segunda-feira, 2 de maio de 2011

POR QUE NÃO INVESTIGAR O ATENTADO DO RIOCENTRO?


O sargento Rosário, um dos terroristas do Riocentro
Há pelo menos um crime perpetrado pela ditadura militar que poderia ser perfeitamente investigado - e alguns de seus autores eventualmente punidos - sem que houvesse a necessidade de revogar a Lei de Anistia de 1979: a tentativa de atentado terrorista no Riocentro em 30 de abril de 1981, levada a cabo por militares do Exército. Naquela noite, dois agentes do DOI-CODI que estavam dentro de um Puma se preparavam para explodir bombas num megashow de MPB que acontecia no Riocentro, que era promovido pelo Cebrade (Centro Brasil Democrático) - centro de "notórios comunistas", segundo os milicos, e organizado por Chico Buarque de Hollanda - um compositor "subversivo". Imagine-se quantas pessoas morreriam em decorrência das explosões e/ou do tumulto. Depois, como no caso ParaSar em 1968, os militares culpariam a esquerda. Mas a operação fracassou porque uma das bombas explodiu no colo do sargento Guilherme do Pereira do Rosário, matando-o, e ferindo gravemente o capitão Wilson Luís Chaves Machado. A outra bomba, mal arremessada, explodiu no pátio da miniestração de energia do Riocentro e abriu uma cratera.

José Ribamar Freitas perdeu um braço
Era uma época em que os militares da área de informações tentavam intimidar a oposição praticando atos terroristas - contra bancas que vendiam jornais alternativos, contra a Associação Brasileira de Imprensa, e o gabinete do vereador Antonio Carlos Carvalho, entre outros. O atentado na OAB matou uma secretária, Lyda Monteiro, e o do gabinete feriu gravemente o assessor José Ribamar Freitas, que perdeu um braço e ficou cego. Esses atentados não eram atos isolados ou de insubordinação de militares inconformados. No caso do Riocentro, o próprio comandante geral da Polícia Militar, o coronel Nilton Cerqueira - homem do esquema da repressão, responsável pela morte de Carlos Lamarca - havia determinado a retirada do policiamento do Riocentro. 

E o general Newton Cruz, ligado ao SNI, afirmou recentemente em entrevista ao repórter Geneton Moraes Neto que os militares planejavam realizar mais atentados como os do Riocentro. Na época, o alto comando do Exército cerrou fileiras em defesa dos terroristas e da versão estapafúrdia de que o atentado era obra de militantes de esquerda. Fizeram até um Inquérito Policial Militar a respeito. A farsa foi tão grotesca que levou à renúncia do general Golbery do Couto e Silva, um dos artífices, junto com o ex-ditador Geisel, da "distensão lenta e gradual" do regime. 
O capitão Wilson chegou a coronel e hoje está na reserva. Nunca abriu o bico. Recentemente, o jornal O Globo revelou vários nomes da agenda do sargento Rosário - arapongas que, depois do fim da ditadura, fizeram carreira na vida civil. Um deles, o ex-agente da PF Wilson Pina, foi recentemente exonerado do cargo de assessor de inteligência da Agência Nacional de Petróleo (ANP) por ter montado um falso dossiê contra um então diretor do órgão, Victor de Souza Martins, irmão do ex-ministro Franklin Martins - dossiê esse explorado pela grande mídia e por José Serra. A seguir, transcrevo parte da reportagem de O Globo do dia 25/4:

"O GLOBO identificou metade dos 107 nomes anotados na agenda. Entre eles havia integrantes de cinco segmentos: o chamado Grupo Secreto, organização paramilitar de direita que desencadeou atos terroristas para deter a abertura política; nomes da Secretaria estadual de Segurança, incluindo do órgão responsável por investigar justamente os atentados a bomba da época; organizações civis, como empresas de construção e de material elétrico; veículos de comunicação; e militares que formariam depois a atual comunidade civil de informações e arapongagem.O que impede o Judiciário de investigar esse crime?  

João Figueiredo não controlava seus pares
A presença de alguns desses militares entre os contatos de um ativo participante de atividades terroristas de direita como Rosário mostra que, quando veio a distensão, esse grupo preencheu o vazio de poder utilizando, para fins civis, os conhecimentos de inteligência que tinham adquirido. Além disso, a agenda de Rosário traz indicações de que, já na época do fim do regime, essa comunidade de informações já começava a se articular.


Na lista, nomes do grampo do BNDES
Sargento paraquedista com 12 anos de experiência na guerra suja, Guilherme do Rosário pertencia, quando morreu, à Subseção de Operações Especiais, unidade de elite do DOI I, especializada em estouro de "aparelhos subversivos com o uso de força". Porém, à medida que as missões foram encolhendo - em decorrência do aniquilamento das organizações de esquerda da luta armada e da nova orientação do governo para os DOIs, que foram reestruturados para seguir uma linha mais de inteligência que de força -, o sargento passou a empregar a sua experiência nas operações clandestinas. Um dos seus principais contatos, na articulação com outros órgãos da repressão, era o coronel Freddie Perdigão Pereira, ex-DOI e na época agente, no Rio, do Serviço Nacional de Informações (SNI) - o grande órgão de inteligência do regime militar.


Frequentador do destacamento da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, Perdigão tinha encontros periódicos com os agentes de operações especiais no bar Garota da Tijuca, a poucos metros da unidade, que ficou conhecida como o principal centro de torturas do Rio.

Da comunidade de informações, a caderneta de telefones de Guilherme do Rosário trazia, por exemplo, o nome de Wilson Pinna, agente da Polícia Federal aposentado. Entre 1979 e 1985, Pinna trabalhava no DOPS, na coleta e análise de informações. Era um dos que, por exemplo, iam a assembleias, protestos, comícios e outras reuniões para ver quem dizia o quê. Pinna chegou a, por exemplo, coordenar a análise de informações do movimento operário da época."

Aposentado da PF em 2003, Wilson Pinna foi exonerado, em 2009, de cargo comissionado que ocupava na assessoria de inteligência da Agência Nacional de Petróleo (ANP), após ter sido acusado pela Polícia Federal como o autor do falso dossiê contra o então diretor do órgão, Victor de Souza Martins, irmão do então ministro da Comunicação Social, Franklin Martins. Pinna foi denunciado na 2ª Vara Federal Criminal do Rio pelos crimes de interceptação telefônica ilegal e quebra de sigilo fiscal.

Wilson Pinna disse não se lembrar de ter conhecido Guilherme do Rosário, mas, segundo ele, podem ter se encontrado em algum dos cursos da área de inteligência feitos pelo agente federal, como aulas no DOI, no CIE e no Cenimar."

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A REPÚBLICA INGLESA, BERÇO DA REVOLUÇÃO BURGUESA

Os que estão embasbacados com o casamento real nem sequer imaginam, mas a Inglaterra já foi uma república, berço da primeira revolução burguesa do Ocidente. Seu principal líder foi Oliver Cromwell (1599-1658), uma espécie de Robespierre e Napoleão avant la lettre, só que inglês. Ele criou um exército para lutar ao lado das forças do Parlamento contra o rei Charles I na guerra civil que deu origem à Revolução Inglesa de 1642. Embora Cromwell não tivesse nenhuma experiência militar até os 43 anos, ele criou e liderou uma poderosa força de cavalaria, os “Ironsides” e, em três anos, subiu da patente de capitão a tenente-general. Ele convenceu o Parlamento a estabelecer um exército profissional – o New Model Army – que ganhou as batalhas decisivas contra as forças do rei em Naseby (1645).

A monarquia foi abolida e proclamada a república. A aliança do rei com os escoceses e sua subsequente derrota na Segunda Guerra Civil convenceu Cromwell que o monarca deveria ser julgado. Ele teve um papel decisivo no julgamento e na execução de Charles I em 1649. Note-se que a sentença determinava a execução do rei de Inglaterra, ao contrário do que acontecerá no julgamento de Luís XVI, rei de França, em 1793, quando o ex-monarca será sempre referido como “cidadão Luís Capeto”. Conforme observou Cromwell na ocasião, “executaremos o rei com a coroa na cabeça”.

Oliver Cromwell
Na sequência, ele lutou para conquistar o apoio dos conservadores para a nova república por meio da supressão de elementos radicais do exército. Cromwell esmagou a resistência na Irlanda em 1649 e depois derrotou as forças que apoiavam o filho de Charles I, Charles II, o que acabou com a guerra civil. Em 1653, frustrado com a falta de progresso político, Cromwell dissolveu o Parlamento e autonomeou-se “Lord Protector”.

Em 1657, foi lhe ofereciada a coroa de rei, mas ele recusou. Organizou a igreja nacional (anglicana), estabeleceu o domínio dos puritanos, readmitiu os judeus no país e instaurou um relativo grau de tolerância religiosa. Cronwell morreu em 3 de setembro de 1658 em Londres. Depois da Restauração monárquica, seu corpo foi desenterrado e enforcado. É, os monarquistas não perdoam... 

Charles I insultado por soldados de Cromwell, de Paul Delaroche
“O que caracteriza a Revolução Inglesa é que pela primeira vez na história, um rei ungido foi julgado por faltar à palavra dada a seus súditos e decapitado em público, sendo seu cargo abolido. Aboliu-se a Igreja estabelecida, suas propriedades foram confiscadas e se proclamou - e inclusive se exigiu - uma tolerância religiosa bastante ampla para todas as formas do protestantismo. Por um breve espaço de tempo, e provavelmente pela primeira vez, apareceu no cenário da história um grupo de homens que falavam de liberdade, não de liberdades: de igualdade, não de privilégios; de fraternidade, não de submissão. Estas idéias haveriam de viver e reviver em outras sociedades e em outras épocas. Em 1647, o puritano John Davenport predisse com misteriosa exatidão que "a luz que acabava de ser descoberta na Inglaterra... jamais se extinguirá por completo, apesar de eu suspeitar que durante algum tempo prevalecerão idéias contrárias.


Ainda que a revolução fracassasse aparentemente, sobreviveram idéias de tolerância religiosa, limitações do poder executivo central a respeito da liberdade pessoal das classes proprietárias e uma política baseada no consentimento de um setor muito amplo da sociedade. Essas idéias reaparecerão nos escritos de John Locke e se consolidarão [...] com organizações partidárias bem desenvolvidas, com a transferência de amplos poderes ao Parlamento, com um Bill of Rights e um Toleration Act, e com a existência de um eleitorado assombrosamente numeroso, ativo e articulado. É precisamente por estas razões que a crise inglesa do século XVII pode aspirar a ser a primeira "Grande Revolução" na história mundial, e portanto, um acontecimento de importância fundamental na evolução da civilização ocidental.”


Lawrence Stone, A Revolução Inglesa

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A VIRTUDE PAGÃ, DE MAQUIAVEL A KENNAN


Nicolau Maquiavel
"A virtude pagã de Maquiavel é uma virtude pública, ao passo que a virtude judaico-cristã é, em geral, uma virtude mais privada. Um exemplo famoso de boa virtude pública e de virtude privada inadequada pode ser o do presidente Franklin Delano Roosevelt e suas nocivas fugas da verdade para fazer com que um Congresso isolacionista aprovasse a Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos) de 1941, que permitia o empréstimo e arrendamento de materiais bélicos para os países aliados durante a Segunda Guerra Mundial. 'Na verdade', escreve o dramaturgo norte-americano Arthur Miller sobre Roosevelt, "a humanidade está em dívida com suas mentiras'. Em seu Discursos sobre a Primeira Década de Títo Lívio, Maquiavel aprova a fraude quando ela é necessária ao bem-estar da pólis. Essa não é uma ideia nova ou cínica: Sun-Tzen escreve que política e guerra constituem 'a arte de enganar', a qual, se praticada com sabedoria, pode levar à vitória e à redução de baixas. O fato de esse preceito ser perigoso e facilmente manipulável não o despoja de suas aplicações positivas".

Alexander Hamilton
"Enquanto não houver um Leviatã para dominar os países do mundo, as lutas pelo poder continuarão a definir a política internacional e uma sociedade civil global continuará fora de alcance. A democracia e a globalização são, na melhor das hipóteses, soluções parciais. Do ponto de vista histórico, as democracias têm se mostrado tão propensas à guerra quanto os outros regimes. Maurice Bowra, acadêmico de Oxford, escreve: 'Atenas representa uma refutação memorável da ilusão otimista de que as democracias não são beligerantes ou ávidas por um império'. A maior interpendência econômica no início do século XX não impediu a Primeira Guerra Mundial, ao passo que os Estados Unidos e a União Soviética permaneceram em paz muito embora houvesse pouco comércio entre as duas nações. A interdependência econômica cria seus próprios conflitos, enquanto novas democracias, em locais que apresentam instituições fracas e rivalidades étnicas, quase sempre são voláteis. Aqui, mais uma vez, nota-se a presença de Alexander Hamilton, a voz mais intensa da Revolução Americana:

Não vimos já tantas guerras alicerçadas em motivos comerciais desde que este se tornou o sistema predominante entre as nações, quantas ouve anteriormente ocasionandas pela cobiça de um território ou domínio? O espírito de comércio, em muitas instâncias, não incentivou tanto um quanto o outro? Vamos apelar para a experiência, o guia menos falível das opiniões humanas, para obtermos a resposta a estas dúvidas.

O cardeal Richelieu
"A característica que define o realismo é que as relações internacionais são governadas por princípios morais diferentes dos princípios da política interna - uma noção justificada pelas obras de Tucídides, Maquiavel, Hobbes, Churchill e outros. A necessidade de tal distinção foi enfatizada pelo nascimento do capitalismo moderno: o ímpeto pela raison d'etat de Richelieu. [...] O racionalismo exigido para gerenciar as complexas operações econômicas de um Estado francês burocratizado, que surgiu no início do século XVII, foi suplantando gradualmente  a arbitrariedade dos barões feudais, propiciando o pragmatismo de Richelieu. George Kennan observa que a moralidade privada não é um critério para comprar um Estado a outro.

George Kennan
'Aqui, precisamos permitir que outros critérios, mais amargos, mais limitados, mais práticos, prevaleçam', diz Kennan. O historiador Arthur Schlesinger Jr. avisa  que, quando se trata de questões externas, a moralidade não está em 'alardear valores morais absolutos', mas na 'premissa de que outros países possuem suas próprias tradições, interesses, valores e direitos legítimos'". 

Robert D. Kaplan, Warrior politics: why leadership demands a pagan ethos      

quarta-feira, 27 de abril de 2011

UMA CASA REAL PRA LÁ DE DECAÍDA


O príncipe William e Kate Midletton
Não agüento mais essa babação de ovo da mídia mundial em torno do casamento do príncipe William, filho da princesa Diana, e da "plebéia" Kate Middleton. É típico da mentalidade de colonizado, como nossas "classes altas", ou de despeitados, como os americanos, que tentaram fazer dos Kennedy uma família real. OK, sou republicano e, por esta razão, espero que as monarquias afundem no lodo da História.


Grace Kelly, atriz e princesa
Mas, reconheço, há dinastias e dinastias, bem como há reis e reis e rainhas e rainhas. Eu não desejaria um destino tão funesto para as simpáticas monarquias escandinavas, que não atrapalham ninguém e deixam seus países se tornarem paraísos do Welfare State. Eles também têm um passado impecável - o rei Hakon, da Noruega, por exemplo, resistiu aos nazistas e organizou um governo no exílio. O gracioso principado de Mônaco não merece a execração pública, nem mesmo depois que o príncipe Rainer III roubou das telas a maravilhosa Grace Kelly. Eu também não desejo má sorte ao rei Juan Carlos I de Espanha – apesar de ele pertencer à execrável dinastia Bourbon, aquela que não perdoa nem aprende – porque este monarca se revelou um notável defensor da jovem democracia espanhola.

Políbio dizia que os regimes políticos, qualquer que fosse sua natureza, terminam por entrar em entropia: a monarquia degenera em tirania, a aristocracia em oligarquia e a democracia em anarquia. Mas não é preciso ir tão longe – até porque esse aforismo não é um absoluto –, nem ser republicano para perceber que a casa de Windsor, que governa o Reino Unido há mais de um século, é uma das dinastias mais decadentes da Europa.

A rainha Vitória, de origem alemã
 Para começo de conversa, os Windsor nem são britânicos da gema. Eles descendem da Casa de Saxe-Coburg-Gotha, fruto do casamento da rainha Vitória, da casa de Hannover, com o príncipe Albert, filho do duque Ernest I de Saxe-Coburg-Gotha, em 1840. Eles são, portanto, uma dinastia de origem alemã. Em 1917, em meio à I Guerra Mundial, o rei George V mudou o nome da família para Windsor, para fazer frente ao sentimento antigermânico dos britânicos. Afinal, o rei era primo do kaiser alemão Wilhelm II. E George V foi tão covarde que não aceitou asilar seu outro primo, o czar russo Nicolau II, derrubado pela Revolução de fevereiro. Para o bem de todos, a família imperial russa acabou fuzilada pelos bolcheviques em 1918.

O ex-rei Edward VIII, Wallis Simpson e Hitler
George V morreu em 1936 e foi sucedido por seu filho primogênito, que subiu ao trono com o título de Edward VIII. Este soberano protagonizou um dos maiores escândalos recentes da corte britânica, ao renunciar ao trono menos de um ano depois de ser proclamado rei para se casar com a americana Wallis Simpson, duas vezes divorciada. Eles - ela, particularmente - foram humilhados pela corte, que jamais aceitou o casamento. Mas este, entretanto, foi o lado romântico do monarca; seu lado obscuro revelou-se na simpatia que ele nutria pelo III Reich. A tal ponto que o casal foi recebido em 1937, com todas as pompas, pelo ditador nazista Adolf Hitler. 

Seu irmão, George VI, não tinha nenhum apetite para o poder e era gago, como lembrou o filme ganhador do Oscar deste ano, O discurso do rei. É verdade que George VI acabou representando, ao lado da mulher, Elizabeth (a rainha-mãe), um símbolo importante na luta contra o nazismo, principalmente quando o Reino Unido enfrentou a barbárie sozinho. Mas sem a atuação carismática e galvanizadora do premiê Winston Churchill, o verdadeiro artífice da vitória, o monarca teria sido de pouca valia.

A rainha Elizabeth II
Sua filha, Elizabeth II, 85 anos recém-completados e rainha desde 1952, é a monarca britânica mais longeva de todos os tempos, superando inclusive sua trisavó Vitória, que morreu em 1901 aos 81 anos. Mas Elizabeth terá que reinar até 2015 para superar o recorde de sua antecessora no poder: 64 anos. Sob seu reinado, a casa de Windsor perdeu completamente a compostura, abrindo-se ao universo efêmero da sociedade- espetáculo ao mesmo tempo em que pretendia manter a majestade.

A princesa Diana
 O "casamento do século" do príncipe Charles com Diana Spencer transformou-se na farsa do século. A sucessão de escândalos - cujo ápice foi a declaração de Charles de que queria ser o "tampax" da então amante, Camille Parkes-Bowles - terminou com a morte trágida da princesa Diana num acidente automobilístico em Paris em 1997. Como a casa de Windsor se rendeu incondicionalmente ao mundo das celebridades, Elizabeth II, que odiava a ex-nora, foi obrigada a prestar homenagem à "princesa do povo" por orientação de um premiê oportunista, Tony Blair. 

Convenhamos: existe algum glamour nisso tudo? Meu consolo é que essa decadência dos Windsor contribua para aumentar o número de britânicos favoráveis à implantação de uma república. "Oh, my God!"     

terça-feira, 26 de abril de 2011

TEM, SIM, UM MOCINHO NESSA HISTÓRIA


O tenente William Calley Jr.
 O ex-tenente do Exército americano William Calley Jr. é um criminoso de guerra. Ele cumpriu apenas três anos e meio da pena de prisão perpétua pelo massacre de 109 civis vietnamitas em My Lai, 1968. Hoje ele vive em Columbus, Geórgia.

Outros criminosos de guerra, onze soldados americanos responsáveis por torturas na prisão iraquiana de Abu Ghraib, foram condenados a penas leves; nenhum oficial foi implicado. Cinco soldados americanos estão enfrentando uma Corte Marcial sob a acusação de matar deliberadamente civis afegãos. E até agora nenhum soldado ou oficial foi acusado pelas detenções ilegais de Guatánamo - documentos do WikiLeaks mostram que pelo menos 150 inocentes foram mantidos presos desde 2002. Os registros detalham ainda a utilização de métodos violentos - tortura, numa palavra - nos interrogatórios. Tudo o que o Pentágono tem a dizer sobre essas denúncias é que o vazamento foi "infeliz".   

O soldado Bradley Maning, antes...

Já o soldado raso Bradley Manning, de 23 anos, não é um criminoso de guerra mas está preso desde maio do ano passado na base militar de Quantico (Virgína) em condições duríssimas, embora ele não tenha sido julgado ou condenado. Ex-analista de inteligência lotado num batalhão de apoio da 2ª Brigada da 10ª Divisão de Montanha no Iraque, ele foi acusado de vazar 250 mil documentos secretos sobre operações ilegais do Exército americano para o WikiLeaks, que revelaram, entre outras coisas, o ataque de um helicóptero militar contra civis – inclusive crianças – em Bagdá em julho de 2007. Julian Assange, dono do WikiLeaks, também está sob a mira de Washington.

Sobre o soldado Bradley Manning pesam 22 acusações, e uma delas (“colaborar com o inimigo”) pode até condená-lo à pena de morte. Suas condições de prisão são cruéis e desumanas e podem ser definidas, pelos padrões de nações civilizadas, como tortura. “Desde a sua prisão, em maio, Manning é um preso exemplar, sem episódios de violência ou problemas disciplinares; no entanto, foi declarado desde o início ‘prisioneiro de segurança máxima’, o nível mais alto e mais repressivo da detenção militar, base para as medidas desumanas que lhe são impostas”, escreveu o jornalista Glenn Greenwald. “Desde o início, Manning é mantido em isolamento intensivo. Em 23 das 24 horas do dia – por sete meses seguidos e contando – ele fica completamente sozinho na cela. Mesmo na cela, as suas atividades são muito restritas: é proibido de se exercitar e está sob vigilância constante”.

...e depois de ser preso pelo Exército 

"Por razões que parecem simplesmente punitivas”, continua Greenwald, “direitos básicos em prisões civilizadas são-lhe negados, como travesseiro ou lençóis (ele não é e nunca foi de tendência suicida). Na única hora diária em que é retirado deste isolamento, é proibido de ver notícias ou programas ao vivo. O tenente Villiard desmentiu que as condições se assemelhem às de ‘filmes de prisão, em que o preso é atirado num buraco’, mas confirmou que ele está em confinamento solitário, exceto pela hora diária em que sai da cela. Em suma, Manning vem sendo submetido por muitos meses, sem interrupção, a condições desumanas de eliminação da personalidade, de destruição da alma, de indução à insanidade, em condições de isolamento similares às que foram aperfeiçoadas na penitenciária Supermax em Florence, Colorado – e tudo isso sem nem sequer ter sido condenado. E, como no caso de muitos prisioneiros submetidos a tratamentos desvirtuados como esse, o pessoal médico da Marinha agora administra-lhe doses regulares de antidepressivos para evitar que o seu cérebro se despedace pelos efeitos do isolamento”.

A coisa é tão grotesca que P. J. Crowley, porta-voz da secretária de Estado, Hillary Clinton, perdeu o cargo depois de ter declarado que o soldado Bradley Manning não fora declarado culpado de crime algum e que sua prisão era “contraprodutiva e estúpida”.

Prisioneiros em Guantánamo, que Obama prometeu fechar

Como alguém que denuncia crimes cometidos pelo Exército de um país democrático pode ser considerado traidor ou espião? Quem deveria estar preso são as autoridades que permitem e permitiram a ocorrência desses crimes de guerra. O presidente Barack Obama se elegeu prometendo, entre outras coisas, acabar com os abusos e fechar a prisão de Guantánamo. Ganhou o Prêmio Nobel da Paz por antecipação, mas não apenas não moveu uma palha para investigar as violações dos direitos humanos como manteve as guerras no Iraque e no Afeganistão, iniciadas por Bush.


Bradley Manning é o mocinho dessa história tipicamente americana.








segunda-feira, 25 de abril de 2011

NUM DIA COMO HOJE...

..ocorreram muitas coisas boas. Há datas que são funestas, como o 11 de setembro (Chile, 1973; EUA, 2001), mas outras, como 25 de abril, em que os acontecimentos são tão "alvissareiros", como diria o finado João Amazonas, que têm o poder de nos fazer voltar a acreditar na humanidade...  


Claude Joseph Rouget de Lisle

La Marseillaise (A Marselhesa) - O Hino Nacional da França foi composto em 25 de abril de 1792 por Claude Joseph Rouget de Lisle, a pedido do prefeito de Estrasburgo, para animar a luta dos exércitos revolucionários franceses contra as forças austríacas. A canção se chamou inicialmente Chant de guerre pour l'Armée du Rhin (Canto de Guerra para o Exército do Reno), mas ela acabou apropriada pelos marselheses, que a entoavam quando chegaram à Paris numa das jornadas revolucionárias. Adotada como hino nacional pela Convenção em 1795, a Marselhesa ficou banida sob os reinados de Napoleão Bonaparte (1799-1815) Luís XVIII (1815-1824) e Napoleão III (1852-1871). Resgatada pela Revolução de 1830 e pela Comuna de Paris de 1871, a Marselhesa teve seu status recuperado na III República, além de ter sido consagrada pelas Constituições das IV e V Repúblicas. Alguns imbecis politicamente corretos chegaram a propor a mudança da letra da Marselhesa por ela ser "muito sangrenta". Por esse critério, a Bíblia e os clássicos greco-romanos também deveriam ser reescritos...           




Populares de Lisboa saem às ruas em apoio à Revolução
Revolução dos Cravos - Em 25 de abril de 1974, um golpe militar derrubou o regime salazarista que dominava Portugal havia 40 anos. A senha para a movimentação das tropas foi a canção Grândola, Vila Morena, composta por Zeca Afonso, uma referência à fraternidade das pessoas de uma comunidade do Alentejo. A operação para depor o primeiro-ministro Marcelo Caetano foi organizada pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), comandada por militares de média patente (capitães) que tinham lutado nas guerras coloniais. Os militares enfrentaram pequena resistência da PIDE, a polícia política do regime. O povo se confraternizou nas ruas com as tropas insurgentes; cravos foram colocados nos fuzis dos soldados, o que daria o nome à revolução. O movimento desencadeou um processo de intensa luta política e de classes que provocou muita instabilidade mas abriu as portas de Portugal ao século XX.        






Libertação da Itália - No dia 25 de abril de 1945, a resistência italiana - formada principalmente pelos comunistas - revoltou-se em Milão e outras cidades do norte da Itália contra a ocupação nazista e contra as falanges fascistas da República Social Italiana de Benito Mussolini. Foi neste contexto que os partigiani, guerrilheiros da resistência, sob a direcção do CLNAI (o comitê dirigente da libertação, que entre os seus dirigentes incluía Sandro Pertini, futuro presidente da República), foram ocupando sucessivamente Milão, Bolonha, Gênova e Veneza, antecipando-se à chegada das tropas aliadas. No próprio dia 25 de Abril, o CLNAI declara a insurreição geral e decreta a pena de morte para os generais fascistas. Três dias depois, a 28 de Abril, as tropas nazistas e fascistas capitulavam perante os exércitos aliados, e Mussolini era executado sumariamente pelos partigiani quando tentava fugir, com a sua amante Clara Petacci, para a Suíça. Os seus cadáveres, com os dos colaboradores, foram expostos na Praça Loreto, em Milão.







Ella Fitzgerald - Uma das maiores cantoras de
jazz de todos os tempos, conhecida como Primeira-Dama da Canção, nasceu em 25 de abril de 1917 em Newport New, Virgína. Nem divas como Billie Holiday a superaram. Segundo a definição de um especialista, Ella tinha uma "extensão vocal que abrangia três oitavas, era notória pela pureza de sua tonalidade, sua dicção, fraseado e entonação impecáveis, bem como uma rara habilidade de improviso semelhante a um instrumento de sopro". Ella gravou com Louis Armstrong, Count Basie, Duke Ellington e Joe Pass. Entre inúmeras músicas, destacam-se Summertime, Every Time You Say Goodbye, Begin the Beguine e discos memoráveis como Porgy and Bess.  







Paulo Vanzolini - Em 25 de abril de 1924 nascia em São Paulo Paulo Vanzolini, que se tornaria um importante zoólogo, mas ficaria famoso pelas atividades desenvolvidas nas horas de boemia, como compositor de MPB. Entre suas músicas estão Ronda, Volta por Cima, Na Boca da Noite, Capoeira do Arnaldo, Cuitelinho, Praça Clóvis, Samba Abstrato, entre outras.  




sábado, 23 de abril de 2011

O QUE NÃO APRENDEMOS COM AS TULIPAS



A cantora islandesa Björk
Até pouco tempo atrás a pequena Islândia era conhecida apenas por ser a terra natal da cantora pop Björk e da indústria pesqueira. Poucos sabiam do mergulho profundo que, nos últimos anos, o país tinha dado na globalização financeira,  desregulamentando tudo para atrair investimentos externos. A Islândia, com apenas 311 mil habitantes, virou o paraíso nórdico dos especuladores financeiros e era muito elogiada por agências de classificação por sua investment-friendly atmosphere. Britânicos e holandeses investiram cerca de US$ 5,3 bilhões no fundo Icesave, gerido pelo banco islandês Ladsbanki; em 2008 o banco quebrou, deixando os investidores na mão. O Reino Unido e Holanda simplesmente fizeram o que prescrevia o receituário neoliberal: reembolsaram seus investidores e mandaram a conta para a Islândia. O país que se virasse, apertasse os cintos e mergulhasse na recessão para pagar a dívida dos especu..., perdão, dos investidores. Mas os islandeses disseram não; por meio de um plebiscito, 60% rejeitaram arcar com o ônus, adotando o que o "mercado" classifica de "calote". 


Islandeses protestam na capital, Reikjavik
 Foi o primeiro país a contestar a fórmula tradicional consagrada pelos arautos do mercado financeiro para sair da crise: acionar o Estado para salvar os bancos e impor planos recessivos para recuperar a credibilidade do país. O roteiro é conhecido: para garantir empréstimos de emergência e rolar a dívida, assegurando os bônus e lucros dos especuladores, os governos devem impor aos seus cidadãos "planos de austeridade" que implicam em altas taxas de desemprego e corte de benefícios sociais. Foi o que aconteceu na Grécia e é a solução que está sendo vendida a Irlanda e Portugal, os países mais afetados pela crise.

Segundo o conselheiro econômico do governo da Islândia, Michael Hudson, da Universidade de Missouri, o país nórdico se inspirou no exemplo da Argentina (quem diria?), que em 2002 deu um calote na sua dívida externa para depois reestruturá-la em termos bem mais favoráveis aos interesses nacionais, não ao dos credores. "Ninguém debateu se os pagadores de impostos devem resgatar instituições financeiras", escreveu a eurodeputada francesa Eva Joly no jornal britânico The Guardian. "Espero que o espírito de luta dos holandeses se espalhe". Esperamos todos (menos os credores e os ideólogos do Consenso de Washington, claro...).

Até especialistas financeiros estão convencidos de que não há outra saída senão reestruturar o perfil da dívida. Em outras palavras, calote, mesmo que parcial. Como escreveu o jornalista Clóvis Rossi, "a Grécia, um ano depois de ter recebido ajuda (110 bilhões de euros, o que está longe de ser pouco dinheiro), continua patinando economicamente e continua pagando juros insuportáveis (23% na quinta-feira, mais que o dobro dos 10,2% que pagou antes de ser socorrida). Quer dizer o seguinte: os europeus deram aos gregos [...] uma pilha de dinheiro para que os mercados estivessem avisados de que havia butim a ser colhido, o que, em tese, deveria levar a que reduzissem os juros (ah, as esperanças no livre mercado, acrescento eu...). Mas, tanto quanto o economista-chefe do Deustsche Bank, todos os demais credores sabiam que a Grécia não conseguiria conviver com um programa de austeridade violento, que minava suas já reduzidas chances de crescimento, e, ao mesmo tempo, pagar toda a dívida. Então, cobram antecipadamente a perda que terão com o calote que julgam inevitável".

Crises começaram com as tulipas, no sécul XVII
Crises especulativas ocorrem desde a infância do capitalismo e são periódicas. A primeira delas foi no século XVII, na Holanda, quando um simples bulbo de tulipa chegou a valer o equivalente a 24 toneladas de trigo. Foi uma corrida desenfreada até a quebradeira geral. Mas os países, como lembrou o economista canadense John Kenneth Gailbraith, têm uma peculiar capacidade de se esquecer dessas crises - e de não aprender nada com elas. "A História é a soma das coisas que poderiam ter sido evitadas", dizia o ex-chanceler alemão Konrad Adenauer. 
Crack da Bolsa de Nova York, 1929

Há cem anos, viveu-se a primeira globalização econômica, que produziu tantas ilusões sobre o crescimento acelarado quanto sobre a inevitabilidade da "paz perpétua". Na sequência, veio a carnificina de 1914-1918 e a uma gravíssima crise econômica, social e política, que desembocou no Armaggedom de 1929, com o crack da Bolsa de Nova York. O mundo mergulhou nas sombras da Grande Depressão, dos totalitarismos e da Segunda Guerra Mundial. Só depois dessa tragédia de proporções bíblicas os líderes do mundo capitalista aprenderam alguma coisa e colocaram freios na especulação.


Foram os "30 gloriosos anos" do Welfare State (Estado de Bem-Estar Social), quando o capital especulativo foi controlado com rédea curta. Mas o modelo se esgotou e logo começou a se falar na necessidade de abrir a economia "às forças do mercado". Desde 1979, a desregulamentação virou regra e, com ela, novamente, a crença numa era de crescimento econômico único e de altos ganhos de produtividade. "A inevitável dinâmica da competição e integração econômica tornou-se a ilusão da nossa era [ela...] exclui implicitamente a política enquanto palco de escolhas", diz o historiador Tony Judt, recentemente falecido. É como se as opções de política econômica fossem determinadas pela natureza.

Esse consenso foi novamente abalado com a crise de 2008, quando foi a vez de o Muro de Wall Street vir abaixo. Em toda parte, o laissez-faire foi deixado de lado e o Estado convocado a socorrer os bancos e a restaurar as condições para a volta do funcionamento do cassino financeiro. Às custas dos cidadãos, claro. Se isso não mudar e o exemplo da Islândia não prosperar, as consequências poderão ser catastróficas. A crise não dá sinais de arrefecer na Europa e nos EUA, ao mesmo tempo em que os partidos xenófobos, neofascistas e o Tea Party estão à espreita.
E o pior, não há um Keynes ou um Roosevelt no horizonte.