quarta-feira, 2 de março de 2011

O VELHO E BOM HORACIO


Horacio González, sociólogo marxista admirador de Nietzsche e...Evita
 Conheci Horacio González quando estudava sociologia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, entre 1979 e 1982. Ele era professor de Filosofia, intelectual brilhante, marxista de cabeça aberta, bom papo, leitor de Nietzsche e... simpatizante dos Montoneros, a extrema esquerda do peronismo, cujas origens eram católicas ultramontanas. Certa vez, eu lhe disse que não conseguia compreender como uma pessoa tão sofisticada como ele poderia ser próxima dos Montoneros e, pior, se dizer admirador de Evita Perón. Para mim, então jovem estudante metido a revolucionário, ser peronista representava um monumental atraso político e ideológico (continuo achando isso, mas matizei um pouco meu julgamento. Na época, eu estava muito influenciado pelas leituras críticas do “populismo latino-americano” feitas pelos uspianos - Weffort, FHC, Ianni. Hoje, acho que esses caras não entenderam nada ou quase nada). Calmamente, Horacio me explicou que esse sentimento não era algo definível em termos cartesianos, tinha muito a ver com o pathos, a paixão argentina. Torci o nariz, mas depois ele escreveu uma pequena biografia de Evita para a coleção Primeiros Passos, da Brasiliense. O texto era apaixonante e persuasivo e acabei entendendo a posição dele, embora politicamente eu não estivesse convencido.
Escritores têm duas facetas - o que não quer dizer,
 necessariamente, que tenham duas caras 

Nós, alunos da “socióca”, amávamos o Horacio. Mas depois do fim da ditadura (lá), em 1983, ele acabou voltando para sua Argentina querida. Nunca mais ouvi falar dele. Hoje, lendo o site operamundi, descobri que Horacio é diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. E que se envolveu numa polêmica a respeito da vinda do escritor peruano Mario Vargas Llosa para abrir a 37ª Feira do Livro em Buenos Aires. Vários intelectuais, entre eles o Horacio, criticaram a escolha. Segundo o operamundi, “o diretor da Biblioteca Nacional foi uma das vozes mais contundentes contra a opção pelo escritor e tomou a dianteira com um e-mail destinado ao presidente da Câmara Argentina do Livro (CAL), Carlos De Santos, com o qual pediu que escolha fosse reconsiderada. Segundo ele, muitos autores argentinos podem representar ‘um horizonte comum de ideias, sem o messianismo autoritário’ de Llosa ‘dos círculos mundiais da direita mais agressiva’. Em entrevista ao jornal Tiempo Argentino, González afirmou que ‘o convite a Vargas Llosa é uma ofensa à cultura argentina’. Mesmo após ter afirmado apreciar a literatura do peruano, o diretor afirmou que ‘existem dois Vargas Llosa: o grande escritor que todos festejamos e o militante que não pestaneja nem um segundo para atacar os governos populares da região’".

Cristina, postura democrática
O site informa também que a presidenta Cristina Kirchner pediu ao Horacio que reconsiderasse seu protesto contra o escritor peruano. “Por meio de uma carta destinada a Gustavo Canevaro, presidente da Fundação El Libro, organizadora da feira, González afirmou que recebeu uma ligação da chefe de Estado em que a mesma defendia ‘a substância, a forma e a pertinência do debate democrático em todos os planos de seu significado’. Segundo relata a carta, divulgada pelo chefe de gabinete do governo, Aníbal Fernández, Cristina pediu que o diretor retirasse seu protesto enviado anteriormente e afirmou que a discussão quanto ao protagonismo de Llosa em um dos eventos culturais mais importantes do país ‘não pode deixar a mínima dúvida da vocação à liberdade de expressão de ideias políticas na Feira do Livro, nas circunstâncias que sejam e tal como suas autoridades definiram’”. Ainda segundo o operamundi, “a resistência dos intelectuais simpáticos ao governo Kirchner se deve a recentes declarações do Nobel. Para o jornal italiano Corriere della Sera, o peruano afirmou: ‘Cristina é um desastre completo. A Argentina está conhecendo a pior forma de peronismo, populismo e anarquia. Temo que seja um país incurável’”.
A postura democrática da presidenta argentina contrasta com o preconceito oligárquico e direitista de Vargas Llosa. Por outro lado, eu entendo a posição do Horacio: trata-se de separar o escritor de sua obra, sem condenar uma pelo outro. Borges, Ezra Pound e Céline eram politicamente quase fascistas, mas isso não diminui o valor de suas obras literárias. Mas também não dá pra ignorar suas posições políticas. O Horacio, de qualquer forma, continua lutando o bom combate. Depois disso, li uma entrevista em que ele defende a Ley de Médios, que tanta urticária causa na grande mídia - que, lá como cá, é oligopólica e ciosa de seus privilégios.

Nestes anos todos, vi tanta gente que “amava os Beatles e os Rolling Stones” se transformar em algo próximo à Opus Dei que é muito bom saber que velhos amigos – ou no caso, professores – mantêm a coerência e a combatividade depois de tanto tempo.


veja o site operamundi:
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticia/CRISTINA+KIRCHNER+PEDE+QUE+DIRETOR+DE+BIBLIOTECA+NACIONAL+RETIRE+PROTESTO+CONTRA+VARGAS+LLOSA_10075.shtml

Intervenções recentes de Horacio González:




terça-feira, 1 de março de 2011

VOTO DISTRITAL: O NOVO CORONELISMO?

O Congresso recém-instalado volta a ventilar a questão da reforma política. Esse é um daqueles temas recorrentes, que, ao lado de outros – reforma tributária, trabalhista e previdenciária – são vendidos como panaceia para os males do país. Mas as propostas da reforma política que estão sendo discutidas atualmente, inclusive as veiculadas por parlamentares do PT, são preocupantes. Sem maiores discussões, fala-se na adoção do voto distrital e do sistema de lista fechada para "fortalecer os partidos". Voto distrital é o voto majoritário, aquele em que o partido que ganhar leva todas as cadeiras. Mas nossos políticos falam em "voto distrital misto", sistema que elegeria metade dos deputados pelo voto distrital e metade pelo proporcional. Só que a metade a ser eleita pelo sistema proporcional sairia de uma lista fechada dos partidos. Isso significaria, a meu ver, o pior dos mundos: o voto distrital falseia a representação popular, fortalece as oligarquias e beneficia apenas os grandes partidos; o voto em lista fechada abre a porta para que apenas os escolhidos pela burocracia partidária sejam eleitos. Dessa maneira, estaríamos cassando a soberania popular depois de termos lutado tanto e tanto tempo por ela. Abaixo, reproduzo um artigo do jurista Sérgio Resende de Barros que me parece bastante esclarecedor para o debate sobre os limites do voto distrital (a questão do voto em lista fechada será objeto de outra postagem):


“Em virtude de sua própria natureza, conforme se acabou de definir, o voto distrital padece do mesmo mal que afeta a todos os sistemas majoritários, qual seja, as minorias vencidas ficam à míngua de uma representação própria e específica. O voto distrital significa, assim, retorno a uma superada concepção do liberalismo clássico: o eleitorado-função. [...] tal prática de um eleitorado-função, obrigado a votar meramente para cumprir um dever para com o Estado, tende a incidir na corrupção. Por outro lado, o próprio candidato eleito muitas vezes é levado a defender os interesses daqueles que o elegeram, menosprezando os interesses da minoria vencida, a qual fica à míngua de representação e de proteção.

Por último, voto distrital e partidos políticos. Existem três situações políticas básicas de um Estado quanto ao número de partidos políticos existentes na sua ordem jurídica. É o que (Maurice) Duverger chama de ‘sistemas de partidos’, que basicamente são três: o unipartidarismo, ou partido único, o bipartidarismo, dois partidos, e, quando há mais de dois, o pluripartidarismo ou multipartidarismo. [...]

Maurice Duverger

Analisando a influência do sistema eleitoral sobre o sistema de partidos, Maurice Duverger formulou as suas célebres três leis. É interessante enunciar e fixar essas três leis, porque elas representam uma excelente contribuição do grande jurista e sociólogo francês à teoria dos partidos políticos e do relacionamento dos partidos com o sistema eleitoral. A primeira lei diz: a representação proporcional tende à formação de partidos múltiplos e independentes. A segunda lei diz: o escrutínio majoritário em dois turnos tende à formação de partidos múltiplos e dependentes. A terceira lei fala do escrutínio majoritário em um só turno, afirmando que tende ao dualismo partidário, à formação e aglomeração em dois partidos.

Bush teve menos votos mas levou

Agora, pela análise da correlação entre voto distrital e essas três leis de Duverger, chega-se a conclusões interessantes, que devem ser tomadas como propostas de polêmica, para atiçar o debate. Conclui-se que, por ser um sistema majoritário, o voto distrital não favorece a formação de partidos independentes. Se for praticado em dois turnos, dentro de um sistema majoritário, o voto distrital poderá levar à formação de partidos múltiplos, porém dependentes. Continue-se aplicando as três leis de Duverger. Se o voto distrital for processado em um só turno, conforme o modelo anglo-saxão, praticado na Inglaterra e nos EUA, ele poderá conduzir a um fechado bipartidarismo, como ocorre nesses dois países há mais de cem anos.

Por último, voto distrital e democracia. Apenas há que frisar dois aspectos. De um lado, alguns dizem que o voto distrital favorece a coesão e o diálogo entre eleitores e eleitos, permitindo até mesmo a cobrança muito rigorosa dos eleitores sobre o comportamento dos eleitos. O grande elogio ao voto distrital é: ele estreita o diálogo e a cobrança democrática entre os eleitores e os eleitos. Mas, por outro lado, não são poucos os que advertem sobre o alto potencial corruptivo do voto distrital. Esse perigo aumenta nos países em desenvolvimento, nos quais a falta de maturidade cultural e a pobreza podem acumular-se com o apequenamento das circunscrições eleitorais para facilitar o mercadejamento de votos, bem como o desenvolvimento de um coronelismo distrital, reavivando procedimentos políticos, já em extinção, baseados no poder econômico ou no temor reverencial.


Sarney, do Maranhão ao Amapá
Nesse sentido são ilustrativos certos exemplos recentes de candidatos que se mudaram para circunscrições eleitorais mais remotas, menores, de menor maturidade cultural ou estabilidade econômica, buscando ganhar ali eleições majoritárias ou até mesmo proporcionais com uma vitória fácil que não teriam na sua terra de origem ou noutra terra mais desenvolvida, mais amadurecida e mais ampla. Tem ocorrido que alguém transfira seu domicílio eleitoral para outro Estado remoto da Federação, pretendendo eleger-se por lá. Evidentemente, o poder econômico facilita esses engodos. Por isso mesmo, é que até os adeptos do voto distrital não deixam de ad cautelam propô-lo sob uma forma mista. Não se chega a ter a coragem de propor um voto distrital integral: sempre se fala em voto distrital misto, reservando pelo menos a metade para a mantença do regime proporcional.

Em síntese, exatamente para aguçar um contraditório, tragam-se à consideração duas conclusões. Juridicamente parece que, aceitas as leis de Duverger, o voto distrital não é a solução mais adequada para chegar ao pluritarismo político-partidário e manter uma república pluritarista. Ele tende mais ao bipartidarismo ou a um multipartidarismo fracionado e dependente, provocando alianças, como já tem acontecido em eleições presidenciais majoritárias em dois turnos, realizadas no Brasil ou em países vizinhos, nas quais o Presidente eleito, ou simplesmente não tem partido em que esteja tradicionalmente inscrito e atuante, ou então o seu partido perde algo de suas tradições ou de sua ideologia para ganhar a eleição. Em ambos os casos, falece a autenticidade.

Politicamente, tendo em consideração o atual estágio de desenvolvimento econômico-social e político-cultural desta república brasileira, sobretudo os graves problemas econômicos e sociais por que ela passa, sem grande perspectiva de sair e com muita perspectiva de neles afundar mais, talvez o voto distrital não venha a contribuir para o aprimoramento da democracia representativa no Brasil. Ao contrário, como já se advertiu, e são muitos os que advertem, poderá propiciar, sobretudo em regiões mais remotas, menos favorecidas pela sorte econômica, o recrudescimento de práticas de corrupção e de desvios eleitorais, quem sabe reavivando um verdadeiro coronelismo distrital; práticas essas que, apesar de todos os pesares, já estão sendo superadas pela evolução histórica do Brasil.”

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O DIA EM QUE A ESPANHA TREMEU


Tejero Molina, o tenente-coronel golpista e fanfarrão

E já que estamos falando de efemérides, passou completamente em branco aqui no Brasil os 30 anos da tentativa de golpe militar ocorrida na Espanha em 23 de fevereiro de 1981, lá conhecido como 23F. Na época a Espanha vivia um processo de transição para a democracia, depois de 36 anos de ditadura franquista. Como pano de fundo, uma grave crise econômica açoitava o país. Setores significativos das Forças Armadas se opunham ao desmonte do franquismo comandado pelo primeiro-ministro Adolfo Suárez. A legalização do Partido Comunista, em 1977, por exemplo, causou forte comoção no Exército.

O golpe foi articulado pelos generais Jaime Milans del Bosch e Alfonso Armada e executado por um fanfarrão, o tenente-coronel Tejero Molina, da Guarda Civil, que fizera uma tentativa de quartelada três anos antes. Esse sujeito invadiu as Cortes (Parlamento) com vários soldados da Guarda Civil no dia em que seria votada a substituição do primeiro-ministro Adolfo Suárez. As cenas são impagáveis: com a pistola na mão, Tejero grita, gesticula e ordena a todos os deputados que se abaixem no chão. O vice-presidente do governo, general Gutierrez Mellado, valendo-se de sua patente, repreende Molina e exige que os soldados deponham as armas. Os soldados respondem com tiros. Mellina fica em pé, enquanto o premiê Adolfo Suárez e Santiago Carrillo, líder do Partido Comunista, são os únicos deputados a permanecer sentados. Enquanto isso, o general Milans del Bosch sublevava-se em Valência.

O rei Juan Carlos I exige respeito à democracia
A atitude firme do rei Juan Carlos I - que fora escolhido por Franco para sucedê-lo e por isso pesavam dúvidas sobre sua lealdade à democracia - foi fundamental para o fracasso do golpe. Em uniforme militar de capitão-geral dos Exércitos - ou seja, comandante-em-chefe das Forças Armadas - chamou os militares à ordem, desautorizou-os e exigiu respeito à Constituição democrática aprovada em referendo pelo povo espanhol. Foi o golpe no golpe, já que os golpistas diziam estar agindo em nome da monarquia e dos "valores eternos" da Espanha franquista. O rei lhes puxou o tapete e o golpe fracassou. A experiência uniu os partidos democráticos de centro, direita e esquerda na tarefa de consolidar a transição à democracia. E Juan Carlos se legitimou como monarca. A tal ponto que socialistas e comunistas, historicamente republicanos - na guerra civil espanhola, a esquerda era republicana e a direita, monárquica - se converteram à monarquia...

O 23F

UM REFORMISTA REVOLUCIONÁRIO


Olof Palme (1927-1986)
Hoje completam-se 25 anos do assassinato do líder social-democrata sueco Olof Palme. Ele foi alvejado por um atirador solitário quando saía com sua mulher, Lisbet, de um cinema em Estocolmo. Não tinha guarda-costas e foi socorrido por transeuntes. Até hoje a autoria e os motivos do crime são um mistério. Na falta de evidências, sobraram teorias conspiratórias; Palme teria sido assassinado: a) pelo Mossad; b) pela CIA; c) pelos serviços secretos sul-africanos; d) pelo grupo de extrema esquerda alemão Bader-Meinhof; e)pela guerrilha curda; f) por um ex-agente da Dina (polícia política de Pinochet); g) pelo serviço secreto iugoslavo; h) por um pistoleiro isolado; i) etc. etc.  

Olof Palme e Yasser Arafat: o Mossad certamente não gostava dele
Motivos para ele ser morto por qualquer uma dessas entidades, de fato, não faltavam. Como primeiro-ministro da Suécia (1969-1976 e 1982-1986) Palme foi descrito como "reformista revolucionário". Sua política externa independente irritou particularmente os Estados Unidos: ele foi um crítico feroz do envolvimento norte-americano no Vietnã e da corrida armamentista (mas também havia criticado duramente o esmagamento da Primavera de Praga em 1968 pelos soviéticos). Apoiou politica e financeiramente o Congresso Nacional Africano (CNA, considerado "terrorista" pelo regime do apartheid), a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), a guerrilha esquerdista salvadorenha - que lutava contra um governo apoiado por Washington - e o governo sandinista da Nicarágua. Também se tornou um inimigo figadal da ditadura chilena do general Pinochet. Mas o que teria irritado particularmente os norte-americanos foi a denúncia que Palme fez do contrabando de armas patrocinado por Washington para fins escusos, que resultaria no chamado escândalo Irã-Contras: a operação comandanda pelo coronel Oliver North de compra ilegal de armas do regime dos aiatolás para revendê-las à guerrilha dos "contras" nicaraguenses, financiada pelos EUA. 

Internamente, Olof Palme foi um social-democrata de velha cepa. Implementou leis que aumentaram a garantia de emprego, dificultando as possibilidades de os empresários despedirem seus empregados - uma heresia para os atuais idólatras do mercado, especialmente social-democratas. Palme também liderou grandes reformas constitucionais, abolindo o Senado, acabando com o que restava dos poderes constitucionais da monarquia e com a exigência de linhagem masculina para a sucessão real. 

O socialista francês Léon Blum
Uma "vingança" póstuma de seus inimigos surgiu há alguns anos, quando um ex-agente da CIA afirmou que Palme teria ajudado a agência americana no tempo em que era líder estudantil, nos anos 1950. A denúncia nunca foi comprovada, mas mesmo que seja verdadeira, a ação anti-imperialista que Palme desenvolveu quando se tornou um político importante e chegou ao poder neutralizou qualquer eventual açodamento juvenil. Recém formado, Palme de fato viveu alguns anos nos Estados Unidos; posteriormente ele diria que aquela experiência na América - o contato com o racismo e as desigualdades na "terra de oportunidades" - fez dele um socialista. Seu legado político radical o coloca na linhagem de autênticos socialistas como Jean Jaurès, Léon Blum, Enrico Berlinguer e Willy Brandt,do mesmo modo como causa constrangimento a neoliberais travestidos de social-democratas como Felipe González, Tony Blair, Massimo D'Alema e Lionel Jospin.  

 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

OS BÁRBAROS JÁ SE INSTALARAM


Protestos em Madison, Wisconsin
A Assembleia Legislativa de Wisconsin aprovou uma lei que proíbe negociações coletivas entre servidores públicos e o estado. Segundo os termos da nova legislação, os trabalhadores sindicalizados terão que votar ano a ano se autorizam o sindicato de seu setor a representá-los, enfraquecendo as centrais. A lei também proíbe debitar taxas sindicais diretamente do salário dos funcionários, o que poderá quebrar muitas entidades que têm nas taxas a principal forma de sobrevivência. O objetivo da medida, defendida pelos ultraconservadores do Tea Party, seria reduzir o déficit fiscal do estado. Na verdade, ela golpeia o poder dos sindicatos, como disse o presidente Barack Obama.

Paul Krugman
Na avaliação do Nobel de Economia Paul Krugman, colunista do jornal The New York Times, a proposta do governador Scott Walker representa um “sério ataque contra direitos democráticos conquistados nos últimos 50 anos”. Para ele, “o que está acontecendo no Wisconsin é o fim do processo democrático. Em princípio, qualquer cidadão americano é igual aos demais. Na prática, claro, alguns são mais iguais que outros. Bilionários podem colocar em campo seus exércitos de lobistas; eles podem financiar políticos que os defendem [...]. No papel, nós somos uma nação 'um homem-um voto'; na realidade, o sistema é uma oligarquia em que um punhado de ricos dominam. Dada essa realidade, é importante ter instituições que possam agir como contrapesos ao poder do grande capital. E os sindicatos estão entre as mais importantes dessas instituições. Você não precisa amar os sindicatos, nem precisa acreditar que as posições políticas deles estão sempre corretas para reconhecer que eles são um dos poucos atores influentes do nosso sistema político, e que representam os interesses da classe trabalhadora e da classe média americana em oposição aos da riqueza. De fato, se os Estados Unidos se tornaram mais oligárquicos e menos democráticos nos últimos 30 anos isso se deve, em grande medida, ao declínio do poder dos sindicatos”, conclui o economista.

Robert S. La Follette
A ironia é que o Wisconsin foi o estado americano pioneiro em direitos trabalhistas. Durante o governo de Robert S. La Follette (1901-1906), foram implantadas leis criando o salário mínimo e compensações por desemprego. Representante da ala progressista do Partido Republicano, La Follette fundou um clã liberal - no sentido americano - que liderou a política do Estado durante décadas. Como senador, fez várias leis contra as grandes corporações. Seu filho, Philip La Follette, também foi governador (entre 1931 a 1933 e 1935 a 1939) de Wisconsin, sendo o responsável pela implementação de várias leis keynesianas do New Deal no Estado.

Os bárbaros já se instalaram. O império está à deriva?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

QUANDO OS ALIADOS SE TORNAM INCÔMODOS

A guerra de Hitchens
Que as preocupações americanas com os direitos humanos sempre foram politicamente motivadas é um segredo de polichinelo. Mas o trauma do 11 de setembro fez com que parte da intelligentsia liberal nos Estados Unidos, Reino Unido e até da França abraçasse o messianismo de Bush e seus neocons: em 2003, quando Tio Sam invadiu o Iraque sob o pretexto fajuto de encontrar “armas de destruição em massa”, intelectuais progressistas, ou outrora progressistas, como Christopher Hitchens, Paul Berman e Bernard Kouchner, entre outros, escreveram rios de tinta para defender não apenas aquela invasão, mas o princípio ideológico de intervenção militar externa (no caso, americana) para derrubar tiranias como a de Saddam Hussein.

Donald Rumsfeld (à esq.) cumprimenta Saddam em 1983
A tirania de Saddam Hussein, no entanto, no passado tinha sido útil aos interesses americanos. Quanto os aiatolás iranianos derrubaram o xá Rezha Pavlevi, em 1979, Washington e os países ocidentais insuflaram o dirigente iraquiano para entrar em guerra contra o Irã. A guerra durou oito anos e provocou a morte de um milhão de pessoas. Saddam não hesitou em usar armas químicas contra as tropas iranianas, mas as atrocidades de seu regime só causariam indignação a partir de 1990, quando o ditador entrou em rota de colisão com os interesses americanos. Então, veio à tona o medonho prontuário de direitos humanos do regime iraquiano e a opinião pública mundial soube que Saddam Hussein era um tirano sanguinário – como só agora, 30 anos depois, soube que o presidente egípcio Hosni Mubarak era um ditador.

Tony Blair e o "grande amigo" Gaddafi
Essa mudança de papéis de líderes políticos – de vilões a aliados e vice-versa, de acordo com os interesses americanos – chegou à esquizofrenia com Muammar Gaddafi, o ditador perpétuo da Líbia. Durante muito tempo, ele foi o “cão louco do Oriente Médio”, o monstro que apoiava quase todos os grupos terroristas que combatiam interesses americanos, de palestinos a europeus. Então, veio o 11 de setembro e a reconversão de Gaddafi. Ele se tornou inimigo dos fundamentalistas islâmicos, renunciou às armas de destruição em massa e fez um acordo para entregar os culpados e pagar indenizações pelo atentado terrorista contra um avião da Pam Am em 1988, que matou 270 pessoas em Lockerbie (Escócia). Também prometeu combater a Al Qaeda. A Líbia, é bom lembrar, é um grande produtor de petróleo. Foi o suficiente para o antigo demônio fosse quase canonizado. Agradecido, George W. Bush retirou as sanções contra a Líbia e Condeleezza Rice foi recebida com tapete vermelho em Trípoli. Tony Blair e Silvio Berlusconi viraram amigos de infância de Gaddafi. Agora, com as massas líbias pedindo a cabeça do ditador, os ocidentais se vêem constrangidos a mudar de opinião pela segunda vez sobre esse malfadado personagem.

Ngo Dinh Diem, católico como Kennedy
No passado os EUA também mudavam de opinião em relação a aliados incômodos, mas jamais admitiam isso publicamente. Foi o caso de Ngo Dinh Diem, presidente do Vietnã do Sul entre 1955 e 1963. Ele era um déspota corrupto, nepotista e truculento. De uma família que se convertera ao catolicismo, Diem perseguia implacavelmente a maioria budista do país. Seu regime foi responsável pela tortura e morte de cerca de 50 mil dissidentes acusados de simpatia pelos comunistas. A repressão possibilitou o surgimento da Frente Nacional de Libertação do Vietnã do Sul – o vietcong –, que faria causa comum com o norte comunista e seria o pretexto para a desastrosa intervenção americana no país entre 1963-1973. O descontentamento da população com Diem levou os militares a depô-lo. Ele acabou assassinado. O golpe teve a bênção do presidente americano, o católico John Kennedy.

Trujillo, o "generalíssimo" do Caribe
Pior foi Rafael Leónidas Trujillo, general e ditador da República Dominicana entre 1939 e 1961. Ele tomou o poder com o apoio explícito dos Estados Unidos e governou o país como se fosse sua fazenda particular, acumulando uma gigantesca fortuna pessoal. Sua família chegou a ser proprietária de 70% das terras do país. O regime de Trujillo era mantido à custa de uma selvagem repressão, que não hesitava em mandar matar dissidentes, mesmo que eles estivessem nos Estados Unidos. Aliava-se a isso o culto à personalidade: a capital, Santo Domingo, foi rebatizada para Ciudad Trujillo. O anticomunismo do generalíssimo garantia o irrestrito apoio de Washington. Mas a Revolução Cubana de 1959 tirou o sono do caudilho. Fidel Castro apoiou tentativas de depô-lo. Mas o pior foi quando Trujillo tentou matar outro desafeto, o presidente da Venezuela, Rómulo Betancourt, eleito democraticamente. Por conta disso, a República Dominicana acabou expulsa da OEA e os americanos perceberam que tinham que se livrar do velho aliado. Com o apoio ostensivo da CIA, Trujillo foi assassinado a tiros em 30 de maio de 1961. Essa conspiração foi contada em detalhes no belíssimo livro A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa.

Mark Twain
"Os Estados Unidos conquistarão o México", escreveu Ralph Waldo Emerson em 1846. "Mas será como o homem que engole o arsênico que o derrubará. O México vai nos envenenar", concluiu. Troque-se o México por outro país ou região do mundo que sofreu ou sofre o peso do império e se entenderá por que o poder americano é tão odiado por esses povos. "Nós fomos traiçoeiros. Mas apenas para que o bem surgisse do mal aparente... Conspurcamos a honra da América, cobrimos de opróbio seu rosto perante o mundo, mas sempre com a melhor das intenções. Vamos desfraldar a bandeira, mas com as listras brancas pintadas de preto e as estrelas substituídas pela caveira e pelos ossos cruzados", escreveu Mark Twain.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

AS PORTAS DA PERCEPÇÃO


Francis Fukuyama
Muitos defensores da ideia do Fim da História, by Francis Fukuyama - a maioria caudatária da escola reacionária dos neocons - parecem acreditar que a História começou somente depois que eles nasceram. Tão dogmáticos quanto os seguidores do generalíssimo Francisco Franco, de Pol Pot ou mesmo dos defensores do pensamento "politicamente correto", esses niveladores do pensamento só conseguem ver os fatos históricos com as lentes do presente. Fazem tábula rasa do passado e das condições históricas que o geraram. Assim, o movimento operário internacional, por exemplo, que tem quase 200 anos de uma rica e complexa experiência, é jogado na vala comum do stalinismo e dos regimes soviéticos que entraram em colapso no final dos anos 1980.

"Nós que amávamos tanto a Revolução" ( Paris, 1968)
Veja-se o caso do maoísmo. As revelações recentes sobre as atrocidades da Revolução Cultural e do Grande Salto para a Frente serviram de pretexto para anular o significado histórico da Revolução Chinesa de 1949, que representou uma ruptura do equilíbrio de poder na Ásia que fazia da China um mero quintal dos países ocidentais. Mais grave, essa concepção não consegue entender por que os estudantes de maio de 1968, em Paris e em outros lugares do mundo, libertários ao extremo, carregavam estandartes de Mao Tsé-tung e exaltavam a Revolução Cultural desencadeada em 1966.

Revolução Cultural na China, 1966
Hoje, todos sabemos o que aqueles dramáticos acontecimentos significaram para os chineses e para a esquerda em geral. Mas na época, a percepção que se tinha daqueles fatos no Ocidente era completamente diferente: fazia-se uma leitura radical e libertária deles. Equivocadamente - sabemos hoje, mas não à época - os estudantes interpretavam o "chamado às massas" e a ação da Guarda Vermelha maoísta como um incitamento à rebelião dos jovens contra o establishment conservador ocidental do pós-guerra. E era isso o que importava pois, em nome dessa percepção, os estudantes parisienses tentaram "assaltar os céus" e "ser realistas exigindo o impossível". O filme La Chinoise, de Jean-Luc Godard, apesar de chatíssimo, expressa perfeitamente esse Zeitgeist (espírito da época). 

Fidel e Che Guevara, mitos de uma época
A mesma coisa acontece com a Revolução Cubana e as figuras históricas de Che Guevara e Fidel Castro. Analisar o que isso significou como paradigma da transformações revolucionárias dos anos 1960 e 1970 à luz da atual degenerescência do regime cubano e do que sabemos sobre ele hoje revela miopia política crassa - ou má fé reacionária. Ao ver os manifestantes líbios protestando com figuras de Che Guevara, os sabichões - muitos deles viúvas de Stálin - podem decretar que eles são ingênuos por não perceberem que Guevara era militarista e prisioneiro da ideia marxista-leninista de ditadura de partido único. Mas o que importa não é o personagem histórico do Che, mas a percepção dele como símbolo de rebeldia e inconformismo que impera ainda hoje, a despeito do que significou sua atuação política concreta. 

Talvez por isso seja instrutivo reler o Tema do Traidor e do Heroi, em Ficções, de Jorge Luis Borges, que inspirou o filme A estratégia da aranha, de Bernardo Bertolucci. Nela, um grupo de guerrilheiros irlandeses descobre um traidor entre eles, que era ninguém menos que o líder da insurreição. Resolvem executá-lo, mas manter a história em segredo, pois o mito do heroi era fundamental para alimentar a chama da liberdade até a vitória final.

La Chinoise, Jean-Luc Godard