Trata-se de um blog despretensioso de um jornalista dublê de sociólogo que deixou as grandes redações depois de ter acumulado décadas de experiência e, em função disso, acredita que tenha algo a transmitir a eventuais leitores... além de, claro, cumprir o dever de ofício de ajudar a "desafinar o coro dos contentes", como dizia Torquato Neto, e de "consolar os aflitos e afligir os consolados", como pregava Joseph Pulitzer.
"É frequente vermos na imprensa os comentários de que é crise grega é resultado da 'gastança' feita pelos gregos, que teriam se acostumado a exigir muito e trabalhar pouco.
Um partido austríaco de direita chegou a espalhar outdoors racistas retratando os gregos como entregues ao descanso perdulário, que a gente reproduz no post. [...] Os gregos, segundo os números da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OECD, trabalham em média 2090 horas por ano, 48,6% mais que as 1.419 horas anualmente trabalhadas pelos alemães e 35,7% mais que as 1554 horas anuais do trabalhador francês médio.
É irônico que, na longa lista de países que compõe a estatística da OECD, os gregos só percam – e de pouco – para a maior jornada média anual apurada: a dos sul-coreanos, com 2.193 horas, 4% a mais ou, dividindo-se por uma média de 230 dias úteis por ano, 22 minutos diários de trabalho em relação aos gregos.
Não é exato fazer comparações com o Brasil, para não mudar os critérios de apuração, sobretudo porque é difícil equacionar a questão do emprego rural e do informal neste cálculo, mas andamos por volta de 2.000 horas anuais, embora este número venha se reduzindo em razão da formalização do emprego. Ainda assim, segundo dados do Censo de 2010, 28% dos brasileiros trabalhavam mais de nove horas por dia.
De qualquer forma, há algo positivo nesta história deprimente.
É o fato de vermos como o “mito da indolência”, tantas vezes usados contra nós, brasileiros, encobre desde os interesses de dominação, passando pelo racismo e , sobretudo, pelo encobrimento de sistemas econômicos injustos e empobrecedores, generosos com o capital e mesquinhos com o trabalho."
[...]
IV Esses, afinal, combateram, e alguns acreditando,
pro domo, afinal...
Alguns por amor às armas,
alguns por aventura,
alguns por medo da fraqueza, alguns por medo da censura, alguns por amor à mortandade, em pensamento, aprendendo mais tarde... alguns com medo,aprendendo a amar a mortandade;
Morreram uns, pro patria,
não "dulce", não "et decor"...
andaram de olhos fundos pelos infernos,
acreditando nas mentiras dos mais velhos, depois, descrentes, voltaram para casa, voltaram para uma mentira, para muitos engodos, para velhas mentiras e nova infâmia;
a usura decrépita e adiposa
e os mentirosos nos postos públicos.
Audácia como nunca antes, desperdício como nunca antes. Sangue jovem e sangue quente,
belas faces e corpos sãos;
vigor como nunca antes
fraqueza como nunca antes, desilusões como nunca se ouviu nos velhos dias, histerias, confissões de trincheira,
riso frouxo de ventres mortos.
V
Ali jaz uma miríade,
E dos melhores, entre eles,
Por uma velha cadela desdentada,
Por uma civilização de remendos,
Viço nos lábios sorridentes,
Faísca de olhos sob a pálpebra da terra,
Por duas grosas de cotos de estátuas,
Por algumas pilhas de livros rotos.
EZRA POUND, E.P. ODE POUR L'ELECTION DE SON SEPULCHRE
"A Europa é feita de cafeterias, de cafés. Estes vão da cafeteria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhague, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscou, que já é um subúrbio da Ásia. Poucos na Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhum na América do Norte, para lá do posto avançado gálico de Nova Orleans. Desenhe-se o mapa das cafeterias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da 'idéia de Europa'.
Cafe Les Deux Magots, Paris
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou o metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma xícara de café, uma taça de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. [...] Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três principais cafés da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o lócus da eloqüência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e de filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Krauss, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lênin escreveu o seu tratado sobre empirocriticismo e jogou xadrez com Trotsky.
Billie Holiday em bar de jazz
Note-se as diferenças ontológicas. Um pub inglês e um bar irlandês têm a sua própria aura e mitologias [...] Mas esses estabelecimentos não são cafés. Não têm mesas de xadrez, não há jornais à disposição dos clientes, nos seus suportes próprios. [...] O bar americano desempenha um papel vital na literatura americana e em Eros, no carisma icônico de Scott Fitzgerald e Humphrey Bogart. A história do jazz é inseparável dele. Mas o bar americano é um santuário de luzes desmaiadas, muitas vezes de escuridão. Vibra com música, muitas vezes ensurdecedora. A sua sociologia e o seu tecido psicológico são permeados pela sexualidade, pela presença – desejada, sonhada, ou real – de mulheres. Ninguém redige tomos fenomenológicos à mesa de um bar americano (cf. Sartre). As bebidas têm de ser renovadas, se o cliente quiser continuar a ser desejado. Há “seguranças” que expulsam os indesejáveis. Cada uma destas características define uma ética radicalmente diferente daquela do Café Central ou do Deux Magots ou do Florian. [...] Enquanto existirem cafeterias, a 'idéia de Europa' terá conteúdo." George Steiner, A Ideia de Europa
E nós, mais tropicais, talvez pudéssemos acrescentar: enquanto houver botequim, a ideia de Brasil terá conteúdo...
O pianista de Vinícius de Moraes, Francisco Tenório Jr., o Tenorinho, foi uma vítima avant la lettre da ditadura militar argentina. Ele foi sequestrado e morto por militares da Marinha dias antes do golpe militar de 24 de março de 1976. Mas o aparelho repressivo da ditadura, que massacraria cerca de 30 mil pessoas nos anos seguintes, já estava montado, e tinha como auxiliares os grupos paramilitares de extrema-direita como a “Triple A” (Aliança Anticomunista Argentina), criado pela sinistra figura de José López Rega, vulgo El Brujo, secretário particular daquela patética presidente, Maria Estela Martínez de Perón, a Isabelita. Tenorinho foi morto, supostamente, pelo infame tenente (e não capitão, como diz o texto abaixo) Alfredo Astiz – aquele que ficaria famoso por se infiltrar entre as Madres da Plaza de Mayo e que anos depois se entregaria aos britânicos nas Malvinas sem dar um tiro sequer.
O texto abaixo conta os detalhes daquele episódio e da busca desesperada e inútil do poetinha por seu pianista.
Quando Vinicius procurou Tenório Jr. em Buenos Aires
Por Webster Franklin
Da Carta Maior
No dia 18 de março de 1976, Tenório Cerqueira Jr., pianista brasileiro que acompanhava Vinicius de Moraes em duas apresentações na capital argentina, desceu de seu quarto do hotel Normandie na Avenida Corrientes e, na esquina com a Rua Rodríguez Peña, quatro homens o jogaram em um Ford Falcon sem placas. Posteriormente o levaram a uma delegacia da Rua Lavalle e depois à Escola de Mecânica da Armada, onde, segundo testemunhas, foi assassinado com um tiro pelo capitão da Marinha, Alfredo Astiz.
Francisco Luque - Direto de Buenos Aires
Buenos Aires - “Tenorinho desapareceu”, disse Vinicius com um tom frio e seco, quase inaudível. Marta Rodríguez Santamaría, sua mulher argentina, e a pintora Renata Schussheim o acompanham enquanto o poeta desliga o telefone e começa a dimensionar a notícia. É tarde de sábado do dia 18 de março de 1976 e ainda que o grupo compreenda as dimensões do fato não imagina que o pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior havia sido detido por um grupo de operações da marinha argentina. Também não imaginam que o golpe de Estado na Argentina é iminente nem que a Operação Condor começa a alçar vôo.
Vinícius de Moraes
A reconstrução do relato e o horror dos momentos vividos durante março de 1976 são detalhados pela escritora Liana Wenner em seu livro Nuestro Vinicius. Vinicius de Moraes em el Río de la Plata: um perfil em várias vozes sobre o vínculo fraterno que estabeleceu o poeta com o mundo cultural e artístico portenho, que começa quando, em 1966, dois jovens editores o visitam no Rio de Janeiro com a oferta de difundir sua obra na Argentina.
Às três da madrugada do dia 18 de março de 1976, Tenório Cerqueira Jr., um pianista brasileiro reconhecido no mundo do jazz, desceu de seu quarto do hotel Normandie na Avenida Corrientes e, na esquina com a Rua Rodríguez Peña, quatro homens vestidos de civil o introduziram em um Ford Falcon sem placas. Posteriormente o levaram a uma delegacia da Rua Lavalle e depois à Escola de Mecânica da Armada, ESMA, onde, segundo testemunhas, no dia 25 de março recebeu um tiro de misericórdia disparado pelo capitão da Marinha, Alfredo Astiz.
Tenório tinha 35 anos, estava casado, tinha quatro filhos e um quinto estava por nascer.
Em seu livro, Wenner conta que horas antes de sua desaparição, Tenório Jr., junto à cantora Amélia Colares, o baterista Mutinho e o baixista Azeitona, haviam acompanhado Vinícius de Moraes e Toquinho no teatro Gran Rex em uma das duas apresentações agendadas na cidade.
Paradoxalmente com os fatos posteriores, as críticas ao show verteram elogiosos comentários ao jovem pianista:
“O espetáculo apresentou uma revelação que surpreendeu muitos espectadores: o excelente trabalho de Tenório Jr. O pianista, além de acompanhar eficazmente, executou uma brilhante composição que, paradoxalmente, se constituiu na mais autêntica expressão da música contemporânea brasileira”, diz o jornal El Cronista Comercial do dia 18 de março de 1976. Quando a crítica chegou às bancas, Tenório Jr. estava em mãos dos para-policiais.
O jornalista Eric Nepomuceno, exilado em Buenos Aires nesses dias, relata: “Naquela época Vinicius procurou o Tenório como louco pela cidade, seu desaparecimento lhe pesou muito. Ele mobilizou tudo o que esteve ao seu alcance para encontrá-lo, e existem documentos que dizem que na embaixada lhe mentiram porque houve um funcionário que o viu morto. Vinicius ia à embaixada brasileira em Buenos Aires e voltava muito frustrado. Que lhe diriam aí? Ele estava chorando na catacumba equivocada. Quando fui pedir asilo, com a minha mulher e o meu filho de um ano, depois de 24 de março, me negaram. Nem sequer aos dois receberam. Vinicius, talvez por esperança ou por ingenuidade, não se deu conta de que, além do inferno que se cozinhava na Argentina, a embaixada brasileira era uma sucursal invejosa desse inferno. Ali havia um cara cujo sonho era fazer o mesmo no Brasil”.
Graças às gestões de Vinicius, o jornal Última hora do dia 21 de março publicou: “MÚSICO BRASILEIRO QUE NÃO APARECE. Há poucos dias tivemos a oportunidade de assistir um novo recital de Vinicius de Moraes e Toquinho, que se apresentavam acompanhados por três músicos brasileiros que também já são conhecidos de nosso público: Azeitona, Mutinho e Tenório Jr.”.
“Ontem, este último foi novamente notícia, mas, lamentavelmente, na crônica policial por causa de seu desaparecimento há quase quatro dias. Segundo se soube Francisco Tenório Cerqueira Júnior, tal é seu verdadeiro nome, abandonou o hotel onde se alojava junto com sua esposa e o resto do conjunto com a intenção de adquirir alguns medicamentos. Desde então não se teve mais notícias de seu paradeiro, com o imediato alarme do grupo de artistas. “O fato ocorreu na quinta-feira passada, por volta das três da madrugada”.
Sem resultados positivos, Vinícius recorreu à justiça. Apresentou um recurso de habeas corpus através de um juiz conhecido de sua mulher. Três dias depois da apresentação se produziu o golpe de Estado e o juiz foi exonerado. Antes de abandonar o caso, o juiz avisou que não procurassem mais Tenório porque os que procuravam os desaparecidos “corriam sério risco de desaparecer”. Enquanto isso insistia em que a embaixada de seu país se responsabilizasse pelo caso.
No mesmo dia do golpe militar, 24 de março, o jornal La Razón publicou em um pequeno quadro: “VINICIUS DE MORAES SOLICITOU AJUDA PARA ENCONTRAR SEU PIANISTA”. Todas as gestões foram infrutíferas.
A revelação do desaparecimento de Tenório Jr. se conheceria anos depois. Claudio Vallejos, um suboficial da ESMA, integrante do Serviço de Informação e torturador, declarou ter participado do sequestro do músico. Vallejos chegou ao Brasil vendendo um dossiê de brasileiros desaparecidos durante o golpe militar argentino, entre eles o de Tenório. Segundo seu relato, Tenório foi sequestrado por seu aspecto – cabelo comprido, barba, desalinhado, tipo Lennon-, um fiel retrato de um intelectual de esquerda. Além disso, falava muito bem espanhol o que pesou contra ele. “Astiz o assassinou no porão da parte antiga da ESMA, mas desconheço onde o enterraram”, relatou.
A Escola de Mecânica da Armada, centro de torturas
No dia 25 de março de 1976, a Marinha argentina enviou um comunicado à diplomacia brasileira em Buenos Aires no qual reconhece sua responsabilidade. “Lamentamos informar o falecimento do cidadão brasileiro Francisco Tenório Júnior, passaporte n° 197803, de 35 anos, músico de profissão, residente na cidade do Rio de Janeiro. O mesmo se encontrava detido à disposição do PEN, o qual foi oportunamente informado a essa embaixada. O cadáver se encontra a disposição da embaixada no necrotério judicial da cidade de Buenos Aires, onde foi remetido para a devida autópsia”.
As testemunhas indicam que Tenório Jr. foi uma das primeiras vítimas da ditadura argentina.
Em meados de abril de 1976, Vinicius de Moraes se despediu de sua mulher e tomou o avião para o Rio de Janeiro. Nunca mais voltaria a se apresentar em um teatro argentino.
Aqui, duas músicas de tenorinho, do álbum Embalo (1964):
Sou de uma época em que a esquerda tinha e prezava uma herança anticlerical, de raiz iluminista. Para essa esquerda, a aliança estabelecida com setores “progressistas” da Igreja Católica durante a ditadura militar era claramente de caráter tático, em cima de questões específicas, como a defesa dos direitos humanos e a luta contra a injustiça social. E tal aliança só foi possível graças ao aggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II durante os pontificados de João XXIII e Paulo VI. Mas essa aliança tática, como previam os mais céticos, durou pouco e acabou enterrada pelo reacionarismo de Karol Wojtyla, conhecido como João Paulo II.
Joseph Ratzinger quando cardeal
O pontífice polonês e, mais tarde, o teólogo alemão Joseph Ratzinger, seu sucessor, só fizeram recolocar as coisas no lugar. Era evidente que entre a esquerda e a Igreja Católica não poderia haver uma aliança estratégica, permanente, pois não haveria como superar divergências éticas e filosóficas profundas. A afirmação da laicidade, principalmente em países que saíam de ditaduras, implicava na ampliação de direitos civis, como divórcio, aborto, liberdade sexual e casamento de pessoas do mesmo sexo – dogmas intocáveis para a Igreja Católica Romana. A laicidade também implicava que o Estado não deveria se deixar levar por considerações religiosas na hora de distribuir camisinhas para evitar contaminação pelo vírus HIV ou financiar pesquisas sobre o uso de células-tronco de embriões.
Mas a esquerda carola e papa-hóstia, que se meteu nas sacristias e até hoje exala a incenso, pisa em ovos quando tem que tratar desses temas. Quando não é simplesmente contrária a essas bandeiras clássicas da Ilustração – que nem são necessariamente de esquerda –, prefere camuflar suas convicções para não chocar o rebanho dos crentes (aqui digo no sentido de pessoas que crêem, não somente de pentecostais), potenciais eleitores. E por causa desse receio da esquerda clerical em assumir bandeiras iluministas, estamos cercados de ameaças à liberdade de expressão por todo canto. Além disso, a direita jurássica e ultramontana sente-se à vontade para explorar tabus, como o aborto, de maneira torpe e canalha, como fez na eleição presidencial do ano passado, capitaneada pelo ex-“esquerdista” José Serra.
Eleonora Menicucci
Por essas razões, fiquei exultante ao saber que a nova ministra da Secretaria das Mulheres, a socióloga Eleonora Menicucci, não teve medo de defender abertamente suas idéias libertárias, como o direito ao aborto – disse inclusive que ela mesma já fez dois. Ex-prisioneira política, colega de Dilma no Presídio Tiradentes, Eleonora também declarou que tem orgulho de ter uma filha homossexual. Declarações que constituem um grande avanço para um país que já teve candidato a prefeito com vergonha de dizer que não acreditava em Deus e uma mulher de candidato que fez aborto, mas dizia para o povão que Dilma defendia o “assassinato de criancinhas” (os padres eram mais competentes para dizer isso...). Alvíssaras!
Paulo Henrique Amorim está impagável na postagem hoje em seu blog sobre a “privatização” de alguns dos mais importantes aeroportos braileiros (Guarulhos, Viracopos e Brasília). É de se notar que o leilão rendeu aos cofres públicos R$ 24,5 bilhões, 347% a mais do que o previsto. E que as grandes empreiteiras - Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão - ficaram de fora, à exceção da OAS. Empresas da África do Sul e da Argentina, aliadas a fundos de pensão, levaram a melhor. A combinação das duas coisas talvez explique o tom de desdém dos jornalões.
Alguns trechos:
"A privatização da Dilma é partilha. FHC era concessão
Para o Valor, na primeira página, os vencedores do leilão dos aeroportos formam um conjunto de parvos:
“Preços pagos no leilão superam geração de caixa de aeroportos”
Entraram no leilão para ter prejuízo.
A Folha, na primeira página, diz que só empresa micha venceu o leilão.
Claro: nenhuma vencedora tem a musculatura do UOL e da Folha, que, como se sabe, são blue-chips da Bolsa da Valores de Nova York.
O jornal nacional do Ali Kamel deu ao leilão o tratamento de uma batida de trânsito na rua Lopes Quintas.
[..]
Kamel parecia por lenha na fogueira da insurreição baiana
A Urubóloga esteve implacável no Globo.
[...]
Começa com uma gigantesca imprecisão:
“… como a privatização dos tucanos, foi estatizada demais”
(Ela não menciona pequena diferença entre uma e outra – a dos tucanos foi a maior roubalheira numa privataria latino-americana, como demonstrou em cem paginas de documentos públicos, o Amaury Ribeiro Jr.)
E aí é que está o busílis da questão.
Na Privataria tucana, o Cerra e o Farol de Alexandria vendiam a preço de banana – como fizeram com a Vale, debaixo de furiosa pressão do Cerra, segundo depoimento envergonhado do FHC – e iam embora para casa.
Ou para Miami.
Vendiam as telefônicas a preço de banana, entregavam ao Daniel Dantas – que não entrava com um tusta – e iam embora para casa.
Ou para Paris.
Se as telefônicas não cumpriam o combinado com os consumidores, se mandavam com todo o lucro para fora e não reinvestiam, se eram as campeãs de reclamação no Procon, problema da Anatel.
[...]
A privatização da Dilma é um pouquinho diferente.
Primeiro, ela não levou a leilão patrimônio nacional não renovável, como as jazidas minerais da Vale do Rio Doce.
Ou as jazidas do pré-sal da Petrobrax.
Ela leiloou a gestão de serviços.
O controle do que interessa, do que é vital, a gestão do espaço aéreo, isso continua no Brasil.
Não foi para a Espanha.
Aeroporto de Viracopos (Campinas, SP)
Em segundo lugar, a Infraero é sócia dos consórcios vencedores, com participação forte – 49% em Guarulhos.
E a Dilma tem direito a veto na administração dos aeroportos.
Ou seja, a Presidenta Dilma tem o pé na porta.
Não cumpriu o que prometeu, ela entra na sala.
E 49% da geração de lucro de Guarulhos não é de se jogar fora, não é isso, amigo navegante ?
É dinheiro para a Infraero aplicar em outros aeroportos essenciais à interiorização do progresso.
O que o Brasil ganhou com a concessão da Brasil Telecom ao Daniel Dantas?
Quem ganhou mais?
Ele ou o Brasil?
O modelo que se pode chamar de híbrido da Dilma é manter sob controle do Estado uma formidável “golden share”, como fazia a D. Thatcher, a mãe de todos os privatizadores.
(Aqui, o Cerra jogou a “golden share” num piscinão do rio Tietê.)
A “golden share” da Dilma é o direito a veto.
[..]
É a diferença entre “concessão” e “partilha”, na Petrobras.
O Farol “concedia” as reservas de petróleo do Brasil às empresas exploradoras.
A Dilma e o Lula, na companhia do Gabrielli, montaram o sistema da “partilha”.
E quem fica com a parte do leão (Infraero e o direito a veto) é a Petrobras.
O socialismo francês é historicamente pródigo em produzir frustrações. Essa história começou com Alexandre Millerand, socialista que no início do século XX participou de um governo do qual fazia parte um dos líderes da repressão à Comuna de Paris de 1871; teve um novo capítulo com a Frente Popular de 1936, que simplesmente virou as costas à República Espanhola quando esta foi atacada pelos fascistas de Francisco Franco - apoiado por Hitler e Mussolini -, adaptando-se à trágica realpolitik da época. Na IV República, os socialistas apoiaram alegremente as guerras coloniais no Vietnã e na Argélia. E o reinado de François Mitterrand (1981-1995)começou com grandes nacionalizações, mas deu marcha à ré, aceitou a ordem neoliberal e colocou uma pá de cal em qualquer veleidade transformadora da antiga SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária). Este artigo que reproduzo abaixo revela que o candidato socialista à sucessão de Sarkozy, François Hollande, fez um giro à esquerda e rejeitou o "socialismo liberal". Bem, até por sobrevivência, ele teria que fazer isso. Resta saber se não é apenas conversa eleitoreira.
O giro à esquerda dos socialistas franceses
Eduardo Febbro, em Carta Maior
François Hollande: a nova "force tranquille"?
Paris – A dinâmica positiva que o socialismo francês colocou em marcha não se detém desde que, no ano passado, organizou as primárias para designar o candidato às eleições presidenciais de abril e maio. Segundo reiteradas pesquisas de opinião, François Hollande conserva sempre uma folgada vantagem sobre o presidente Nicolas Sarkozy, que aspira a reeleição, mas que ainda não lançou oficialmente sua candidatura. Pela primeira vez nos últimos 20 anos, o socialismo francês assumiu francamente sua identidade e colocou sobre a mesa um programa de clara inspiração de esquerda. Em dois atos sucessivos, o candidato do PS fixou um rumo tanto mais inédito quanto propor uma plataforma de esquerda para uma época de profunda crise do liberalismo.
Nas últimas duas semanas, Hollande deixou para trás a linha “socialismo liberal” de seus antecessores, as ridículas polêmicas dentro de seu campo e a imagem de homem brando, indeciso, instável e inconsistente que a direita francesa e a imprensa tinham tecido em torno dele. François Hollande entrou de cheio na eleição presidencial com um discurso combativo, anti-consensual, marcado por um contundente giro à esquerda e uma frase que diz tudo: “meu adversário, meu verdadeiro adversário não tem nome, nem rosto, nem partido. Nunca apresentará sua candidatura e, consequentemente, não será eleito. Ainda assim, esse adversário governa. Esse adversário é o mundo das finanças”. Frase chocante que teve um sólido impacto na opinião pública e no próprio campo conservador.
Durante esse discurso, Hollande detalhou seis medidas para regular os mercados financeiros e lançou uma clara advertência aos “delinquentes financeiros, os fraudulentos, os pequenos selvagens”. O homem moderado e em aparência tímido se vestiu de guerreiro da cruzada contra a impunidade do sistema financeiro. A leitura imediata desse discurso não se fez esperar, tanto na opinião pública, que o percebeu como uma iniciativa para restaurar a política para além dos mercados, como dentro da direita.
O primeiro a medir o impacto do que poderia acontecer nas eleições presidenciais de abril e maio foi o próprio presidente francês. Nicolas Sarkozy oficializou sua candidatura à reeleição mediante um leque de confidências em off de alto valor negativo. “Se fracasso, deixo a política. É uma certeza!”, disse Sarkozy a um grupo de jornalistas. Até agora, sua candidatura à reeleição era virtual, mas o presidente a fez passar ao terreno do quase real com uma perspectiva negativa.
A bateria de pesquisas de opinião adversas, o lugar ocupado pelo candidato socialista na preferência do eleitorado e o efeito que teve o discurso de Hollande introduziram um fator de pessimismo. Não obstante, hábil como poucos, as confidências de Sarkozy são um plano de pré-campanha que foi se aperfeiçoando nas últimas semanas. Entre confidências em off e intervenções perfeitamente programadas de seus assessores mais próximos, Sarkozy ataca o candidato socialista da sombra e sem haver ainda posto um pé na campanha eleitoral. Segundo o vespertino Le Monde, na mesma reunião com os jornalistas, o mandatário disse: “Em todo caso, estou perto do final. Pela primeira vez na minha vida, me encontro de frente com o final da minha carreira”.
As massas francesas estão impacientes
O presidente francês está seguro de que vai esmagar seu rival. Entretanto, o socialismo francês colocou várias peças chave no tabuleiro presidencial. Os socialistas realizaram uma tripla operação. Sem citá-lo sequer, François Hollande atacou Sarkozy por seus laços conhecidos com o sistema financeiro, atraiu à suas filas os setores mais radicais da esquerda francesa e apagou sua imagem de homem indeciso. O discurso durante o qual lançou sua campanha está cheio de frases contra os reis do dinheiro e de um sexteto de medidas bem claras.
A primeira consiste em votar uma lei que obrigará os bancos a “separar suas atividades de crédito das operações especulativas”. Mais ofensivo ainda, Hollande anunciou que “proibirá pura e simplesmente os produtos financeiros sem relação com as necessidades da economia real”. O líder do PS completou logo seu dispositivo com a apresentação de seu programa eleitoral. Trata-se de um projeto destinado “à mudança” que consta de umas 60 medidas políticas e econômicas avaliadas em cerca de 20.000 milhões de euros.
Segundo Hollande, esse pacote de medidas será financiado com os 29 bilhões obtidos com a supressão das isenções fiscais – uma boa parte destas decididas por Sarkozy. Segundo o candidato do PS, seu plano acarretará em um aumento de 1% no gasto público. Toda a arquitetura destas 60 propostas gira em torno do que Hollande chamou “um ajuste realista” que, segundo esclareceu, nunca perderá de vista a justiça social.
O representante do partido da rosa adianta um mandato muito diferente ao de Sarkozy. Se ganhar a eleição, disse, sua primeira decisão consistirá em aprovar a reforma fiscal e financeira com a meta declarada de incrementar os impostos “aos que mais ganham, aos bancos e às grandes empresas”. A ruptura com a política fiscal de Sarkozy é espetacular. Logo no começo de seu mandato, Nicolas Sarkozy aprovou o polêmico “escudo fiscal” com o qual limitou o porcentual impositivo dos ricos. Hollande toma o caminho contrário: o imposto de renda aumentará dos 41% atuais a 45% para os que ganham mais de 150.000 euros por ano.
Sarkô e Angela Merkel: os coveiros da Europa
O lema socialista desta eleição 2012 é “a igualdade, a juventude, a educação e a justiça”, disse François Hollande em sua apresentação à imprensa. Todo o esforço socialista parece orientado a desandar os passos de Sarkozy. O aspirante do PS prometeu que se for eleito em maio próximo voltará a negociar o tratado europeu pactuado no ano passado entre Sarkozy e a chanceler alemã Angela Merkel.
Há muito tempo que os socialistas não expunham programa tão ambicioso, ainda mais quando este se desdobra em plena crise, com medidas como a preservação dos grandes grupos estatais, a criação de um banco público de investimento ou a introdução de um sistema de poupança isenta de impostos e destinada às pequenas e grandes empresas. As reformas propostas por François Hollande retomam os esquecidos hinos da social-democracia européia, convertida ao ultra liberalismo nos últimos 20 anos: reformar para redistribuir a riqueza, reformar para equilibrar a justiça social.
Faltam mais de dois meses para o primeiro turno da eleição presidencial, mas pouco a pouco, o PS francês instalou na opinião pública a validade de um programa de forte inspiração socialdemocrata, a idéia de que há vida fora do dogma ultra liberal, o princípio básico de que os bancos não podem fazer o que lhes dê vontade e que, para todas estas coisas, a ação política e o Estado podem voltar a ter um sentido.