quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

AS 1001 NOITES E O INFINITO



"Nesse título ("As mil e uma noites") há uma beleza muito particular, talvez pelo fato de que a palavra "mil" seja para nós quase sinônimo de "infinito". Falar em mil noites é falar em infinitas noites - muitas e inumeráveis noites. Dizer "mil e uma noites" é acrescentar uma além do infinito. Há em inglês, uma expressão curiosa. Muitas vezes, não se diz simplesmente for ever ('para sempre') mas for ever and a day ("para sempre e mais um dia"). Ou seja, acrescenta-se um dia à palavra 'sempre'. Isso lembra a dedicatória de que Heine fez a uma mulher: 'Eu te amarei eternamente e ainda depois'. A idéia de infinito é consubstancial com As mil e uma noites."
Jorge Luis Borges, Sete Noites

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O HOMEM QUE NÃO CONSEGUIU PEGAR LAMARCA

O truculento e caricato coronel Antônio Erasmo Dias, morto segunda-feira 4 aos 85 anos, ficou famoso pela violenta invasão da PUC em 1977, na qual a tropa de choque da PM sob seu comando, quando ele era secretário de Segurança Pública (sic) de São Paulo, atacou estudantes com bombas incendiárias, ferindo vários deles. Mas pouca gente sabe, contudo, que esse visigodo carregava em seu currículo um dos maiores fiascos militares do Exército na luta contra a guerrilha: a fuga de Carlos Lamarca do Vale do Ribeira, onde o ex-capitão havia montado um núcleo guerrilheiro. Na maior operação do então II Exército, foram mobilizados cerca de dois mil soldados contra pouco mais de 40 guerrilheiros. Como chefe de operações, o coronel Erasmo Dias armou uma emboscada para apanhar Lamarca, que estava fugindo da região com outros quatro companheiros. Em vez de comandar a operação, o coronel mandou uma patrulha chefiada por um tenente. Este, ao perceber que a emboscada fora descoberta, fugiu para o mato. A trupe mal-armada de guerrilheiros, posteriormente, capturou um caminhão do Exército e se escondeu em São Paulo. Cito Elio Gaspari novamente: "O coronel Erasmo Dias registrou mais tarde que: 'o grupo de Lamarca, bem armado e disposto a não enfrentar o confronto, teve sempre como objetivo capital a fuga'. A cada guerrilheiro correspondiam 80 soldados. Mesmo assim Lamarca aceitou o combate em duas ocasiões e em ambas levou a melhor".
Ludibriado por Lamarca, o coronel falastrão tentaria, tempos depois, mostrar "coragem" com estudantes desarmados. Acabou como dublê de político.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O ECO-FASCISMO

"Os sistemas de valores humanistas devem ser substituídos por valores supra-humanistas que coloquem toda a vida vegetal e animal na esfera da consideração legal e moral. E a longo prazo, quer agrade ou não a este ou àquele, será necessário de fato recorrer à força, se for o caso, para lutar contra os que continuam a deteriorar o meio ambiente" (Greenpeace, 1979)

A advertência é clara: a ultrapassagem do humanismo em proveito de uma entronização do reino vegetal e animal em sujeito de ética e de direito não ocorrerá sem coações - argumento de resto coerente com uma perspectiva na qual a questão é dar um fim à lógica dos famosos "direitos do homem", que não serviram senão para legitimar o esquecimento, por vezes a destruição do mundo pela explosão da técnica.

É no mesmo estilo que Jean Brière, antigo membro dos Verdes [...] sugere "secar na nascente a superprodução de crianças no Terceiro Mundo", enquanto Jean Fréchaut [...] sonha com um "governo mundial que consiga pressionar as populações a fim de reduzir todas as poluições e mudar os desejos assim como os comportamentos por manipulações psicológicas" [...]

Pois, mais uma vez, os sonhos dos ecologistas radicais viram pesadelos, a exemplo do programa de morte tranquilamente elaborado por William Aiken e publicado em uma obra coletiva que goza de excelente reputação: "Uma mortalidade humana maciça seria uma boa coisa. É nosso dever provocá-la. É dever da nossa espécie, em face de nosso meio, eliminar 90% dos nossos efetivos" (Earthbound, New Inroductory. Essais in Environmental Ethics, 1984)
Lucy Ferry, A Nova Ordem Ecológica

A SOFISTICAÇÃO DO TANGO


WHERE DO YOU COME FROM?



Lou Reed e John Cale


Small Town
(de Songs for Drella, 1989)


domingo, 3 de janeiro de 2010

A CONDIÇÃO ABSURDA DO SER E A LIBERDADE

Albert Camus, aos 50 anos de sua morte (4 de janeiro de 1960)
"A revolta humana, em suas formas mais elevadas e trágicas, não é nem pode ser senão um longo protesto contra a morte, uma acusação veemente a esta condição regida pela pena de morte generalizada"
(O homem revoltado)



"Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. [...] Eu nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade deste mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em certo sentido, ele fez bem. Essa verdade não valia a fogueira [...]. Em compensação, vejo muitas pessoas morrer por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão de morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas"
(O mito de Sísifo)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

AINDA A "CRISE" MILITAR


"Quando a lenda se transforma em fato, imprime-se a lenda"
Edmond O'Brien,
O Homem que Matou o Facínora


A melhor análise sobre o estranhamento entre as áreas da Defesa e de Direitos Humanos do governo e o papel desempenhado no episódio pela mídia conservadora (Folha, Globo, Estadão) está no blog do Luiz Carlos Azenha:

http://www.viomundo.com.br/opiniao/o-que-a-crise-militar-nos-diz-sobre-os-jornaloes-e-sobre-o-brasil/