segunda-feira, 11 de abril de 2011

FRANÇA: O APARTHEID REPUBLICANO

A França está assassinando os ideiais democráticos republicanos a pretexto de defender os valores da República. A proibição do uso do véu muçulmano, que entrou hoje em vigor em todo o país, representa uma punhalada nos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa e a volta dos fantasmas da França de Vichy. Ao determinar o veto ao uso público do niqab e da burca, o governo de Nicolas Sarkozy encampa as teses da direita xenófoba de Jean-Marie Le Pen na esperança de lhes reconquistar os votos. A ideia de que a proibição do véu islâmico é uma defesa do laicismo e da sociedade aberta é temerária: e se as mulheres muçulmanas usarem o véu por opção própria, contra a resistência de pais e maridos?

"Frequentemente, elas definem o uso do niqab ou da burca como parte de uma jornada espiritual, aproximadamente nos mesmos termos com que devotas cristãs ou judias de outros tempos talvez explicassem sua decisão de 'tomar o véu'", diz o escritor Timothy Garton Ash. É claro que existem muitas mulheres muçulmanas que usam essas vestes por pressão de pais, irmãos ou maridos. Mas neste caso, o Estado deveria dar condições para que elas pudessem denunciar a violência. Ao determinar a interdição ao uso dos trajes muçulmanos, o Estado francês está sendo tão intolerante quanto os extremistas islâmicos que se insurgiram contra a publicação de caricaturas de Maomé.

"Podemos não gostar de sua escolha. Podemos achá-la preocupante e ofensiva. Mas, à sua maneira, ela é uma forma de liberdade de expressão como os quadrinhos sobre Maomé - que estas mulheres, por sua vez, acham preocupantes e ofensivos. E este é o acordo tácito numa sociedade livre: a mulher que usa a burca precisa tolerar os quadrinhos; o quadrinista precisa tolerar a burca", continua Ash. 

A verdade é que a sociedade europeia, e a França em particular, jamais conseguiu integrar os "condenados da Terra" de suas antigas colônias que vieram para a metrópole.  Uma concepção dita politicamente correta, mas na verdade estúpida, o multiculturalismo, trocou a integração dos imigrantes nessas sociedades pela "preservação de seus valores tradicionais", confinando-os em guetos culturais, numa forma não-assumida de apartheid. Com isso, foi reforçado o domínios de clãs e famílias sobre os indivíduos e fechadas as portas da integração.

Agora, os herdeiros de Pétain dizem que estão protegendo a República laica...     

sexta-feira, 8 de abril de 2011

EU BEM QUE AVISEI...

A entrevista do ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira a Maria Inês Nassif, do Valor Econômico, na qual ele anuncia a saída do PSDB, confirma a ideia de que o governo FHC foi extremamente coerente com as teorias sociológicas de Fernando Henrique Cardoso - como este modesto escriba já postou aqui - e não uma negação daquilo que ele escreveu. Reproduzo a parte da entrevista da Maria Inês que se refere ao assunto:      

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Intelectual full-time desde que deixou o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, em 1999, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, depois da conturbada campanha eleitoral do ano passado, eliminou seu último vínculo com a política institucional: declarou-se desligado do PSDB, que, segundo ele, caminhou de forma definitiva para a direita ideológica, empurrado pela acomodação do PT na posição da social-democracia, da qual, ao longo de oito anos de governo Lula, acabou por desalojar os tucanos.

O desligamento partidário – que apenas não se concretizou na burocracia do partido por questões de ordem prática: Bresser-Pereira precisa ir pessoalmente ao diretório, para oficializar seu desencanto – marca também o retorno do intelectual à sua origem desenvolvimentista. Bresser-Pereira conta com satisfação ter sido influenciado diretamente pela escola do Iseb de Hélio Jaguaribe e Inácio Rangel, nos anos 50, e pela escola estruturalista cepalina de Celso Furtado. Foi a atração pelo desenvolvimentismo que o levou a abjurar o direito e tornar-se um economista e cientista social do desenvolvimento. Não sem desvios, reconhece. Bresser-Pereira não escapou à sedução do neoliberalismo, nos anos 90, como de resto toda a social-democracia europeia. Mas define uma diferença de origem entre ele e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, como intelectuais: o nacionalismo.

Para Bresser-Pereira, a teoria da dependência associada, de Fernando Henrique, não por intenção do autor, mas por conveniência do "império", caiu como uma luva para a esquerda americana. No governo, Fernando Henrique não se contradisse: a teoria da dependência associada pregava o crescimento do país com capital externo. O caráter não nacionalista dos governos tucanos era absolutamente compatível com a teoria da dependência associada do intelectual Fernando Henrique.


Ignácio Rangel
 Bresser-Pereira: [...] Para fazer esse paper, fui rever as ideias do Fernando Henrique. Eu sabia que ele tinha deixado de ser esquerda, mas eu também tinha deixado um pouco de ser esquerda. Eu continuava um pouco e ele tinha deixado de ser mais do que eu. Mas o que não era claro para mim era a parte nacionalista, a parte de poupança externa, essas coisas. Aí fui ler outra vez o livro clássico dele e do Enzo Faletto ("Dependência e Desenvolvimento na América Latina). E vi que Fernando Henrique estava perfeitamente coerente. O que é a teoria da dependência? É uma teoria que vai se opor à teoria cepalina, ou isebiana, do imperialismo e do desenvolvimentismo, que defende como saída para o desenvolvimento uma revolução nacional, associando empresários, trabalhadores e governo, para fazer a revolução capitalista. O socialismo ficava para depois. A teoria da dependência foi criada pelo André Gunder Frank, um notável marxista alemão que estudou muitos e muitos anos na Bélgica e que em 1965 publicou um pequeno artigo chamado "O desenvolvimento do subdesenvolvimento", brilhante e radical. É a crítica à teoria da revolução capitalista, à teoria da aliança da esquerda com a burguesia. É a afirmação categórica de que não existia, nunca existiu e nunca existiria burguesia nacional no Brasil ou na América Latina.

André Gunder Frank
No Brasil, os seguidores de Gunder Frank eram o Ruy Mauro Marini e o Teotônio dos Santos, mas no final, e curiosamente, o seguidor deles mais ilustre vai ser o Florestan Fernandes maduro. Eles concordam que não existe burguesia nacional. Quando a burguesia nacional é compradora, entreguista, associada ao imperialismo, a única solução é fazer a revolução socialista. É bem louco, mas é lógico. Aí vieram o Fernando Henrique e o Enzo Faletto e disseram que havia alternativa, a dependência associada. Ou seja, as multinacionais é que seriam a fonte do desenvolvimento brasileiro, cresceríamos com poupança externa. Era a subordinação ao império. Claro que o império ficou maravilhado. A teoria da dependência foi um grande sucesso – e tem um artigo realmente engraçado do Fernando Henrique, em que ele fala com surpresa da grande recepção que teve a teoria da dependência associada nos Estados Unidos. Ele é um homem inteligente e correto, não estava fazendo uma adesão, mas o fato concreto é que os outros liam e faziam suas interpretações. Na prática, era uma maravilha: a esquerda americana, que se reúne nas conferências da Latin America Student Association, nos Estados Unidos, encontrava um homem democrático de esquerda que via nos Estados Unidos um grande amigo na luta pela justiça social. Quando fiz essa revisão, estava começando a romper com o PSDB.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

FLORES DO MAL

As Litanias de Satã


Ó tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,
Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,
E que, vencido, sempre te ergues mais brutal,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,
Charlatão familiar das humanas insânias,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que, mesmo ao leproso, ao paria infame, ao réu
Ensinas pelo amor as delícias do Céu,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que da morte, tua velha e forte amante,
Engendraste a Esperança, - a louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar
Que faz ao pé da forca o povo desvairar,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que bens sabes onde é que em terras invejosas
O Deus ciumento esconde as pedras preciosas.

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios,
Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, magicamente, abrandas como mel
Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre
De poder misturar ao enxofre o salitre,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, abrindo a alma e o olhar das raparigas a ambos
Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Do exilado bordão, lanterna do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre
O deus Padre, expulsou do paraíso terrestre


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


 
Remorso póstumo

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Em teu negro e mamóreo mausoléu, e não
Tiveres por alcova e refúgio senão
Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;


Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa
E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,
Impedir de querer e arfar teu coração,
E teus pés de correr por trilha aventurosa,

O túmulo, no qual em sonho me abandono
- Porque o túmulo sempre há de entender o poeta -,
Nestas noites sem fim em que nos foge o sono,

Dir-te-á: "De que valeu, cortesã indiscreta,
Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?"
- E o verme te roerá como um remorso lento


A Alma do Vinho

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!


Bem eu sei quanto custou, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,


Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À goela do homem que já trabalhou demais,
E sei peito bastante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.


Não ouves retirar a domingueira toada
E esperanças chalrar em meu seio, febris?
Cotovelos na mesa a manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te da esposa embevecida;
A teu filho farei a força e a cor
E serei para tão terno atleta da vida
Como o óleo e os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!"

Charles Baudelaire
Tradução de Guilherme de Almeida e Ivan Junqueira)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

UM LIBERAL DE ANTANHO


Um déspota absolutista
O primeiro imperador do Brasil, D. Pedro I, abdicou no dia 7 de abril de 1831. O autocrático monarca, que alguns agora querem transformar em estadista visionário, foi obrigado a pedir o boné sob pressão da opinião pública – pequena, mas muito combativa à época. O estopim da abdicação foi o assassinato do jornalista liberal Libero Badaró por um sicário. Suspeita-se que o imperador tenha sido o mandante do crime contra o grande agitador das “massas” da época, ocorrido em 20 de novembro de 1830. Dom Pedro era um déspota contumaz. As más línguas diziam que em 1824, quando fechou a Assembleia Constituinte a ponta de baionetas e outorgou a sua própria Carta Magna ao país, Sua Majestade Imperial teria ameaçado: “enforcarei os liberais na Praça da Constituição!” Não chegou a tanto, mas elimiou o principal deles. Ficou na História a frase de Libero Badaró; ao ser mortamente baleado, ele disse: “morre um liberal, mas não morre a liberdade!” Que diferença dos liberais de hoje em dia...
 
O liberal Líbero Badaró
 Italiano de nascimento e médico por formação, Libero Badaró fundou em 1829 o jornal “Observador Constitucional” para denunciar os desmandos do despotismo imperial. Conclamava os brasileiros a seguir o exemplo dos franceses que, na Revolução de 1830, depuseram o rei absolutista Charles X. No mesmo ano D. Pedro I sancionou uma nova lei de imprensa que instituiu graves penalidades em caso de “injúria” ao imperador – penas de até nove anos de detenção e pesadas multas. Nas páginas de seu jornal, Badaró ecoava também o debate que se travava nos EUA sobre a Primeira Emenda da Constituição americana, que impede o Congresso de criar leis que limitem os direitos à liberdade de expressão, de imprensa, de religião, de reuniões pacíficas e de fazer petições.

Abaixo, um trecho publicado no "Observador Constitucional". Não foi possível verificar a data de publicação.
"Suprimam-se os abusos

Incapazes de resistir à evidência dos argumentos positivos sobre que se apóia a necessidade de imprensa, os amigos das trevas se vestem da capa da moral e do sossego público, apontam os abusos desta liberdade, a calúnia, a difamação, as provocações diárias, os achincalhes continuados, que tornam a vida um suplício. E, meu Deus! Os abusos? E do que se não abusa neste mundo? Forte raciocínio! E porque se abusa de uma qualquer coisa, já, já suprima-se? E aonde iríamos com estas supressões? Um mau juiz abusa do seu ministério: suprima-se a magistratura; um mau sacerdote abusa da religião: suprima-se a religião; um mau marido abusa do matrimônio: suprima-se o matrimônio! Forte raciocínio, dizemos outra vez! Suprimam-se os abusos que será melhor. A lei contra os abusos existe; sirvam-se dela; e se não é boa, faça-se outra; e liberdade a todos de esclarecerem os legisladores, pela imprensa livre.”

Desde 1931, o dia 7 de abril é também o Dia do Jornalista.


terça-feira, 5 de abril de 2011

HISTÓRIA BILATERAL DA INFÂMIA


O casal Julius e Ethel Rosenberg
Em 6 de abril de 1951, Julius e Ethel Rosenberg, judeus americanos residentes em Nova York, foram condenados à morte por espionagem em favor dos soviéticos. Eles eram acusados de participar de um esquema que passou à URSS os segredos da bomba atômica. Pouco mais de dois anos depois, em 19 de junho de 1953, eles seriam executados na cadeira elétrica da prisão de Sing Sing. O caso se tornaria uma das causes cérèbres que agitaram a consciência democrática do mundo, ao lado do Affaire Dreyfus, na França, e de Sacco e Vanzetti, na própria América dos anos 1920. Durante muito tempo se acreditou que os Rosenbergs tinham sido vítimas inocentes da Guerra Fria. Documentos recentes dos arquivos da ex-URSS, contudo, confirmam que o casal - ou pelo menos Julius - chefiava um grupo de espiões ligados ao Partido Comunista americano que realmente trabalhou para os soviéticos. Os Rosenberg morreram sem jamais terem admitido sua culpa. Eles traíram o país, é verdade, mas o fizeram porque acreditavam numa causa - o comunismo. Da mesma maneira que fizeram Kim Philby e os "cinco de Cambridge". Mas o casal Rosenberg pagou com a vida por suas convicções. 

O que causa espécie nessa história é a manipulação do drama dos Rosenberg pelos governos dos EUA e da URSS. Os americanos viviam o auge da caça às bruxas promovida pelo maccartismo e a execução do casal era tida como fundamental - pelo FBI e pela corja de direitistas que dominava o Congresso - para servir de exemplo na luta contra o comunismo. O julgamento dos Rosenberg foi uma farsa judicial que não resistiria a uma revisão honesta, porque as autoridades americanas não queriam revelar a verdadeira prova que incriminaria o casal, o Projeto Venona, uma ação da inteligência que desvendou os códigos das mensagens trocadas pelos agentes do NKDV - depois KGB. Essa decifragem permitiu ao FBI desbaratar o grupo de espiões, mas como o governo optou por manter a descoberta em segredo, a condenação foi feita com base em evidências frágeis e testemunhos que depois seriam desmentidos. 

Rudolf Slansky no tribunal de Praga

Moscou, por outro lado, armou tardiamente um estardalhaço em torno do caso acusando os EUA de antissemitismo apenas porque tinha necessidade de colocar uma cortina de fumaça sobre seu próprio antissemitismo, o Processo Slansky, que ocorria na Tchecoslováquia sovietizada na mesma época. Naquele processo, foram presos sob acusação de alta traição Rudolf Slansky, secretário-geral do PC Tchecoslovaco, e outros treze altos dirigentes comunistas - 11 dos quais, entre eles Slansky, eram judeus. Num julgamento-espetáculo digno dos Processos de Moscou dos anos 1930 na URSS, os réus foram acusados de serem "burgueses, sionistas e tititas (adeptos do líder iugoslavo Josip Tito)". Onze dos acusados - oito dos quais judeus - foram condenados e executados. O episódio é contado no filme A Confissão, de Costa-Gravas.
      

segunda-feira, 4 de abril de 2011

QUANDO A ONU FALAVA GROSSO

Houve época em que o secretário-geral 
Dag Hammarskjöld, secretário-geral da ONU 
da ONU tinha voz própria e não era um mero serviçal dos poderosos, como a grande maioria dos que passaram pelo cargo. Há quase 50 anos, em setembro de 1961, morria num acidente aéreo nas selvas do Congo o sueco Dag Hammarskjöld, eleito para o cargo em 1953. Nos oito anos em que ele chefiou a ONU, não teve dúvidas de enfrentar as superpotências para impor o que ele considerava serem “os interesses da comunidade internacional”.

Tropas da ONU em Suez, 1956
Em 1955, por exemplo, Hammarskjöld foi à China e negociou a libertação de 15 pilotos americanos que tinham sido capturados pelos chineses na Guerra da Coreia (1950-1953). Mas seu grande teste ocorreu em outubro de 1956, quando eclodiu a Guerra de Suez. O presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, nacionalizara o Canal de Suez, que era administrado por empresas britânicas e francesas. As duas potências coloniais europeias elaboraram então um plano secreto pelo qual tropas de Israel invadiriam o Egito e uma força anglo-francesa interviria para “restaurar a ordem”. Hammarskjöld se opôs decididamente à operação e ameaçou a França e a Grã-Bretanha com intervenção militar da ONU. É verdade que ele obteve o apoio dos EUA, irritados com a aventura colonialista de seus aliados da Otan. Mas o que permitiu ao secretário-geral agir dessa maneira foi o estabelecimento de uma força independente, a United Nations Emergency Force (UNEF), proposta pelo então chanceler canadense Lester B. Pearson. Essa força permitiu a Hammarskjöld realizar ações militares de emergência sem aprovação prévia do Conselho de Segurança ou da Assembleia Geral. A guerra de Suez foi o canto de cisne do colonialismo europeu, cujo lugar doravante seria ocupado por EUA e URSS.

Nikita Kruchóv na ONU

Em 1960, depois de décadas de dominação, a Bélgica concedeu independência ao Congo Belga. Líder da luta anticolonial, Patrice Lumumba assumiu a chefia do governo em junho. Mas os belgas tinham urdido o plano de ficar com a província de Katanga, rica em petróleo. Com o apoio da metrópole e um exército de mercenários brancos, Moisés Tshombé declarou a independência de Katanga e iniciou uma guerra civil. Hammarskjöld enviou ao Congo uma força da ONU de 20 mil homens para restabelecer a ordem, mas recusou-se a colocá-la sob o comando de Lumumba, como queriam os soviéticos. A recusa provocou a ira do então dirigente soviético Nikita Kruchóv, que protestou batendo um sapato em sua mesa na Assembleia Geral da ONU.

Patrice Lumumba foi deposto e entregue às forças de Tshombé, que o mataram em 17 de janeiro de 1961, com a colaboração de agentes belgas e da CIA. Em fevereiro, a ONU autorizou as Forças de Paz a usar a força militar para deter a guerra civil. Os capacetes azuis atacaram Katanga, o que provocou a fuga de Tshombé, que se refugiou na Rodésia do Norte (atual Zâmbia). No dia 17 de setembro, Hammarskjöld rumou para lá para discutir o cessar-fogo com Tshombé quando seu avião DC-6B caiu pouco depois de decolar.
Massacre em Srebrenica, Bósnia, 1995 

Até hoje não foram encontradas evidências de que o acidente teria sido um atentado, mas a hipótese nunca foi inteiramente descartada. O fato é que, depois de Hammarskjöld, nenhum outro secretário-geral da ONU teve tanta coragem e independência. Depois da sua morte, o então presidente John F. Kennedy disse que se arrependeu de ter se oposto à política da ONU no Congo: “eu compreendo agora que, em comparação a ele, eu sou um pequeno homem. Hammarskjöld é o maior estadista do nosso século”. Seus sucessores foram burocratas medíocres e suservientes como o atual (Ban-Ki-moon) ou um nazista envergonhado como Kurt Waldheim. Nos conflitos no Vietnã, Afeganistão, Líbano, Iraque e Líbia, a ONU foi mera espectadora. E onde interveio, como na Bósnia, não conseguiu evitar massacres como o de Srebrenica (1995), quando bósnios foram massacrados por sérvios em uma zona protegida pela ONU.   

sexta-feira, 1 de abril de 2011

FAVORITOS

Divisa


Minha divisa principal (tenho mais de uma) é: Eu faço aquilo que posso –


com essa significação de que eu vivo profundamente aquilo que não posso.






Eu me amo em ato; eu me odeio em potência.


Paul Valéry (1871-1945)




O que há


Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,


Porque eu desejo impossivelmente o possível,


Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,


Ou até se não puder ser...




Tabacaria



Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.



Álvaro de Campos (1890-1935)


THE SECOND COMING

Turning and turning in the widening gyre


The falcon cannot hear the falconer;


Things fall apart; the centre cannot hold;

Mere anarchy is loosed upon the world,

The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere

The ceremony of innocence is drowned;

The best lack all conviction, while the worst

Are full of passionate intensity



(A Segunda Vinda


Girando e girando a voltas crescentes

O falcão não escuta o falcoeiro.

Tudo se parte; o centro não sustenta.


Mera anarquia avança sobre o mundo,


Marés sujas de sangue em toda parte


Os ritos da inocência sufocados.

Os melhores sem suas convicções,


Os piores com as mais fortes paixões)


W. B. Yeats (1865-1939)






Desencanto


Eu faço versos como quem chora


De desalento... de desencanto...


Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.





Meu verso é sangue. Volúpia ardente...


Tristeza esparsa... remorso vão...


Dói-me nas veias. Amargo e quente,


Cai, gota a gota, do coração.





E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,


Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.




Arte de Amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.


A alma é que estraga o amor.


Só em Deus ela pode encontrar satisfação.

Não noutra alma.


Só em Deus — ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.






NU


Quando estás vestidas,


Ninguém imagina


Os mundos que escondes


Sob as tuas roupas.





(Assim, quando é dia,


Não temos noção


Dos astros que luzem


No profundo céu).






Mas a noite é nua,


E, nua na noite,


Palpitam teus mundos

E os mundos da noite.




 O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais


Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas


Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos


A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira(1886-1968)




VERDADE

A porta da verdade estava aberta,


mas só deixava passar


meia pessoa de cada vez.




Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava


só trazia o perfil de meia verdade.


E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.




Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.




Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade(1902-1987)