quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

TIO SAM PRECISA REVISAR SEU MANUAL



Noam Chomsky
"No Egito, Washington mantém seu velho padrão de comportamento aprendido na Guerra Fria. Em entrevista a Amy Goodman, do Democracy Now, o linguista e filósofo americano Noam Chomsky analisa o desenrolar dos protestos no Egito e o comportamento do governo dos EUA diante deles. Na sua avaliação, o governo Obama está seguindo o manual tradicional de Washington nestas situações: "Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o Exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome".

Amy Goodman - Democracy Now

Mubarak e seu amiguinho George W. Bush
Nas últimas semanas, os levantes populares ocorridos no mundo árabe provocaram a destituição do ditador Zine El Abidine Bem Ali, o iminente fim do regime do presidente egípcio Hosni Mubarak, a nomeação de um novo governo na Jordânia e a promessa do ditador de tantos anos do Yemen de abandonar o cargo ao final de seu mandato. O Democracy Now falou com o professor do MIT, Noam Chomsky, acerca do que isso significa para o futuro do Oriente Médio e da política externa dos EUA na região. Indagado sobre os recentes comentários do presidente Obama sobre Mubarak, Chomsky disse: “Obama foi muito cuidadoso para não dizer nada; está fazendo o que os líderes estadunidenses fazem habitualmente quando um de seus ditadores favoritos têm problemas, tentam apoiá-lo até o final. Se a situação chega a um ponto insustentável, mudam de lado”.

Amy Goodman - Qual é sua análise sobre o que está acontecendo e como pode repercutir no Oriente Médio?


A Revolução ganhou as ruas da capital egípcia

Noam Chomsky - Em primeiro lugar, o que está ocorrendo é espetacular. A coragem, a determinação e o compromisso dos manifestantes merecem destaque, E, aconteça o que aconteça, estes são momentos que não serão esquecidos e que seguramente terão consequências a posteriori: constrangeram a polícia, tomaram a praça Tahrir e permaneceram ali apesar dos grupos mafiosos de Mubarak. O governo organizou esses bandos para tratar de expulsar os manifestantes ou para gerar uma situação na qual o exército pode dizer que teve que intervir para restaurar a ordem e depois, talvez, instaurar algum governo militar. É muito difícil prever o que vai acontecer.

Os Estados Unidos estão seguindo seu manual habitual. Não é a primeira vez que um ditador “próximo” perde o controle ou está em risco de perdê-lo. Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome.

Presumo que é isso que está ocorrendo agora. Estão vendo se Mubarak pode ficar. Se não aguentar, colocarão em prática o manual.

Amy Goodman - Qual sua opinião sobre o apelo de Obama para que se inicie a transição no Egito?
Noam ChomskyCuriosamente, Obama não disse nada. Mubarak também estaria de acordo com a necessidade de haver uma transição ordenada. Um novo gabinete, alguns arranjos menores na ordem constitucional, isso não é nada. Está fazendo o que os líderes norteamericanos geralmente fazem.


Os Estados Unidos tem um poder constrangedor neste caso. O Egito é o segundo país que mais recebe ajuda militar e econômica de Washington. Israel é o primeiro. O mesmo Obama já se mostrou muito favorável a Mubarak. No famoso discurso do Cairo, o presidente estadunidense disse: “Mubarak é um bom homem. Ele fez coisas boas. Manteve a estabilidade. Seguiremos o apoiando porque é um amigo”.

Mubarak é um dos ditadores mais brutais do mundo. Não sei como, depois disso, alguém pode seguir levando a sério os comentários de Obama sobre os direitos humanos. Mas o apoio tem sido muito grande. Os aviões que estão sobrevoando a praça Tahrir são, certamente, estadunidenses. Os EUA representam o principal sustentáculo do regime egípcio. Não é como na Tunísia, onde o principal apoio era da França. Os EUA são os principais culpados no Egito, junto com Israel e a Arábia Saudita. Foram estes países que prestaram apoio ao regime de Mubarak. De fato, os israelenses estavam furiosos porque Obama não sustentou mais firmemente seu amigo Mubarak.

Manifestantes no Cairo pedem a saída de Hosni Mubarak em 10 de fevereiro 

Amy GoodmanO que significam essas revoltas no mundo árabe?
Noam Chomsky - Este é o levante regional mais surpreendente do qual tenho memória. Às vezes fazem comparações com o que ocorreu no leste europeu, mas não é comparável. Ninguém sabe quais serão as consequências desses levantes. Os problemas pelos quais os manifestantes protestam vem de longa data e não serão resolvidos facilmente. Há uma grande pobreza, repressão, falta de democracia e também de desenvolvimento. O Egito e outros países da região recém passaram pelo período neoliberal, que trouxe crescimento nos papéis junto com as consequências habituais: uma alta concentração da riqueza e dos privilégios, um empobrecimento e uma paralisia da maioria da população. E isso não se muda facilmente."


Extraído da Carta Maior

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

PARA QUEM SE ESQUECE DE QUE O EGITO FICA NA ÁFRICA

Cheikh Anta Diop
 "Cheikh Anta Diop é, ao lado de W.E.B. Dubois, considerado o maior intelectual negro do século XX, pois seu trabalho serve como fundação para grande parte do que é hoje a produção acadêmica acerca do continente africano. Nasceu no Senegal em 1923 e faleceu em 1986 no mesmo país. Sua importância se deve a mudança de paradigmas que introduziu em termos de metodologias de pesquisa e também por sua obra ter ido além da academia, influenciando a maneira como pessoas de ascendência africana pensavam sobre si próprias. Diop recolocou o Egito no contexto da história africana e por conta deste trabalho foi atacado por inúmeros acadêmicos"

"Em 1822 Jean-François decifrou os hieróglifos egípcios e isso iniciou um intenso interesse, por parte do Ocidente, por aquela região. Um fator inquietante era saber que o Egito era milhares de anos mais velho que a Grécia, e mesmo assim essa é que era considerada berço da civilização".


"Os próprios gregos davam prioridade ao Egito na construção da civilização, e os sábios gregos que foram estudar naquele país a partir de 610 a.C. incluíam Tales, Pitágoras, Sólon, Eudóxio, Anaximandro, Anaxímenes e Platão, para citar apenas alguns. Pitágoras, provavelmente o maior dos filósofos gregos e inventor da palavra filósofo ("amante da sabedoria") passou 22 anos estudando o Egito no século VI a.C. Mas o Egito era um país africano e, no século XIX, o chauvinismo racial europeu estava chegando ao auge. A ideia de que uma nação africana pudesse realmente ter criado a civilização e a repassado aos gregos era simplesmente inadmissível. Depois de 1830 teve início uma campanha sistemática e abrangente de propaganda erudita buscando reforçar a ideia de que, embora o Egito se situasse na África, ele não pertencia à África. Por esse raciocínio, o Egito teria sido criado por uma raça invasora não-africana - provavelmente caucasóide - originária da Ásia, que trouxera a civlização para o vale do rio Nilo"

Charles S. Finch III, in Afrocentricidade - uma abordagem epistemológica inovadora     

FICHA LIMPA, CARA SUJA

Em 27 de julho de 2010, a articulista Maria Inês Nassif, do Valor Econômico, fazia a seguinte reflexão:


“A incorporação do discurso udenista ao arsenal dos candidatos à Presidência é tão velha quanto a relativamente nova democracia brasileira. Aliás, até mais velha. O padrão da UDN, criada em 1945 e extinta em 1965 pela ditadura militar que ajudou a implantar, tem interditado o debate político desde a redemocratização, em 1985. Em 2010, 35 anos após a sua extinção, ainda é o padrão de discurso oposicionista. 55 anos depois de sua criação, com uma ditadura de 21 anos no meio, volta invariavelmente em períodos eleitorais.

Carlos Lacerda, o "corvo"
O PT cumpriu seu destino de oposição udenista de 1989 a 2002, quando, enfim, tornou-se governo pelo voto direto. No caso, prevaleceu o discurso moral. A partir de 2003, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu o governo, os partidos excluídos do poder assumiram, eles próprios, o udenismo como padrão de comportamento oposicionista. Trazido das eleições anteriores, o udenismo pós-Lula, comandado pelo PSDB e pelo ex-PFL, além da referência moral, vem carregado de conservadorismo. O período pós-2002, com um partido de esquerda no poder, trouxe à cena um padrão UDN completo, com barba, cabelo e bigode: discurso moral, agressividade, anticomunismo e conservadorismo de costumes.”


Foi nesse contexto de renascimento do udenismo na política nacional que surgiu o “clamor popular” que daria origem à Lei de Ficha Limpa. Originária de uma iniciativa popular que reuniu 1,9 milhão de assinaturas, ela foi um projeto para tentar impedir que políticos condenados pela Justiça pudessem concorrer às eleições. Justa indignação, diga-se, contra personagens como Paulo Maluf (PP-SP), acusado de corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, desvio de verba etc., etc.; Jader Barbalho (PMDB-PA), idem, idem; Joaquim Roriz (PMDB-DF) e José Sarney, para ficar nos mais notórios e sem falar dos que já se foram desta para melhor. A desfaçatez com que esses tipos se agarram ao poder é realmente um escárnio à cidadania.   

Originária da Comissão de Justiça e Paz e da CNBB, a campanha foi liderada pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), que a partir de 2009 trabalhou mais de um ano para coletar 1,3 milhão de assinaturas (11% do eleitorado brasileiro). No Congresso, o processo de tramitação foi célere: o projeto foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 5 de maio de 2010; pelo Senado Federal em 19 de maio, em votação unânime, e sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 4 de junho como Lei Complementar nº 135.

Fouquier-Tinville, promotor do Terror
A versão inicial da Lei de Ficha Limpa, contudo, faria corar o próprio Fouquier-Tinville, o implacável promotor público do período do Terror jacobino. Qualquer político com condenação em primeira instância estaria impedido de concorrer às eleições. Mas os congressistas atenuaram essa barbaridade e determinaram que somente políticos com condenações em segunda instância – feitas, portanto, por colegiados – estariam impedidos de se candidatar. Mesmo assim, fica uma questão no ar: como pode um cidadão ser considerado culpado enquanto o processo não tiver sido julgado em última instância – “transitado em julgado”, como se diz no jargão jurídico?  

A vassoura do Jânio...

...e a do Ficha Limpa: coincidência?
Então, surgiu outra questão fundamental, a de saber se a lei teria validade já nas eleições de 2010. Muitos juristas argumentam que aplicação retroativa de uma lei fere uma “cláusula pétrea” da Constituição. A menos de um mês das eleições – 22 de setembro de 2010 – o Supremo Tribunal Federal (STF) começou a julgar o caso de Joaquim Roriz, que tentava disputar o governo do Distrito Federal e teve sua candidatura impugnada. A decisão sobre Roriz definiria a partir de quando valeria a lei.

Foi quando o presidente da corte, ministro Cezar Peluso, levantou a questão da constitucionalidade da Lei de Ficha Limpa. Novas discussões e protelações. A votação terminou em empate (5x5) porque o ministro Eros Grau se aposentara. A decisão final deve sair agora, depois que foi indicado o 11º ministro do STF, o advogado Luiz Fux, que dará o voto de desempate.

Caberia perguntar: se o Judiciário não fosse tão moroso, faria sentido o Legislativo criar leis, como a Ficha Limpa, para impedir que políticos corruptos concorressem às eleições? Se esses políticos fossem julgados e condenados a tempo, não estariam ocupando cadeiras no Congresso, gozando, assim, de foro privilegiado.

João e Janete Capiberibe, cassados duas vezes
A frieza das leis e dos tribunais, contudo, às vezes perpetra graves injustiças. Inicialmente enquadrados na Lei de Ficha Limpa, Paulo Maluf e Anthony Garotinho foram diplomados e devidamente empossados. Está certo, eles não foram condenados em definitivo. Já o senador João Capiberibe e sua mulher, a deputada Janete Capiberibe – ambos do PSB do Amapá – foram enquadrados na Lei de Ficha Limpa e impedidos de tomar posse pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O caso deles é digno de um romance kafkiano: em 2002, João, ex-governador, foi eleito senador e Janete, deputada federal. O PMDB do Amapá, controlado pelo capo dei tutti capi José Sarney, os acusou de compra de votos. Acharam duas “testemunhas” que disseram à Justiça que tinham votado nos Capiberibe em troca de R$ 26,00 (!!), pagos em duas vezes (!!).

O TSE cassou os mandatos de ambos em 2005. Mas os Capiberibe não desistem facilmente e voltaram a se candidatar em 2010. Foram eleitos, mas desta vez o TSE os enquadrou na Lei de Ficha Limpa – a dois dias da eleição. E novamente, eles foram cassados! Ou seja: pagaram duas vezes pelo mesmo delito! Nem Vishinsky, o promotor de Stálin nos Processos de Moscou, seria capaz de tanta vilania. Agora, descobriram que as “testemunhas” foram compradas por capangas a soldo de Gilvam Borges - cupincha de Sarney - que, em função da cassação, ocupou o lugar de Capiberibe no Senado. Até Joseph K, personagem de O Processo, teria dificuldade de se ver em tal labirinto.


Como já dissemos (ver postagem A Judicialização da política, de 20 de janeiro de 2011), na medida em que os juízes cumprem papéis antes destinados ao Executivo e ao Legislativo, ocorre uma concentração de poder no Judiciário, composto de magistrados não-eleitos. Neste caso, “um Estado de Direito pode fazer da legalidade um instrumento contra a legitimidade democrática onde a Constituição volta-se contra a soberania popular”.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO

 “Em 1968, uma das frases mais famosas que apareceu nos muros de Paris foi: ‘As estruturas não caminham pela rua!’, expressão que não justifica as grandes demonstrações dos estudantes e dos trabalhadores do sessenta e oito em termos de estruturalismo (o que esclarece por que alguns historiadores chegaram a francamente considerar o ano 1968 como o divisor de águas entre o estruturalismo e o pós-estruturalismo, que foi – assim se diz – muito mais dinâmico e propenso a intervenções de política eficazes). A resposta de Jacques Lacan foi que, em 1968, na verdade, aconteceu exatamente isto: “As estruturas desceram indubitavelmente às ruas”. Os eventos explosivos manifestados foram definitivamente o êxito de um desequilíbrio estrutural; para dizer com as palavras de Lacan, foram o êxito da passagem do discurso do patrão para o discurso da Universidade. Em que consiste precisamente essa passagem?


The New Spirit of Capitalism, de Boltanski e Chiapello, examina-o em detalhe, com particular atenção a França. Abraçando o método weberiano, o livro distingue três ‘espíritos’ consecutivos do capitalismo: o primeiro espírito do capitalismo empresarial durou até a Grande Depressão dos anos 30; o segundo espírito do capitalismo trouxe para seu próprio ideal não o empresário, mas o executivo assalariado de uma grande empresa. Dos anos 60 em diante, ao contrário, andou emergindo uma nova figura de ‘espírito do capitalismo’: o capitalismo abandonou a estrutura hierárquica de modelo fordista do processo de produção, e desenvolveu uma forma de organização baseada em uma estrutura em rede que se sustentava na iniciativa e na autonomia dependentes do trabalhador no lugar de trabalho. No lugar de uma cadeia de comando centralizada e hierárquica, difundiram-se estruturas de rede formadas por uma multidão de participantes, que organizavam o trabalho sob forma de time ou de projetos, visando a satisfazer a clientela, e havia uma mobilização geral dos trabalhadores graça à visão de seu líder.

Desse modo, o capitalismo transformou-se e legitimou-se como um projeto igualitário: por meio de uma crescente interação autopoética e de uma auto-organização espontânea, chegou até mesmo a usurpar a linguagem da extrema esquerda da autogestão dos trabalhadores e do slogan anticapitalista e fez dele um slogan capitalista.

Uma inteira seqüência de eventos histórico-ideológicos foi assim se criando, na qual o socialismo aparece conservador, hierárquico, administrativo, tanto que a lição de sessenta e oito é “Adeus, socialismo!”, e a verdadeira revolução é aquela do capitalismo digital. Esse capitalismo é a conseqüência lógica, a ‘verdade’ da revolução de 1968. Os protestos anticapitalistas dos anos 60 integraram a crítica habitual da exploração socioeconômica com argumentos de critica cultural: a alienação da vida diária, a comercialização dos bens de consumo, a falta de autenticidade de uma sociedade de massa na qual ‘vestem-se máscaras’ e sujeitam-se às opressões sexuais e de outras naturezas.

O novo espírito do capitalismo recuperou de modo triunfante a retórica igualitária e anti-hierárquica de 1968, apresentando-se como uma revolta libertária de sucesso contra as organizações sociais opressivas do capitalismo das coorporações e também contra o socialismo ‘realmente existente’: esse novo espírito libertário está encarnado nos capitalistas ‘desenvoltos’, vestidos à grande, como Bill Gates.

A aposta de Michael Hardt e Toni Negri é que esse novo espírito já é por si só comunista: como Marx, celebram o potencial revolucionário ‘desterritorializante’ do capitalismo; como Marx, individualizam a contradição dentro do capitalismo, na discrepância existente entre esse potencial e a forma do capital (a apropriação da parte da propriedade privada do excedente). Em breve, reabilitam o velho conceito marxista de tensão entre forças produtivas e relações da produção: o capitalismo já produz ‘os germes da futura forma de vida nova’, produz incessantemente o novo ‘denominador comum’, de modo que em uma explosão revolucionária, esse Novo deve ser desvinculado pela velha forma social.


Não surpreende que Negri recentemente esteja sempre apreciando mais o capitalismo digital ‘pós-moderno’, afirmando que ele já é comunista, e que precisará somente pouco, um empurrãozinho, um gesto puramente formal, para que se torne isso abertamente. A estratégia de base do capitalismo atual consiste em cobrir a sua própria abundância, achando um novo modo para incluir outra vez a multidão produtiva independente.

Tony Negri
 A ironia é que Negri refere-se aqui ao processo que os mesmos ideólogos do capitalismo atual ‘pós-moderno’ celebram à medida que passam da produção material à simbólica, da lógica centrista-hierárquica à lógica da auto-organização autopoética, da colaboração multicêntrica e assim por diante. Negri que é, em efeito, fiel a Marx: o que se esforça por demonstrar é que Marx tinha razão, que a ascensão do ‘intelecto geral’ é incompatível, em longo prazo, com o capitalismo. Os ideólogos do capitalismo pós-moderno estão fazendo uma afirmação diametralmente oposta: é a própria teoria marxista (e a prática marxista) que fica no âmbito dos constrangimentos da lógica hierárquica centralizada a controle do governo, e, portanto, não pode enfrentar os efeitos sociais da nova revolução informacional.

Há boas razões empíricas para confirmação desta afirmação: ainda uma vez, o paradoxo histórico é que a desintegração do comunismo é o exemplo mais convincente da validade da tradição dialética marxista entre força de produção e relação de produção, na qual o marxismo deposita confiança na sua tentativa de derrubar o capitalismo. A prejudicar definitivamente os regimes comunistas está a sua própria incapacidade de adaptar-se à nova lógica sustentada pela ‘revolução informacional’: tentaram pilotar esta revolução com um projeto qualquer em larga escala de planejamento estatal centralizado. O absurdo, portanto, é que o que Negri exalta como uma oportunidade irrepetível para derrubar o capitalismo, os ideólogos da ‘revolução informacional’ o exaltam como a ascensão do novo capitalismo ‘privado de atritos’.

Mas a passagem a um outro espírito do capitalismo foi realmente tudo o que aconteceu nos eventos de 68, de forma que todo o entusiasmo eufórico pela liberdade, em realidade, não era outra coisa senão um meio de substituir uma forma de domínio por uma outra? Recordemos as palavras de desafio lançadas por Lacan aos estudantes: “Como revolucionários, vocês são loucos que pedem um novo patrão. E o terão”.

Em havendo razão, o sessenta e oito foi um evento único ou foi uma dilaceração, e também ambíguo, em cujo curso várias tendências políticas lutaram entre si pela hegemonia? Isso explicaria o fato de que, enquanto a ideologia hegemônica apropriou-se magnificamente do sessenta e oito, a partir uma explosão da liberdade sexual e da criativadade anti-hierárquica, Nicholas Sarkozy disse, em sua campanha eleitoral em 2007, que seu dever é o de conseguir que finalmente a França supere o sessenta e oito. Portanto há um ‘maio de 68 deles’ e um ‘maio de 68 nosso’, na nossa atual recordação ideológica, a ‘nossa’ ideia de base das demonstrações daquele maio, ao passo que a conexão entre os protestos estudantis e as greves dos trabalhadores é esquecida.

Da liberação sexual dos anos sessenta sobreviveu o hedonismo tolerante facilmente incorporado na nossa ideologia hegemônica. O imperativo do superego de divertir-se, portanto, produz o contrário preciso do ‘Du kanst, denn Du sollst!’ (Você é capaz, então você deve!) de Kant, torna-se um ‘Deve, porque é capaz!’. Isso significa que o aspecto do superego do hedonismo atual ‘não repressivo’ (as incessantes provocações a que estamos expostos, o que nos impõem ir, afinal de contas, até explorar todos os possíveis modos de prazer, de gozo) reside no modo em que o gozo necessariamente se transforma em um gozo obrigatório. Esse impulso no puro gozo autístico (por meio de substâncias entorpecentes ou de outros métodos que induzam a um estado de transe) afirmou-se em um momento político preciso: quando o estímulo emancipador de 1968 exaure o seu potencial.


[...]

Enfim, a grande pergunta: se, como afirma Alain Badiou, o Maio de 1968 foi um final de uma época, que marcou (junto com a Revolução Cultural chinesa) o consumar-se definitivo de uma grande sucessão de revoluções políticas iniciadas com a Revolução de Outubro, hoje onde as colocamos? Estamos entre aqueles que ainda contam – e com uma alternativa radical – com um capitalismo hegemônico democrático e parlamentar, forçados a alienarmo-nos e a agir em vários ‘sítios de resistência’ ou podemos ainda conceber uma intervenção política mais radical?

Este é o verdadeiro legado do sessenta e oito: no coração do sessenta e oito havia uma recusa do sistema liberal – capitalista, um grande NÃO à sua totalidade, mais bem explicitado no famoso slogan: 'Procuramos ser realistas, pedimos o impossível!’. A verdadeira utopia é crer que o sistema global existente possa reproduzir-se ao infinito; o único modo de ser verdadeiramente ‘realista’ é pensar que a coisa, no âmbito das coordenadas desse sistema, não possa sempre mostrar-se impossível.”

Slavoj Žižek (*), As estruturas não caminham pela rua
(*) Filósofo e psicanalista esloveno marxista-lacaniano que busca resgatar a radicalidade perdida 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

DO VERDE AO VERMELHO


Dom Hélder Câmara
A trajetória de Dom Hélder Câmara, arcebispo de Recife e Olinda, cujo nascimento se comemora hoje, inverte a fórmula falsamente atribuída a Winston Churchill, segundo a qual “quem não foi de esquerda na juventude não tem coração; quem não virou de direita na maturidade não tem cabeça”. Dom Hélder, um dos pais da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base, conhecido como “bispo vermelho” durante a ditadura e cujo nome era proibido de ser citado na imprensa pelos militares, chegou a flertar, durante os anos 1930, com o integralismo, a versão tupiniquim do nazi-fascismo. Outros intelectuais que ficariam conhecidos na maturidade por suas posições políticas progressistas quando jovens também beberam da fonte verde do Sigma; entre eles o jornalista Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Athayde), o político San Tiago Dantas (depois chanceler de Jango) e até o poetinha Vinícius de Moraes.
Bispos alemães fazem a saudação nazista 


Para entender essa reviravolta de Dom Hélder, é preciso levar em conta a conjuntura internacional da época. Foi um período marcado pelo impacto da Revolução Bolchevique de 1917 e por uma crise econômica e social tão catastrófica que pôs a nu os limites do liberalismo como modelo de sociedade, acelerando a ascensão de regimes nacionalistas e totalitários, como o fascismo e o nazismo. A Igreja Católica já fizera a opção pelo ultramontanismo reacionário desde o Concílio Vaticano I (1869), convocado pelo papa Pio IX, que demonizou a sociedade moderna e os valores iluministas, liberais e, principalmente, socialistas, em favor de uma idealização da Idade Média. Apesar de o papa Leão XIII (1810-1903) ter acenado à classe operária com a Doutrina Social da Igreja, a revolução soviética fez a Santa Sé a se passar de armas e bagagens para os exércitos da direita. Contra o comunismo, o Vaticano apoiou Mussolini, Hitler, Franco, Salazar e o croata Ante Pavelic, entre outros. Essa orientação só mudaria com o Concílio Vaticano II (1963-1965), convocado por João XXIII, que impulsionou os setores progressistas da Igreja. No Brasil do início do século XX, a Igreja Católica, depois da laicização do Estado advinda com a República em 1989, tentava estabelecer vínculos não-oficiais com o Estado, cristianizar as instituições sociais, desenvolver um quadro de intelectuais católicos e enquadrar as práticas religiosas populares à ortodoxia litúrgica.

Tristão de Athayde

Jacques Maritain
Dom Hélder passou por uma reorientação ideológica antes de se tornar um militante da justiça social. Por meio de Alceu de Amoroso Lima, ele conheceu a obra do filosófo católico francês Jacques Maritain, que professava um "humanismo integral", a defesa da democracia e a aceitação do pluralismo religioso. Maritain influenciaria toda uma geração de intelectuais católicos que depois se tornariam protagonistas da Teologia da Libertação. O prelado cearense teve papel importante na fundação da Juventude Operária Católica (JOC) e da Juventude Universitária Católica (JUC), de onde sairia, nos anos 1960, a organização revolucionária Ação Popular. Dom Hélder também fundou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Conferência Episcopal Latino-Americana (Celam), que foram fundamentais para forjar a Teologia da Libertação. O bispo tornou-se um advogado da reforma agrária e das reformas de base do governo João Goulart. Em sintonia com seu tempo, teve uma importante participação do Concílio Vaticano II, que rompeu com o ultramontanismo e abriu as portas da Igreja à modernidade.

Frei Tito de Alencar
Mas foi durante a ditadura militar que seu nome ganharia projeção internacional. E isso devido à sua decisão de denunciar a tortura contra prisioneiros políticos institucionalizada pelo regime dos generais. O arcebispo pagaria caro: em 1969, um de seus auxiliares na arquidiocese de Recife e Olinda, o padre Antonio Henrique Pereira da Silva Neto, foi assassinado pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC, grupo paramilitar de extrema-direita). "Em maio de 1970, Dom Hélder fez algo inconcebível de acordo com os líderes militares patrióticos do Brasil: durante um discurso em Paris em frente a milhares de pessoas, ele denunciou a prática de tortura no Brasil. O bispo mencionou especificamente o caso de Frei Tito de Alencar Lima, um dos frades dominicanos presos pelo regime e cujo tratamento recebido pelas forças de segurança de São Paulo fora tão brutal que acabaria por fazer com que o religioso tentasse cometer suicídio. Mais tarde, banido do país, Frei Tito se matou perto de Paris em 1974. O discurso detonou uma onda de críticas contra o arcebispo. A partir de então, a ditadura proibiu qualquer menção acerca do arcebispo por parte da mídia. O regime também se valeu de forte pressão diplomática para evitar que Dom Hélder ganhasse o Prêmio Nobel da Paz", diz o brazilianista Kenneth P. Serbin.

Dom Paulo Evaristo Arns 
A trajetória corajosa de Dom Hélder Câmara abriu caminho para que outros bispos progressistas, como Dom Paulo Evaristo Arns, continuassem na luta contra a tirania e a defesa dos oprimidos. Mas sob João Paulo II, a Igreja iniciou sua reação termidoriana, que isolou os progressistas e consolidou a hegemonia dos conservadores. Nos anos 1960 e 1970, os grandes símbolos da Igreja no Brasil eram figuras do calibre de Dom Hélder, Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Pedro Casaldáliga. Sem falar de Madre Cristina e de Madre Maurina. Hoje, quem domina a cena são marqueteiros carismáticos alienados e circenses, como o padre Marcelo e o padre Flávio de Melo... Enquanto isso, seus líderes espirituais ficam fazendo campanha contra o aborto, o casamento gay, o uso da camisinha para evitar a Aids e as células-tronco.        

domingo, 6 de fevereiro de 2011

HENRY FORD E O BIGODE DE HITLER


Para Ford, bolchevismo é coisa de judeus
Os ideólogos do império americano e seus aliados costumam associar o antissemitismo ao antiamericanismo. É uma tentativa de calar ou desmoralizar qualquer crítica à política externa de Washington e de Israel no Oriente Médio, criando "afinidades eletivas" entre os opositores dessa política - incluídos os palestinos - e os acólitos de Hitler e do nazismo. A esse respeito, convém ouvir o filósofo italiano Domenico Losurdo:
"[é preciso] ter presente a influência que, também na questão do antissemistismo, os Estados Unidos exerceram sobre a Alemanha. Logo depois de outubro de 1917, Henry Ford, o magnata da indústria automobilística, empenha-se em denunciar a Revolução Bolchevique como o resultado do complô judeu e, para isso, funda uma revista de grande tiragem, The Dearborn Independent. Os artigos nela publicados são reunidos em novembro de 1920 em um volume, O Judeu Internacional, que logo se torna um ponto de referência do antissemitismo internacional. [...] É verdade que depois de algum tempo Ford é obrigado a calar sua campanha, mas o livro já fora traduzido na Alemanha, onde obteve extraordinário sucesso. Mais tarde, hierarcas nazistas de primeiro plano como Von Schirach e Himmler dirão ter-se inspirado no magnata da indústria automobilística americana ou ter partido dele. Himmler, em particular, conta que compreendeu 'a periculosidade do judaísmo' apenas a partir de Ford: 'para os nacional-socialistas foi uma revelação'. Seguiu depois a leitura dos Protocolos dos Sábios de Sião: 'Esses dois livros nos indicaram o caminho a percorrer para libertar a humanidade afligida pelo maior inimigo de todos os tempos, o judeu internacional'(nota-se a fórmula cara a Henry Ford). E, esses dois livros, sempre segundo Himmler, teriam desempenhado um papel 'decisivo' também na formação do Führer.

Hitler se inspirou em Henry Ford
[...] a tese formulada por ele (Ford) já em 1920, segundo a qual a veridicidade dos Protocolos é demonstrada pelo papel obscuro e infame desempenhado pelos judeus durante a guerra - e sobretudo por ocasião das convulsões da Rússia ('a Revolução Russa é de origem racial, não política', e ela, servindo-se de palavras de ordem humanitárias e socialistas, exprime na realidade uma 'aspiração racial ao domínio  mundial', nas palavras de Ford)-, não pode não ter um impacto particularmente devastador em um país como a Alemanha, que sofreu a derrota (de 1918) e se sentia ainda ameaçada pela revolução. O Judeu Internacional (o livro) aparece como iluminação fulgurante para o movimento chauvinista, revanchista e antissemita que cresce pavorosamente."
Domenico Losurdo, A Linguagem do Império - Léxico da Ideologia Americana   

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O DIPLOMATA, O POLICIAL E O CAMALEÃO

Qualquer semelhança entre esses personagens históricos e personagens atuais da política NÃO É mera coincidência.

Charles-Maurice Talleyrand-Périgord
"Esta resistência secreta contra a paixão guerreira e a falta de medida de Napoleão aproxima finalmente  até mesmo os mais encarniçados adversários entre os seus conselheiros: Joseph Fouché e Charles-Maurice Talleyrand-Périgord. Estes dois ministros mais hábeis de Napoleão, as pessoas psicologicamente mais interessantes de sua época, não se estimam - provavelmente por serem parecidos em muita coisa. Ambos são seres racionais, sóbrios,  realistas, cínicos e discípulos inescrupulosos de Maquiavel. Ambos passaram pela escola da Igreja e pela ardente escola superior da Revolução. Ambos têm o mesmo sangue frio implacável em matéria de dinheiro e de honra, ambos servem com a mesma falta de lealdade e de escrúpulos à República, ao Diretório, ao Consulado, ao Império e ao Rei. A cada instante, esses dois representantes típicos da versatilidade se encontram no palco do mundo - ora disfarçados de revolucionários, de senadores, de ministros, de servidores do rei. E, precisamente por pertencerem à mesma raça espiritual e receberem os mesmos papéis diplomáticos, odeiam-se com o conhecimento frio e o bom rancor dos rivais.
Joseph Fouché
Ambos pertencem ao mesmo tipo amoral, mas, semelhantes no caráter, são de origem diferente.

[...]

Estas diferenças de origem conferem ao caráter de ambos, que é parecido, uma cor especial. Talleyrand, um homem de atitudes afetadas, serve com a condescendência indiferente e fria de um fidalgo; Fouché com a atividade diligente e esperta de um funcionário carreirista. Em suas semelhanças, ao mesmo tempo também diferem, e se ambos amam o dinheiro, Talleyrand o ama à maneira de um gentil-homem, para gastá-lo, para fazê-lo rolar abundantemente na mesa de jogo e com mulheres; já Fouché, filho de comerciantes, o capitalista, quer acumular o dinheiro e fazê-lo render juros. Para Talleyrand, o poder é apenas um meio para chegar ao prazer, ele lhe dá as melhores e mais nobres oportunidades de conseguir usufruir de todas as coisas sensuais do mundo, como luxo, mulheres, arte e a boa mesa, enquanto Fouché, mesmo várias vezes milionário, continua espartano, monacal, econômico. Ambos não conseguem renegar a origem social: nunca, nem nos dias mais selvagens do Terror, Talleyrand, o senhor de Périgord, foi um verdadeiro republicano e homem popular; nunca, mesmo quando era duque de Otranto, apesar do uniforme cintilante de ouro, Joseph Fouché foi verdadeiramente aristocrata."    
   
Stefan Zweig, Joseph Fouché, retrato de um homem político