quinta-feira, 15 de março de 2012

SE ESTA RUA FOSSE MINHA...

  
Costa e Silva, Castello e Geisel 

Rodovia Castello Branco
 
Elevado Costa e Silva, o "minhocão"










Você já imaginou a cidade do Porto, em Portugal, cortada por uma ponte chamada “António de Oliveira Salazar”? Ou uma via elevada “General Jorge Rafael Videla” em Buenos Aires? Ou ainda uma “praça coronel George Papadopoulos” no charmoso bairro de Plaka, em Atenas? Pois aqui no Brasil nós homenageamos todos os ditadores militares: Castello Branco dá nome a uma das principais rodovias de São Paulo (a SP-280) e a uma rua de Porto Alegre; Presidente Costa e Silva é o nome oficial do popular “minhocão” e da Ponte Rio-Niterói.

Médici, ao lado de Figueiredo (de quepe)  na Transamazônica
O sombrio general Médici dá nome a uma avenida em São Paulo e, no Pará, existe uma cidade chamada Medicilândia (!), nascida no tempo da Transamazônica e do “Brasil Grande”. Em Campo Grande temos uma Avenida presidente Ernesto Geisel e no Amazonas uma cidade chamada Presidente Figueiredo. O coronel Sebastião Curió, que atuou na repressão à guerrilha do Araguaia e no garimpo de Serra Pelada e está sendo denunciado pelo Ministério Público, dá nome a uma cidade (Curionópolis), no Pará. Em SP, o general Milton Tavares, chefe do antigo CIEx (Centro de Informações do Exército) e um dos responsáveis pela implantação da Operação Bandeirante e dos DOI-Codi durante a ditadura militar, é nome de uma ponte (por obra do Maluf). Aqui na Vila Leopoldina há uma rua que leva o nome do delegado Sérgio Paranhos Fleury, o torcionário-mór da ditadura.

Dan Mitrione, professor de tortura
E já houve um logradouro em São Paulo agraciado com o nome de Dan Mitrione, o agente da CIA que veio à América do Sul ensinar técnicas de tortura a órgãos de repressão e acabou sequestrado e executado em Montevidéu pelos guerrilheiros Tupamaros. Como se não bastasse, uma das alas do Senado Federal chama-se “Filinto Müller”, o chefe da polícia política de Getúlio Vargas, o Himmler brasileiro. Há uma proposta para que o nome seja mudado para Ala Luís Carlos Prestes, líder comunista preso por Filinto em 1935.

Como disse o historiador Gilberto Maringoni, não há na Alemanha rua, monumento ou edifício público homenageando Adolf Hitler, ou um aeroporto Herman Göring (ás da aviação na I Guerra Mundial) ou um viaduto Joseph Göbbels; como não há na Itália monumentos públicos homenageando Mussolini. Eu poderia acrescentar: nem pontes na França com o nome do marechal Pétain ou do premiê Pierre Laval (chefes do regime colaboracionista de Vichy). A Espanha, depois de muito tempo, finalmente retirou o nome do generalíssimo Francisco Franco (“Caudillo de España por la Gracia de Dios") dos logradouros públicos, embora o Vale de Los Caídos – espécie de Disneylândia da direita – ainda subsista.

Temos que acabar com essa condescendência imoral. E sem essa de “revanchismo”; trata-se de resgatar nossa memória histórica. Algumas cidades já deram o exemplo. São Carlos, no interior paulista, há dois anos mudou o nome de uma rua denominada Sérgio Fleury para D. Helder Câmara. No Rio de Janeiro, o deputado Chico Alencar (Psol), a pedido de entidades de defesa dos direitos humanos, apresentou um projeto de lei para mudar o nome da ponte Rio-Niterói para Betinho, o sociólogo que se tornou símbolo da luta contra a fome. Segundo o deputado, “é inaceitável que a popularmente chamada Ponte Rio-Niterói seja oficialmente denominada Ponte Presidente Costa e Silva, em homenagem a um chefe de Estado que foi um dos artífices do golpe militar, responsável por momentos dos mais sombrios da história brasileira como o que se inicia com a edição do famigerado Ato Institucional nº 5”. Em Porto Alegre há um Projeto de Lei para mudar o nome da Avenida Presidente Castello Branco para Avenida da Legalidade – o movimento democrático que abortou a tentativa dos chefes militares de impedir a posse de João Goulart em 1961.

Em tempos de Comissão da Verdade, está mais do que na hora de passar a limpo nossa história recente. Pelo menos isso.

Livro sobre o agente Dan Mitrione, executado pelos Tupamaros


quarta-feira, 14 de março de 2012

AS VERSÕES PROIBIDAS DO CHICO BUARQUE

Chico Buarque de Hollanda hoje é um celebrado menestrel, mas no passado sua obra foi duramente fustigada pela ditadura militar. Ele era tão carimbado pela censura que, para conseguir gravar alguma coisa, inventou um pseudônimo, Julinho da Adelaide. Aqui, uma pequena coletânea das versões originais censuradas: 

Vence na vida quem diz sim. Música da peça Calabar, o elogio da traição, de 1972.



Tanto Mar. Elegia à Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura salazarista em Portugal em 1974.  


Cálice
Referência à tortura, particularmente à morte do militante Stuart Angel Jones, assassinado em 1972.
Um trecho do show PHONO 73 realizado no Anhembi, em São Paulo. A música Cálice foi considerada subversiva pelos orgãos da ditadura militar, por isso mesmo sendo cantada com a letra modificada, o microfone do Chico Buarque foi desligado.



Apesar de Você, 1971



DEMOCRACIA, ONTEM E HOJE


Trechos do famoso discurso do presidente João Goulart na Central do Brasil em 13 de março de 1964, que desencadeou a reação conservadora das classes médias em São Paulo e Rio de Janeiro que deu origem ao golpe cívico-militar de 1º de abril daquele ano fatídico. Neste discurso, Jango anunciou uma série de medidas reformistas, como a reforma agrária, assustando os conservadores. É incrível como muita coisa do discurso permanece atual:   


"Aqui estão os meus amigos trabalhadores, vencendo uma campanha de terror ideológico e sabotagem, cuidadosamente organizada para impedir ou perturbar a realização deste memorável encontro entre o povo e o seu presidente, na presença das mais significativas organizações operárias e lideranças populares deste país.


Chegou-se a proclamar, até, que esta concentração seria um ato atentatório ao regime democrático, como se no Brasil a reação ainda fosse a dona da democracia, e a proprietária das praças e das ruas. Desgraçada a democracia se tiver que ser defendida por tais democratas.

Democracia para esses democratas não é o regime da liberdade de reunião para o povo: o que eles querem é uma democracia de povo emudecido, amordaçado nos seus anseios e sufocado nas suas reinvindicações.

A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos interesses dos grupos a que eles servem ou representam.

A democracia que eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo sacrifício.

Ainda ontem, eu afirmava, envolvido pelo calor do entusiasmo de milhares de trabalhadores no Arsenal da Marinha, que o que está ameaçando o regime democrático neste País não é o povo nas praças, não são os trabalhadores reunidos pacificamente para dizer de suas aspirações ou de sua solidariedade às grandes causas nacionais. Democracia é precisamente isso: o povo livre para manifestar-se, inclusive nas praças públicas, sem que daí possa resultar o mínimo de perigo à segurança das instituições.

Democracia é o que o meu governo vem procurando realizar, como é do seu dever, não só para interpretar os anseios populares, mas também conquistá-los pelos caminhos da legalidade, pelos caminhos do entendimento e da paz social.

Não há ameaça mais séria à democracia do que desconhecer os direitos do povo; não há ameaça mais séria à democracia do que tentar estrangular a voz do povo e de seus legítimos líderes, fazendo calar as suas mais sentidas reinvindicações.

Estaríamos, sim, ameaçando o regime se nos mostrássemos surdos aos reclamos da Nação, que de norte a sul, de leste a oeste levanta o seu grande clamor pelas reformas de estrutura, sobretudo pela reforma agrária, que será como complemento da abolição do cativeiro para dezenas de milhões de brasileiros que vegetam no interior, em revoltantes condições de miséria."



segunda-feira, 12 de março de 2012

O ESTADO-NAÇÃO MORREU; VIVA O ESTADO-NAÇÃO!

Dois textos importantes, extraídos do site Carta Maior, discutem a questão do papel do Estado-nacional no mundo pós-neoliberal, de certa forma ecoando o texto do prof. José Luis Fiori sobre "desenvolvimentismo e neodesenvolvimentismo". Nada mau para quem achava a globalização tinha colocado o Estado-nação na lata de lixo da História...    

Desenvolvimentismo, Estado-Nação e o resgate da política

Saul Leblon


Esta semana o governo deve anunciar uma série de medidas destinadas a proteger e impulsionar a indústria brasileira, cuja participação no PIB definha: caiu de 16,5% para algo como 14,3% entre 2010 e 2011; no final dos anos 90 essa fatia correspondia a 30% do PIB.

As causas desse declínio são objeto de debate entre correntes distintas do pensamento econômico. Grosso modo, neoliberais apontam o 'custo Brasil' como origem da falta de competitividade do manufaturado brasileiro. Para superar o estrangulamento industrial seria necessário, prioritariamente, segundo os expoentes desse credo, melhorar a infraestrutura do país, reduzir impostos (leia-se cortar gastos públicos e recuar o papel do Estado na economia), bem como promover uma reforma trabalhista para cortar direitos e despesas da folha. O conjunto seria arrematado com uma queda dos juros (de novo, só possível, de acordo com essa visão, se o setor público reduzir a participação no mercado financeiro como tomador).


A escola de pensamento heterodoxa, a exemplo da esquerda, concorda que a infraestrutura do país precisa ser fortalecida e prescreve pesados investimentos públicos nessa direção, a exemplo do que se faz parcialmente com o PAC. Mas diverge que seja esse o ponto de urgência imediata. O torniquete a desatar imediatamente, no seu entender, seria a combinação perversa de desequilíbrio cambial e monetário (leia-se a endogamia entre juros altos e câmbio valorizado) que transformou o país num grande ralo do excesso de liquidez mundial. Essa drenagem indigesta desequilibra o câmbio e sufoca a indústria em duas frentes: pela concorrência devastadora dos bens importados e, simultaneamente, pela anemia exportadora da cadeia de manufaturados.

Em apenas seis anos, a balança comercial de manufaturados saiu de um superávit de US$ 5 bi, em 2006, para um déficit de US$ 92 bi em 2011.


O quadro tende a se agravar. O 'tsunami de liquidez', denunciado pela presidenta Dilma Rousseff, forma por enquanto apenas as suas primeiras marolas nas praias tropicais. Teme-se que a 'solução' do impasse grego encoraje bancos e especuladores em geral a sacarem, a partir de agora e em ritmo crescente, a chuva de dinheiro barato que receberam das autoridades monetárias de seus países. Por enquanto, esse oceano da ordem de cinco trilhões de euros empoçado na zona do euro, por exemplo, está guardado nos diques do próprio BCE. Ao ser liberado, formará um jorro devastador em busca de operações lucrativas nos mercados ditos emergentes.

O debate sobre o que fazer guarda aparência técnica e não raro é tratado de forma tecnocrática, à direita mas também por setores da própria esquerda. Na realidade, porém, sua essência é visceralmente política.

Los fusilamientos del 3 de mayo - Goya 
A grande interrogação é saber se os Estados nacionais, amarrotados e jogados no fundo da gaveta da história pelo vagalhão neoliberal das últimas décadas, têm sobrevida e nervura política para liderar a resistência ao imperialismo monetário emitido das burras dos mercados ricos, em benefício de seus bancos, do seu mercado de trabalho, dos fundos especulativos e  corporações.

A dúvida remete a um subtexto de debate que de alguma forma já se trava na academia: existe desenvolvimentismo possível no mundo pós-neoliberal?

Um texto provocativo de autoria do professor José Luís Fiori sugere que não. Mas mereceu reparos no blog do economista Fernando Nogueira da Costa, professor da Unicamp, vice presidente da Caixa Economica Federal no governo Lula (2003-2007). As observações de Nogueira da Costa levantam questões interessantes para um debate necessário e oportuno. Outro contraponto provocativo vem do economista norte-americano Dani Rodrik [leia abaixo] que, em artigo publicado no site Syndicate, defendeu a urgência de se retomar a agenda do Estado-nação como única alternativa concreta à desordem gerada pela crise neoliberal.

Viável ou não, a retomada da agenda desenvolvimentista e o resgate do Estado-nação refletem uma tarefa incontornável, em relação à qual boa parte do pensamento progressista não alimenta dúvidas: é preciso repor a supremacia da política e da democracia sobre a hegemonia dos mercados e das finanças desreguladas.

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La Liberté guidante le peuple - Delacroix
O renascer do Estado-Nação

Dani Rodrik (*)

Um dos mitos basilares da nossa era é o de que a globalização condenou o Estado-nação à irrelevância. Ouvimos dizer que a revolução nos transportes e comunicações fez desaparecer fronteiras e encolheu o mundo. Os novos modos de governança que vão das redes transnacionais de reguladores até às organizações internacionais da sociedade civil e às instituições multilaterais transcendem e suplantam os legisladores nacionais. Diz-se que os responsáveis políticos internos se sentem bastante impotentes perante os mercados globais.

A crise financeira mundial abalou este mito. Quem socorreu os bancos, injetou liquidez, promoveu incentivos fiscais e estabeleceu as redes de segurança para os desempregados, para impedir uma catástrofe crescente? Quem está reescrevendo as regras de fiscalização e a regulamentação do mercado financeiro para evitar outro incidente? Quem recebe a maior parte da culpa por tudo o que corre mal? A resposta é sempre a mesma: os Estados nacionais. O G-20, o Fundo Monetário Internacional e o Comitê de Basileia de Supervisão Bancária têm sido, em grande parte, elementos marginais.

Mesmo na Europa, onde as instituições regionais são relativamente fortes, o interesse nacional e os políticos nacionais, em grande parte, na pessoa da chanceler alemã, Angela Merkel, têm dominado a definição de políticas. Se a chanceler Merkel tivesse se mostrado menos apaixonada pela austeridade para os países endividados da Europa e se tivesse conseguido convencer os seus eleitores da necessidade de uma abordagem diferente, a crise da zona do euro teria tido contornos bastante diferentes.

No entanto, mesmo com a sobrevivência do Estado-nação, a sua reputação está ruindo. O assalto intelectual ao Estado-nação assume duas formas. Na primeira, há a crítica de economistas que consideram que os governos são um impedimento à livre circulação de mercadorias, capitais e pessoas por todo o mundo. Impeça-se a intervenção dos responsáveis políticos nacionais com os seus regulamentos e barreiras, dizem eles, e os mercados globais cuidarão de si próprios no processo de criação de uma economia mundial mais integrada e eficiente.

Mas quem vai ditar as regras e a regulamentação do mercado, se não os Estados-nação? O laissez-faire é receita para mais crises financeiras e para um maior retrocesso político. Além disso, seria necessário confiar a política económica a tecnocratas internacionais, isolados como estão dos incentivos e desincentivos da política – uma posição que circunscreve seriamente a democracia e responsabilidade política.

Em suma, o laissez-faire e a tecnocracia internacional não fornecem uma alternativa plausível ao Estado-nação. Na verdade, a erosão do Estado-nação, em última análise, é pouco benéfica para os mercados globais enquanto não existirem mecanismos viáveis de governança global.

Na segunda forma existem especialistas em ética cosmopolita que condenam a artificialidade das fronteiras nacionais. Como afirmou o filósofo Peter Singer, a revolução das comunicações gerou uma "audiência global" que cria a base para uma "ética global". Se nos identificamos com a nação, a nossa moral permanecerá nacional. Mas, se cada vez mais nos associarmos ao mundo em geral, as nossas lealdades irão igualmente se expandir. Da mesma forma, o Nobel da Economia Amartya Sen fala das nossas "múltiplas identidades" – étnicas, religiosas, nacionais, locais, profissionais e políticas -, muitas das quais atravessam fronteiras nacionais.

Não está claro que uma parte disto tenha por base um otimismo exacerbado e que outra parte seja baseada em mudanças reais de identidades e ligações. As pesquisas mostram evidências de que a ligação ao Estado-nação continua a ser bastante forte.

Há alguns anos, a associação World Values Survey inquiriu os entrevistados em dezenas de países sobre a sua ligação às comunidades locais, às nações e ao mundo em geral. Não é de admirar que aqueles que se viam a si mesmos como cidadãos nacionais ultrapassavam em muito aqueles que se consideravam cidadãos do mundo. Mas, surpreendentemente, a identidade nacional ensombrava até a identidade local nos Estados Unidos, Europa, Índia, China e na maioria das outras regiões.

As mesmas pesquisas indicam que as pessoas mais jovens, as que têm qualificações mais elevadas, as que se identificam a si mesmas como classe superior, têm mais tendência a associar-se com o mundo. No entanto, é difícil identificar qualquer segmento demográfico cuja ligação à comunidade global supere a ligação ao país. Por muito grande que tenha sido o decréscimo nos custos das comunicações e transportes, não apagou a geografia. A atividade econômica, social e política continua a se agrupar com base em preferências, necessidades e trajetórias históricas que variam em redor do mundo.

A distância geográfica é um determinante de intercâmbio econômico tão forte como era há 50 anos. Afinal, nem mesmo a Internet é tão desprovida de fronteiras quanto parece: um estudo descobriu que os americanos têm muito mais tendência a visitar sites de países que estão fisicamente próximos do que de países que estão longe, mesmo após as medidas de controle de linguagem, rendimentos e muitos outros fatores.

O problema é que ainda estamos sob o domínio do mito do declínio do Estado-nação. Os líderes políticos alegam impotência, os intelectuais sonham com esquemas implausíveis de governança global e os perdedores culpam cada vez mais os imigrantes ou as importações. Quando se fala sobre a reabilitação do Estado-nação, as pessoas respeitáveis correm a esconder-se, como se estivéssemos a propor reavivar a peste.

Para ser mais preciso, a geografia de ligações e identidades não é fixa; na verdade, tem mudado ao longo da história. Isso significa que não devemos descartar totalmente a possibilidade de que uma verdadeira consciência global se venha a desenvolver no futuro, em conjunto com comunidades políticas transnacionais.

Mas os desafios atuais não podem encontrar respostas em instituições que (ainda) não existem. Por enquanto as pessoas ainda têm de procurar soluções nos seus governos nacionais, que permanecem a melhor esperança para a ação colectiva. O Estado-nação pode ser uma relíquia que nos foi legada pela Revolução Francesa, mas é tudo o que temos.

(*) Professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy".


Aroeira (1967), Geraldo Vandré



domingo, 11 de março de 2012

PUNIÇÃO: FANTASIA DE CARCEREIROS

"Vocês homens prestativos e bem-intencionados, ajudem na obra de erradicar do mundo o conceito de punição, que o infestou inteiramente! Não há erva mais daninha! Ele não apenas foi introduzido nas consequências da nossa forma de agir - e como já é terrível e irracional entender causa e efeito como causa e punição! - mas fez-se mais, privando da inocência, toda a pura causualidade do acontecer. A insensatez chegou ao ponto de fazer sentir a existência mesmo como uma punição - é como se a educação do gênero humano tivesse sido orientada, até agora, pelas fantasias de carcereiros e carrascos!" (Friedrich Nietzsche, Aurora)   

quinta-feira, 8 de março de 2012

MULHERES, PÃES E ROSAS

A origem do Dia Internacional da Mulher está envolto em controvérsias. Segundo alguns, remonta a 8 de março de 1857, quando as operárias têxteis de Nova York fizeram uma greve e ocuparam uma fábrica para reivindicar melhores condições de trabalho. Elas teriam sido trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada e cerca de 130 trabalhadoras morreram carbonizadas.



Outras versões, contudo, atribuem a data a outro incêndio ocorrido em Nova York, a da fábrica têxtil de Triangle Shirtwaist, em 11 de março de 1911, que matou 146 trabalhadoras. O número elevado de mortes foi atribuído às más condições de segurança do edifício. Eva Blay diz inclusive que esse episódio da Triangle se incorporou ao imaginário coletivo como sendo a origem do Dia Internacional da Mulher.

O fato é que em 1910 ocorreu a primeira conferência das mulheres em Copenhague (Dinamarca), dirigida pela II Internacional, quando foi aprovada a proposta da socialista alemã Clara Zetkin de se instituir um dia internacional da mulher. No ano seguinte, o Dia da Mulher foi comemorado na Alemanha, Dinamarca, Áustria e Suíça. Outra socialista feminista de destaque foi Alexandra Kollontai, que teve papel importante na Revolução Bolchevique de 1917.

Com o passar do tempo, a data foi perdendo a característica revolucionária original, adquirindo contornos mais “burgueses” de comemoração e de ofertar flores - embora poucos associem rosas vermelhas à Revolução. Mas, ao longo da sangrenta história do século XX, as mulheres se destacaram nas revoluções e nos movimentos de libertação, principalmente na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), como maquis da Resistência Francesa e partigianas da Resistência Italiana.

A letra desta música, que lembra o episódio de 1910, foi composta por James Oppenheim. Kean Loach fez um filme homônimo que versava sobre o tema dos imigrantes mexicanos oprimidos nos EUA.  





quarta-feira, 7 de março de 2012

DA SÉRIE: GETÚLIO TINHA RAZÃO?

Reproduzo o texto do prof. José Luís Fiori postado na Carta Maior sobre o "desenvolvimentismo de esquerda". Pode-se discordar das formulações; pode-se até dizer que o autor adota uma posição cômoda de crítica sem apresentar alternativas concretas. Mesmo assim, o texto é uma reflexão brilhante, que merece discussão.   

O 'desenvolvimentismo de esquerda'


Neste início do século XXI, parece que o “desenvolvimentismo de esquerda” estreitou tanto o seu “horizonte utópico”, que acabou se transformando numa ideologia tecnocrática, sem mais nenhuma capacidade de mobilização social. Como se a esquerda tivesse aprendido a navegar, mas ao mesmo tempo tivesse perdido a sua própria bússola.


José Luís Fiori

Getúlio Vargas (ao centro, com charuto): formulador de um projeto nacional
No Brasil, a relação entre a esquerda e o desenvolvimentismo nunca foi simples nem linear. Sobretudo, depois do golpe militar de 1937, e do Estado Novo de Getulio Vargas, que foi autoritário e anti-comunista, mas foi também responsável pelos primeiros passos do “desenvolvimentismo militar e conservador”, que se manteve dominante, dentro do estado brasileiro, até 1985. Neste contexto, não é de estranhar que a esquerda em geral, e os comunistas em particular, só tenham mudado sua posição crítica com relação ao desenvolvimentismo, depois da morte de Vargas.

Não é fácil classificar idéias e hierarquizar instituições. Mas mesmo assim, é possível identificar pelo menos três instituições que tiveram um papel central, nos anos 50, na formulação das principais idéias e teses do chamado “desenvolvimentismo de esquerda”.

Em primeiro lugar, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que apoiou a eleição de JK, em 1955, mas só no seu V Congresso de 1958, conseguiu abandonar oficialmente a sua estratégia revolucionária, e assumir uma nova estratégia democrática de aliança de classes, a favor da “revolução burguesa” e da industrialização brasileira, que passam a ser classificadas como condição prévia e indispensável de uma futura revolução socialista.

Em segundo lugar, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), que foi criado em 1955, pelo Governo Café Filho, e que reuniu um numero expressivo e heterogêneo de intelectuais de esquerda que foram capazes de liderar uma ampla mobilização da intelectualidade, da juventude, e de amplos setores profissionais e tecnocráticos, em torno do seu projeto nacional- desenvolvimentista, para o Brasil.

Por fim, desde 1949, a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), produziu idéias, informações e projetos que influenciaram decisivamente o pensamento da esquerda desenvolvimentista brasileira. Mas apesar de sua importância para a esquerda, a CEPAL nunca foi uma instituição de esquerda.

Manifestação pelas reformas de base

Do ponto de vista político prático, no início da década de 60, a “esquerda desenvolvimentista” ocupou um lugar importante na luta pelas “reformas de base”, mas, ao mesmo tempo, se dividiu inteiramente, na discussão pública do Plano Trienal proposto pelo Ministro Celso Furtado, em 1963. Mas logo depois do golpe militar de 1964, a esquerda e o desenvolvimentismo voltaram a se divorciar, e sua distância aumentou depois que o regime militar retomou e aprofundou a estratégia desenvolvimentista do Estado Novo. Três dias depois do golpe, o ISEB foi fechado; o PCB voltou à ilegalidade e a própria CEPAL fez uma profunda auto-crítica de suas antigas teses desenvolvimentistas.

Mesmo assim, apesar destas condições políticas e intelectuais adversas, formou-se na Universidade de Campinas, no final dos anos 60, um centro de estudos econômicos que foi capaz de renovar as idéias e as interpretações clássicas – marxistas e nacionalistas -do desenvolvimento capitalista brasileiro.

O prof. João Manuel Cardoso, da Unicamp 
A “escola campineira” partiu da crítica da economia política da CEPAL, e de uma releitura da teoria marxista da revolução burguesa, para postular a existência de várias trajetórias possíveis de desenvolvimento para um mesmo capitalismo nacional. Por isso, a escola campineira fez sua própria leitura e reinterpretação do caminho específico e tardio do capitalismo brasileiro e dos seus ciclos econômicos E, se posicionou favoravelmente à uma política desenvolvimentista capaz de levar a cabo os processos inacabados de centralização financeira e industrialização pesada, da economia brasileira.

Hoje, parece claro que a “época de ouro” da Escola de Campinas foi da década de 70, até a sua participação decisiva na formulação do Plano Cruzado, que fracassa em 1987. É verdade que logo depois do Cruzado, e durante a década de 90, a crise socialista e a avalanche neoliberal arquivaram todo e qualquer tipo de debate desenvolvimentista, independente do que passou em Campinas. Mas parece claro que a própria escola recuou, neste período. E dedicou-se cada vez mais ao estudo de políticas setoriais e específicas, e para a à formação cada vez mais rigorosa de economistas heterodoxos, e de quadros de governo.

Seja como for, a verdade é que – com raras exceções - depois do Plano Cruzado, a “escola campineira” perdeu sua capacidade de criação e inovação dos anos 70, e a maioria de suas idéias e intuições originárias acabaram se transformando em fórmulas escolásticas. Por isto, não é de estranhar que neste início do século XXI, quando o desenvolvimentismo e a escola campineira voltaram a ocupar um lugar de destaque no debate nacional, a sensação que fica da sua leitura, é que o “desenvolvimentismo de esquerda” estreitou tanto o seu “horizonte utópico”, que acabou se transformando numa ideologia tecnocrática, sem mais nenhuma capacidade de mobilização social. Como se a esquerda tivesse aprendido a navegar, mas ao mesmo tempo tivesse perdido a sua própria bússola.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.