quinta-feira, 19 de abril de 2012

GÜNTHER GRASS E ISRAEL

Sobre o polêmico artigo do escritor alemão Günther Grass, que escreveu um poema criticando a política israelense com relação aos palestinos e foi acusado de "antissemitismo" por defensores incondicionais do Estado de Israel.   

Dedo na ferida


do Blog do Marco Aurélio Weissheimer.

Por Paulo Muzell

"A publicação de um simples poema provocou a enorme controvérsia. É verdade que circunstâncias muito peculiares explicam a grande repercussão. Primeiro pela autoria e nacionalidade do autor. Günter Grass é alemão e prêmio Nobel de literatura, para muitos o maior escritor vivo do país. Seus versos criticam a posição da Alemanha que apoia incondicionalmente Israel a ponto de fabricar e financiar cinco submarinos nucleares, dois em fase final de montagem e três já entregues ao governo de Benjamin Netanyahu.

O poeta e romancista afirmou que aumentar o poder militar de Israel – especialmente seu arsenal nuclear – representa um sério risco à paz mundial. E ele tem toda razão. Sabemos que a cada ação invariavelmente corresponde outra, não necessariamente igual mas contrária. Explica-se, assim, a crescente fobia norte-americana de que seja dada uma resposta à crescente militarização de Israel. Primeiro os Estados Unidos acusaram Sadam Hussein e invadiram o Iraque sob o pretexto de uma suposta existência de um arsenal nuclear. Mero pretexto porque o arsenal nuclear era ficção, não existia. Agora os Estados Unidos e Israel acusam o governo do Irã de estar desenvolvendo programas nucleares com fins militares.

Embora o alegado temor de que um suposto perigo nuclear árabe sirva como conveniente pretexto dos norte-americanos para intervir em países e aumentar seu controle da região, a verdade é que Günter Grass tem razão: a expansão territorial israelense assentada em crescente poderio militar e a posse de armas nuclares representa um sério e efetivo perigo à paz mundial.

Amira Hass uma respeitada e conhecida jornalista israelense independente, que realiza seu trabalho no território palestino ocupado, em recente entrevista registrou mais do que uma simples posição crítica, sua indignação com a dominação imposta aos palestinos por Israel: “…eles (os palestinos) são impedidos por lei de circularem livremente, forçados a um regime de confinamento e de toque de recolher.” E narra um episódio exemplar. Num certo dia, deparou-se com um menino intrigado com a onipresença militar que perguntou a ela: “os judeus já foram bebês e depois foram crianças como nós ou já nasceram crescidos, de uniforme e de metralhadora?”

De 1967 até hoje a área ocupada por Israel se expandiu e equivale hoje a quase 80% da área original da Palestina. E nos poucos mais de 20% da área restante vivem os palestinos, divididos em duas áreas totalmente isoladas uma da outra. O palestino não tem o direito de se deslocar de uma área para a outra nem para visitar familiares. E nestas áreas duas áreas existem dezenas de assentamentos e colônias que pela lei israelense constituem parte do “seu” território, onde o palestino não pode pisar ou sequer atravessar.

O resultado é um povo fragmentado, empobrecido, sem liberdade e qualquer perspectiva futura. A forma de manter a dignidade que resta é o gesto de desespero de investir como homem-bomba ou em veículo explosivo contra alvos israelenses.

Assim, os grupos populares palestinos de resistência à ocupação são chamados pelo governo sionista e pela mídia ocidental, equivocadamente, de terroristas. Fica claro que o estado israelense – com maciço apoio da imprensa européia, norte-americana e da maioria dos países periféricos ocidentais – quer convencer o mundo que os palestinos não têm o direito de se defender da violência e da barbárie. Que o que lhe resta é morrer em silêncio, sem protestar.

Günter Grass explica o irrestrito, o injustificável e injusto apoio do governo e do povo alemão a Israel a uma inconfessada vergonha nacional e à necessidade de expiar o forte sentimento de culpa por ser responsável por uma das maiores monstruosidades perpetradas pela civilização ocidental-cristã: a criação da indústria da morte do nazismo.

Seu oportuno poema colocou o dedo na ferida. Uma ferida que, infelizmente, mantém-se convenientemente oculta pela mídia brasileira e gaúcha, que simplesmente ignorou o episódio.

À guisa de conclusão cabe citar as sábias palavras finais de Amira Hass na já citada entrevista. Respondendo a uma pergunta sobre o que ela, como jornalista e cidadã, sonhava para o futuro do seu povo e de seu país, respondeu: “a experiência me ensinou a ser modesta até nos sonhos. Tenho a esperança que o meu povo perceba, antes que seja tarde demais, que a superioridade militar não garante a segurança e a vida normal na região. Paz e justiça não são incompatíveis. Será possível estabelecer a paz na região a partir do momento que rompamos com a política de exclusão imposta aos palestinos desde a criação do Estado de Israel, em 1948.”

quarta-feira, 18 de abril de 2012

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO?


Claude Hollande: mudança, agora ou nunca 

Depois do grande Jean Jaurès (1859-1914), os socialistas franceses se enlamearam apoiando a pátria na Grande Guerra (1914-1918), mas ainda viveriam seu canto de cisne, a vitória do Front Populaire em 1936. Atacado por todos os lados, o governo liderado por Léon Blum obteve poucas conquistas, com destaque para a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. No plano internacional, o Front Populaire não teve força política sequer para ajudar os republicanos espanhois acossados pelos fascistas de Francisco Franco. E depois da Segunda Guerra, o socialismo francês ruiu miseravelmente, com seus líderes apoiando a vergonhosa guerra colonial na Indochina e na Argélia. A eleição de François Mitterrand em 1981 trouxe a ilusão do resgate dos valores socialistas – pelo menos eles aboliram a pena de morte –, mas ela se dissipou rapidamente diante da blitzkrieg neoliberal de Thatcher e Reagan. Desde então, o socialismo francês se contentou com a perspectiva de fortalecer a união europeia para conter a Alemanha dentro dela. Mas o projeto, ao contrário, fortaleceu a hegemonia de Berlim e ameaça transformar democracias soberanas em protetorados da banca internacional. Hoje, prestes a voltar ao poder, o PSF está diante do dilema de reinventar a práxis da esquerda ou cair na vala comum dos “socialistas liberais” da Espanha, Portugal, Alemanha e Itália.


Abaixo, a trajetória de Jaurès publicada pelo site Operamudi


1904 - Jean Jaurès funda o jornal socialista L'Humanité


Político seria assassinado por se opor a um confronto armado entre França e Alemanha

Do site Operamundi

Nascido numa família burguesa de Castres, esse professor de filosofia que lecionava no Liceu Laperouse, de Albi, era um homem de extraordinária cultura. Helenista e fluente em alemão, conseguia ser um tribuno sem par, de palavras carinhosas e generosas.


Após tímido ingresso na política, em Toulouse, é convocado para auxiliar os mineiros de Carmaux, que haviam entrado em greve em 1892 para defender um dos seus companheiros. Acabou sendo licenciado depois de ter sido eleito prefeito da cidade.


Jaurès, por meio de seus artigos no jornal La Dépêche (O Despacho) e dos inflamados discursos, tomou partido dos mineiros contra o governo, travando a batalha em nome da liberdade do trabalho. Revela o tipo de luta de classes daqueles operários e, assim, conquista o apoio que lhe propiciaria uma cadeira de deputado socialista.


Humanista e democrata, o tribuno defenderia Alfred Dreyfus e se oporia, dentro do Partido Socialista, aos marxistas ortodoxos Jules Guesde e Édouard Vaillant. Jornalista talentoso, alcança grande sucesso com o L'Humanité.


Com uma tiragem de 140 mil exemplares, a nova publicação não tarda em reunir ilustres colaboradores como Leon Blum, Anatole France, Aristide Briand, Jules Renard, Octave Mirbeau, Tristan Bernard e Henri de Jouvenel.

Contudo, alguns meses depois da criação do jornal, o congresso de Amsterdã da Internacional Socialista reprova toda forma de colaboração dos socialistas com os partidos burgueses. É uma vitória para Jules Guesde.


No Congreso do partido de Paris, em abril de 1905, Jean Jaurès se filia com armas e bagagens ao novo partido socialista de Jules Guesde: a SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária), do qual o L'Humanité se torna rapidamente o porta-voz.

Jaurès, que finge se inclinar ao comando de Guesde, não se dá por vencido. Ao lado de Édouard Vaillant, consegue retomar a direção da SFIO e impõe uma orientação reformista ao partido.


Ele prosseguiria com seu combate oratório em favor dos trabalhadores na Câmara de Deputados, mas também atacaria a política colonial da República e trabalharia em favor de uma reconciliação franco-alemã.

Essas orientações temerárias lhe valem o ódio dos revanchards (revanchistas), que almejavam um contra-ataque à Alemanha depois da derrota na guerra de 1870 e que o classificam de ingênuo a traidor da pátria.


Em 31 de julho de 1914, dois dias antes da Grande Guerra, um desequilibrado de nome Raoul Villain dispara um tiro de revólver contra Jaurès, sentado a uma mesa do Café du Croissant. Ele gritava que o parlamentar se opunha à mobilização geral e à guerra iminente contra a Alemanha.


Jean Jaurès: tribuno, pacifista e reformista

No mês seguinte, os socialistas Jules Guesde e Marcel Sembat entram no governo de União Sagrada para ajudar a conduzir a guerra contra a Alemanha.

O assassino de Jaurès seria, após a guerra, julgado e absolvido. Em 24 de novembro de 1924, depois da vitória da coalizão das esquerdas nas eleições legislativas, os restos mortais da vítima seriam solenemente transferidos para o Panthéon.

A SFIO seria objeto da divisão entre os partidários e opositores de Lenin. Em 29 de dezembro de 1920, no Congresso de Tours, a maioria de seus militantes se filiaria ao novo Partido Comunista Francês e o L'Humanité se tornaria seu órgão oficial. Léon Blum permaneceria no comando da SFIO, assumindo a guarda da velha casa até a vitória do Front Populaire nas eleições legislativas de 1936. Seria uma forma de revanche póstuma de Jean Jaurès.

terça-feira, 17 de abril de 2012

UM "SCHINDLER ITALIANO" NA ARGENTINA DOS GENERAIS

No momento em que o criminoso de massa e assassino psicopata Jorge Rafael Videla admite que o regime que ele dirigiu na Argentina foi responsável por sete mil ou oito mil mortos e que este era o preço a pagar para acabar com a "subversão", vem à tona essa maravilhosa história do diplomata italiano que lutou para salvar perseguidos da ditadura argentina, com revelações sobre a Operação Condor, a cumplicidade da diplomacia brasileira e do Vaticano com o regime genocida de Buenos Aires. Essa entrevista dele foi reproduzida pela Carta Maior:     

O 'Schindler' italiano que salvou centenas de vidas na Argentina


O diplomata italiano Enrico Calamai

O diplomata italiano Enrico Calamai foi um herói silencioso que atuou no Consulado em Buenos Aires durante a ditadura, quando arriscou sua vida e sua carreira para facilitar a fuga de centenas de dissidentes políticos e partidários que pegaram em armas contra o experimento neonazista dos generais argentinos. Em conversa com a Carta Maior, em Roma, Calamai fala sobre a Operação Condor, sobre o envolvimento de diplomatas e da ditadura brasileira em assassinatos e sobre a cumplicidade do Vaticano com a ditadura argentina.



Darío Pignotti - Especial para a Carta Maior

Roma - Se a Itália fosse uma Meca do cinema político como o era nos anos 60 e 70, seguramente os estúdios romanos de Cinecittá teriam filmado algo parecido à Lista de Schindler, aquela produção de Hollywood sobre um magnata alemão que resgatou cerca de mil judeus condenados a morrer em Auschwitz. O protagonista do filme que nunca se realizou seria o diplomata italiano Enrico Calamai, um herói silencioso que atuou no Consulado em Buenos Aires durante a ditadura, quando arriscou sua vida e sua carreira para facilitar a fuga de centenas de dissidentes políticos e partidários que pegaram em armas contra o experimento neonazista dos generais argentinos.

"Nunca me detive a contar as pessoas que passaram pelo Consulado. Em um programa da RAI (TV italiana) disseram que foram mais de 400, sinceramente não sei se esse número é correto, não sei quantos receberam nossa ajuda para poder sair com vida da Argentina".

A biografia de Calamai é a de um diplomata incomum no outono portenho de 1976 quando a chegada ao poder do general Videla era bem acolhida pela maioria das embaixadas ocidentais e comemorada secretamente pela do Brasil, como consta na intensa comunicação gerada pelo então embaixador João Batista Pinheiro.

DESAFIANDO A OPERAÇÃO CONDOR

Videla e Pinochet: parceiros

"Nós sabíamos que a Operação Condor estava atuando, ainda não a conhecíamos por esse nome, mas tínhamos notícias de que os militares brasileiros e argentinos estavam articulados para deter quem fugia da matança em Buenos Aires, por isso decidi viajar com dois ítalo-argentinos, Piero Carmelutti e Santiago Camarda, até o Rio de Janeiro. Era arriscado que fossem sozinhos. Foi no carnaval de 1977".

“Estes rapazes estiveram um tempo ocultos no Consulado, um deles tinha uma destreza artesanal para falsificar documentos e confeccionou uns que de autênticos tinham apenas as fotos”.

“Fez isso com meu auxílio, utilizando alguns carimbos que lhe facilitei, era um método não formal de fazer documentação para sair do país, não tínhamos apoio institucional, fizemos tudo às costas da Embaixada, que não me apoiava nisto”.

“Também não obtive apoio de um funcionário da Alitalia a quem propus que fizesse vista grossa e nos desse passagens diretas até Roma, o que ele recusou, escandalizando-se. Finalmente conseguimos as passagens diretas, graças ao representante da Varig na Argentina, um ítalo-brasileiro robusto e cordial".

"Nossa premissa era evitar que fossem interrogados no Rio, porque ali possivelmente havia gente do aparato de inteligência militar, e minha função era estar junto a eles para fazer valer minha condição de diplomata denunciando um eventual sequestro, como ocorreria em 1980 com o ítalo-argentino Domingo Campiglia, capturado precisamente no Rio de Janeiro" conta Calamai, com o rigor próprio de um historiador.

"Eles não podiam permanecer em Buenos Aires, mas por sua vez tinham que atravessar o cerco da Operação Condor no Rio, a única forma para que chegassem com vida à Itália".

A resistência à ditadura havia sido fraturada militarmente em 1977, ano de intenso intercâmbio entre os serviços de inteligência dos ditadores Ernesto Geisel e Jorge Videla.


Documentos a que Carta Maior teve acesso, datados daquele ano, confirmam a prioridade dada por Brasília à localização e detenção de "elementos Montoneros e do ERP (Exército Revolucionário do Povo)", para serem entregues à Buenos Aires.


Os aparelhos repressivos trabalhavam em notável sintonia. Tanto que as agências de inteligência brasileiras recebiam informações sobre as atividades da resistência argentina na Itália.

Dentro da documentação até agora secreta, obtida por Carta Maior, consta um dossiê do Estado Maior do Exército brasileiro, originado na Itália em junho de 1978, intitulado como “Movimento Peronista Montonero no exterior, Acionar, Contatos, Conexões com Grupos Terroristas, Antecedentes”.


CONSPIRAÇÃO DIPLOMATICA

As centenas de argentinos que escaparam do genocídio graças ao trabalho de Calamai não lhe valeram muito para obter uma promoção em sua carreira diplomática, dado que após haver trabalhado cinco anos na Argentina, um destino considerado de relativa importância, foi enviado a outro considerado irrelevante: o Nepal.

Diferente foi a sorte do embaixador brasileiro João Batista Pinheiro que, após seus bons ofícios diante da Junta Militar portenha, foi promovido a chefe da missão diplomática em Washington.

Pouco depois da derrubada do governo civil argentino, Pinheiro trabalhou para que Geisel enviasse, em abril de 1977, um representante a Buenos Aires, um gesto crucial para Videla, que temia sofrer o isolamento diplomático do qual padecia seu colega chileno Augusto Pinochet.

"Até agora não se estudou a fundo como atuaram os serviços diplomáticos em geral frente à ditadura", afirma Calamai durante a conversa com a Carta Maior em Roma.

E amplia: "não digo só pela Itália, me refiro à maioria dos países ocidentais, que foram completamente omissos ante as violações dos direitos humanos na Argentina".

Como nos pactos mafiosos, o grosso dos diplomáticos instalados em Buenos Aires, salvo os da embaixada do México, onde o ex-presidente democrático Héctor Cámpora recebeu refúgio durante anos, optou por omitir-se.


"Direta ou indiretamente, as principais embaixadas, inclusive aqui as da Itália, e acho lógico que também a do Brasil, embora não tenho informação concreta, foram informadas de que viria o golpe de Estado".


"Estes avisos sobre a eminente derrubada do governo civil eram também uma forma de advertir que não aceitariam que as embaixadas recebessem refugiados, como havia feito nossa embaixada e outras depois do golpe do Chile. E quase todos os países que receberam o aviso dos militares argentinos, pelo visto, entenderam o recado e o aceitaram".

"Agora, com o passar do tempo, compreendo que em torno da Operação Condor havia uma colaboração estreita das embaixadas e dos militares argentinos, e das embaixadas e seus próprios agregados militares. A diplomacia é algo muito próximo ao poder, e o foi durante as ditaduras, os diplomatas sabem que se se opuserem ao poder serão ou marginalizados, ou eliminados. Nessa época isto era um risco real".


SANTA CUMPLICIDADE

Antes da entrevista, Calamai nos mostra o Antico Café do Brasile, a poucos metros de sua casa: "antes de ser papa, João Paulo II, quando era seminarista, vinha habitualmente a este café, é um lugar simples, como podem ver".

Videla sempre manteve boas relações com a Igreja
As exéquias de João Paulo I, antecessor do papa polaco que frequentava o bairro de Calamai, foram um pretexto para estreitar as relações entre o Vaticano e Videla, que foi um dos chefes de Estado convidados. As gestões para a viagem de Videla e seu encontro com o então primeiro ministro italiano, foram realizadas pela loja maçônica Propaganda Due (P2), segundo consta em um livro lançado este ano na Universidade Roma Três.

"A loja P2 se movia como um poder oculto e gozava de uma notável influência no serviço exterior italiano e no Vaticano, e um de seus principais homens, Licio Gelli, mantinha boas relações na Igreja".

"O Vaticano esteve muito próximo do regime argentino, não só porque coincidia com seu anticomunismo, mas porque contribuía na decisão de Roma de terminar com a teologia da liberação na América Latina. Dizia-se que o núncio apostólico jogava tênis com o almirante (Emilio) Massera", um dos membros da Junta, a quem correspondia o controle do Ministério do Exterior argentino.

"Mas também é preciso lembrar que os motivos ideológicos que levaram o Vaticano a apoiar os militares eram tão importantes como os interesses econômicos de empresas ligadas à Igreja que estavam radicadas na Argentina".


Estas razões contribuem para explicar, segundo Calamai, porque o Estado do Vaticano omitiu-se durante anos em denunciar o genocídio argentino e negou ajuda aos familiares dos desaparecidos e prisioneiros.


"Existem muitas coisas que escaparam da minha memória, mas o que lembro é que, quando falava com diplomatas de outros países sobre as violações dos direitos humanos, praticamente todo mundo dizia que ninguém ia à Nunciatura porque não os recebiam".
(Tradução: Libório Junior)


segunda-feira, 16 de abril de 2012

UM CONSERVADOR ESCLARECIDO


O ex-governador Claudio Lembro
 Ser conservador não quer dizer, necessariamente, ser andidemocrata. Infelizmente, no Brasil os conservadores historicamente costumam se aliar ao que há de mais reacionário, atrasado e golpista. Há exceções, entretanto, embora poucas. Uma delas é o ex-governador paulista Cláudio Lembro, ex-janista e ex-prócer do DEM. Em 2006, no auge da violência desencadeada pelo PCC em São Paulo, ele recusou a abraçar o discurso fascistizante de mais repressão e disse o Brasil tinha burguesia "muito má", "uma minoria branca muito perversa". "A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações". Agora, ele elogia a presidente Dilma Rousseff por ter iniciado uma queda de braço com os bancos. Melhor que muito esquerdista de fancaria. Pas mal, como diriam os franceses... 

O silêncio dos bancos


Por Cláudio Lembo
Do Terra Magazine

Rompeu-se um dogma na política. Havia um tema raramente examinado pelas personalidades públicas. Ou pelos meios de comunicação. Falava-se sobre todos os temas. Um só era tratado de maneira ufanista.

Análises em profundidade não apareciam nos jornais ou nos noticiários das televisões e rádios. Apenas exames superficiais e complacentes. Uma aparente inexplicável situação.

Rompeu-se o silêncio. A presidente Dilma Rousseff trouxe ao debate a política monetária. Esta sempre ficou restrita aos fechados escaninhos do Banco Central.

Os iniciados podiam tratar da moeda. O vulgo deveria receber lições e aceitar as regras. Quando qualquer movimento se esboçava, surgia a afirmação da autonomia do Banco Central.

Esta é importante. Mas, as autoridades monetárias precisam conhecer as múltiplas opiniões sobre tão relevante tema. Sabe-se a importância de um sistema financeira sólido.

Este deve ser altamente capitalizado para vencer as conjunturas adversas. No entanto, esta verdade não pode ser superior ao debate democrático. Inexistem, nas democracias, cantos escuros.

Tudo deve ser debatido com racionalidade. A busca de eficiência é comando constitucional. Todos devem procurar este objetivo. Não podem determinados agentes sobrepor a outros, por mais significativos que se apresentem.

Ao propor um grande debate sobre os juros, a presidente Dilma atinge um novo patamar na política nacional. Luta-se pela decência nos negócios públicos. Avança-se nos temas sociais.

Agora é hora de se analisar este patrimônio coletivo que é a moeda. Ela se coloca como um dos maiores atributos da soberania. É símbolo do grau econômico conquistado por um país.

Não podia, pois, tão importante elemento do Estado nacional ficar longe das discussões públicas. Ao trazer para arena política a moeda, o governo federal inova e se qualifica.

Lamenta-se que os partidos políticos silenciem. Nenhum líder partidário se pronunciou sobre o debate a respeito dos juros. Há uma inexplicável paralisia.

O Banco Central do Brasil

Os bancos, como agentes privilegiados da economia, têm se movimentado. Ainda na semana que passou em Brasília representante do sistema bancário fez exposição às autoridades fazendárias.

Consta que ocorreram críticas à fala do representante do sistema bancário. Teria demonstrado números que levaram à perplexidade, quando tratou do chamado spread bancário.

Não se conhecem pormenores do acontecimento. Certamente, os bancos estão examinando o tema com preocupação. Até agora, nenhum sinal de atendimento aos apelos governamentais.

Compreende-se o silêncio e a cuidadosa posição dos empresários financeiros. Os bancos são instituições sensíveis. Estão sujeitas à observação continua dos mercados.

Qualquer movimento precipitado não é positivo para a higidez das instituições. Coloca a sensibilidade da sociedade em exposição. Daí o cuidadoso silêncio dos administradores bancários.

O assunto, contudo, está na pauta dos debates públicos. É melhor enfrentá-lo com objetividade e respeito à opinião pública. Esta já se encontra exaurida só de boas imagens.

É momento de boas atitudes. Coragem e firmeza para enfrentar a questão. Espera-se um posicionamento efetivo dos agentes financeiros. As autoridades já disseram o que querem.

domingo, 15 de abril de 2012

CRENÇA E INSOLÊNCIA

"Toda crença nos torna insolentes; recém-adquirida, aviva nossos maus instintos; os que não a partilham consideramos fracassados e incapazes, merecedores apenas de nossa piedade e desprezo.

Observe o neófito em política e sobretudo em religião, todos aqueles que conseguiram misturar Deus e suas tramoias, os convertidos, os novos-ricos do Absoluto. Compare sua impertinência com a modéstia e as boas maneiras dos que estão perdendo a fé e as convicções..."

"Sem a vigilância da ironia, como seria fácil fundar uma religião! Bastaria deixar os curiosos agruparem-se em torno de nossos transes loquazes."

E. M. Cioran, Silogismos da Amargura    

quinta-feira, 12 de abril de 2012

HISTÓRIA SEM INOCENTES

OK, Joseph Kony é um FDP. Líder do autoproclamado Exército de Resistência do Senhor (Lord's Resistance Army, LRA), ele é um daqueles senhores da guerra que ainda proliferam em alguns países africanos, colecionando barbaridades como recrutamento forçado de crianças e inúmeros crimes de guerra. Com um discurso teocrático, Kony espalhou o terror em Uganda, na República Democrática do Congo e no Sudão. Foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia. Em março, um vídeo de uma Ong chamada Invisible Children (Kony 2012; veja abaixo)correu o mundo denunciando suas atrocidades. Agora, descobre-se que a Ong que produziu o vídeo - muito bem feito, aliás -, criada especificamente para conquistar corações e mentes no Ocidente para o combate ao LRA,trabalhava para o governo de Uganda com apoio dos EUA. A revelação é do Wikileaks.       
Novamente, há muito mais coisa sob o céu do que supõe a vã filosofia dos politicamente corretos ou panglossianamente engajados. Não há bonzinhos nessa história macabra.   


Idealizadores de filme sobre Kony eram espiões do governo de Uganda


ONG norte-americana Invisible Children forneceu informações sobre oponentes do regime

Do Operamundi

Joseph Kony, senhor da guerra de Uganda

Os realizadores do filme Kony 2012 forneceram informações ao governo de Uganda sobre oponentes do regime, segundo informação vazada pelo site Wikileaks. Com isso, muitos dos opositores foram presos, de acordo com despacho enviado pela embaixada norte-americana em Kampala.

A ONG Invisible Children, sediada em San Diego, atuou em conjunto com o governo ugandense desde 2008 em campanhas midiáticas para promover ações militares contra o ERS (Exército de Resistência do Senhor), liderado por Joseph Kony. O grupo também manteve informados o governo dos Estados Unidos e outras instituições lobistas sobre a guerra civil no país africano.

Segundo documento enviado em 2009, a Invisible Children forneceu a localização de Patrick Komekech, acusado de se passar por líder do ERS para extorquir dinheiro de oficiais e ONGs. Outro despacho, de 2007, relata um encontro do embaixador dos EUA em Uganda, Steven Browning, com Ben Keesey, CEO da Invisible Children.

Graças às informações fornecidas pela ONG, Komenech e outros 10 líderes do LRA foram presos e acabariam sendo executados pelo governo do presidente Yoweri Museveni sob a acusação de traição. Segundo o documento, Komenech estaria criando uma milícia para enfrentar Kony e também o governo central. Especialistas em Direito dizem que a Invisible Children pode ser responsabilizada pelas pessoas presas por conta da divulgação indevida de informações.

De acordo com o material diplomático, a reunião serviu para informar o governo dos EUA sobre as atividades da Invisible Children e relatar as condições políticas no norte de Uganda. Tanto o governo norte-americano quanto os dirigentes da ONG negam ter auxiliado o governo do país africano a perseguir seus opositores.


Estratégias
A estratégia da ONG Invisible Children incluía o apoio à ações militares contra o ERS. Segundo os críticos da Invisible Children, as ações de mídia culminaram com o lançamento do documentário Kony 2012 e da sequência Beyond Kony.

Uma dessas ações foi a operação "Lightning Thunder" (Raio e Trovão, em português), na qual Uganda, RDC (República Democrática do Congo) e forças do Sudão do Sul atacaram os rebeldes liderados por Kony. O estopim da "Lightning Thunder" foi a demora de Kony em aceitar um acordo com o governo de Museveni.


Reprodução

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GOVERNMENT PICKING UP PARTICIPANTS
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4. (C) The latest plot was exposed when the Government received a tipo from the U.S. non-governmental organization (NGO) Invisible Children regarding the location of Patrick Komekech. He was wanted by the security services for impersonating LRA leaders to extort money from government officials, NGOs, and Acholi leaders. Komekechis is purportedly a former child soldier abducted by the LRA. Invisible Children had featured him in its documentaries. Invisible Children reported that Komekech had been in Nairobi and had recently reappeared in Gulu, where he was staying with the NGO. Security organizatiions jumped on the tip and immediately arrested Komekech on March 5. He had a satellite telephone and other gadgets, which were confiscated when security forces picked him up. (Note: The satellite telephone is believed to be one being used to call de International Organization for Migration (IOM) with someone pretending to be Okot Odhiambo with a fake defection plot. End Note.) 
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A ação foi um desastre militar: matou mais civis do que soldados do ERS e forçou a fuga das tropas de Kony para a República Centro-Africana. Segundo o vazamento do Wikileaks, as ações de mídia da Invisible Children serviriam para neutralizar a imagem negativa do governo de Musevini por conta das tentativas frustradas em enquadrar o LRA.

A operação contou com apoio logístico e da inteligência militar norte-americana, e recebeu um milhão de dólares dos cofres da administração Bush. Em outubro de 2011, o presidente Barack Obama assinaria documento autorizando ações oficiais do governo norte-americano em solo ugandense. O documento ficou conhecido como LRA Disarmament Bill.

Desconfiança
Jason Russell, da Invisible Children

Com a ajuda da Invisible Children, o governo de Uganda forneceria informações sobre os opositores ao governo de Laurent Kabila, então presidente da RDC, segundo o despacho enviado pelo embaixador dos EUA em 25 de fevereiro de 2009. Segundo o acordo entre Uganda e RDC, a "Lightning Thunder" se estenderia indefinidamente e seria revista a cada três meses.

Kabila não estava seguro das ações do exército ugandense dentro do território congolês e em 2005, a Corte Internacional de Justiça considerou o governo de Uganda culpado de crimes de guerra: massacres, estupros em massa e pilhagem entre 1997 e 2003. Uganda foi condenada a indenizar a RDC em 10 bilhões de dólares.

Por anos, o governo de Uganda tem lutado contra o exército liderado por Joseph Kony. O ugandense é acusado de raptar mais de 60 mil crianças e forçá-las a lutar em sua milícia. O documentário Kony 2012 foi visto por mais de 100 milhões de pessoas.





quarta-feira, 11 de abril de 2012

O FIM DO OBSCURANTISMO?

Reproduzo abaixo um trecho do extraordinário texto da premiada jornalista Eliane Brum, publicado no site da revista Época, sobre o drama das mulheres – esmagadoramente pobres – que ficam grávidas de fetos anencéfalos e dependem de uma decisão da Justiça para poder abortar. Agora, o STF está decidindo se mantém ou suprime essa ignomínia. 



Chega de torturar mulheres


O que o STF decidirá, ao julgar a permissão do aborto de anencéfalos, é se o Brasil respeita os direitos humanos – ou prefere seguir infligindo dor a mulheres que tiveram a infelicidade de gerar um feto incompatível com a vida


Eliane Brum, da Época


Depois de quase oito anos, o Supremo Tribunal Federal deverá votar nesta quarta-feira (11) uma ação que decidirá se as mulheres grávidas de um feto anencéfalo (malformação incompatível com a vida) poderão interromper a gestação sem necessidade de autorização judicial. Hoje, elas são obrigadas a peregrinar pela Justiça, em geral por meses. Em alguns casos, o juiz dá autorização, em outros não, numa zona ambígua que depende das crenças pessoais de quem julga. Às vezes, quando o juiz dá a licença, já demorou tanto tempo, ocorreram tantas idas e vindas no processo, que o bebê nasceu e morreu. Em parte porque, ao descobrir que uma mulher pediu a interrupção da gestação anencefálica, grupos religiosos usam a estratégia de atrasar o processo com recursos como, por exemplo, um “habeas-corpus para o feto”. A ação, que já é lenta, tarda ainda mais, até que não exista mais o que julgar. Na prática, como todos sabemos (com exceção dos hipócritas, talvez), as mulheres de classe média resolvem a questão buscando clínicas clandestinas de aborto, para não ter de se submeter à demora e às dificuldades de um processo judicial no Brasil. Quem procura a Justiça são as mulheres pobres, que dependem da rede pública de saúde para interromper uma gravidez. Nesta quarta-feira, o STF terá a chance de estancar – com atraso – uma violação sistemática dos direitos humanos causada por um vácuo na lei, que além de desamparar as brasileiras mais frágeis em um momento dificílimo da vida, as condena à tortura.


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Em 20 de outubro de 2004, o Supremo derrubou uma liminar que permitia interromper a gestação de anencéfalo sem autorização judicial. Um dos ministros disse, ao votar: “Mas quem são essas mulheres? A gente nem sabe se elas existem”. As mulheres severinas existem. E, como veremos, são, sim, torturadas.


A pergunta que o Supremo responderá nesta quarta-feira é a seguinte: “Uma mulher, grávida de um feto anencéfalo, pode interromper a gestação sem necessidade de autorização judicial?”. Espero que a resposta da corte seja afirmativa. Acompanho o percurso dessas mulheres há quase dez anos e me parece claro que este é um debate de direitos humanos. Impedir uma mulher de interromper a gestação de um feto incompatível com a vida, se ela assim o desejar, é condená-la à tortura. Assim como também seria tortura obrigar uma mulher a interromper essa mesma gestação se ela desejar levá-la até o fim porque, por crença religiosa ou qualquer outro motivo, encontra sentido nesse sofrimento.


Este é o ponto: se o feto é incompatível com a vida, só quem pode decidir pela interrupção ou não da gestação é quem o carrega no ventre. Ninguém mais – nem as feministas, nem os padres, nem eu ou você. Em geral, olhar pelo avesso nos ajuda a enxergar o quadro com maior clareza. Imagine se a lei brasileira determinasse o oposto. Ou seja: pela lei, todas as mulheres grávidas de fetos anencéfalos fossem obrigadas pelo Estado a interromper a gestação assim que o diagnóstico tivesse sido comprovado. Se não quisessem, precisariam entrar na Justiça para impedir o aborto compulsório. Neste caso, a violação de direitos humanos seria a mesma. E eu estaria aqui, defendendo o direito dessas mulheres de levar a gestação até o fim com a mesma veemência.


Ninguém deveria poder decidir por uma mulher como ela vai lidar com a gestação, dentro do seu corpo, de um feto que não poderá viver. Só ela sabe da sua dor – e de que escolha será mais coerente com aquilo que ela é – e acredita. As estatísticas mostram que 100% dos anencéfalos morrem: cerca da metade ainda na gestação, a outra metade após o parto. O que acontece hoje – e é essa desigualdade de direitos que o Supremo vai anular ou cristalizar nesta quarta-feira – é que as mulheres que encontram sentido em levar essa gestação até o fim têm seu direito respeitado. E aquelas para quem é insuportável conviver, dia após dia, gerando a morte em vez da vida, são torturadas.

O STF julga a legalidade do aborto de anencéfalos

Nunca cometi a indignidade de julgar uma mulher que decide levar uma gestação de anencéfalo até o fim. O sentido só pertence a ela – e aqueles que a julgarem extrapolam limites de humanidade. Do mesmo modo, lamento aqueles que se apressam a condenar as mulheres para quem a gestação se tornou intolerável. Na tentativa de impor suas crenças para todos, com a soberba de quem acredita deter o patrimônio do bem, cometem barbáries contra pessoas já fragilizadas pela imensa dor que é gerar um filho condenado à morte por uma malformação.

A dor e o luto pelo filho desejado e perdido são inevitáveis, como qualquer mulher ou homem que já testemunhou essa tragédia de perto – ou mesmo de longe – sabe. O outro sofrimento, o de continuar a gerar um filho para enterrá-lo, porque não lhe permitem interromper essa gestação sem futuro, não. Esse martírio pode ser evitado.

Jovens religiosos: as trevas não têm idade

De tempos em tempos, grupos contrários à permissão do aborto no caso de anencefalia exibem uma mulher que decidiu levar a gravidez até o fim como uma espécie de heroína – como se ela fosse uma mãe melhor do que aquela que escolheu interromper a gestação. É uma mentira. Não há heroínas nessa história, apenas mulheres que sofrem. Qualquer oposição entre a mulher que optou por interromper a gestação e aquela que preferiu mantê-la é falsa. Ambas são mulheres que, diante da mesma tragédia, fizeram escolhas diferentes. E ambas devem ser respeitadas na sua decisão, seja ela qual for. O que discutimos aqui é por que uma escolha é reconhecida pelo Estado – e a outra não é.


Há algo importante para compreender nessa tragédia, que talvez parte das pessoas deixe de perceber por não ter convivido com ela. A mulher que se descobre grávida de um feto anencéfalo desejou aquele filho. Em geral, ela o planejou. Quando soube que estava grávida, ela comemorou. E então, num exame com 100% de confiabilidade, ela descobriu que seu filho era anencéfalo. Ou seja, uma malformação letal determinou a impossibilidade de seu filho viver.


Não se trata, portanto, de uma criança deficiente, como alguns definem, torturando também as palavras. Trata-se, como disse o ministro Ayres Britto, em 2004: “O que se tem no ventre materno é algo, mas algo que jamais será alguém”. Impor a essa mulher, submersa em desespero, a acusação de “assassina de crianças”, como alguns o fazem, “em nome da vida”, é cruel. Apenas isso: cruel.

Espero que, depois de quarta-feira, não caiba mais a nenhum de nós opinar sobre a escolha de uma mulher numa situação dolorosa como essa. Aquelas que decidirem levar a gestação até o fim continuarão sendo acolhidas em sua decisão – e aquelas que quiserem interrompê-la também serão amparadas pelo Estado. Ponto.