – algo que é a essência da política.

Ou os políticos resgatam a política e chamam a si a responsabilidade de dirimir conflitos de interesses ou o Poder Judiciário acabará fazendo as vezes do Parlamento, ameaçando a soberania popular, base da democracia.

SURDOS, CEGOS E FALANTES

Uma análise perspicaz do sítio Carta Maior sobre a mais recente campanha desencadeada pelos grandes veículos da mídia contra a presidente Dilma Rousseff e o PT, desta vez tendo como alvo as medidas desenvolvimentistas adotadas pelo governo.   
“A história nos oferece duas lições claras: reduzir a dívida é incrivelmente difícil sem crescimento, e aumentar o crescimento é incrivelmente difícil sem uma pesada carga de dívida pública” (Christiane Lagarde, diretora-executiva do FMI; 12-01-2013).
Não se pode melhorar a situação fiscal sem que haja crescimento antes” (Shinzo Abe, líder direitista do conservador Partido Liberal, recém indicado primeiro ministro do Japão com uma agenda que inclui: pacote de US$ 115 bi em investimentos públicos; afrouxamento monetária e elevação da meta de inflação; 12-01-2013).

O Banco Central não mira mais o centro da meta da inflação e aceita uma alta de preços maior para não prejudicar o crescimento. Controla fortemente o câmbio e, para completar, a equipe econômica faz maquiagens nas contas públicas(...) o PT ousou tocar num dogma do governo anterior aclamado pelos economistas”. (O Globo; domingo 13-01-2013) 

As bases de uma economia saudável, promissora e atraente para empreendedores de longo prazo estão sendo minadas por uma política voluntarista, imediatista, populista e irresponsável, embalada num mal costurado discurso desenvolvimentista (...) o Executivo decidiu estimular com recursos orçamentários o crédito para investimento (...)numa crescente e perigosa promiscuidade financeira” (Estadão; 06-01-2013)

A criatividade do Tesouro Nacional para fechar suas contas, com o uso de sucessivas manobras contábeis e brechas legais, criou no Brasil uma contabilidade paralela à oficial que coloca em risco a credibilidade fiscal (...) a economia do setor público para pagar juros da dívida foi no mínimo 35% menor que a oficial em 2012” (Folha de S Paulo; 12-01-2013)

As declarações dos insuspeitos quadros conservadores, Christiane Lagarde e Shinzo Abe, soam, como se vê, quase como provocação no cenário fiscal beligerante criado pelo conservadorismo brasileiro em torno dos gastos do Estado. 

A ofensiva busca engessar políticas contracíclicas asfixiando-as num torniquete de ilegitimidade, alarmismo e descrédito.

Articulistas de peso e medida e competem para ver quem dá menos pelo futuro da estabilidade fiscal nas mãos da nova populista do quarteirão: Dilma Rousseff.

Ex-ministros do governo FHC – sob cuja batuta a dívida pública saltou de 30% para 51% do PIB, entre 1995 e 2002; hoje é de 35% – disparam mísseis alarmistas a partir de bases midiáticas conhecidas.

O conjunto busca abrir espaço para dar sentido e ressonância à candidatura oposicionista em 2014.

O mantra fiscal tem como alvo camarotes e numeradas dirigindo-se, sobretudo, ao dinheiro grosso da finança local e forânea.

Tem pouco ou nenhum apelo aos ouvidos das gerais que por razões históricas legítimas e experiência intuitiva arguta menosprezam o sassarico retranqueiro e cobram o jogo ofensivo em busca de gols.

O dissenso entre uma coisa e outra faz colunistas provectas se comportarem como focas desastradas, torturando fatos e calendários na sôfrega ânsia de entregar a encomenda. 

Procura-se a 'manchete popular' capaz de embalar o comboio anti-petista empacado na BR 2014. 

O SOM, A FÚRIA E O NADA


Um texto irônico e sagaz de Morris Berman, que acabou de lançar Why America Fail, sobre o lado sombrio do Iluminismo, nas pegadas da Escola de Frankfurt (Adorno e Horkheimer, Dialektik der Aufklãrung).

A Teoria Bambolê da História
por Morris Berman, no Conterpunch

“Acima de tudo, sem fervor” (Talleyrand)

William Shakespeare: sem ilusões sobre o gênero humano
Existe um ritmo curioso nos assuntos humanos, ou talvez mais especificamente, na história do Ocidente. Algum movimento ou ideia surge e todos somos varridos em sua esteira. É isso, então; é a Resposta pela qual estávamos procurando. 
Todas as respostas anteriores estavam erradas; agora, finalmente, estamos no caminho certo. 

Com a passagem do tempo, naturalmente, esta nova ideia brilhante perde o brilho, nos trai, ou mesmo resulta em milhões de mortes. Assim, aparentemente, fomos enganados. Mas, espere: aqui está a verdadeira nova ideia, aquela que deveríamos ter adotado desde sempre. Esta é a Resposta pela qual estávamos procurando! Etc.

O escritor norte-americano Eric Hoffer descreveu esta síndrome há cerca de 60 anos em um livro que gerou muito entusiasmo (pelo menos por algum tempo), o True Believer. As pessoas se convertem com facilidade, observou Hoffer; elas mudam de um ismo para o outro, do Catolicismo para o Marxismo para o que quer que apareça no horizonte.

O sistema de crenças segue seu curso, outro 
toma o seu lugar. O que é significativo é a energia envolvida, não o alvo em particular, que na verdade poderia ser qualquer coisa. O que move este motor é a reafirmação psicológica, a busca por Significado, com S maiúsculo — um sistema de crenças amplo, que explique tudo. Existe um sentimento, não reconhecido, de que sem isso estamos perdidos; que sem isso a vida não tem propósito, a história não tem significado; que ambos (como Shakespeare disse) seriam pouco mais que uma fábula contada por um pateta, cheia de som e fúria, significando nada.