terça-feira, 10 de abril de 2012

DEZ ANOS DO GOLPE FANFARRÃO


O coronel Hugo Chávez Frías, um líder controverso, mas legítimo
Não creio que o coronel Hugo Chávez Frías e seu “socialismo do século XXI” sejam um modelo para a moderna esquerda latino-americana. Ao contrário, ele tem todos os vícios da velha ortodoxia: autoritarismo, militarismo e messianismo. Mas daí a compará-lo a um ditador, como faz a direita – civilizada ou de Neardenthal – é estultice ou, na maioria dos casos, má-fé. Chávez foi eleito e reeleito e todas as mudanças que ele fez no país – goste-se ou não delas – foram todas referendadas nas urnas em eleições limpas. Além do mais, ele mudou a face de um país que, até sua chegada ao poder, nadava em petróleo mas tinha 70% da população abaixo da linha de pobreza. Pode-se discutir seus métodos, mas não negar-lhe legitimidade. Foi o que a oposição tentou fazer há dez anos, quando empresários, militares e sindicalistas da PDVSA, com apoio explícito dos EUA, recorreram ao golpe militar para apeá-lo do poder. A grande mídia, inclusive aqui, apoiou gostosamente a quebra da legalidade democrática. A Veja, inclusive, manchetou: “A queda do presidente fanfarrão”. Pouco importava se os golpistas tinham suspendido a Constituição e as liberdades. Felizmente, graças à mobilização popular e à pressão diplomática dos vizinhos, principalmente do Brasil, a quartelada não prosperou. Na época, escrevi uma matéria na IstoÉ cujo título sacaneava com a manchete da Veja:

Um golpe fanfarrão

Pressão latino-americana e mobilização popular provocam racha nas Forças Armadas e garantem a restituição da legalidade

Cláudio Camargo

Foram necessárias apenas 48 horas para que a Venezuela se desse conta de que não era mais uma república de bananas, como acreditava boa parte da oligarquia que domina aquele país, setores da mídia internacional e não poucos funcionários de alto coturno da Casa Branca, além de badalados scholars, como Jeffrey Sachs. Na madrugada do domingo 14, os mesmos comandantes militares que dois dias antes tinham deposto o presidente Hugo Chávez Frías e colocado em seu lugar o empresário Pedro Carmona fizeram meia-volta e reconduziram o mandatário legítimo a seu cargo. Em meio a tropas leais e a multidões de desvalidos que tinham tomado as ruas de Caracas para protestar contra o golpe, Chávez retornou triunfante ao Palácio de Miraflores (sede do governo) trazido de helicóptero da ilha de la Orchila, no mar do Caribe, onde tinha sido confinado. Trajando roupas civis em vez da tradicional farda de campanha, Chávez, tenente-coronel da reserva e ele mesmo ex-golpista, fez um discurso visivelmente emocionado, em que baixou o habitual tom incendiário e pediu uma “reconciliação nacional”. Brandindo nas mãos ora um crucifixo, ora um exemplar da Constituição, o presidente tentou acalmar os acirrados ânimos políticos que em quatro dias deixaram mais de 40 mortos na Venezuela. “Não venho com ódio ou rancor. Não haverá nenhuma caça às bruxas”, prometeu Chávez. O presidente ainda esboçou um ensaio de mea-culpa fazendo um apelo aos adversários políticos: “Os últimos dias foram uma gigantesca lição para todos nós. Eu também tenho que refletir e já o fiz.

Estou disposto a me corrigir, mas não posso ser o único, todos devem fazer o mesmo”, conclamou. Mas o apelo do presidente reempossado não sensibilizou a desmoralizada oposição, que teima em insistir que a reconciliação passa pela renúncia de Chávez, a quem acusa de polarizar o país com suas políticas populistas. Na quinta-feira 18, ao instalar o Conselho Federal de Governo para buscar o diálogo com a oposição, Chávez surpreendeu ao prometer guardar a espada e não usar mais a farda. “Peço que me ajudem nisso, a guardar a espada e o uniforme. Muito mais do que isso, quero colocá-los no baú de recordações”, disse.

Pedro Carmona, o Breve

A fugaz interinidade de Pedro Carmona revelou-se uma inacreditável sucessão de desastres. Presidente da Fedecámaras, a poderosa central sindical do empresariado venezuelano, ele vinha se revelando um habilidoso líder oposicionista desde o final do ano passado, quando esteve à testa de um vigoroso movimento de protesto contra o governo. Na semana passada, a Fedecámaras e a Central dos Trabalhadores da Venezuela (CTV), que reúne os funcionários da poderosa indústria estatal de petróleo, convocaram uma greve geral por tempo indeterminado, para protestar contra mudanças que o governo tinha feito na cúpula da empresa Petróleo de Venezuela S.A. (PDVSA) e pedir a renúncia de Chávez. Na quinta-feira 12, centenas de milhares de pessoas se dirigiam ao Palácio Miraflores e foram violentamente reprimidas por tropas da Guarda Nacional. Muitos foram alvo de franco-atiradores, provavelmente paramilitares dos Círculos Bolivarianos, num confronto que deixou pelo menos 16 mortos e dezenas de feridos.

A repressão levou os chefes militares, capitaneados pelo comandante do Exército, general Efraín Vásquez, a exigir a saída de Chávez, que acabou detido no Forte Tiuna, sede do comando do Exército. Alçado à mais alta magistratura da Venezuela em meio à mais profunda crise política do país dos últimos anos, Carmona se mostrou açodado e autoritário. Deu como certa a versão – falsa, viu-se depois – de que Chávez havia renunciado. Mal assumiu a presidência, mandou às favas os escrúpulos de consciência – se é que os tinha – e baixou um decreto suspendendo a Constituição, dissolvendo o Congresso e fechando o Supremo Tribunal de Justiça. Como se não bastasse, Carmona destituiu governantes regionais eleitos e anunciou que novas eleições só ocorreriam dentro de um ano. Sabe-se agora que tal decreto foi redigido um dia antes da derrocada de Chávez, tamanha era a certeza dos golpistas no sucesso de sua empreitada. À margem dos comandos militares e dos líderes sindicais que lhe deram sustentação, o líder da Fedecámaras articulou com setores empresariais a dissolução dos poderes, a composição do Ministério e a duração do governo provisório. Um dos que participaram da elaboração do decreto foi Isaac Pérez Recao, um dos proprietários da Venoco, empresa petroquímica da qual Carmona foi o principal executivo.

Resgatado, Chávez retorna ao poder
A reação não se fez esperar. No início da tarde de sábado 13, manifestantes chavistas promoveram saques em diversos estabelecimentos comerciais e começaram a se concentrar, aos milhares, em frente ao Palácio Miraflores. Foi a senha para que os partidários de Chávez no Exército começassem a se mobilizar. Pouco depois da uma hora, o general Raúl Isaías Baudel, comandante da 42ª Brigada de Pára-Quedistas de Maracay, 110 quilômetros a sudeste de Caracas, se rebelou contra o governo de Pedro Carmona. Em seguida, foi a vez da Base Aérea do Libertador, na grande Caracas. No Regimento da Guarda de Honra, responsável pela proteção do Palácio Miraflores, o subcomandante, tenente-coronel José Morao, leu um comunicado na tevê declarando lealdade a Chávez. Dentro do palácio presidencial cercado por manifestantes, circularam rumores de que os rebeldes legalistas iriam bombardeá-lo. Foi o suficiente para que os ministros do governo provisório saíssem em debandada. Acuado, Carmona foi obrigado a rumar para o Forte Tiuna, sede do comando do Exército. Tomados de surpresa, os chefes militares recuaram e condicionaram o apoio a Carmona à restituição da institucionalidade. O presidente-empresário cedeu, mas já era tarde. Às 17h53, o presidente da Assembléia Nacional, William Lara, disse que o Congresso não reconhecia o governo transitório. Depois de violentos confrontos em frente ao Palácio de Miraflores, os ministros de Chávez entraram na sede de governo. Às 22h11, o vice-presidente, Diosdado Cabello, assumiu provisoriamente. Era o fim da aventura. Sem apoio, Carmona renunciou e acabou preso. Às 2h15, Chávez entrou triunfante no palácio e foi reempossado.

Baixo clero – Apesar do retorno à institucionalidade, é inegável que a sorte da democracia venezuelana, em última instância, foi decidida pela caserna. O ministro da Defesa, José Vicente Rangel, disse que o golpe contra Chávez fracassou porque seus líderes desconheciam o funcionamento dos quartéis. Alguns analistas dividem a cúpula das Forças Armadas entre facções minoritárias e antagônicas de opositores e defensores do presidente e uma maioria de legalistas, que seria a principal responsável pelo afastamento e posterior recondução de Chávez ao poder. Mas outros acreditam que o movimento que garantiu a manutenção da institucionalidade foi obra dos oficiais de média e baixa patentes – majores, capitães e tenentes –, que obrigaram os generais a recuar. “Houve um golpe de cúpula, mas a pressão de baixo foi muito forte e a virada foi dada porque os oficiais não tinham apoio da tropa. Quando falo da tropa, falo dos oficiais de média patente”, disse a ISTOÉ o vice-almirante Armando Ferreira Vidigal, ex-diretor da Escola Naval e atualmente assessor do Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima (Syndarma). “Essa fratura nas Forças Armadas foi o fundamento do contragolpe. A questão é saber como Chávez vai se comportar agora. Se tiver cabeça, irá negociar com o Alto Comando.” O fato de ter dito que pretende guardar a farda no baú de recordações parece indicar que Chávez deverá fechar a caixa de Pandora que abriu pela primeira vez em 1992.
(Colaborou Hélio Contreiras)




CRIMES DE IMPRENSA?

Interessante análise do jornalista e deputado Emiliano José sobre as relações da mídia com o esquema Carlinhos Cachoeira, tirado do blog do Azenha.
O partido mídia e o crime organizado


por Emiliano José, deputado federal do PT-Bahia


Algumas análises sobre a velha mídia brasileira, aquela concentrada em poucas famílias, de natureza monopolista, e que se pretende dona do discurso e da interpretação sobre o Brasil, pecam por ingenuidade. Pretendem conhecer sua atuação orientando-se pelos cânones e técnicas do jornalismo, como se ela se guiasse por isso, como se olhasse os fatos com honestidade, como se adotasse os critérios de noticiabilidade, como se recusasse relações promíscuas com suas fontes, como se olhasse os fatos pelos vários lados, como se recusasse uma visão partidarizada da cobertura.


Essa velha mídia não pode ser entendida pelos caminhos da teoria do jornalismo, sequer por aquela trilha dos manuais de redação que ela própria edita, e que se seguida possibilitaria uma cobertura minimamente honesta. Ela abandonou o jornalismo há muito tempo, e se dedica a uma atividade partidária incessante. Por partidária se entenda, aqui, no sentido largo da palavra, uma instância que defende uma política, uma noção de Brasil, sempre ao lado dos privilégios das classes mais abastadas. Nisso, ela nunca vacilou ao longo da história e nem cabe recapitular. Portanto, as clássicas teorias do jornalismo não podem dar conta da atividade de nossa velha mídia.


Volto ao assunto para tratar da pauta que envolveu o senador Demóstenes Torres e o chefe de quadrilha Carlinhos Cachoeira. É possível adotar uma atitude de surpresa diante do acontecido? Ao menos, no mínimo, pode a revista VEJA declarar-se estupefata diante do que foi revelado nas últimas horas? Tudo, absolutamente tudo, quanto ao envolvimento de Carlinhos Cachoeira no mundo do crime era de conhecimento de VEJA. Melhor: era desse mundo que ela desfrutava ao montar o que lhe interessava para atacar um projeto político. Quando caiu o senador Demóstenes Torres, caiu a galinha dos ovos de ouro.

“Esqueçam o Policarpo”. Está certo, certíssimo, o jornalista Luis Nassif quando propõe que se esqueça o jornalista Policarpo Júnior que, com os mais de duzentos telefonemas trocados com Cachoeira, evidenciou uma relação profunda, vá lá, com sua fonte, e se ponha na frente da cena o, vá lá, editor Roberto Civita.


Este, como se sabe, constitui o principal dirigente do partido midiático contrário ao projeto político que se iniciou em 2003, quando Lula assume. Policarpo Júnior apenas e tão somente, embora sem nenhuma inocência, cumpria ordens de seu chefe. Agora, que será importante conhecer o conteúdo desses 200 e tantos telefonemas do Policarpo Júnior com Cachoeira, isso será. Até para saber que grampos foram encomendados por VEJA ao crime organizado.


Nassif dá uma grande contribuição à história recente do jornalismo ao fornecer um impressionante elenco de matérias publicadas por VEJA nos últimos anos, eivadas de suposições, sem qualquer consistência, trabalhadas em associação com o crime. Civita nunca escondeu a sua posição contra o PT e seus aliados. É um militante aplicado da extrema-direita no Brasil, e que se dedica, também, subsidiariamente, a combater os demais governos reformistas, progressistas e de esquerda da América Latina.


Importante, como análise política, é que o resto da mídia sempre embarcou – e com gosto – no roteiro, na pauta, que a revista VEJA construía. Portava-se, não me canso de dizer, como partido político. Não adianta escamotear essa realidade da mídia no Brasil. O restante da velha mídia não queria checar, olhar os fatos com alguma honestidade. Não. Era só fazer a suíte daquilo que VEJA indicava. Esse era um procedimento usual dos jornalões e das grandes redes de tevê.


Barack Obama, ao se referir à rede Fox News, ligada a Rupert Murdoch, chamou-a também de partido político, e tirou-a de sua agenda de entrevistas. Não é novidade que se conceitue a mídia, ou grande parte dela, como partido político conservador. Pode lembrar Gramsci como precursor dessa noção, ou, mais recentemente, Octavio Ianni que a chamava de Príncipe Eletrônico. No Brasil, inegavelmente, essa condição se escancara. A velha mídia brasileira sequer disfarça. Despreza, como já se disse, os mais elementares procedimentos e técnicas do bom jornalismo.


Na decisão da Justiça Federal em Goiás, ressalta-se, quase que com assombro, os “estreitos contatos da quadrilha com alguns jornalistas para a divulgação de conteúdo capaz de favorecer os interesses do crime”. Esses contatos, insista-se, não podem pressupor inocência por parte da mídia, muito menos da revista VEJA que, como comprovado, privava da mais absoluta intimidade com o crime organizado por Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres dada à identidade de propósitos.


Esse episódio, ainda em andamento, deve muito, do ponto de vista jornalístico, a tantos blogs progressistas, como o de Luis Nassif (vejam “Esqueçam Policarpo: o chefe é Roberto Civita”); o de Eduardo Guimarães, Blog da Cidadania (vejam “Leia a espantosa decisão judicial sobre a Operação Monte Carlo”); o Portal Carta Maior (leiam artigo de Maria Inês Nassif, “O caso Demóstenes Torres e as raposas no galinheiro”); o Blog do Jorge Furtado (“Demóstenes, ora veja”), o Vi o Mundo, do Azenha, entre os que acessei.

Resta, ainda, destacar a revista CartaCapital que, com matéria de Leandro Fortes, na semana que se iniciou no dia 2 de abril, furou todas as demais revistas ao evidenciar a captura do governo de Marconi Perillo pelo crime organizado de Demóstenes Torres e Carlinhos Cachoeira. Em Goiânia, toda a edição da revista foi comprada aos lotes por estranhos clientes, ninguém sabe a mando de quem – será que dá para desconfiar?

A VEJA enfiou a viola no saco. Veio de “O mistério renovado do Santo Sudário”, tão aplicada no conhecimento dos caminhos do cristianismo, preferindo dar apenas uma chamadinha na primeira página sobre “Os áudios que complicam Demóstenes” e, internamente, mostrar uma matéria insossa, sem nenhuma novidade, com a tentativa, também, de fazer uma vacina para inocentar o editor de Brasília, Policarpo Júnior. Como podia ela aprofundar o assunto se está metida até o pescoço com Demóstenes Torres e Carlinhos Cachoeira?


Impunidade do crime jornalístico

Há algumas perguntas que pairam no ar. O jornalismo pode ser praticado dessa maneira, em associação explícita com o crime organizado, sem que nada aconteça aos que assim procedem? Por menos do que isso, a rede de Rupert Murdoch, na Inglaterra, enfrenta problemas sérios com a Justiça, houve prisões, e seu mais importante semanário, o News of the World, que tinha 168 anos, e era tão popular quanto desacreditado, fechou.


E aqui? O que se fará? A lei não prevê nada para uma revista associada havia anos com criminosos de alto coturno? Creio que se reclamam providências do Ministério Público e, também, das associações profissionais e sindicais do jornalismo. Conivência com isso, não dá. Assim, o crime compensaria, como compensou nesse caso durante anos.


Há, ainda, outra questão, e de grande importância e que a velha mídia ignorou solenemente, e este foi um trabalho realizado primeiro pelo jornalista Marco Damiani, do Portal 247, e completado, de modo brilhante, pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, evidenciando a atuação do crime organizado de Demóstenes Torres e Carlinhos Cachoeira na construção do que ficou conhecido como Mensalão.

A entrevista com Ernani de Paula (ex-prefeito de Anápolis) feita por Paulo Henrique Amorim é impressionante. Ele fora derrubado da Prefeitura numa articulação que envolveu a dupla criminosa, e agora revela o que sabe, e diz que tudo o que se armou contra o ex-chefe da Casa Civil do primeiro governo Lula, José Dirceu, e contra o governo Lula, decorreu da ação consciente e criminosa de Carlinhos Cachoeira, que se insurgia contra um veto de José Dirceu à assunção de Demóstenes Torres ao cargo de Secretário Nacional de Justiça do governo, depois que ele se passasse para o PMDB.


Em qualquer país do mundo que tivesse um jornalismo minimamente comprometido com critérios de noticiabilidade, ainda mais diante do possível julgamento do processo denominado Mensalão, ele entraria fundo no assunto para que as coisas se esclarecessem. Mas, nada. Silêncio.


É como se a velha mídia tivesse medo de que a construção da cena midiática em torno do assunto, construção que tem muito de fantasiosa e é obviamente contaminada por objetivos políticos, pudesse ser profundamente alterada com tais revelações e, inclusive, ter reflexos no julgamento que se avizinha. Melhor deixar isso confinado aos “blogs sujos” e às poucas publicações que se dedicam ao jornalismo. A verdade, no entanto, começa a surgir. Nós não precisamos mais do que dela, como dizia Gramsci. Insistamos nela. Se persistirmos, ela se imporá. Apesar do velho partido midiático.

domingo, 8 de abril de 2012

CATÕES DE PICADEIRO


Marco Pórcio Catão
Roma teve Catão; Florença, Savonarola e a Espanha, Torquemada – os três, guardiões da moral e dos bons costumes, dispostos a cortar a cabeça dos corruptos e impuros e a extirpar o mal pela raiz.

O Brasil, repetindo a máxima marxiana de que a história se repete duas vezes, a segunda como farsa, teve vários candidatos a salvadores da pátria: Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Fernando Collor de Melo e, agora, Demóstenes Torres. Todos de direita, todos vestais da República; todos farsantes. Lacerda, que denunciava o "mar de lama" de Getúlio, foi o maior golpista da nossa história; conspirou abertamente contra vários presidentes constitucionais: Getúlio (o do segundo governo), JK, Jânio e Jango. Jânio, a “UDN de porre”, igualmente golpista e corrupto até a raiz dos cabelos; Collor, o “caçador de marajás” que a mídia inventou para enfrentar o “sapo barbudo” (Lula), era um gângster de província. Agora, esse patético senador Demóstenes Torres, até pouco incensado pela grande mídia como paladino dos bons costumes e da ética na política, ícone da classe média “qualunquista” que não passava de uma cascata a serviço de Carlinhos Cachoeira. Como dizia Evgene Ievetuchenko, "o verdadeiro hipócrita não é o que dissimula, mas o que tenta persuadir os outros daquilo em que não acredita".


Abaixo dois artigos sobre o affair Demóstenes: o primeiro o compara a Collor em perspectiva histórica; o segundo versa sobre o método "orwelliano" da mídia tupiniquim de construção do consenso conservador.

Demóstenes não é Collor. Mas pode ser pior

Saul Leblon, da CartaMaior

Enganam-se os que equiparam o caso Demóstenes Torres ao revés sofrido pelo conservadorismo brasileiro no impeachment de Collor há quase duas décadas. O baque atual pode ser maior. Não pela importância intrínseca de Demóstenes, mas pelo entorno histórico que cerca o streap-tease ético do aspirante a novo S
Savonarola das elites nativas.

Collor renunciou ao final de 1992. No ano seguinte Bill Clinton sucederia a Reagan na maratona desregulatória nos EUA. A retroescavadeira neoliberal sacudiria o legado de Roosevelt por quase dez anos (até 2001), sobretudo no sistema financeiro. A direita brasileira, portanto, estava amparada ideologicamente no ambiente internacional. Rapidamente ela se refez da queda do caçador de marajás que ajudara a eleger (e como!). Seu dispositivo midiático agiu em duas frentes. Reduziu o ex-herói à insignificância política de um personagem que não estava à altura do seu enredo. Mas preservou o enredo, encontrando um similar de Clinton para comandar as 'reformas' aqui: FHC

A gestão democrata em Washington foi um lastro decisivo nesse processo. Clinton não apenas incorporou o legado de Reagan (que por sua vez havia replicado Tatcher), como aprofundou-o estendendo a desregulação e o Estado mínimo à esfera bancária para pavimentar a supremacia das finanças desreguladas. Não é retórica. A eliminação da lei Glass Stegall, em 1999, liberou a formação dos grandes conglomerados financeiros ao suprimir as barreiras criadas por Roosevelt, em 1933, que separavam bancos de investimentos da banca comercial. A fusão dos dois balcões num só permitiu aos financistas especularem com dinheiro alheio, sem contrapartidas equivalentes.

O afrouxamento da supervisão estatal gerou o fastígio do crescimento sem poupança, à base do crédito ilimitado. Foi um sucesso enquanto a corrente se ampliava. A coisa desmoronou em 2008, com o estouro das subprime. O resto é sabido. E o sabido foi tragicamente sintetizado no suicídio de um aposentado grego, na semana passada. Ao tirar a própria vida com um tiro, ele deixou um bilhete no qual exorta os jovens à luta armada e declara sua recusa à opção cada dia mais coerente com a persistência da lógica dos livres mercado: comer lixo. É nesse ambiente ideologicamente abafado dos interesses conservadores que se dá o streap-tease do aspirante a novo Collor dos Cerrados.

A mídia investia pesado na face do novo Savonarola, lambuzando-o com o glacê da 'direita preparada e linha-dura'. Abandonado agora à sarjeta reservado aos que encerram elevado teor contagioso, o senador dublê de contraventor escancara a indigência ideológica do projeto conservador para o Brasil. Ao contrário do que se viu nos anos 90, hoje à crise moral personificada no centurião goiano superpõe-se a assustadora deriva de uma economia mundial em que o reiteração das ideias mercadistas tornou-se sinônimo de recessão e desespero. A margem de manobra estreitou-se a olhos vistos.

Quem se habilita a preencher o hiato com um salto progressista de abrangência e profundidade equivalentes ao que representou o ciclo neoliberal, nos anos 90? Esse é o ponto.

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Demóstenes e o ‘duplipensar’ da imprensa

por Gilson Caroni Filho


Qualquer pessoa de bom senso, que tenha lido os articulistas da grande imprensa, desde o surgimento dos escândalos envolvendo o senador Demóstenes Torres, concluirá facilmente que os trabalhadores das oficinas de consenso, aturdidos com o que lhes parece um ponto fora da curva, uma desconstrução dispendiosa e extemporânea, são como aqueles motoristas que imaginam poder dirigir um veículo com os olhos presos ao retrovisor. Não enxergam a clareza da realidade. O círculo do jornalismo de encomenda, minúsculo e cego, está só, murado no seu isolamento.


A pedagogia dos fatos, inexorável nas suas evidências, parece passar ao largo das redações. O que se faz ali não é jornalismo, mas um simulacro de literatura de antecipação marcada por profundo pessimismo e cenários de devastação. Talvez George Orwell e seu clássico “1984” expliquem melhor o suporte narrativo da fábula que não deixa de trazer uma concepção de história autoritária e retrógada.

As delicadas relações do senador goiano com o bicheiro Carlinhos Cachoeira - e a possibilidade de que o governador tucano Marconi Perillo venha a ser o próximo alvo- pôs em operação o “duplipensar” orwelliano que, desde a posse de Lula, está incorporado aos manuais de redação. Como o objetivo é afastar o ex-varão de Plutarco de cena, para prosseguir atacando o governo da presidente Dilma, os “cães de guarda” cumprem a tarefa com afinco.


No reduzido vocabulário da “Novilíngua”, o “duplipensamento” é assim explicado por um dos personagens de “1984”:


“capacidade de manter simultaneamente duas crenças opostas, acreditado igualmente em ambas(…). Saber que está brincando com a realidade mas, mediante o exercício de tal raciocínio, convencer a si próprio, que não está violentando a realidade. O processo deve ser consciente, pois do contrário não funcionará com a previsão necessária: mas, ao mesmo tempo, deve ser inconsciente para não produzir sensação de falsidade e culpa”.


Com esse trecho, cremos ter decifrado os sorrisos de Merval Pereira, Dora Kramer, Augusto Nunes, Eliane Catanhede, entre outros, quando confrontados com a palavra “ética”.


Para eternizar a ordem que defendem com unhas e dentes o cenário político, submetido ao pensamento único, passa por processos de ocultamento e simplificação, visando a eliminar todas as possibilidades de pensar dos membros do Partido Imprensa.


Outra implicação do “duplipensar” da mídia corporativa é a constante alteração do passado. O registro – e consequentemente a memória – dos fatos ocorridos devem ser refeitos sempre, a fim de adaptarem-se ao presente. O trabalho de um “bom” editorialista é reescrever a visão dos veículos em que trabalha para que não contradiga a realidade de hoje. Assim, por exemplo, Folha, Globo e Estadão podem condenar o golpe de 1964, mesmo o tendo apoiado ostensivamente. Se um livro denuncia um líder político como Serra e outras figuras no seu entorno, a solução é simples: Ele nunca foi escrito e, portanto, jamais será resenhado, sendo passível de punição severa quem não entender como funcionam as “leis naturais”.


Além da eliminação do passado como elemento de desarmonia com o presente e como instrumento de verificação das afirmações do Partido Imprensa, este recorre a outros meios, bem mais convencionais, para moldar a consciência de seus filiados e simpatizantes (leitores e telespectadores): educação permanente assegurada pela propriedade cruzada dos meios de comunicação, atividade coletiva sem intervalos, o que pode ser obtido mediante ampla oferta de blogs, sites, jornais e redes que digam sempre o mais do mesmo . Para concluir, vem a valorização do poder político como fim, não como meio.


O incômodo Demóstenes deve, após a sequência de denúncias, ter um diagnóstico clínico que despolitize o seu desvio. Merece, pelos serviços prestados, um roteiro que conte a tragédia do Catão caído, até que, finalmente, desapareça na lata de lixo reservada aos que fugiram da trama original. Assim agem os bons autores ao tomar como ponto de partida uma realidade familiar e palpável e transformá-la em espetáculo perecível. Em tempo: o DEM, assim como o PFL, nunca contou com o apoio das corporações midiáticas por um simples motivo: nunca existiu.


Vejam como operam nossos talentosos colunistas. Orwell ficaria tão contente que, com certeza, lhes arrumaria um lugar no Ministério da Verdade.


“Em um mês, o senador Demóstenes Torres passou de acima de qualquer suspeita para abaixo de qualquer certeza, num episódio que desafia os romances policiai s mais surpreendentes. Alem da atuação implacável contra a corrupção, ele tinha a cara, vestia o figurino e se comportava como um incorruptível homem de bem – e talvez seja mesmo sócio da holding criminosa de Cachoeira (Nélson Motta, 6/04/2012, o Globo)


“Demóstenes Torres não seria beneficiado pelo “vício insanável da amizade” – expressão usada pelo notório Edmar Moreira (o deputado do “castelo”) para definir o principal obstáculo a punições -, pois os amigos que fez ali estão entre as exceções e os demais confirmam a regra.Por terem sido alvos do senador na face clara de sua vida agora descoberta dupla, podem querer mostrar-se ao público em brios. O problema, porém, é a falta de credibilidade” (Dora Kramer, 6/04/2012, Estado de S. Paulo)


“Esse personagem que o senador criou para si próprio não era uma mentira de Demóstenes, ele incorporou esse personagem e acreditava nele. Podia acusar com veemência seus colegas senadores apanhados em desvios, como Renan Calheiros, enquanto mantinha o relacionamento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira porque, como todo psicopata, não misturava as personalidades “(Merval Pereira, reproduzindo argumento do psicanalista Joel Birman, 30/03/2012, O Globo)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

VIVER O PRESENTE, COMO OS ROMANOS

Lúcio Aneu Sêneca (Corduba, 4 a.C. — Roma, 65) foi um dos mais célebres escritores e intelectuais do Império Romano, junto com Marco Aurélio e Cícero. Ocupava-se da forma correta de viver a vida, ou seja da ética, além da física e da lógica. Foi um dos próceres do estoicismo, que pregava a impertubalidade da alma, denominada de ataraxia. Para Sêneca, o destino é uma realidade. O homem pode apenas aceitá-lo ou rejeitá-lo; se o aceitar de livre vontade, goza de liberdade. A morte é um dado natural e o suicídio não é categoricamente excluído por Sêneca.

Selecionei um de seus textos mais significativos:


Sobre a futilidade de se planejar o futuro

“Cada dia, cada hora nos faz ver quão pouco somos, e qualquer nova circunstância significativa rememora nossa fragilidade, caso tenhamos nos esquecido dela. Nós que sonhávamos com a eternidade somos obrigados a encarar a morte.

[...]


Que estultice fazer planos para o futuro quando não somos senhores nem do dia seguinte! Ó insensatos, que construís projetos para futuros distantes: “Eu comprarei, eu construirei, farei empréstimos, cobranças, ocuparei cargos. Depois disso, cansado e idoso, me entregarei ao ócio.”

Tudo, acredita-me, é incerteza mesmo para os mais felizes. Ninguém deveria prometer nada para o futuro. Mesmo aquilo que temos escorrega por nossos dedos; até mesmo o A momento presente, em que pensamos estar bem, a sorte nos tira. O tempo se desenrola segundo leis fixas, é verdade, mas em meio a trevas; e que me importa que haja certeza com relação à natureza ali onde há incertezas para mim?

[...]

Portanto não digas mais que a necessidade de morrer não é um benefício da natureza. Muitos estão prontos para pactos ainda mais degradantes, prontos até a trair um amigo a fim de conservar a vida, a deixar seus filhos caírem na prostituição para poder desfrutar de uma luz que é testemunha de todos os seus crimes. Despojemo-nos portanto da paixão de viver e saibamos que pouco importa em que momento sofreremos o que haveremos mesmo de sofrer. O que importa é quão bem tu vivas e não quão longamente, e muitas vezes o bem-viver está nisso, em não viver longamente.”

Sêneca, sobre os enganos do mundo


quarta-feira, 4 de abril de 2012

A ARTE DE NATHAN BRUTSKY


Nascido em 1963 Kiev, na Ucrânia, o pintor israelense Nathan Brutsky queria ser jogador de futebol, mas seu pai, um estudioso da arte, ao ver seus desenhos de criança achou que ele tinha talento suficiente para entrar numa escola de arte. Desde então, ele nunca mais parou, trabalhando com pintura, escultura e design. Elas telas são uma mostra de sua expressiva arte. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

DA INQUISIÇÃO À INTERNET

"Creio porque é absurdo"
(Tertuliano de Cartago (160-260), um dos pais da Igreja Católica)

Abaixo, uma resenha de do escritor americano Miguel Conner sobre o livro  The New Inquisitions, de Arthur Versluis, do Michigan State State University. O livro faz o controle político da sociedade remontar ao século II, no contexto da luta da nascente ortodoxia católica contra as heresias. Segundo ele, essa luta deu início à política de controle de corações e mentes que desembocaria nas Inquisições dos séculos XII e XVI e, muito depois, nos totalitarismos.
Tese polêmica, mas muito interesante. 

 AS ORIGENS DO TOTALITARISMO E DO CONTROLE DE PENSAMENTO


Miguel Conner


A maioria das pessoas conhece termos como "orwelliano", "politicamente correto", "patrulhamento ideológico" ou "admirável mundo novo", bem como os sistemas opressivos seculares e religiosos que os inspiraram ao longo da história. Apesar desses mecanismos que matam a individualidade serem construções relativamente modernas, não são apenas tão antigos quanto o cristianismo, mas na verdade se originaram com o cristianismo!

Mais surpreendente talvez seja saber que certas facções do cristianismo estão utilizando esses mecanismos até hoje. Em seu livro seminal, The New Inquisitions, Arthur Versluis, propõe que foi a caça à heresia promovida pelos pais da igreja primitiva que deu origem ao DNA que estruturou, muito mais tarde, as instituições totalitárias e o Estado policial. O desprezo cego destes bispos contra seus adversários teológicos, principalmente os gnósticos, acrescentou uma dimensão infernal às formas de controle sociais que poderiam ser aplicadas a seus súditos.

Antes do surgimento da figura do herege, impérios conquistaram quase que exclusivamente recursos naturais, escravos e prestígio, mas a maioria das nações subjugadas tinha a permissão de manter suas crenças nativas, costumes e ideologias. A perseguição religiosa dentro de um império geralmente surgia quando um sacerdote ou nobre – representantes na Terra de deuses específicos – iniciavam alguma forma de insurreição.

Os exemplos são numerosos: os egípcios permitiram que os israelitas e outras raças escravizadas existissem livremente como cultura; os babilônios isolavam o clero judaico das massas em uma espécie de prisão em um clube de campo; e os romanos eram famosos pela liberdade religiosa, desde que tanto cidadãos quanto estrangeiros obedecessem às leis, pagassem impostos e jurassem a santa fidelidade ao imperador. Recompensa ou punição era geralmente aplicada por causa do comportamento de um indivíduo ou grupo.


De acordo com Versluis, uma mudança sísmica ocorreu no século II DC, quando o cristianismo começou a solidificar-se como uma religião organizada ao invés de múltiplas seitas independentes.

Tertuliano de Cartago
Padres da Igreja como Irineu de Lyon e Tertuliano de Cartago viram a necessidade de racionalizar os dogmas de sua religião a fim de ganhar respeitabilidade dentro do Império Romano. Dissidências ou especulações autônomas poderiam ameaçar a própria sobrevivência do cristianismo (pelo menos essa era sua razão de ser).

Eles desenharam uma linha dura na área doutrinária, referindo-se à sua forma de cristianismo como "ortodoxia" (do grego para "bem pensantes"). Do outro lado estavam os gnósticos, que foram chamados de “hereges” (do grego "para aquele que escolhe", no contexto do pensamento divergente da norma padrão). Estas respectivas categorias foram aplicadas aos membros das suas igrejas depois de apressadas investigações. Tal demarcação acabou sendo designada para comunidades inteiras e as mais "hereges" denunciadas , sendo os termos convenientemente abrangentes para outras seitas, religiões e até mesmo princípios políticos.

Em outras palavras, um inimigo já não era definido pelos seus atos, lealdade ou mesmo cidadania, mas por seus próprios pensamentos! Como a ala ortodoxa cresceu e se associou ao governo romano, volumosos textos foram escritos sobre como reconhecer, decifrar e corrigir aqueles que haviam feito uma escolha longe do “bom pensamento”. Pela primeira vez na História uma forma de pensar poderia ser criminalizada pelo Estado.

O massacre dos hereges cátaros
Este modelo de controle totalitário não foi totalmente aperfeiçoado até a chegada da Inquisição no século XII. Apesar da percepção comum, a Inquisição não foi implementado para lidar com os judeus, bruxas ou de outras minorias, mas, ironicamente, contra os gnósticos e os cátaros rebeldes do sul da França. Com a bênção do papa e da cobiça de nobres oportunistas, a caça aos hereges tornou-se a principal arma para combater a resistência dos gnósticos medievais.

Uma vez que os cátaros e os seus simpatizantes católicos foram aniquilados, este instrumento de controle absoluto migrou para outras formas de pensamento que não estavam em linha com a Igreja (e, mais tarde, muitas linhas protestantes). A prática da tortura, tribunais simulados, provas plantadas, o incentivo à delação, execuções públicas exemplares, entre outras técnicas, sofisticaram-se ao ponto de o medo ser o suficiente para literalmente fazer populações inteiras se tornarem ortodoxas ou “politicamente corretas”.

Apesar do advento da era do Iluminismo e das nações democráticas, a história revela claramente que a fórmula repressiva dos pais da primeira igreja e dos inquisidores medievais nunca foi abandonada. A Nova Inquisição oferece os habituais e infames exemplos famosos de regimes autoritários e patrulhamento dos pensamentos, como os corruptores da Revolução Francesa, o marxismo europeu-asiático, o nazismo, e espectros diferentes do fascismo. No entanto, Versluis oferece evidências de intelectuais que influenciaram notórios movimentos despóticos, direta ou indiretamente, e que estavam bem conscientes sobre os caçadores de hereges e suas metodologias (e, certamente, convocaram o bicho-papão do gnosticismo quando necessário).

A pergunta pode surgir é o porquê de o livro se chamar “As novas inquisições”, uma vez que o crime do pensamento é imortal e sempre se transforma e migra para diferentes lugares e épocas. A resposta é a advertência de Versluis de que o vírus caça à heresia ainda é considerado uma toxina viável por muitos no poder, mesmo em sociedades livres. O pânico ao satânico e a “Illuminatifobia” dos anos 1980 e 1990 no Ocidente são dois casos que, felizmente, não evoluiram para literal caça às bruxas. E como Versluis afirma, é uma sombria ironia que os alarmistas principais destes dois casos, Pat Robertson e Tim Lahey, são eles próprios membros do clandestino e atualmente ativo Conselho de Política Nacional. Em essência, esta organização cristã illuminati cria falsos illumitatis que são implantados nas mentes da população, a fim de criar cismas e fabricar ameaças, tornando assim mais fácil de controlar a percepção do público.

Como mencionado, a dura verdade é que a caça aos hereges e o Golem da Inquisição jamais serão destruídos, porque são produtos da imaginação infernal de quem achava que o bem maior significa a falta de livre arbítrio e o livre pensamento. Os gnósticos tomaram os primeiros golpes deste Golem, além de incontáveis milhões de pessoas pagaram caro por nada mais do que terem tido ideias para depois serem punidos por outras ideias.

No entanto, a ortodoxia (bem pensante) pode ser contida por uma atitude feroz de heresia (escolha além do aceitável), como a História tem também revelado muitas vezes. Mas talvez isso só torne as coisas mais difíceis. O inquisidor moderno não exige mais câmaras de tortura ou vizinhos delatores quando a internet, mensagens eletrônicas, redes sociais e outros meios de comunicação fizeram pensamentos do público mais acessível do que nunca. Tudo o que precisamos para contaminar a liberdade é que ocorra, algum dia, o casamento entre um sistema de crenças ditatorial e o Estado. Quando se menos espera, os pensamentos de alguém podem se transformar em testemunha condenatória em algum tribunal corrompido.

Ou talvez mais apropriado, é a exegese do “Grande Inquisidor” de Dostoievski feita por Versluis, onde depois de Cristo ter sido capturado, revelam-Lhe no que se tornará civilização após a sua partida:


“Nós não estamos trabalhando para Ti, mas para ele [o diabo], que é o nosso mistério. Nós, continua ele, seremos césares e depois vamos planejar a felicidade universal do homem através de alguns meios que possam unir tudo em um unânime e harmonioso formigueiro. O Grande Inquisidor é quele que rejeita a transcendência e abraça a imanência, isto é, o histórico e mundano poder, a fim de ajudar a humanidade a realizar a utopia terrena através do impedimento da liberdade humana”.


As ideias podem realmente mudar o mundo. Mas algumas ideias seriam melhores se fossem deixadas na imaginação infernal de certas pessoas, para que não tenhamos um admirável mundo novo com seus Golens.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ORA, DIREIS: ANTI-IMPERIALISMO! CERTO. PERDESTE O SENSO!


Galtieri: 'Esa noche me emborracho'
 Trinta anos atrás, um bando de generais facínoras, que em 1976 tinha tomado o poder de assalto na Argentina, massacrando cerca de 30 mil pessoas, desencadou uma operação militar para ocupar as ilhas Malvinas, que desde 1833 eram uma possessão britânica no Atlântico Sul reinvindicada pelos argentinos. Foi uma patriotada destinada a unir o país em torno da ditadura militar, desgastada por uma grave crise econômica e social.

O pior é que eles conseguiram: dias depois da invasão, multidões se concentraram em frente à Casa Rosada e até militantes montoneros, que tinham sido torturados nos cárceres do regime, foram defender a ação dos militares. Em nome do "anti-imperialismo". Até Cuba apoiou a ditadura argentina - que teve um papel fundamental em operações de contra-insurgência na América Central, patrocinadas pelos EUA.

Os militares argentinos cometeram erros colossais de avaliação. Primeiro, achavam que a Grã-Bretanha jamais se daria ao trabalho de despachar uma frota tão longe para reocupar ilhas quase desertas. Não perceberam que a Dama de Ferro estava em apuros e que uma guerra como essas seria uma excelente oportunidade para ela reconquistar a popularidade. Segundo, os generais acreditavam que os Estados Unidos, agradecidos pelo papel de Buenos Aires na guerra suja contra o "comunismo" na América Latina, apoiariam incondicionalmente a Argentina, em detrimento do Reino Unido, aliado preferencial dos americanos na Europa e na Otan.

Em dois meses, os britânicos acabaram com a aventura militar dos argentinos, mal-preparados e mal equipados para uma ação como aquela. O conflito matou 649 argentinos e 255 britânicos e mergulhou a ditadura numa crise terminal. Felizmente. 

Prisioneiros de guerra argentinos: humilhação
Ficou a humilhação de um povo que se deixou levar pela fanfarronice de seus ditadores. O mais grave é que grande parte da esquerda latino-americana, nesse episódio, perdeu completamente o senso, incapaz de ver o que aconteceria se os generais argentinos vencessem aquela guerra. E levantaram a bandeira da soberania, mas se esqueceram da autonomia. Afinal, quem foi se importou com a opinião dos kelpers, os habitantes das Malvinas?