sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

OSSOS DO OFÍCIO


Stop the Violence: arte feita com ossos humanos

Francois Robert é um fotógrafo suíço que faz sucesso nos EUA. Para chamar atenção contra violência ele fez uma coleção de fotos chamadas "Stop the Violence". Robert criou uma série de obras feitas de ossos humanos reais para lembrar as pessoas sobre as consequências da violência. “Os ossos são algo deixado para trás, uma forma de memória”.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

DE NOVO: CORAGEM LÁ; COVARDIA CÁ

Com cerca de três milhões de habitantes, o Uruguai teve quase 40 mil detidos pela ditadura militar (1973-1985). Um em cada cem uruguaios foi vítima de tortura – equivalente, no Brasil, a dois milhões de pessoas. Mas a cidadania teve a coragem de dizer não à tirania já em 1980, quando os militares tentaram institucionalizar o regime por meio de um plebiscito. E, agora, depois que o governo anulou a anistia autoproclamada pelos militares, ninguém menos que o comandante do Exército vem a público dizer que não haverá pacto de silêncio para acobertar crimes da ditadura.


“Quem nega o passado é covarde”

Por Eric Nepomuceno, na Carta Maior

“Não sei de nenhum pacto de silêncio para acobertar crimes dentro da Força que comando. E, mesmo desconhecendo se existiu ou se ainda existe esse pacto, neste momento dou a ordem de sua suspensão imediata”.

General Pedro Aguerre, comandante do Exército uruguaio

A frase, sonora e contundente, surpreendeu. Ela foi dita pelo general Pedro Aguerre, comandante do Exército uruguaio, durante uma entrevista coletiva em que se falou da identificação dos restos do jornalista e professor Júlio Castro, desaparecido em agosto de 1977. Por mais que, justamente por ser de silêncio, esse pacto jamais seria admitido em público, e por mais inócua que seja a frase de Aguerre – afinal, ninguém decreta o fim de um pacto secreto diante de jornalistas – ficou claro que existe a determinação de mudança drástica na atitude dos militares no Uruguai diante do passado e da recuperação da verdade e da memória.


Aguerre disse que o Exército que ele comanda não encobrirá delinqüentes e homicidas em suas fileiras, e ordenou que seja posta à disposição da Justiça toda informação possível para esclarecer os crimes de terrorismo de Estado praticados pela ditadura. Quer que a Justiça estabeleça a responsabilidade material do Exército em casos de assassinato, seqüestro e tortura de presos políticos.


Essa virada radical surge à raiz da mudança na legislação uruguaia, que significou, de fato, o fim da anistia que existiu até há pouco e assegurou a impunidade de um número indeterminado de membros das forças armadas e da polícia. Assim que a nova lei entrou em vigor, vários parentes de desaparecidos e assassinados recorreram à Justiça, e abriu-se a caixa de segredos tenebrosos guardados desde os tempos de breu.

Os restos de Julio Castro foram descobertos graças à investigação judicial pedida pelo poeta argentino Juan Gelman, um dos mais prestigiados do idioma castelhano, e por sua neta, Macarena Gelman. Eles querem saber o que houve com Maria Claudia García de Gelman, nora do poeta e mãe de Macarena. Seqüestrada grávida em Buenos Aires, em 1976, junto com Marcelo, seu companheiro e filho de Juan, Maria Claudia foi levada para Montevidéu durante a Operação Condor. Marcelo foi morto em seguida. Ela deu à luz num quartel uruguaio. Sua filha foi doada a um chefe de polícia.

Maria Claudia foi morta. Macarena teve sua identidade recuperada aos 24 anos de idade, quando soube enfim quem era de verdade, e qual o destino atroz de seus pais. Desde então, leva adiante, na companhia do avô, uma cruzada para encontrar os restos da mãe e estabelecer as condições em que foi morta.


Procurando os restos de Maria Claudia, encontraram os ossos de Julio Castro, mestre-escola rural, um dos fundadores do mítico semanário ‘Marcha’. Seqüestrado no dia primeiro de agosto de 1977, nunca mais se soube dele. Um dos últimos, talvez o último, a ver Julio Castro com vida foi o jornalista brasileiro Flávio Tavares, preso naquele mesmo ano pela ditadura uruguaia.


Até agora, dava-se por certo que Castro havia morrido na tortura, dois dias depois de ter sido preso no centro de Montevidéu. Seus restos desapareceram, e acreditou-se que, a exemplo de outros mortos pela ditadura, tivessem sido jogados no rio da Prata. Isso, aliás, foi o que o próprio Exército admitiu perante a Comissão de Paz que funcionou durante os governos dos presidentes Jorge Battle e Tabaré Vázquez. Está provado que mentiram pelo menos duas vezes.

Primeiro, Julio Castro não morreu durante uma sessão de tortura. Foi executado. E, segundo, seus restos não foram jogados em rio algum: estavam enterrados, cobertos de cal, numa cova aberta num rochedo, dentro do terreno ocupado pelo 14º Batalhão do Exército, em Canelones, a 45 quilômetros da capital uruguaia. Os legistas descobriram que o que matou Julio Castro foi um tiro disparado contra a sua cabeça. Os militares sempre insistiram, mentindo e mentindo, que jamais houve uma só execução de presos políticos durante a ditadura.


Castro é uma das vítimas que o Uruguai mais lamentou, pela sua trajetória de professor e de jornalista. A identificação de seus restos mortais sacudiu o país, deixando entrever o que virá pela frente, à medida em que o que restou de outros desaparecidos apareça.


Há uma frase do general Pedro Aguerre que deve ter deixado muitos de seus colegas de farda com a alma gelada, principalmente ao norte da fronteira uruguaia. Disse ele: “Quem nega o passado diante de uma desgraça presente manifesta covardia.” Militar algum aceita ser chamado de covarde, mesmo quando não passam disso na hora de se enfrentar com a memória, como o passado, com a verdade.


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Isso lembra o que aconteceu em 25 de abril de 1995 na Argentina, quando o comandante do Exército, general Martín Balza, foi à TV para pedir desculpas à nação pelos crimes da ditadura militar de 1976-1983:

General Martín Balza, ex-comandante do Exército argentino


“Nosso país viveu a década de 70, uma década assinalada pela violência, pelo messianismo e pela ideologia. Sem buscar palavras inovadoras, mas apelando aos velhos regulamentos militares, aproveito esta oportunidade para ordenar uma vez mais ao Exército, na presença de toda a sociedade: ninguém está obrigado a cumprir uma ordem imoral ou que se afaste das leis e dos regulamentos militares. Quem o fizer incorre em uma conduta viciosa, digna da sanção que sua gravidade requeira.


“Sem eufemismos, digo claramente: delinque quem vulnera a Constituição nacional. Delinque quem emite ordens imorais. Delinque quem cumpre ordens imorais. Delinque quem, para cumprir um fim que crê justo, emprega meios injustos e imorais. A compreensão desses aspectos essenciais faz a vida republicana de um Estado.


“Se não pudermos elaborar a dor e cicatrizar as feridas, não teremos futuro. Não devemos mais negar o horror vivido, e assim poder pensar em nossa vida como sociedade que avança, superando a pena e o sofrimento. Em nome da luta contra a subversão, o Exército derrubou o governo constitucional e se instalou no poder em forma ilegítima, num golpe de Estado. Venho pedir perdão por isso e assumir a responsabilidade política pelo desatino cometido no passado. No poder, o Exército cometeu ainda outros delitos. O Exército prendeu, sequestrou, torturou e assassinou – tal qual o fizeram os delinquentes subversivos – e muitos de seus membros viraram delinquentes como eles.”


E aqui, canalhas assassinos como Brilhante Ustra desafiam as instituições e têm espaço na grande mídia...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

INSISTINDO NO MESMO REMÉDIO QUE ESTÁ MATANDO O PACIENTE

Um dos melhores textos sobre a crise europeia foi publicado na Folha de S.Paulo pelo ex-tucano Luiz Carlos Bresser Pereira na última segunda. Ele diz a perspectiva do colapso do euro aumenta a cada dia, dada a insensibilidade da Alemanha em transformá-o em uma moeda nacional europeia. Os Estados Unidos e o Reino Unido, que foram os campeões da desregulação e da financeirização neoliberal, diz Bresser, estão em situação mais confortável porque "conservaram sua moeda nacional e, diante da crise, puderam exercer duplamente sua soberania monetária: depreciando tanto o dólar quanto a libra e emitindo moeda para aumentar a liquidez monetária e, assim, manter baixos os juros sobre a dívida pública", escreve Bresser Pereira.

Para o ex-ministro da Fazenda, ou o Banco Central Europeu toma o mesmo rumo, socorrendo seus países membros para estancar a crise financeira, ou o euro entrará em colapso e a única questão será saber se seu fim será ordenado ou caótico. 

"A causa da crise de 2008 e da longa recessão dos países ricos foi a desregulamentação dos mercados financeiros, o aumento explosivo da dívida privada e a quebra dos bancos. Foi, em outras palavras, a crença neoliberal justificada "cientificamente" pela ortodoxia neoclássica que os mercados são autorregulados", diz Bresser.


Mas os europeus foram vítimas duas vezes dessa ortodoxia porque o Tratado de Maastricht, que criou, a moeda única, teve um pressuposto absurdo: a crença de que o setor privado estaria sempre equilibrado (o mercado é deus, não nos esqueçamos); daí se deduziu que a única preocupação deveria ser com o setor público.

A Lição de Anatomia do dr. Tulp, de Rembrandt 

O Tratado de Maastricht, de 1992, definiu que o déficit dos países da zona do Euro seria fixado em 3% e a dívida pública em 60% do PIB. Mas não houve a preocupação em estabelecer um limite para o endividamento privado e o endividamento dos países, ou seja, o déficit em conta corrente, lembra Bresser.


Por que não definiram também um limite para esse deficit em 3% do PIB?, pergunta o ex-ministro de FHC. Seria um segundo limite perfeitamente coerente com o limite de deficit público; se isso tivesse sido estabelecido, os sinais de alarme teriam soado muito antes e a crise - talvez - pudesse ter sido evitada.


"Afinal a crise do euro não foi originalmente uma crise fiscal (a qual só se configurou devido à necessidade de socorrer os bancos), mas de endividamento privado. Agora essa mesma ortodoxia não quer ouvir o clamor indignado dos povos. Diz que socorrer os países implica estimular a irresponsabilidade fiscal. Esta é uma visão que subestima a inteligência das pessoas", escreve Bresser.


Ora, que sentido faz países que tanto lutaram por autonomia nacional ter uma moeda sobre a qual não têm nenhum controle? Certamente muitos países já devem estar avaliando a alternativa de sair da moeda única. "Uma saída que mesmo que seja planejada, será traumática. Mas provavelmente melhor do que continuar a ter como "sua" uma moeda estrangeira, que não garante à nação segurança e soberania", conclui.

Seus ex-colegas de ninho devem estar arrepiados...

Outro belo texto sobre a crise é a do Clóvis Rossi, da quinta-feira da semana passada. Vale a pena republicá-lo: 

A dor do ajuste não resolve nada


Clóvis Rossi


Reino Unido é prova de que o fanatismo pela austeridade só provoca retrocessos na economia


O delicioso e sutil humor britânico olha para o canal da Mancha, em dias de nevoeiro, e diz orgulhosamente: "O continente está isolado".


São dias de nevoeiro intenso na Europa, mas não dá para dizer que as ilhas britânicas estão isoladas da tormenta sobre o continente.

Prova-o a greve dos funcionários públicos de ontem, que o "Guardian" batizou de a maior em mais de 30 anos, envolvendo algo em torno de 2 milhões de pessoas. Se a cronologia do jornal está correta, o Reino Unido está de volta aos anos de Margaret Thatcher, o período que quebrou a espinha dos sindicatos e estabeleceu o neoliberalismo.


A greve é uma resposta ao pacote de austeridade do governo David Cameron. Ou ao que o Nobel de Economia Paul Krugman chama de predomínio dos "fanáticos da dor".


A dor não é pequena nem pega só o setor público. "A economia em 2016 será 13% menor do que esperávamos há um par de anos e mais de 3% inferior ao que pensávamos faz seis meses, uma mudança extraordinária", disse à BBC o diretor do Instituto de Estudos Fiscais, Paul Johnson. Consequência óbvia, sempre segundo Johnson: "As pessoas vão ser muito mais pobres e só em 2015 voltarão aos níveis de 2001".

Tem razão, pois, o principal colunista do "Financial Times", Martin Wolf, ao afirmar que "o Reino Unido está caminhando para uma década perdida", como se as orgulhosas ilhas fossem uma Argentina ou um Brasil de antigamente, que também tiveram décadas perdidas.

O que é ainda mais revoltante é que a dor está sendo imposta sem que resolva os problemas do deficit e da dívida, ao contrário do que dizem fundamentalistas do mercado.


"A previsão é a de que o déficit e a dívida fiquem piores", escreve ainda Wolf, que já foi fundamentalista de mercado, mas perdeu pelo menos parte da fé como consequência da crise de 2008/2009. O colunista, uma das figuras mais instigantes que participa anualmente dos fóruns de Davos, escreve: "A lição talvez mais importante é que não temos uma mísera pista do que vai acontecer com a economia. Da mesma forma, enquanto o "chancellor" [George Osborne, equivalente a ministro da Economia] pensa que sabe como os mercados financeiros vão responder à menor mudança em seus planos, ele não sabe".

O que Wolf está querendo dizer é que tomar como palavra de Deus o ajuste fiscal puro e duro não é ciência, mas fé religiosa. Não resolve o problema imediato, tanto que o crescimento do Reino Unido no último trimestre do ano será zero, segundo o próprio Banco da Inglaterra. Nem alivia, por extensão, o desemprego, instalado em 8,3%, o mais alto desde 1996. Nem resolve o problema do crescimento a médio prazo, como mostra a perspectiva de "década perdida". Nem, por fim, alivia a dívida: a conta mais recente mostra que o endividamento no ano teoricamente eleitoral de 2015 terá que ser de € 79 bilhões, em vez dos € 33 bilhões até agora estimados.

Pena que o continente pareça de fato isolado das lições que emanam das ilhas e adote, por isso, o mesmo fanatismo da dor.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A QUEM INTERESSA A DIVISÃO DO PARÁ?

A quem interessa a divisão do Pará? Para o agronegócio, entre eles o banqueiro Daniel Dantas, a divisão seria uma maneira de minimizar as preocupações dos países desenvolvidos em relação aos impactos ambientais que suas atividades causam na Amazônia, já que a região é uma área ocupada e semidevastada. Já a Vale, que está em Carajás, aposta na divisão para ter condições mais favoráveis de negociação com um estado iniciante, necessitando desesperadamente de recursos. Não haveria líder com força suficiente para obrigar a Vale a construir uma siderúrgica, como fez a ex-governadora Ana Júlia. Nessas condições, é de se imaginar quão precária se tornaria a já tênue ação fiscalizatória do poder público, com aumento do desmatamento, dos garimpos ilegais, da exploração predatória e da endêmica violência no campo. 
A questão do aumento de gastos por causa da divisão não é o maior dos problemas, como faz crer parte da grande mídia. Esse artigo de Lúcio Flávio Pinto aborda outros aspectos do tema - aliás, quase ignorado pela grande mídia nacional:  

A grandeza do voto


por Lúcio Flávio Pinto, no portal Yahoo


No domingo, 11, os paraenses serão protagonistas de um ato inédito no Brasil. Pela primeira vez na história nacional, uma unidade federativa decidirá pelo voto a sua configuração territorial. Até agora, a criação ou extinção de Estados foi ato exclusivo do poder central, imposto de cima para baixo; ou produto de uma transação entre as partes.


A constituição de 1988 abriu a possibilidade de essa decisão ser adotada através de plebiscito. Um ano depois da vigência da nova Carta Magna, em 1989, o Estado do Tocantins foi criado sem a necessidade dessa consulta. Goiás não se opôs ao desmembramento de todo o norte do seu território. Pelo contrário: durante os oito anos anteriores integrou uma comissão bipartite que preparou o surgimento do novo Estado. Tocantins nasceu sob o clima do entendimento.


Como o Pará atual não aceitou o fracionamento, a consulta plebiscitária se tornou necessária. Apesar da originalidade da situação, até alguns dias atrás a opinião pública ignorou o fato. Parecia considerá-lo um acontecimento irrelevante, restrito a um Estado distante e secundário na estrutura do poder. Só começou a se aperceber da relevância da questão agora, às vésperas da votação – o que dá uma medida mais real do significado da Amazônia para o Brasil, descontada a propaganda e a fantasia.


Deve-se ressaltar que a maioria dos paraenses também permanece quase tão jejuna nessa pauta quanto um paulista ou um pernambucano. E que pauta: cheia de complexidades e sutilezas.


Os 4,8 milhões de eleitores habilitados a participar do plebiscito não vão escolher um líder local para algum cargo ou decidir sobre uma anomalia particular. A decisão que tomarem mudará a configuração territorial brasileira e provocará efeitos profundos sobre todo país.


A responsabilidade é grave e única, de um tamanho cuja grandeza o eleitor médio não tem a menor idéia. A campanha eleitoral em quase nada o ajudou nessa tarefa, dispersa entre ataques e defesas passionais, como em quase toda eleição.


Hoje, o Pará é o 2º em território do Brasil (com mais de 15% de toda sua extensão) e o 9º em população. Se a maioria dos eleitores concordar em dividi-lo para o surgimento de dois novos Estados, o Pará remanescente passará a ser apenas o 14º em tamanho e o 12º em população. Sua nova configuração poderia situá-lo no rabo da fila da federação brasileira por quase todos os critérios. Já não seria uma fronteira com grande potencial de crescimento: teria que aplicar seu engenho e arte para resolver problemas estruturais, dentre eles um território que perdeu grande parte da floresta amazônica que possuía.


O novo Estado do Tapajós, a oeste, se tornaria o 3º em território do Brasil (abaixo apenas do Amazonas e Mato Grosso) e o 24º em população. Passaria a ser a personificação mais próxima da idealização da fronteira amazônica. Mas ao lado de grandes extensões de floresta nativa há elementos de intensa perturbação desse ideal: enormes minas em expansão, estradas que abrem veias de destruição no meio da mata, grilagem de terras, conflitos rurais, desmatamentos em incontida expansão. Quase todos os problemas do Pará atual com menos instrumentos de resolução. Versão piorada do original.


O possível Estado de Carajás, ao sul, nasceria com o 9º maior território e a 22ª população. Dentro da Amazônia, pode ser comparado a Rondônia, a mais bem sucedida das unidades federativas que se originaram dos antigos territórios federais (os outros são Roraima e Amapá).


O paralelo não é destituído de significação. Estado típico de imigração, Rondônia sofreu tal desmatamento que a principal meta das suas lideranças é retirá-lo da Amazônia e transferi-lo para o Centro-Oeste. Assim ampliariam (de 20% para até 80%) a área de imóveis rurais passível de novas derrubadas de floresta.


Rondônia se parece cada vez mais ao sertão, de onde veio grande parte dos seus atuais habitantes. Carajás também. Seus mais recentes moradores sentem-se mais identificados com a paisagem semelhante à dos seus locais de origem, mas a Amazônia só tem a lamentar – e a perder. Os defensores do atual modelo de ocupação da região, que leva a esses efeitos tão danosos, são os mesmos que lideram as três frentes. Fique tudo como está ou mude a divisão administrativa do espaço geográfico, não será para melhor.


Mas não é só o conteúdo amazônico dessa vasta região, que representa dois terços do território nacional, o que está em causa no plebiscito. É a própria composição da unidade (ou da identidade) nacional, um desafio ainda à espera de uma resposta melhor do que a dada até agora. De um lado, os que tentaram amesquinhar a questão, sugerindo restringir a consulta à população das regiões que pretendem se emancipar (o que seria um jogo de cartas marcadas, com resultado certo: a favor).


De outro, os que interpretaram conforme seus interesses a regra constitucional, segundo a qual a “população diretamente interessada” na questão é toda a população brasileira e não apenas os 4,8 milhões de eleitores paraenses. Argumentaram que o custo da instalação dos dois novos Estados terá que ser rateado entre todos e que os efeitos políticos prejudicarão os demais, sobretudo os Estados mais fortes (cujo peso no parlamento sofrerá nova redução quando, no lugar dos 17 deputados federais e 3 senadores paraenses, se apresentarem 32 deputados e 9 senadores dos três Estados derivados do Pará).


Numa decisão inspirada para os padrões das suas últimas deliberações, o Supremo Tribunal Federal rejeitou essa tese, formulada pelo jurista Dalmo de Abreu Dallari, ligado à esquerda paulista. A “população diretamente interessada” é apenas a do Pará. Além de consagrar uma lógica quase tautológica, o STF fortaleceu – como raras vezes isso ocorre – a debilitada federação brasileira de verdade, ao invés de passar mais verniz na República Unitária que somos, caracterizada pela hipertrofia de poder em Brasília.


Como seria bom se o eleitor se sentasse diante da urna informatizada com a consciência de estar contribuindo para aumentar a democratização do Brasil. Será utopia pretender que o eleitor seja, antes de tudo, um cidadão ativo?

domingo, 4 de dezembro de 2011

RETRATOS DO BRASIL

Um exemplo de que, às vezes, uma foto vale mais que mil palavras: uma menina de 22 anos, guerrilheira (Dilma Rousseff), encara seus algozes no tribunal militar do Rio de Janeiro em 1970, depois de passar por torturas. Os oficiais, todo-poderosos, escondem os rostos para não serem fotografados. Por que tanta vergonha? Eles não estavam defendendo o país contra o comunismo?Quem são eles? No vídeo, três décadas depois, a então ministra Dilma Rousseff desanca o senador Agripino Maia, apoiador da ditadura, que a acusara de mentir durante as torturas.


A MÁ CONSCIÊNCIA DO COLABORACIONISMO FRANCÊS

LOUIS VUITTON E A IMPRENSA Brumas de um passado inglório

Por Leneide Duarte-Plon (*)
29/11/2011 na edição 670

Sessenta e cinco anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, falar da ocupação e da colaboração de empresas francesas com o regime de Vichy (do general Pétain) e com os alemães é ainda um problema sensível. Imperativos econômicos muitas vezes impõem uma censura mal digerida por historiadores e jornalistas.

O site Mediapart e o jornal Le Canard Enchaîné revelaram este ano que durante a guerra houve colaboração francesa com os alemães por “imperativos econômicos”. Foi o caso de Louis Vuitton. Mas os famosos “imperativos econômicos” que justificaram a colaboração impediram este ano a revista Géo Histoire de publicar um texto sobre as relações perigosas de Louis Vuitton com o ocupante alemão. Explica-se: a marca de luxo é um importante anunciante de outras revistas (Gala, Femme Actuelle) que pertencem ao grupo Prisma Presse, proprietário de Géo Histoire.

O número especial de Géo Histoire de setembro-outubro tratava do tema “La France sous l’occupation”, mas o artigo que tinha por tema a colaboração econômica, um tabu nos meios empresariais franceses (Chanel e Renault teriam colaborado também) foi censurado pela revista, por recomendação do setor comercial.

Condecoração nazista
Segundo o site Mediapart, o artigo censurado não era propriamente um furo. Em 2004, o livro de Stéphane Bonvicini – Louis Vuitton, une saga française – já tratava do tema da colaboração de Louis Vuitton durante a guerra. O livro teve um lançamento que ficou quase clandestino, já que praticamente não se falou dele na imprensa. Et pour cause. O jornal britânico The Guardian lembrou na época que “Louis Vuitton é um dos maiores anunciantes da imprensa francesa”, tanto de grandes jornais como de grandes semanários e revistas de moda.


Segundo o Canard Enchaîné, o artigo de Géo Histoire tinha sido relido pelo redator-chefe da revista e por um historiador que atestou a veracidade dos fatos. Um trecho do artigo censurado dizia :

O marechal Pétain (esq.) e Adolf Hitler 

“Quando Philippe Pétain instala seu governo no Hôtel du Parc, em Vichy, todas as marcas de luxo que, como o joalheiro Van Cleef & Arpels, têm lojas no hotel são expulsas. Todas menos uma: Vuitton. A casa, fundada em 1854 por Louis Vuitton e tornada célebre pela imperatriz Eugénie (esposa de Napoleão), era dirigida em 1940 por Gaston, neto do fundador. Gaston pede a seu irmão Henry que mostre claramente a fidelidade ao novo regime para assegurar a perenidade da marca que vai fabricar objetos destinados a glorificar o marechal Pétain.

“Henry Vuitton mantém relações de amizade com oficiais da Gestapo. Vuitton foi um dos raros industriais condecorados pelos nazistas, em reconhecimento de sua lealdade, em cerimônia na qual os oficiais SS e a Wehrmacht usam uniformes desenhados por um estilista de Metzingen, um certo Hugo Boss, e confeccionados por deportados e trabalhadores do trabalho obrigatório na Alemanha”.

Ótima saúde
A supressão do artigo que mostra o passado nada glorioso da marca Vuitton foi feita para preservar as boas relações da empresa Prisma Presse, dona da revista, com o grupo LVMH (proprietário da Louis Vuitton). Mas os jornalistas da revista escreveram uma carta protestando contra a censura econômica exercida pela direção da publicação. Para tentar se justificar junto à redação, a direção alegou o conteúdo “discutível” dos artigos. Não convencidos com as explicações, os jornalistas enviaram carta de protesto ao comitê de ética do grupo.

Enquanto isso, a saúde financeira do grupo Vuitton continua excelente e os anúncios continuam chovendo nas revistas do grupo Prisma Presse.


(*)Leneide Duarte-Plon é jornalista em Paris

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PARA NÃO ESQUECER JAMAIS

Do blog do jornalista Mouzar Benedito:

K.: Não temos o direito de esquecer

“Mas ela não era comunista?”


O pai angustiado à procura da filha desaparecida ouviu essa pergunta várias vezes, ao falar com pessoas que julgava poder ajudar a encontrá-la, como se ser comunista justificasse tudo o que fizessem com ela, e era um tempo em que os comunistas e a esquerda mais radical não tinham a menor possibilidade de tomar o poder ou causar qualquer “mal” ao país.

Era o ano de 1974. As organizações guerrilheiras já tinham sido destroçadas no Brasil. Quem militou em organizações políticas guerrilheiras ou não, se não tivesse sido morto nem preso nem exilado, estava derrotado, sem ação, se limitando à procura da sobrevivência, alguns procurando atuar politicamente pelas vias legais.

Mas a ditadura continuava prendendo, torturando, matando, “desaparecendo” pessoas ligadas a essas organizações ou meramente suspeitas. Sadismo? Demonstração de poder? Maluquice?

O certo é que o aparato policial e militar continuava agindo como se os inimigos da ditadura estivessem em plena ação para derrubar o regime, embora o então presidente, general Ernesto Geisel, já falasse numa “abertura lenta e gradual”, para entregar o poder aos civis.

K. era sobrevivente de uma família que já tinha sido vítima do nazismo, na Polônia, que matara quase todos os seus parentes. Veio para o Brasil deixando seus mortos na Europa.

Aqui, vivia em paz, se dedicando à literatura iídiche (língua hoje quase extinta, falada pelos judeus da Europa Oriental). Tinha três filhos: dois homens, que moravam fora do Brasil, e uma moça, de quem se orgulhava muito, professora de Química da USP.

De repente, ela não aparece nem dá notícia.

E o velho K., calejado pela perseguição nazista mas um tanto ingênuo, sai à procura dela.

É um martírio que não acaba, dura anos, um jogo de desinformação manejado pela repressão que prendeu e certamente matou na tortura não só a filha, mas também o marido dela.

Na sua angústia, lembrando da perseguição nazista e comparando com ele o que acontecia aqui (“lá pelo menos eles informavam a família que prenderam e mataram as pessoas”), K. continua em sua busca incessante, e inútil.

É um drama muito bem contado num romance – na verdade uma história que não tem nada de ficção – de B. Kucinski, publicado pela Editora Expressão Popular, certamente inspirado no desaparecimento de sua irmã, Ana Rosa, e do marido dela, Wilson, embora os nomes deles nunca tenham sido citados no livro. K.é seu pai.

“De todos os livros que já li sobre esse período de horror, este é o que mais me emocionou”, diz a historiadora Maria Victoria Benevides, na orelha do livro. “Um libelo contra a desumanidade e a vilania do regime de opressão”, afirma J. Guinsburg, na quarta capa.

Alípio Freire considera o livro “Magistral, magistral…” e Avraham Milgram (do Museu do Holocausto, de Jerusalém) considera que “os relatos de B. Kucinski refletem maldade, indiferença, cumplicidade, oportunismo e prostração moral manifestadas num ambiente aparentemente simpático e dócil de uma sociedade sob ditadura militar”.

Concordo com todos, lembrando com certo asco passagens em que até rabinos e judeus ricos lavam as mãos (“mas ela não era comunista?”) e os mandões do Departamento de Química da USP aproveitam para demitir a professora querida dos colegas por “abandono de emprego”, para dar sua vaga a alguém das relações deles, sabendo que ela tinha sido presa e certamente morta.

E volto ao começo: eram pessoas que não ofereciam risco nenhum aos ditadores.

Foi um tempo de muito sofrimento para muitas famílias, como a de K.. E tudo isso tem que vir a público, ser esclarecido, para que não aconteça mais.

Os que se opõem à apuração do que aconteceu naquele período têm motivos para isso: serão revelados como monstros, cruéis, torturadores sádicos e assassinos. É o que são.