domingo, 13 de dezembro de 2009

A BANALIDADE DO MAL


"O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais. Do ponto de vista de nossas instituições e de nossos padrões morais, essa normalidade era muito mais apavorante do que todas as atrocidades juntas, pois implicava que - como foi dito insistentemente em Nuremberg pelos acusados e seus advogados - esse era um tipo novo de criminoso, efetivamente hostis generis humani, que comete seus crimes em circunstâncias que tornam praticamente impossível para ele saber ou sentir que está agindo de modo errado".
(Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal)
Adolf Eichmann, coronel SS, foi um dos executores da "Solução Final", o extermínio dos judeus na Europa. Foragido na Argentina, foi sequestrado em maio de 1960 por um comando israelense, julgado por "Crimes contra a Humanidade', condenado à morte (dezembro de 1961) e enforcado.
Arendt mostrou que a novidade do terror totalitário é atuar através desses funcionários medíocres, cumpridores de seus deveres e que agem de acordo com a ordem legal vigente.

APOCALÍPTICOS E INTEGRADOS

"A convergência representa uma transformação cultural, à medida que consumidores são incentivados a procurar novas informações e fazer conexões em meio a conteúdos midiáticos dispersos. (...) O consumo tornou-se um processo coletivo (...) Nenhum de nós pode saber tudo; cada um de nós sabe alguma coisa: e podemos juntar as peças, se associarmos nossos recursos e unirmos nossas habilidades. A inteligência coletiva pode ser vista como fonte alternativa ao poder midiático".
(Henry Jenkins, Cultura da Convergência)

"A simples posse de um computador e de uma conexão com a internet não transforma uma pessoa num bom jornalista, assim como o acesso a uma cozinha não faz de ninguém um bom cozinheiro. Mas milhões de jornalistas amadores pensam que faz. (...) Em sua maioria, os jornalistas amadores são (...) um exército de escritores de pijama anônimos e auto-referentes que existe não para transmitir notícias, mas para espalhar boatos, alardear escândalos políticos, exibir fotos embaraçosas de figuras públicas e apresentar links para matérias sobre tópicos fantasiosos ou teorias conspiratórias (...) O aspecto negativo de toda essa "democracia", que Robert Samuelson, do Washington Post, descreveu como "a maior explosão de exibicionismo em massa na história humana", é o comprometimento do nosso discurso político. O jornalismo amador banaliza e corrompe o debate sério. Ele é o maior pesadelo dos teóricos políticos através de eras, de Platão a Aristótoles e Edmund Burke e Hannah Arendt - a degeneração da democracia sob a ditadura das massas e do boato".
(Andrew Keen, O Culto do Amador - como blogs, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores)

ODE AO GATO


Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundissimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
díscipulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extrávios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos tem números de ouro.

(Navegaciones y Regresos, 1959)
Pablo Neruda

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

BRILHO, SEDUÇÃO E MISTÉRIO: TRÊS MULHERES


"O Movimento Antropofágico resultou
de um quadro [... uma] figura monstruosa
de pés colossais, pesadamente apoiados
sobre a terra [...] Perante esse quadro,
a que deram o nome de "Abaporu" (antropófago), resolveram
criar um movimento artístico e literário radicado na terra brasileira"

Tarsila do Amaral (1886-1973)



No fundo, o universo
o mar infinito,
o céu infinito,
o espírito infinito.
Neblinados em tristeza e medo
Surgem silêncios entre os rochedos.
Chaminés e cargueiros gritando no mar
E a garganta do homem em gemidos no ar.
Adalgisa Nery (1905-1980)



"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.


Nunca se sabe qual defeito sustenta nosso edifício inteiro"


Clarice Lispector (1920-1977)



SÓ PARA QUEM TEM MAIS DE 40...



Gene Barry (1919-2009), mais conhecido como BAT MASTERSON

A CONSOLIDAÇÃO DA DEMOCRACIA CHILENA


Pela primeira vez desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet, em 1990, a direita deve voltar ao poder no Chile, desta vez pela via democrática. Apesar da popularidade recorde da presidente socialista Michelle Bachelet (80%), o empresário Sebastián Piñera, de centro-direita, lidera as intenções de voto. Essa aparente contradição é a expressão de uma espécie de "fadiga de material" de duas décadas consecutivas de poder da Concertación, a coalizão de centro-esquerda que uniu adversários históricos (Democracia Cristã e Socialistas) para superar o traumático período ditatorial e reconstruir a democracia no país. Sintoma dessa fadiga é o fato de o candidato governista ser o ex-presidente Eduardo Frei, uma figura apática e sem nenhum carisma.

Se a eleição de Piñera se confirmar, será a consolidação da democracia no Chile: depois de acabar com o "entulho autoritário" da era Pinochet - como os senadores biônicos e a impossibilidade de o presidente da República mexer nos comandos militares -, a Concertación estará consagrando o princípio democrático de alternância no poder.

E Piñera não é um neopinochetista: em 1988, quando a ditadura achou que poderia se consolidar através de um plebiscito, ele foi uma das vozes da direita a lutar pelo "não" a mais um "mandato" para Pinochet. Na campanha atual, o empresário-político conseguiu inclusive irritar os setores mais reacionários da coalizão que o apoia ao incluir na sua agenda temas comportamentais caros à esquerda, mas que ainda são tabu num país conservador como o Chile - entre eles o direito da união civil homossexual e a pílula do dia seguinte.
Piñera também está conquistando o apoio da classe média baixa, um setor emergente que se sente marginalizado pelo governo da Concertación. Além disso, sua imagem de empresário bem-sucedido e empreendedor parece ter colado nesse setor da sociedade chilena.

Uma incógnita do provável futuro presidente são as relações entre negócios e política. Empresário mais rico do Chile - ele é proprietário da LAN-Chile -, Piñera até agora deu poucos sinais de que pretende separar suas atividades empresariais dos negócios do Estado.
Se isso ocorrer, o conflito de interesses será será inevitável. Teremos um Berlusconi andino?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O HORROR, O HORROR


"Profeta, ou o que quer que sejas!

Ave ou demônio que negrejas!

Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno

Onde reside o mal eterno.

Ou simplesmente náufrago escapado

Venhas do temporal que te há lançado

Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo

Tem os teus lares triunfais,

Dize-me: "existe acaso um bálsamo no mundo?"

E o corvo disse: "Nunca mais"

(Edgar Allan Poe, O Corvo, tradução de Machado de Assis)