quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O PESADELO DE VINÍCIUS DE MORAES EM BUENOS AIRES

O pianista Francisco Tenório Jr., o "tenorinho"
O pianista de Vinícius de Moraes, Francisco Tenório Jr., o Tenorinho, foi uma vítima avant la lettre da ditadura militar argentina. Ele foi sequestrado e morto por militares da Marinha dias antes do golpe militar de 24 de março de 1976. Mas o aparelho repressivo da ditadura, que massacraria cerca de 30 mil pessoas nos anos seguintes, já estava montado, e tinha como auxiliares os grupos paramilitares de extrema-direita como a “Triple A” (Aliança Anticomunista Argentina), criado pela sinistra figura de José López Rega, vulgo El Brujo, secretário particular daquela patética presidente, Maria Estela Martínez de Perón, a Isabelita. Tenorinho foi morto, supostamente, pelo infame tenente (e não capitão, como diz o texto abaixo) Alfredo Astiz – aquele que ficaria famoso por se infiltrar entre as Madres da Plaza de Mayo e que anos depois se entregaria aos britânicos nas Malvinas sem dar um tiro sequer.
O texto abaixo conta os detalhes daquele episódio e da busca desesperada e inútil do poetinha por seu pianista.



Quando Vinicius procurou Tenório Jr. em Buenos Aires

Por Webster Franklin

Da Carta Maior

No dia 18 de março de 1976, Tenório Cerqueira Jr., pianista brasileiro que acompanhava Vinicius de Moraes em duas apresentações na capital argentina, desceu de seu quarto do hotel Normandie na Avenida Corrientes e, na esquina com a Rua Rodríguez Peña, quatro homens o jogaram em um Ford Falcon sem placas. Posteriormente o levaram a uma delegacia da Rua Lavalle e depois à Escola de Mecânica da Armada, onde, segundo testemunhas, foi assassinado com um tiro pelo capitão da Marinha, Alfredo Astiz.

Francisco Luque - Direto de Buenos Aires

Buenos Aires - “Tenorinho desapareceu”, disse Vinicius com um tom frio e seco, quase inaudível. Marta Rodríguez Santamaría, sua mulher argentina, e a pintora Renata Schussheim o acompanham enquanto o poeta desliga o telefone e começa a dimensionar a notícia. É tarde de sábado do dia 18 de março de 1976 e ainda que o grupo compreenda as dimensões do fato não imagina que o pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior havia sido detido por um grupo de operações da marinha argentina. Também não imaginam que o golpe de Estado na Argentina é iminente nem que a Operação Condor começa a alçar vôo.

Vinícius de Moraes

A reconstrução do relato e o horror dos momentos vividos durante março de 1976 são detalhados pela escritora Liana Wenner em seu livro Nuestro Vinicius. Vinicius de Moraes em el Río de la Plata: um perfil em várias vozes sobre o vínculo fraterno que estabeleceu o poeta com o mundo cultural e artístico portenho, que começa quando, em 1966, dois jovens editores o visitam no Rio de Janeiro com a oferta de difundir sua obra na Argentina.

Às três da madrugada do dia 18 de março de 1976, Tenório Cerqueira Jr., um pianista brasileiro reconhecido no mundo do jazz, desceu de seu quarto do hotel Normandie na Avenida Corrientes e, na esquina com a Rua Rodríguez Peña, quatro homens vestidos de civil o introduziram em um Ford Falcon sem placas. Posteriormente o levaram a uma delegacia da Rua Lavalle e depois à Escola de Mecânica da Armada, ESMA, onde, segundo testemunhas, no dia 25 de março recebeu um tiro de misericórdia disparado pelo capitão da Marinha, Alfredo Astiz.

Tenório tinha 35 anos, estava casado, tinha quatro filhos e um quinto estava por nascer.


Em seu livro, Wenner conta que horas antes de sua desaparição, Tenório Jr., junto à cantora Amélia Colares, o baterista Mutinho e o baixista Azeitona, haviam acompanhado Vinícius de Moraes e Toquinho no teatro Gran Rex em uma das duas apresentações agendadas na cidade.

Paradoxalmente com os fatos posteriores, as críticas ao show verteram elogiosos comentários ao jovem pianista:


“O espetáculo apresentou uma revelação que surpreendeu muitos espectadores: o excelente trabalho de Tenório Jr. O pianista, além de acompanhar eficazmente, executou uma brilhante composição que, paradoxalmente, se constituiu na mais autêntica expressão da música contemporânea brasileira”, diz o jornal El Cronista Comercial do dia 18 de março de 1976. Quando a crítica chegou às bancas, Tenório Jr. estava em mãos dos para-policiais.


O jornalista Eric Nepomuceno, exilado em Buenos Aires nesses dias, relata: “Naquela época Vinicius procurou o Tenório como louco pela cidade, seu desaparecimento lhe pesou muito. Ele mobilizou tudo o que esteve ao seu alcance para encontrá-lo, e existem documentos que dizem que na embaixada lhe mentiram porque houve um funcionário que o viu morto. Vinicius ia à embaixada brasileira em Buenos Aires e voltava muito frustrado. Que lhe diriam aí? Ele estava chorando na catacumba equivocada. Quando fui pedir asilo, com a minha mulher e o meu filho de um ano, depois de 24 de março, me negaram. Nem sequer aos dois receberam. Vinicius, talvez por esperança ou por ingenuidade, não se deu conta de que, além do inferno que se cozinhava na Argentina, a embaixada brasileira era uma sucursal invejosa desse inferno. Ali havia um cara cujo sonho era fazer o mesmo no Brasil”.

Graças às gestões de Vinicius, o jornal Última hora do dia 21 de março publicou: “MÚSICO BRASILEIRO QUE NÃO APARECE. Há poucos dias tivemos a oportunidade de assistir um novo recital de Vinicius de Moraes e Toquinho, que se apresentavam acompanhados por três músicos brasileiros que também já são conhecidos de nosso público: Azeitona, Mutinho e Tenório Jr.”.

“Ontem, este último foi novamente notícia, mas, lamentavelmente, na crônica policial por causa de seu desaparecimento há quase quatro dias. Segundo se soube Francisco Tenório Cerqueira Júnior, tal é seu verdadeiro nome, abandonou o hotel onde se alojava junto com sua esposa e o resto do conjunto com a intenção de adquirir alguns medicamentos. Desde então não se teve mais notícias de seu paradeiro, com o imediato alarme do grupo de artistas. “O fato ocorreu na quinta-feira passada, por volta das três da madrugada”.

Sem resultados positivos, Vinícius recorreu à justiça. Apresentou um recurso de habeas corpus através de um juiz conhecido de sua mulher. Três dias depois da apresentação se produziu o golpe de Estado e o juiz foi exonerado. Antes de abandonar o caso, o juiz avisou que não procurassem mais Tenório porque os que procuravam os desaparecidos “corriam sério risco de desaparecer”. Enquanto isso insistia em que a embaixada de seu país se responsabilizasse pelo caso.

No mesmo dia do golpe militar, 24 de março, o jornal La Razón publicou em um pequeno quadro: “VINICIUS DE MORAES SOLICITOU AJUDA PARA ENCONTRAR SEU PIANISTA”. Todas as gestões foram infrutíferas.

A revelação do desaparecimento de Tenório Jr. se conheceria anos depois. Claudio Vallejos, um suboficial da ESMA, integrante do Serviço de Informação e torturador, declarou ter participado do sequestro do músico. Vallejos chegou ao Brasil vendendo um dossiê de brasileiros desaparecidos durante o golpe militar argentino, entre eles o de Tenório. Segundo seu relato, Tenório foi sequestrado por seu aspecto – cabelo comprido, barba, desalinhado, tipo Lennon-, um fiel retrato de um intelectual de esquerda. Além disso, falava muito bem espanhol o que pesou contra ele. “Astiz o assassinou no porão da parte antiga da ESMA, mas desconheço onde o enterraram”, relatou.

A Escola de Mecânica da Armada, centro de torturas

No dia 25 de março de 1976, a Marinha argentina enviou um comunicado à diplomacia brasileira em Buenos Aires no qual reconhece sua responsabilidade. “Lamentamos informar o falecimento do cidadão brasileiro Francisco Tenório Júnior, passaporte n° 197803, de 35 anos, músico de profissão, residente na cidade do Rio de Janeiro. O mesmo se encontrava detido à disposição do PEN, o qual foi oportunamente informado a essa embaixada. O cadáver se encontra a disposição da embaixada no necrotério judicial da cidade de Buenos Aires, onde foi remetido para a devida autópsia”.


As testemunhas indicam que Tenório Jr. foi uma das primeiras vítimas da ditadura argentina.

Em meados de abril de 1976, Vinicius de Moraes se despediu de sua mulher e tomou o avião para o Rio de Janeiro. Nunca mais voltaria a se apresentar em um teatro argentino.

Aqui, duas músicas de tenorinho, do álbum Embalo (1964):









terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

UMA MULHER DE CORAGEM


Emma Goldman
“Se não posso dançar não é minha revolução”
Emma Goldman

Sou de uma época em que a esquerda tinha e prezava uma herança anticlerical, de raiz iluminista. Para essa esquerda, a aliança estabelecida com setores “progressistas” da Igreja Católica durante a ditadura militar era claramente de caráter tático, em cima de questões específicas, como a defesa dos direitos humanos e a luta contra a injustiça social. E tal aliança só foi possível graças ao aggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II durante os pontificados de João XXIII e Paulo VI. Mas essa aliança tática, como previam os mais céticos, durou pouco e acabou enterrada pelo reacionarismo de Karol Wojtyla, conhecido como João Paulo II. 
Joseph Ratzinger quando cardeal
O pontífice polonês e, mais tarde, o teólogo alemão Joseph Ratzinger, seu sucessor, só fizeram recolocar as coisas no lugar. Era evidente que entre a esquerda e a Igreja Católica não poderia haver uma aliança estratégica, permanente, pois não haveria como superar divergências éticas e filosóficas profundas. A afirmação da laicidade, principalmente em países que saíam de ditaduras, implicava na ampliação de direitos civis, como divórcio, aborto, liberdade sexual e casamento de pessoas do mesmo sexo – dogmas intocáveis para a Igreja Católica Romana. A laicidade também implicava que o Estado não deveria se deixar levar por considerações religiosas na hora de distribuir camisinhas para evitar contaminação pelo vírus HIV ou financiar pesquisas sobre o uso de células-tronco de embriões.

Mas a esquerda carola e papa-hóstia, que se meteu nas sacristias e até hoje exala a incenso, pisa em ovos quando tem que tratar desses temas. Quando não é simplesmente contrária a essas bandeiras clássicas da Ilustração – que nem são necessariamente de esquerda –, prefere camuflar suas convicções para não chocar o rebanho dos crentes (aqui digo no sentido de pessoas que crêem, não somente de pentecostais), potenciais eleitores. E por causa desse receio da esquerda clerical em assumir bandeiras iluministas, estamos cercados de ameaças à liberdade de expressão por todo canto. Além disso, a direita jurássica e ultramontana sente-se à vontade para explorar tabus, como o aborto, de maneira torpe e canalha, como fez na eleição presidencial do ano passado, capitaneada pelo ex-“esquerdista” José Serra.

Eleonora Menicucci
Por essas razões, fiquei exultante ao saber que a nova ministra da Secretaria das Mulheres, a socióloga Eleonora Menicucci, não teve medo de defender abertamente suas idéias libertárias, como o direito ao aborto – disse inclusive que ela mesma já fez dois. Ex-prisioneira política, colega de Dilma no Presídio Tiradentes, Eleonora também declarou que tem orgulho de ter uma filha homossexual. Declarações que constituem um grande avanço para um país que já teve candidato a prefeito com vergonha de dizer que não acreditava em Deus e uma mulher de candidato que fez aborto, mas dizia para o povão que Dilma defendia o “assassinato de criancinhas” (os padres eram mais competentes para dizer isso...). Alvíssaras!

AS APARÊNCIAS ENGANAM


Aeroporto de Guarulhos
Paulo Henrique Amorim está impagável na postagem hoje em seu blog sobre a “privatização” de alguns dos mais importantes aeroportos braileiros (Guarulhos, Viracopos e Brasília). É de se notar que o leilão rendeu aos cofres públicos R$ 24,5 bilhões, 347% a mais do que o previsto. E que as grandes empreiteiras - Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão - ficaram de fora, à exceção da OAS. Empresas da África do Sul e da Argentina, aliadas a fundos de pensão, levaram a melhor. A combinação das duas coisas talvez explique o tom de desdém dos jornalões.     

Alguns trechos:

"A privatização da Dilma é partilha. FHC era concessão

Para o Valor, na primeira página, os vencedores do leilão dos aeroportos formam um conjunto de parvos:

“Preços pagos no leilão superam geração de caixa de aeroportos”

Entraram no leilão para ter prejuízo.

A Folha, na primeira página, diz que só empresa micha venceu o leilão.

Claro: nenhuma vencedora tem a musculatura do UOL e da Folha, que, como se sabe, são blue-chips da Bolsa da Valores de Nova York.

O jornal nacional do Ali Kamel deu ao leilão o tratamento de uma batida de trânsito na rua Lopes Quintas.

[..]

Kamel parecia por lenha na fogueira da insurreição baiana

A Urubóloga esteve implacável no Globo.

[...]

Começa com uma gigantesca imprecisão:

“… como a privatização dos tucanos, foi estatizada demais”

(Ela não menciona pequena diferença entre uma e outra – a dos tucanos foi a maior roubalheira numa privataria latino-americana, como demonstrou em cem paginas de documentos públicos, o Amaury Ribeiro Jr.)

E aí é que está o busílis da questão.

Na Privataria tucana, o Cerra e o Farol de Alexandria vendiam a preço de banana – como fizeram com a Vale, debaixo de furiosa pressão do Cerra, segundo depoimento envergonhado do FHC – e iam embora para casa.

Ou para Miami.

Vendiam as telefônicas a preço de banana, entregavam ao Daniel Dantas – que não entrava com um tusta – e iam embora para casa.

Ou para Paris.

Se as telefônicas não cumpriam o combinado com os consumidores, se mandavam com todo o lucro para fora e não reinvestiam, se eram as campeãs de reclamação no Procon, problema da Anatel.

[...]

A privatização da Dilma é um pouquinho diferente.

Primeiro, ela não levou a leilão patrimônio nacional não renovável, como as jazidas minerais da Vale do Rio Doce.

Ou as jazidas do pré-sal da Petrobrax.

Ela leiloou a gestão de serviços.


O controle do que interessa, do que é vital, a gestão do espaço aéreo, isso continua no Brasil.

Não foi para a Espanha.

Aeroporto de Viracopos (Campinas, SP)

Em segundo lugar, a Infraero é sócia dos consórcios vencedores, com participação forte – 49% em Guarulhos.

E a Dilma tem direito a veto na administração dos aeroportos.

Ou seja, a Presidenta Dilma tem o pé na porta.

Não cumpriu o que prometeu, ela entra na sala.

E 49% da geração de lucro de Guarulhos não é de se jogar fora, não é isso, amigo navegante ?

É dinheiro para a Infraero aplicar em outros aeroportos essenciais à interiorização do progresso.

O que o Brasil ganhou com a concessão da Brasil Telecom ao Daniel Dantas?

Quem ganhou mais?

Ele ou o Brasil?

O modelo que se pode chamar de híbrido da Dilma é manter sob controle do Estado uma formidável “golden share”, como fazia a D. Thatcher, a mãe de todos os privatizadores.

(Aqui, o Cerra jogou a “golden share” num piscinão do rio Tietê.)


A “golden share” da Dilma é o direito a veto.

[..]

É a diferença entre “concessão” e “partilha”, na Petrobras.

O Farol “concedia” as reservas de petróleo do Brasil às empresas exploradoras.

A Dilma e o Lula, na companhia do Gabrielli, montaram o sistema da “partilha”.

E quem fica com a parte do leão (Infraero e o direito a veto) é a Petrobras.

A Urubóloga tem razão.

A privatização da Dilma é estatizada demais.

Sem Ricardo Sergio de Oliveira.

O que é uma grande diferença!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

VER PARA CRER


Alexandre Millerand
 O socialismo francês é historicamente pródigo em produzir frustrações. Essa história começou com Alexandre Millerand, socialista que no início do século XX participou de um governo do qual fazia parte um dos líderes da repressão à Comuna de Paris de 1871; teve um novo capítulo com a Frente Popular de 1936, que simplesmente virou as costas à República Espanhola quando esta foi atacada pelos fascistas de Francisco Franco - apoiado por Hitler e Mussolini -, adaptando-se à trágica realpolitik da época. Na IV República, os socialistas apoiaram alegremente as guerras coloniais no Vietnã e na Argélia. E o reinado de François Mitterrand (1981-1995)começou com grandes nacionalizações, mas deu marcha à ré, aceitou a ordem neoliberal e colocou uma pá de cal em qualquer  veleidade transformadora da antiga SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária). Este artigo que reproduzo abaixo revela que o candidato socialista à sucessão de Sarkozy, François Hollande, fez um giro à esquerda e rejeitou o "socialismo liberal". Bem, até por sobrevivência, ele teria que fazer isso. Resta saber se não é apenas conversa eleitoreira.

O giro à esquerda dos socialistas franceses


Eduardo Febbro, em Carta Maior

François Hollande: a nova "force tranquille"?
Paris – A dinâmica positiva que o socialismo francês colocou em marcha não se detém desde que, no ano passado, organizou as primárias para designar o candidato às eleições presidenciais de abril e maio. Segundo reiteradas pesquisas de opinião, François Hollande conserva sempre uma folgada vantagem sobre o presidente Nicolas Sarkozy, que aspira a reeleição, mas que ainda não lançou oficialmente sua candidatura.
Pela primeira vez nos últimos 20 anos, o socialismo francês assumiu francamente sua identidade e colocou sobre a mesa um programa de clara inspiração de esquerda. Em dois atos sucessivos, o candidato do PS fixou um rumo tanto mais inédito quanto propor uma plataforma de esquerda para uma época de profunda crise do liberalismo.

Nas últimas duas semanas, Hollande deixou para trás a linha “socialismo liberal” de seus antecessores, as ridículas polêmicas dentro de seu campo e a imagem de homem brando, indeciso, instável e inconsistente que a direita francesa e a imprensa tinham tecido em torno dele. François Hollande entrou de cheio na eleição presidencial com um discurso combativo, anti-consensual, marcado por um contundente giro à esquerda e uma frase que diz tudo: “meu adversário, meu verdadeiro adversário não tem nome, nem rosto, nem partido. Nunca apresentará sua candidatura e, consequentemente, não será eleito. Ainda assim, esse adversário governa. Esse adversário é o mundo das finanças”. Frase chocante que teve um sólido impacto na opinião pública e no próprio campo conservador.

Durante esse discurso, Hollande detalhou seis medidas para regular os mercados financeiros e lançou uma clara advertência aos “delinquentes financeiros, os fraudulentos, os pequenos selvagens”. O homem moderado e em aparência tímido se vestiu de guerreiro da cruzada contra a impunidade do sistema financeiro. A leitura imediata desse discurso não se fez esperar, tanto na opinião pública, que o percebeu como uma iniciativa para restaurar a política para além dos mercados, como dentro da direita.

O primeiro a medir o impacto do que poderia acontecer nas eleições presidenciais de abril e maio foi o próprio presidente francês. Nicolas Sarkozy oficializou sua candidatura à reeleição mediante um leque de confidências em off de alto valor negativo. “Se fracasso, deixo a política. É uma certeza!”, disse Sarkozy a um grupo de jornalistas. Até agora, sua candidatura à reeleição era virtual, mas o presidente a fez passar ao terreno do quase real com uma perspectiva negativa.

A bateria de pesquisas de opinião adversas, o lugar ocupado pelo candidato socialista na preferência do eleitorado e o efeito que teve o discurso de Hollande introduziram um fator de pessimismo. Não obstante, hábil como poucos, as confidências de Sarkozy são um plano de pré-campanha que foi se aperfeiçoando nas últimas semanas. Entre confidências em off e intervenções perfeitamente programadas de seus assessores mais próximos, Sarkozy ataca o candidato socialista da sombra e sem haver ainda posto um pé na campanha eleitoral. Segundo o vespertino Le Monde, na mesma reunião com os jornalistas, o mandatário disse: “Em todo caso, estou perto do final. Pela primeira vez na minha vida, me encontro de frente com o final da minha carreira”.

As massas francesas estão impacientes
O presidente francês está seguro de que vai esmagar seu rival. Entretanto, o socialismo francês colocou várias peças chave no tabuleiro presidencial. Os socialistas realizaram uma tripla operação. Sem citá-lo sequer, François Hollande atacou Sarkozy por seus laços conhecidos com o sistema financeiro, atraiu à suas filas os setores mais radicais da esquerda francesa e apagou sua imagem de homem indeciso. O discurso durante o qual lançou sua campanha está cheio de frases contra os reis do dinheiro e de um sexteto de medidas bem claras.

A primeira consiste em votar uma lei que obrigará os bancos a “separar suas atividades de crédito das operações especulativas”. Mais ofensivo ainda, Hollande anunciou que “proibirá pura e simplesmente os produtos financeiros sem relação com as necessidades da economia real”. O líder do PS completou logo seu dispositivo com a apresentação de seu programa eleitoral. Trata-se de um projeto destinado “à mudança” que consta de umas 60 medidas políticas e econômicas avaliadas em cerca de 20.000 milhões de euros.

Segundo Hollande, esse pacote de medidas será financiado com os 29 bilhões obtidos com a supressão das isenções fiscais – uma boa parte destas decididas por Sarkozy. Segundo o candidato do PS, seu plano acarretará em um aumento de 1% no gasto público. Toda a arquitetura destas 60 propostas gira em torno do que Hollande chamou “um ajuste realista” que, segundo esclareceu, nunca perderá de vista a justiça social.

O representante do partido da rosa adianta um mandato muito diferente ao de Sarkozy. Se ganhar a eleição, disse, sua primeira decisão consistirá em aprovar a reforma fiscal e financeira com a meta declarada de incrementar os impostos “aos que mais ganham, aos bancos e às grandes empresas”. A ruptura com a política fiscal de Sarkozy é espetacular. Logo no começo de seu mandato, Nicolas Sarkozy aprovou o polêmico “escudo fiscal” com o qual limitou o porcentual impositivo dos ricos. Hollande toma o caminho contrário: o imposto de renda aumentará dos 41% atuais a 45% para os que ganham mais de 150.000 euros por ano.

Sarkô e Angela Merkel: os coveiros da Europa
O lema socialista desta eleição 2012 é “a igualdade, a juventude, a educação e a justiça”, disse François Hollande em sua apresentação à imprensa. Todo o esforço socialista parece orientado a desandar os passos de Sarkozy. O aspirante do PS prometeu que se for eleito em maio próximo voltará a negociar o tratado europeu pactuado no ano passado entre Sarkozy e a chanceler alemã Angela Merkel.

Há muito tempo que os socialistas não expunham programa tão ambicioso, ainda mais quando este se desdobra em plena crise, com medidas como a preservação dos grandes grupos estatais, a criação de um banco público de investimento ou a introdução de um sistema de poupança isenta de impostos e destinada às pequenas e grandes empresas. As reformas propostas por François Hollande retomam os esquecidos hinos da social-democracia européia, convertida ao ultra liberalismo nos últimos 20 anos: reformar para redistribuir a riqueza, reformar para equilibrar a justiça social.

Faltam mais de dois meses para o primeiro turno da eleição presidencial, mas pouco a pouco, o PS francês instalou na opinião pública a validade de um programa de forte inspiração socialdemocrata, a idéia de que há vida fora do dogma ultra liberal, o princípio básico de que os bancos não podem fazer o que lhes dê vontade e que, para todas estas coisas, a ação política e o Estado podem voltar a ter um sentido.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

IGNORÂNCIA OU MÁ-FÉ?

Apesar de alguns circunlóquios, creio que essa postagem do Paulo Moreira Leite coloca no devido contexto as declarações da presidenta Dilma em Cuba. Eu também acho que o regime castrista é uma ditadura e que a violação dos direitos humanos que ele pratica deve ser denunciada e condenada, mas daí a cobrar essa postura de uma chefe de Estado em visita ao país vai uma grande distância. Exigir isso revela ou uma ignorância crassa do mecanismo das relações internacionais ou uma profunda má-fé. A maioria dos críticos está seguramente na segunda categoria.    

Não vale se fazer de bobo em Cuba


Paulo Moreira Leite

O governo brasileiro acertou em dar o visto para a dissidente Yaoni Sánchez mas há muitas observações a fazer sobre a declaração de Dilma Rousseff sobre direitos humanos em Cuba.

Lembrar o barbarismo de Guantánamo tem a utilidade de registrar a hipocrisia americana quando seus próprios interesses estão em jogo. (Até onde se sabe, não há, em Cuba, uma masmorra equipada com o medievalismo tecnológico de Guantánamo).

Mas dizer que todos os países tem seu “telhado de vidro” sugere uma postura de tolerância que não é adequada.

Ninguém precisa se fazer de bobo, porém. Salvo situações de descontrole emocional ou falta de preparo para o exercício das funções, nenhuma autoridade, de nenhum país do mundo, irá dizer o que pensa sobre a situação interna de outro país. Sua prioridade, sempre, será o interesse do próprio país.

Essa regra geral é ainda mais importante quando se trata de Cuba. Um pouco de história ajuda a entender a questão.


Em função do regime comunista, Cuba não é um país igual a todos os outros. Desde 1961 o regime de Fidel Castro ocupa o centro de boa parte dos conflitos diplomáticos do Continente inteiro. A Casa Branca não só patrocinou uma fracassada invasão da ilha como submete o povo cubano a um bloqueio econômico duríssimo e injusto, que dura mais de meio século.

Numa postura imperial e anacrônica, os EUA também ameaçam punir governos e empresas de outros países que procuram estabelecer relações comerciais profundas com Cuba.


O esforço de Washington para impor sua agenda cubana na agenda diplomática de outros países da região é bastante conhecido.

Durante os primeiros meses de seu governo, João Goulart conseguiu ter relações razoáveis e até simpáticas com John Kennedy. A situação se modificou depois que, na crise nos mísseis, Kennedy cobrou adesão absoluta dos governos da região. Adversário do alinhamento automático que tanto Estados Unidos como União Soviética queriam impor ao mundo durante a guerra fria, Goulart assumiu uma posição de neutralidade. Tentou, inclusive, mediar o conflito.

John Kennedy e João Goulart

O que aconteceu? Tanto “João Goulart — uma biografia”, de Jorge Ferreira, como “O governo Goulart,” de Luiz Alberto Moniz Bandeira, mostram, com apoio em farta documentação, que essa postura levou a Casa Branca a se afastar do governo brasileiro. Embora existisse um contencioso cada vez maior nas relações entre os dois países, os dois autores demonstram que a questão cubana foi a razão principal que levou o governo americano a engajar-se no apoio ao golpe de 64.

A denúncia de Fidel e da Revolução Cubana era um dos fantasmas favoritos dos líderes civis e militares que derrubaram Goulart. Perfilados com Washington, governadores hostis a Goulart eram favorecidos na distribuição de recursos internacionais.


De todos seus parceiros, Washington cobrava a ruptura imediata de relações com Cuba. Brasilia negou. Após o golpe, o Brasil não só rompeu relações, que seriam refeitas durante o governo de José Sarney, mais de duas décadas depois, como mandou tropas para São Domingos, onde Washington ajudava a derrubar um governo eleito pelo voto popular.

Pode-se compreender, portanto, que a postura em relação a Cuba envolve entroncamentos distintos, dentro e fora do país.


Não custa reparar que o lado que sempre defendeu a democracia em Cuba nem sempre teve a mesma postura democrática — no Brasil. Curioso, não?

Na verdade, os pronunciamentos e declarações sobre Cuba precisam ser interpretados em vários níveis. Ajudam a lembrar que, na diplomacia, as palavras não são alegres diálogos numa mesa de bar, onde todos falam o que pensam e ganha a discussão quem argumenta melhor.

O presidente americano Jimmy Carter nunca deixou de elogiar o governo brasileiro enquanto fazia gestões pelo respeito aos direitos humanos no país.

Os exilados cubanos em Miami dão a agenda aos EUA

As palavras, nas conversas entre governos, são moedas de troca. Podem aproximar e podem afastar. Para Washington, quanto mais barulho se fizer em torno de Cuba, melhor. Até porque em 2012 os exilados cubanos são uma preciosa fonte de votos em campanhas eleitorais.

Do ponto de vista brasileiro, a situação é outra. Não interessa, para o governo, aumentar a força dos Estados Unidos no Continente nem fazer coro com sua agenda. Em última análise, isso diminui o prestígio do Brasil na região.

O que se procura, com a diplomacia de Brasília, é conquistar uma liderança própria, o que não será possível numa política de subordinação, mesmo com uma embalagem tão nobre e importante com os direitos humanos.

Como 100% das pessoas que chegaram até este parágrafo, fiquei frustrado com a declaração de Dilma. A presidente poderia ter lembrado que as liberdades democráticas são uma causa que sempre mobilizou a população brasileira e que nenhuma idéia política conseguiu sobreviver de modo duradouro no país sem respeitá-las.

Mas nem por isso todo mundo têm direito a fingir que, repentinamente, perdeu a memória. É feio.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

CHEGA DE LIRISMO BEM COMPORTADO!

Poética

Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo cometido
do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e
[manifestação de apreço ao Sr. Diretor

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho
[vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A MAIORIA RUIDOSA DE SÃO PAULO

               "Entre um governo que faz o mal
e um povo que o consente


há uma cumplicidade vergonhosa”
                             (Victor Hugo)



Repressão no Pinheirinho, SJ dos Campos
Pesquisa DataFolha mostra que 82% dos paulistanos apóiam a ação policial na Cracolândia. Não foram feitas outras pesquisas, mas certamente uma porcentagem similar de cidadãos da Paulicéia Desvairada também acha que não houve nada errado com a repressão da PM no Pinheirinho. Afinal, aqueles pobres diabos que não pagam impostos invadiram propriedade privada, não é mesmo? Ecos das ideologias oligárquicas do higienismo e até da eugenia do início do século passado... Eta metrópole reacionária!

Nestes casos, sempre me lembro do psicanalista alemão Wilhelm Reich, que dizia que o nazismo não tinha sido imposto aos alemães, mas, ao contrário, “desejado” por eles. Isso porque o regime expressava a ilusória ideia de ordem aspirada por uma classe média sexualmente reprimida e frustrada (A Psicologia de Massas do Fascismo). Talvez não seja para tanto, mas creio que alguma dose de razão ele tinha. Foucault, que falava numa “microfísica do poder”, também tinha algo a dizer sobre isso.

Manifestações contra Vietnã nos EUA
Leitor de Tocqueville, que nos advertia contra a “tirania da maioria”, sempre fiquei com a pulga atrás da orelha com esses consensos reacionários. Talvez o exemplo mais impressionante, para a minha geração, tenha ocorrido nos anos 1960, quando os protestos juvenis contra a Guerra do Vietnã dominavam os espaços da mídia, mas em 1968 a “maioria silenciosa” elegeu o ultraconservador Richard Nixon presidente dos EUA.

Em determinada época, eu temia que, se a pena de morte, por exemplo, fosse a plebiscito no Brasil, ela seria inevitavelmente aprovada. Hoje, parece que houve uma mudança na “opinião pública” sobre o tema, mas ninguém garante que, sob alguma circunstância dramática, os ventos não mudem novamente de direção.

O ponto, portanto, é que a universalidade dos direitos humanos é inegociável e não admite concessões ao humor popular. Não por outro motivo eles estão consagrados em cláusulas pétreas da Constituição. Por isso não se poderá jamais legalizar a tortura, por exemplo, mesmo que eventualmente a maioria da população possa considerá-la um método “adequado” de combate ao crime.

François Mitterrand
Nesse sentido, veio a calhar o artigo de ontem na Folha do professor Vladimir Safatle. Em determinado trecho, ele lembra que, quando foi eleito presidente da França pela primeira vez, em 1981, o socialista François Mitterrand prometeu abolir a pena de morte – num momento em que a ampla maioria dos franceses apoiava as execuções legais. Mas Mitterrand ignorou as pesquisas e aposentou a guilhotina. Hoje, a pena de morte é rejeitada pela maioria absoluta dos franceses.

Eu poderia acrescentar outros exemplos, como o de Roosevelt, que enfrentou a maioria isolacionista de seus concidadãos e levou os EUA a se engajarem na luta contra o nazi-fascismo antes mesmo do ataque japonês a Pearl Harbour. Ou Charles De Gaulle, que quixotescamente foi para Londres organizar a luta contra os nazistas, quando a maioria dos franceses preferia se acomodar com o que parecia ser o poder dominante da Europa.

“Muitas vezes, o governo deve levar a sociedade a ir lá aonde ela não quer ir, lá aonde ela não é capaz de ir [...] Tal exemplo demonstra como o bom governo é aquele capaz de reconhecer a existência de um potencial autoritário nas sociedades de democracia liberal e a necessidade de não se deixar aprisionar por tal potencial”, conclui o professor Safatle.

Quem teria coragem de fazer algo semelhante em São Paulo?