quarta-feira, 9 de maio de 2012

O DIA DA VITÓRIA


Tropas soviéticas destroem estandartes nazistas
O dia 9 de maio é Dia da Vitória soviética (Soviet V-Day) ou a capitulação da Alemanha nazista para a União Soviética na Segunda Guerra Mundial – conhecida entre os russos como a Grande Guerra Patriótica. A data refere-se à assinatura do documento de rendição alemã, no final da noite de 8 de maio de 1945 (9 de maio no horário de Moscou). Isso aconteceu depois da capitulação original que a Alemanha anteriormente havia acordado com as forças conjuntas dos aliados na Frente Ocidental. O governo soviético anunciou a vitória em 9 de maio, após a cerimônia de assinatura em Berlim. Filmes da época (ver abaixo) mostram os desfiles militares na Praça Vermelha, os soldados soviéticos queimando estandartes nazistas, a grande festa popular e o marechal Gregori Jukov, comandante e principal herói militar da URSS, desfilando garbosamente na praça em seu cavalo branco. Ele foi muito aplaudido pela multidão. Dizem que o Pai dos Povos ficou enciumado; dois anos depois, Jukov caiu no ostracismo.      
O marechal Jukov desfila em seu cavalo branco em Moscou 
Sem a entrada da União Soviética, teria sido muito difícil aos aliados vencerem a Alemanha nazista. Em 1939, face à política do Ocidente de apaziguar o III Reich(o “espírito de Munique”, quando França e o Reino Unido entregaram a Tchecoslováquia à sanha nazista), Stálin assinou com Hitler um pacto de não-agressão. Embora infame, talvez não houvesse outra saída naquele momento para os soviéticos, cercados de inimigos por todos os lados. Para piorar, Stálin expurgara toda a cúpula do Exército Vermelho em 1938, decapitando a liderança militar do país. Em agosto de 1941, nada menos que 150 divisões de elite da Wehrmacht invadiram a União Soviética em três frentes. Foi uma das maiores operações militares da história. Os nazistas quase chegaram a Moscou, mas os soviéticos resistiram bravamente, chegando inclusive a transportar fábricas inteiras para o interior do país. Leningrado (atual São Petersburgo) ficou 900 dias sob cerco dos nazistas. A contra-ofensiva soviética começou em 1943 em Stalingrado, quando o Exército Vermelho finalmente furou o bloqueio e começou a empurrar as tropas alemãs até chegar a Berlim. Travaram inúmeras batalhas, como a de Kursk, a maior batalha de tanques da história. A guerra custou a vida de mais de 25 milhões de soviéticos, entre civis e militares, e grande parte do país foi destruída. Os Estados Unidos, por comparação, perderam 300 mil soldados.  


O Dia da Vitória em 1945 em Moscou 

PS.: O capitalismo venceu mesmo. Quando você abre este vídeo sobre o Exército Vermelho e a URSS, recebe "spams" de empresas ou sei lá do quê oferecendo "Pretty Women from Russia". É f...   

  

terça-feira, 8 de maio de 2012

SOB O SIGNO DE SATURNO


“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário (Charles Dickens, Conto de Duas Cidades)

A terceira morte de um comandante


Hoje em dia, pouca gente sabe, na nossa América, o que foi a Revolução Sandinista. Pois foi a última vez que senti que faltava pouco, quase nada, para que tocássemos o céu com as mãos. E naquele tempo, em que sonho e a realidade quase se tocavam, Tomás Borge era o mais querido dos comandantes revolucionários. Quando me dói constatar que quase ninguém lembra do que foi a Revolução Sandinista, me chega a notícia de que chegou sua terceira – e derradeira – morte.
O comandante Tomás Borge
Agora, não lembro se foi em outubro ou novembro de 1979. Mas lembro, com certeza e claridade, como foi apertar pela primeira vez a sua mão. 

Foi no aeroporto de Manágua. Lá estavam os comandantes sandinistas – todos guerrilheiros – e, entre eles o escritor Sergio Ramírez, o único civil e o único que eu conhecia. Entre os guerrilheiros, havia o último sobrevivente dos fundadores da Frente Sandinista de Libertação Nacional, em 1965: o comandante Tomás Borge.

Lembro do que aconteceu no dia seguinte: foi identificado, entre dezenas de torturadores presos, aquele que tinha sido seu carrasco, que havia destroçado Tomás na tortura, que tinha matado sua companheira.

Vitoriosa a revolução, Tomás era o ministro de Interior. Era quem controlava e comandava os serviços policiais, os serviços de inteligência e contrainteligência, os comitês de defesa. Era o homem que tinha o poder que quisesse ter. 

Pois assim que soube que haviam identificado, entre os presos, o seu algoz, o homem que o havia reduzido a um feixe de ossos e pele de 43 quilos de peso e olhar embaçado, o que havia massacrado sua companheira, pois assim que soube que entre os presos esse fulano havia sido identificado, Tomás largou tudo e correu para o quartel onde ele estava preso. Chegando lá, se apressou a dizer o seguinte: ‘Ninguém toca nele. Ninguém faz nada com ele. Ele vai ter o que me negou: um julgamento justo, com direito a defesa. Ele vai ter a vida inteira para se arrepender’.

Isso, ninguém me contou: eu vi. Eu estava lá. 

Anos mais tarde, soube como Tomás havia sido massacrado. E entendi que naqueles anos de prisão, ele havia superado sua primeira morte. 

Levou algum tempo, é verdade, para que nos fizéssemos amigos. Tomás, além do mais popular, era o mais propício, entre os líderes guerrilheiros, a abrir espaço para opiniões de fora. Lembro que frequentavam sua casa muitas figuras de proa das artes e da cultura de nossos países. Lembro do afeto sincero, sem tréguas e sem fronteiras, que Julio Cortázar dedicava a ele. 

Era o dirigente sandinista mais amado pelos nicaraguenses, e por sua casa passavam sonhadores incondicionais, como Cortázar, como eu. E também os céticos incondicionais, como Mario Vargas Llosa. Pela sua casa passavam todos, passava de tudo.

Agora que penso nisso, agora que lembro disso, me dou conta que, hoje em dia, pouca gente sabe, na nossa América, o que foi a Revolução Sandinista. Pois foi a última vez que senti que faltava pouco, quase nada, para que tocássemos o céu com as mãos.
E naquele tempo, em que sonho e a realidade quase se tocavam, Tomás era o mais querido dos comandantes revolucionários. Ele vinha do breu. Havia sobrevivido à sua primeira morte. Era um claro sobrevivente.

E aí veio a derrocada. Em 1990, a Nicarágua – depois de anos de guerra civil, do acosso inclemente dos Estados Unidos, de sabotagens de todo e qualquer tipo – realizou eleições. Os sandinistas perderam. 

Apeados do poder, os sandinistas repartiram, entre si, os bens que a revolução havia expropriado. Aconteceu a ‘piñata’. 

A ‘piñata’ costuma acontecer em aniversários de crianças: um pote de barro, recheado de guloseimas, é posto a balançar numa corda, e as crianças dão no pote com um pedaço de pau. Quando o pote arrebenta, é um cada um por si: todos saem agarrando o que conseguirem.

A Revolução Sandinista acabou assim. Derrotados nas urnas, seus protagonistas trataram de agarrar o máximo que puderam . 

Alguns – penso em meu amigo, o escritor Sérgio Ramírez, penso em meu amigo, o padre e poeta Ernesto Cardenal – saíram sem nada. Outros, saíram com um montão.

Tomás Borge saiu com um montão. Meu amigo, meu hospedeiro, o homem para quem cumpri missões complicadas e delicadas, mudou muito, depois da derrocada dos sandinistas, em 1990. Passou a ser outro. Foi sua segunda morte.

Havia escapado da primeira, do massacre na prisão. Escapou da segunda – a morte moral. Depois da ‘piñata’ nos vimos poucas vezes. Não havia muito de que falar. 

Ele sabia, e eu sabia que ele sabia que eu sabia, que havia uma história por trás de tudo que víamos e vivíamos. Ele sabia, e eu sabia que ele sabia, que eu tinha ficado com aquele outro Tomás – o de antes, o do sonho, o da busca incansável do possível dentro do impossível.

Agora, quando me dói constatar que quase ninguém lembra do que foi a Revolução Sandinista, que quase ninguém tem ideia do que foi tudo aquilo, me chega a notícia de que chegou sua terceira – e derradeira – morte.

Ele foi o mais popular dos comandantes – e não por ser o mais sonhador: por ser o sobrevivente do sonho. É assim que quero, dele, a memória.

Penso na Nicarágua que podia ter sido e que não foi. Penso num país de miséria, de miseráveis e de sonhos. 

Penso no país com mais vulcões em atividade no mundo. Em cada vulcão, um sonho de justiça. Penso que, no panteão dos heróis, há que abrigar Tomás Borge. 

O Tomás que foi o mais popular dos homens de uma revolução que foi popular até a medula. E que depois, acabou. 

Virou uma caricatura de si mesma, uma caricatura de todos nós. 

Pobre Tomás.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

PARA ONDE VAI A ESQUERDA EUROPEIA?


François Hollande comemora vitória ao lado da mulher 

A eleição do socialista Claude Hollande à presidência da França representa uma vitória das forças progressistas, na medida em que significa o fim do lamentável reinado de Nicolas Sarkozy, que comandou o mais reacionário dos governos da V República. Mas é preciso não alimentar ilusões em relação aos socialistas: tanto François Mitterrand na presidência quanto Lionel Jospin, que foi primeiro-ministro entre 1997 e 2002, se alinharam à lógica privatizante do Consenso de Washington. E olhe que Jospin tinha passado trotskista e representava a ala esquerda do Partido Socialista. Esperemos, no entanto. Quem sabe agora apresentem uma alternativa?

Mais interessante, contudo, parece ser o que está acontecendo na Grécia, onde a coalizão de esquerda Syriza tornou-se a segunda força política do país e propõe um governo que rejeite a política de austeridade para pagar a dívida a qualquer custo. Infelizmente, o KKE (Partido Comunista grego), outra força de esquerda importante, já rejeitou a aliança, repetindo o sectarismo esquerdista da III Internacional do chamado “Terceiro Período”.
Abaixo, artigo sobre a Grécia publicado no site “esquerda net”:

Syriza quer governo de esquerda para romper com a troika

Da esquerda net
O resultado das eleições gregas representa um autêntico terremoto político: com cerca de metade dos votos contados, a coligação Syriza, que se opõe ao memorando da troika, já ultrapassou em muito o resultado obtido nas eleições de 2009 e confirma-se como a segunda força política grega e a primeira da esquerda. Alexis Tsipras, o líder da coligação, diz que o resultado de hoje mostra que os gregos e os europeus querem “cancelar o memorando da barbárie” a que a troika tem sujeitado o seu país nos últimos anos. A confirmarem-se os resultados que apontam que os partidos que apoiam o memorando serão minoritários no Parlamento grego – mesmo com os 50 deputados que são automaticamente atribuídos ao partido vencedor, a Nova Democracia –, Tsipras propôs a formação de um governo de esquerda e disse que esta eleição é “uma mensagem de derrubada” do governo da troika.

Alexis Tsipras
“A nossa proposta é a de um governo de esquerda que, com o apoio do povo, irá recusar o memorando e pôr fim ao rumo pré-determinado do país para a miséria”, afirmou Tsipras, que disse estar certo que a subida meteórica do Syriza não se deve a uma pessoa ou partido em especial, mas a esta proposta que repetiu na campanha eleitoral. A coligação parceira do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu e no Partido da Esquerda Europeia – de que Tsipras é vice-presidente – venceu as eleições em onze círculos eleitorais, incluindo a capital Atenas.

O líder do PASOK falou antes de Tsipras e reagiu à derrota histórica – o partido deve perder mais de dois terços dos votos que teve na última eleição – dizendo que procurará formar um governo com os partidos que apoiam o memorando. Evangelos Venizelos disse estar certo que os resultados deste domingo “excluem o velho sistema dos dois partidos” no governo.

Antonis Samaras, líder do partido mais votado, reagiu aos resultados conhecidos com duas condições para dar início à formação do governo: a manutenção do euro e a mudança das políticas do memorando da troika para “ter crescimento e dar alívio à sociedade grega”.

Os resultados eleitorais — numa altura em que estão contados 70% dos votos –  dão 19,8% para a Nova Democracia, 16,3% para o Syriza, 13,6% para o PASOK, 10,5 para os Gregos Independentes, 8,4% para o KKE (PC grego), 6,9% para os neonazis da Aurora Dourada e 6% para a Esquerda Democrática. A extrema-direita do LAOS, que participou e depois rompeu com o governo da troika, não deverá eleger deputados, obtendo 2,9%. A abstenção está estimada em 38%.

Em comunicado, o KKE já rejeitou a proposta do Syriza, classificando esta força de social-democrata e acusando-a de servir para impedir a radicalização da sociedade grega. Para a secretária-geral Aleka Papariga, o resultado do partido não foi uma surpresa, mas a distribuição dos votos indica que o KKE não conseguiu mobilizar o sentimento antitroika do povo grego desta eleição, nem mesmo nos tradicionais bastiões eleitorais comunistas, perdendo votos nas zonas urbanas, onde disputa deputados com os neonazis. O surgimento em força da Aurora Dourada – sobretudo no voto urbano e nos bairros populares – veio abalar a política grega.

Resultados na Grécia são um “sinal importante que o povo grego dá à Europa”
“Já felicitamos o dirigente e o candidato da coligação de esquerda, com quem temos excelentes relações e com quem temos feito um caminho conjunto no sentido de combater esta Europa de austeridade”, informou Marisa Matias.

A eurodeputada do Bloco de Esquerda considera que, com estes resultados, o povo grego “rejeitou a deriva neoliberal de austeridade”. “O que é muito importante porque é um sinal claro de que o povo grego está aberto a que outras propostas surjam, que não sejam sempre neste mesmo caminho”, disse, sublinhando ainda que “rejeitou uma outra, de rejeitar o projeto europeu, porque a Europa pode ser outra coisa”.

Para Marisa Matias, porque “nunca colocaram a hipótese da saída do Euro, nem da União Europeia, mas antes lutaram por um projeto europeu que seja mais solidário e mais consistente”, os gregos dão “um sinal muito importante quer à Europa, quer a Portugal”, que está “numa situação muito semelhante à da Grécia”.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O RESGATE DE UMA ERA

Ao dar posse ao novo ministro do Trabalho, Brizola Neto, a presidente Dilma Rousseff elogiou a tradição trabalhista e resgatou um personagem (Jango) vilipendiado tanto pela direita quanto por uma certa tradição intelectual "esquerdista" e uspiana para a qual o movimento operário pré-1964 se resumiu à manipulação populista das massas. 


Um dia de desagravo a Vargas, Janto e Brizola


Da Carta Maior
Em seu discurso de despedida do Senado, em dezembro de 1994, o presidente eleito Fernando Henrique Cardoso anunciou o fim da Era Vargas. Foi generosamente elogiado pelas corporações midiáticas, saudado pelos bancos, aplaudido pelo capital estrangeiro, incensado, enfim, pelo dinheiro grosso e seus áulicos de escrita fina.

Era preciso sedimentar o estigma maniqueísta para legitimar o projeto conservador. Foi o que se fez e ainda se faz. Não escapa ao observador atento a entrevista 'oportuna' de FHC à Folha esta semana para advertir a Presidenta em corajosa ofensiva contra os bancos para a redução dos juros."Vá devagar, não se brinca (sic) com o mercado financeiro", protestou o tucano. É coerente. Pelos quase dez anos seguintes seu governo negociaria barato o patrimônio público construído, na verdade, por décadas de lutas de toda a sociedade brasileira. A nova referência autossuficiente da economia, da sociedade e da história seriam os livres mercados --sobretudo o capital especulativo que não presta contas a ninguém. 
Inclua-se nesse arremate a Vale do Rio Doce, mas também algo de incomensurável importância simbólica: a auto-estima da população, seu discernimento sobre quem tem o direito e a competência para comandar o destino de uma sociedade e do desenvolvimento. Entorpecida a golpes do tacape midiático, essa consciência seria desqualificada para a entronização dos 'mercados desregulados' como o portador autossuficiente do futuro e da eficiência. Em suma, era a vez do 'Brasil não caipira'.

Três vitórias seguidas do PT resumem o escrutínio da população sobre os resultados desse ciclo de desmonte da esfera pública, endividamento da Nação e depreciação da cidadania em dimensões profundas, talvez ainda não suficientemente avaliadas; por certo, não superadas em suas usinas realimentadoras. 

Seria preciso, porém, uma crise capitalista igual ou pior que a de 1929 para sacudir de vez a inércia ideológica e o interdito histórico que recusavam admitir nas conquistas sociais e econômicas do ciclo iniciado em 2003, um fio de continuidade com tudo aquilo antes execrado e sepultado como anacrônico e populista.

Lula cutucou-os não poucas vezes; no fígado da intolerância histórica em certas ocasiões , como quando anunciou a autossuficiência do petróleo em 2006, e disse: " a seta do tempo não se quebrou". E o demonstraria na prática pouco depois, com a regulação soberana do pré-sal, fazendo das encomendas da Petrobrás uma alavanca industrializante capaz de fixar um novo divisor produtivo. 

Conquistas acumuladas em décadas de luta pelo desenvolvimento seriam assim resgatadas de um reducionismo a-histórico, desmentido nos seus próprios termos pelo colapso planetário das premissas esfareladas na crise de 2008. 

Coube nesta 5ª feira à Presidenta Dilma Roussef acrescentar a essa espiral dialética um discurso pedagógico. Na cerimônia de posse do novo ministro do Trabalho, Brizola Neto, nomes e agendas que a soberba conservadora se propôs um dia a banir da história brasileira, retornaram com orgulho e reconhecimento à narrativa de um governo soberano que, desde 2003, com tropeços e hesitações, aos poucos se liberta daqueles que ainda evocam o direito de cercear o passo seguinte da história brasileira. Esse tempo acabou e Dilma,ontem, fez do seu réquiem um desagravo à história da luta pelo desenvolvimento.Palavras da Presidenta Dilma Rousseff:

"O desemprego no Brasil está hoje nos mais baixos patamares de nossa história - 6,5% em março. Trata-se de um contraste gritante(...) o mundo perdeu 50 milhões de vagas formais de emprego, pulverizadas pela crise econômica, por políticas de austeridade exagerada, pela redução de direitos e precarização da legislação trabalhista. Nós navegamos na contramão dessa tendência (...) 

A partir do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, houve uma mudança (...) Nós mudamos a nossa forma de conceber o desenvolvimento e definimos um processo de desenvolvimento com inclusão social (...) Somente nesses últimos 15 meses do meu governo, nós geramos 2 milhões e 440 mil empregos formais (...) 
Jango (esq.) e Leonel Brizola
É assim, muito significativa, a circunstância que traz ao cargo de ministro um jovem que representa, inclusive, no sobrenome Brizola, uma história de mais de meio século de lutas sociais, de defesa do interesse nacional e de conquistas de direitos por parte dos trabalhadores brasileiros. Não bastasse levar o sobrenome Brizola, o novo ministro do Trabalho carrega consigo a história do seu tio-avô João Goulart, ex-presidente da República. Em 1953 - vejam os senhores que coincidência -, também aos 34 anos, também jovem e determinado, Jango foi empossado ministro do Trabalho do governo democrático de Vargas. Foi Jango quem deu à pasta do Trabalho grande peso político e grande dimensão. 

Assim, nomear como ministro do Trabalho e Emprego Carlos Daudt Brizola Neto reforça, em meu governo, é o reconhecimento da importância histórica do Trabalhismo na formação do nosso país" (Presidenta Dilma na posse do ministro do Trabalho, Brizola Neto)
Postado por Saul Leblon

quinta-feira, 3 de maio de 2012

UM CHARUTO É SÓ UM CHARUTO?

"A  conferência de Potsdam, em julho de 1945, seria a aparição final de Churchill como primeiro-ministro num período de guerra, enquanto Inglaterra, Rússia, e Estados Unidos se encontravam pela terceira vez - depois de Teerã e Yalta - no palácio de Cecilienhof, nos arredores de Berlim. No dia da abertura do encontro, Stálin foi visto momentaneamente enquanto limpava um cachimbo comprado na Dunhill e presenteado por Churchill. Pouco depois o líder russo estava bebendo champagne e fumando um charuto tão grande quanto o de Churchill. O primeiro-ministro deleitou-se e comentou que, se um fotógrafo estivesse presente para captar a cena, isso "criaria uma enorme sensação. Todos diriam que eu o influenciei". Entretanto, a influência de Churchill, que em Teerã cedera lugar à de Roosevelt, já estava se exaurindo. Três dias depois ele e Clement Attlee retornaram à Inglaterra para esperar pelo resultado das eleições. Somente um deles voltaria ao poder. Stálin tinha garantido para Churchill que este venceria por oito cadeiras, o que indicava que o ditador comunista desconhecia os meandros da democracia, porque Churchill, apesar de todos os seus esforços na guerra, acabou sendo esquecido por uma população ansiosa pela nova era ao ser derrotado pelo Partido Trabalhista. Clementine Churchill tentou tranquilizar o marido, dizendo que isso era uma bênção disfaçarda. 'Excessivamente bem disfarçada', comentou Churchill."
Stephen McGinty, O Charuto de Churchill
     

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O ESPECTRO QUE RONDA SÃO PAULO


Esse texto do prof. João Quartim de Moraes é uma análise acurada desse "microfascismo cotidiano" que se manifesta nas práticas intolerantes e no espírito inquisitorial do governo tucano de São Paulo, principalmente quando foi dirigido por José Serra, trânsfuga da esquerda que hoje encarna o pior espírito neo-udenista das oligarquias. 

Tabagismo, intolerância, udenismo

João Quartim de Moraes (*)


Que o PV faz muita aliança com a direita,já sabíamos. Que está se tornando um partido de direita é a notícia mais recente.


Não há porém outra conclusão a tirar das declarações de dois de seus vereadores, Ricardo Teixeira e Gilberto Natalini, ao anunciarem no Círculo Militar de São Paulo, dia 8 de março de 2012, apoio a candidatura de Serra para a Prefeitura. "Ele é o único que tem condições de fazer com que o Brasil não fique vermelho", afirmou Teixeira. "Nós vamos influenciar o futuro e impedir com que o PT seja hegemônico no Brasil", acrescentou seu parceiro Natalini. Só faltou repetir Regina Duarte, a Namoradinha da Direita: “-Tenho medo! É por isso que vou votar no Serra”. 

Cada qual se define por aquilo de que tem medo. Se for da violência endêmica suscitada pela miséria e pela criminalidade, da truculência policial, da estupidez mortífera do trânsito, e de outras perversidades sociais semelhantes, é preciso ser inconsciente para não ter medo. Mas estimular medo dos vermelhos é reativar fantasmas sombrios de nosso passado. Não é esse entretanto o único ponto em comum que o vereador Teixeira mantém com a tucanagem em geral e com a tropa do Serra em particular: carrega também o estandarte da cruzada contra a fumaça.
Eles mandariam prender Gilda (Rita Hayworth)
A proibição de fumar em espaços públicos fechados é uma medida justa. Porém, transformar a regulamentação do fumo em cruzada fanática é deturpá-la. A mesquinharia repressiva da Cruzada anti fumo lançada por Serra quando governador levou e continua levando a atos de boçalidade policialesca. Nos aeroportos, os alcaguetes e leões de chácara de plantão passaram a proibir os fumantes de pé na calçada exterior de ficarem embaixo das marquises que cobrem parcialmente a calçada. Mesmo que chova. Não se vê isso em outros Estados brasileiros, nem muito menos na França, ou na Alemanha, países onde a segurança do cidadão é levada muito mais a sério do que nos redutos da tucanagem. Lá, sistematicamente os automóveis param nas faixas de pedestres (com ou sem sinal luminoso), as calçadas não são esburacadas, o índice de mortes por atropelamento é pelo menos dez vezes menor do que no Brasil, os motoristas de ônibus fazem greve por salários e conquistas sociais, mas não pelo direito de continuarem a cometer infrações graves sem pagarem multas, etc. etc.

Não sei se a Regina Duarte tem medo de fanáticos, mas eles são perigosos, sobretudo porque não conhecem limites: já há histéricos que pretendem impor a proibição de fumar em prédios residenciais. É o rumo para o qual aponta o projeto de lei apresentado no início de abril pelo vereador Teixeira à Câmara Municipal de São Paulo, proibindo fumar em parques e praças, sob pena de multa pesada (mais de mil reais, mais de dois mil em caso de reincidência). Ele deve ter ouvido dizer que em Nova Iorque resolveram proibir fumar no Central Park. É o que basta para os deslumbrados com o país do Tio Sam (tio deles, não nosso) querer fazer o mesmo por aqui. Além do mimetismo servil, a perseguição aos fumantes das praças e parques tem objetivo politicamente compensatório. Não conseguindo coibir as agressões mais graves à saúde pública, molestam os fumantes para fazer de conta que estão cuidando do bem estar coletivo. 

Reprimir tabagistas é fácil. Bem mais difícil e trabalhoso é controlar a fumaça dos caminhões, ônibus e automóveis que entopem o chão e a atmosfera da megalópolis. O alegado incômodo de cruzar com um fumante no Ibirapuera é incomparavelmente menos danoso para os pulmões dos atletas do que os monóxidos de carbono que somos obrigados a engolir diuturnamente.
Os pregadores de cruzadas demonizam os alvos de sua sanha para melhor impressionar seus próprios seguidores. O tabagismo agride o pulmão e o sistema cardiovascular, a intolerância agride a liberdade alheia e instaura um clima propício à delação. Qualquer causa, mesmo a mais justa, pode ser manipulada. Durante um século, os estadunidenses amealharam fortunas vendendo cigarros ao mundo inteiro. Estimularam o consumo via Holywood (glamorosos atores e atrizes exibindo-se com um cigarrinho no bico) e intensa publicidade mediática. Quando resolveram mudar, seguiram os mesmos critérios ultra puritanos que tinham inspirado, nas primeiras décadas do século XX, a adoção da lei seca, cujo principal efeito foi criar mercado cativo para os gangsters que controlavam o comércio etílico clandestino.

A esperteza da manobra dos serras e teixeiras está no efeito arrastão que exercem sobre os corpos legislativos. Ninguém quer passar por desleixado com a saúde pública perante a “maioria silenciosa”. Por isso, mesmo os que percebem a intolerância da cruzada em curso, evitam contrariá-la, deixando prosperar a hipocrisia, o moralismo barato, o reacionarismo e o culto ao paradigma estadunidense.

Sejamos ou não fumantes, é tempo de dizer basta ao udenismo.
(*) Professor universitário, pesquisador do marxismo e analista político.

terça-feira, 1 de maio de 2012

ENTRE MUITOS


Sou quem sou.
Inconcebível acaso
como todos os acasos.

Fossem outros 
os meus antepassados
e de outro ninho 
eu voaria
ou de sob outro tronco 
coberta de escamas eu rastejaria.

No guarda-roupa da natureza
há  trajes de sobra
O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um cai como uma luva
e  é usado 
até se gastar. 

Eu também não tive escolha
mas não me queixo.
Poderia ter sido alguém
muito menos individual. 
Alguém do formigueiro, do cardume, zunindo no enxame,
uma fatia de paisagem fustigada pelo vento.

Alguém muito menos feliz,
criado para uso da pele,
para a mesa da festa,
algo que nada debaixo da lente.

Uma árvore presa à terra
da qual se aproxima o fogo.

Uma palha esmagada 
pela marcha de inconcebíveis eventos.

Um sujeito com uma negra sina
Que para os outros se ilumina.

E se eu despertasse nas pessoas só medo,
ou só aversão,
ou só pena? 

Se eu não tivesse nascido 
na tribo adequada
e diante de mim se fechassem os caminhos?

A sorte até agora
me tem sido favorável.

Poderia não me ser dada 
a lembrança dos bons momentos. 

Poderia me ser tirada 
a propensão para comparações. 

Poderia ser eu mesma – mas sem o espanto,
e isso significaria
alguém totalmente diferente.

Wislawa Szymborska (1923-2012), poetisa polonesa